Studies and Reflections on the Joy of Living
Estudos e Reflexões sobre a Alegria de Viver
Studier och reflektioner om livets glädje
Etudes et réflexions sur la Joie de Vivre
Transmutalism
terça-feira, 30 de outubro de 2018
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Páginas Transmutalistas
O Metarrealismo é
o esboço teórico que precedeu o Transmutalismo.
Tendo sido concebido em 1976, surgiu a público pela primeira vez em Outubro
de 1989 num programa da Rádio Televisão Portuguesa explanado pelo seu
criador. O Metarrealismo surgiu essencialmente como uma
metodologia de pesquisa. "Uma pesquisa dos níveis mais elevados da
consciência e do seu modo de percepcionar o universo". Ao conjunto desses
níveis de consciência ainda muito pouco explorados o autor designava de "Metaconsciência".
Um dos exemplos considerados era o estado de
Meditação Transcendental.
Metarrealismo significa, etimologicamente, para além da realidade. Assim,
contrariamente à psicologia das profundezas de Freud que explorava os
"abismos" da mente como o inconsciente e o irracional, o Metarrealismo
dedicar-se-ia a explorar os outros extremos da mente que denominava de
"Altitudes da Consciência".
A actividade artística produzida em estados elevados de consciência foi um
dos campos iniciais de experimentação do Metarrealismo que pretendia ser
assim, também, uma corrente artística distinta fundamentada numa base
filosófica própria. Derivava-se daqui também a necessidade do
estabelecimento de uma área da psicologia direccionada para o estudo de
estados de ascese e
de níveis elevados de consciência.
Na matemática, a Análise
Complexa, que engloba entidades ditas imaginárias para poder, de forma
consistente, explicar fenómenos da existência (através do corpo dos Números
Complexos constituídos
por uma parte real e uma parte
imaginária, "a+bi"), parecia estar em perfeita concordância com a
perspectiva metarrealista.
Na Física, os últimos avanços da Mecânica
Quântica revolucionando
a anterior visão rígida e lógica do universo e demonstrando que nós, os
observadores, deformamos os acontecimentos no universo ao nosso redor
coincidiram com as hipóteses metarrealistas de que as características e o
grau dessas deformações estão relacionadas com o nível (ou "camada") do
estado de consciência em que se encontra o observador.
"A realidade perde a sua rigidez e torna-se flexível, perde as suas
fronteiras e unifica-se num todo. Existe um pequeno universo ao redor do
ponto de consciência do executor da obra, depende dele." in 'Metarrealismo
como Expressão Artística', 1991.
Toda a Mentalidade e Pensamento Quotidiano assentam sobre
axiomas.
Os axiomas são tomados como as verdades básicas ou
fundamentais a partir das quais toda a estrutura do pensamento é construída.
Essa estrutura de pensamento determina a forma como
interpretamos a Realidade e o modo como lidamos com a mesma.
Porém, os axiomas são apenas proposições aceites como
verdades já que não podem ser demonstrados como tal.
Um dos axiomas básicos é o Princípio da Identidade que diz:
“Uma coisa é igual a si própria, ou A = A”.
Eu suponho que este axioma (como outros) está incompleto, o
que originou toda uma matemática e lógica incompletas e um resultante sistema de
pensamento deficiente.
Como consequência ficamos privados da possibilidade de
domar a Realidade por não possuirmos uma instrumentação mental completa.
Assim, para completar o Princípio da Identidade, e apesar de
aparentemente ilógico, enunciei o Axioma 1 do Transmutalismo como:
“Uma coisa é igual e diferente de si própria, ou A = A
Ù
A ≠ A”.
Deste axioma resulta o
Conceito Transmutalista de que qualquer entidade é, afinal, uma Nuvem de
Possibilidades contendo um número infinito de entidades diferentes:
Assim, uma entidade é o
núcleo denso de uma nuvem de possibilidades que engloba em si também todas as
entidades alternativas, isto é, tudo aquilo que essa entidade não é!
Este é o mecanismo que
permitirá não apenas a Transmorfose mas também Transmutação
definitiva do ser.
………………………………………………………….…………...….
Enquanto se dirigiam para o Instituto de Estudos Quânticos, Íris contemplou
Atlan, ali ao seu lado, e recordou-se das estranhas circunstâncias em que o
conhecera.
Fora em Montserrat, nas Filipinas, durante a violenta erupção daquele
feroz vulcão…
Como mais tarde veio a saber, Atlan aventurava-se frequentemente em
locais muito além dos seguros. E fora ali que o vira pela primeira vez mesmo na
margem do rio de lava fervente que o começara a cercar…
Ele não se apercebera de que ela, da outra margem, o observara... tão
secretamente quanto fascinada.
……………………………………...…….…….……………………….
Ø
TRANSMORPHOSYS
E, quase sem ter dado por isso, ali
se encontrava ele
naquela terrível situação: agachado na margem,
enfrente ao rio de lama fervente.
Estava muito calor e a lava principiava a rodeá-lo.
Precisava urgentemente de atravessar para a outra margem.
Ele possuía dois braços e duas pernas –
– nada que lhe fosse útil naquela situação!
Precisaria de voar sobre a lava,
para lá chegar.
O calor era insuportável.
O magma ardente incendiava as ervas
próximas.
Ele saltou para cima do pequeno
rochedo.
Mesmo a tempo, porque agora, a lava
rodeava-o.
Ameaçava engolir tudo.
E ele estava ali, aprisionado naquele
corpo.
No seu corpo.
Sem poder alcançar a outra margem.
A pele ardia-lhe.
Anichou-se na pequena rocha.
A lava subia.
O ar quente queimava-lhe as narinas e os pulmões.
Se pudesse libertar-se dali...
deixaria tudo, até o seu próprio corpo!
Era o fim.
Porque o magma já rasava os seus pés.
E ele estava ali, no seu último reduto.
Se pudesse desfazer os limites do seu corpo...
...voava dali!
Aninhou-se mais ainda, desesperado.
Iria ser engolido...
...Iria ser engolido...
“Pois então que fosse!...”,
pensou ele, já subitamente
Indiferente*
a tudo!
E foi quando aquilo aconteceu:
Eu não sei explicar:
algo nele rasgou limites,
estourou com a rigidez da sua forma.
Ele tornou-se em nada,
ou em tudo.
E o que vi foi ele diluir-se,
tornar-se uma espécie de mancha de mata-borrão,
e voar por cima da lava ardente.
(Se é que se poderia chamar àquilo
“voar”!...)
Íris.
A vida é o conjunto das
forças que resistem à morte.
Xavier
Bichat
Quando interrompemos o fluxo
da descrição da nossa
própria pessoa,
libertamo-nos do encantamento do ego que quer fazer-nos acreditar que representa
a única realidade. Nesse momento podemos reconhecer a nossa verdadeira
natureza de campos de energia, livre e fluida. A partir de então, podemos
assumir a tarefa de nos reinventarmos de um modo intencional e
voluntário, capaz de responder de novas maneiras a novas
situações surgidas a qualquer instante.
“Os ensinamentos de Carlos
Castañeda”, Victor Sanchez
………………………………………………………….…………...….
“Será que foi uma alucinação?”, pensou Íris ainda muito pouco segura do que
acabara de observar, “Eu vi mesmo aquilo?!?”. E não conseguia impedir-se de
ir avançando em direcção ao monte de arbustos por trás dos quais caíra
aquele ser que supostamente se diluira para esvoaçar por cima do rio de lava
fervente. Tinha de se certificar do que vira.
Mas súbitamente pensou: “Será perigoso?...”, e assim, foi de forma
mais cautelosa que prosseguiu a sua aproximação para não perturbar o que
quer que ali estivesse. “Ver sem ser vista”, sim, isso seria o mais
prudente. Sentia cada vez mais receio do que tudo aquilo pudesse significar.
Mas a curiosidade era mais forte…
E então viu-o. Através da folhagem apercebeu-se que era o mesmo
homem jovem que estivera, ainda há momentos, encurralado do outro lado do
rio de fogo provocado pela erupção do vulcão. Ele ainda não se apercebera da
presença dela e ela esquadrinhava-o de alto a baixo procurando descobrir-lhe
qualquer característica invulgar que justificasse o insólito fenómeno que
presenciara. Era um rapaz alto, de longos cabelos loiros e vestia-se de uma
forma que continha algo de incomum… como se tivesse um-não-sei-o-quê de
época medieval, de cavaleiro, ou algo assim. Ele encontrava-se soerguido e
de perfil para Íris, como procurando recompor-se de qualquer coisa. “Talvez
da experiência por que passara!”, pensou Íris.
Foi então que ele virou repentinamente a cabeça na sua direcção e,
através da folhagem, os olhos de ambos se cruzaram.
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……………………………………………...…….………….………….
Aqueles olhos vibrantes fitavam-no com uma intensidade quase feroz,
pensou Atlan quando se apercebeu daquilo que inicialmente lhe pareceram ser
duas brasas que cintilavam através da folhagem. Fora a sensação de estar a
ser observado e analisado que o fizera voltar-se naquela direcção. E ali
estava alguém por trás daquela moita que não tirava os olhos de si. Deveria
ser uma mulher porque lhe vislumbrava, por entre a folhagem, aquilo que
pareciam ser uns longos cabelos cor-de-fogo.
Ficaram assim imóveis, observando-se, medindo-se, algo receosos,
algo desconfiados durante o que parecia estar a tornar-se uma eternidade.
O que estariam a sentir? Ainda não se conheciam… mas parecia um
daqueles momentos ainda mais mágicos do que a “magia” por que tinham acabado
de passar. Talvez ainda não o soubessem definir mas era como se sentissem
que algo no íntimo deles estava a retorcer-se e ao mesmo tempo a tocar-se,
por fim, após uma longa espera…
…………………………………………….…………....……………….
…………………………………………….……...……….…………….
Quando Íris saiu da folhagem e os dois se viram frente a frente
sentiu que ele estava tão estupefacto quanto ela com tudo aquilo.
Pareceu-lhe que ele não tinha a certeza de que ela o tivesse ou não
observado. De qualquer modo, como a lava não parava de se aproximar e não
havia tempo para conversar, ele ofereceu-se para a conduzir sem demora a um
porto seguro, e ela aceitou. Urgia abandonar a ilha.
Só muito mais tarde, perante a insistência de Íris, Atlan lhe falou
sobre o que quer que pudesse ter ocorrido com ele próprio, ali, durante a
violenta erupção do vulcão.
Ele introduziu a mão na sua pequena mochila e retirou de lá um
livro espesso.
– Esta é uma edição do “Livro dos Mortos” do Antigo Egipto. Talvez
o livro mais antigo da humanidade – explicou. Possivelmente escrito há cerca
de 7.000 anos!... Mas uma tradução mais exacta do seu título seria “Livro da
Saída para a Luz de o Dia”… quanto a mim, prefiro chamá-lo de “Livro das
Transmorfoses”...
– “Transmorfoses”? – interrompeu Íris.
– Sim, é como designo as mutações temporárias da forma de um ser.
Este livro leva a crer que esse era um tema da maior importância para os
antigos egípcios. Repara, por exemplo, neste capítulo...
Abriu o livro numa página seleccionada e leu:
…………………………………………….…………….………………
Capítulo LXXXVI
do Livro dos Mortos
Para ser transformado em Andorinha
Eu sou
uma andorinha, uma andorinha…
Eu sou também a deusa Escorpião, filha de Rá…
Oh! deuses quão doce e agradável me é vosso perfume que arde e sobe
para o horizonte!
Vós que habitais a Cidade Celeste!
Estendei-me vossas mãos protectoras para que eu possa, sem perigo,
residir no Lago de Fogo!...
Pronuncio as palavras de Poder, digo: “Olhai bem, Eu sou Horus, eu me
apodero da Barca Celeste e torno a pôr em seu trono Osíris, meu Pai.
…do ‘Livro das TransMorfoses’
...também chamado ‘Livro da
Saída para a Luz de o Dia’
...conhecido como ‘Livro dos
Mortos do Antigo Egipto’
Reflexão 1:
A Transmutação... será
possível?
“Vagas de energia quântica
traduzem-se em estruturas complexas quando se toma em consideração a famosa
equação de Einstein E=mc2. Esta fórmula mostra que a energia e
massa são equivalentes, ou que a energia pode criar a matéria. Partículas
materiais que são criadas a partir das flutuações de energia quântica, sem
qualquer introdução exterior de energia. O princípio de incerteza de
Heisenberg opera como um banco de energia. A energia pode ser emprestada
durante uma curta duração, desde o momento que seja paga prontamente.”
“Ao ir buscar energia
emprestada, um fotão pode transformar-se temporariamente num par
electrão-positrão, ou num par protão-antiprotão. Foram feitas experiências
para os apanhar em flagrante. Uma vez mais, um fotão ‘puro’ nunca pôde ser
destilado a partir desta complexa rede de transmutações.”
Paul Davies
“Quem não se sentir
chocado com a Teoria Quântica é porque a não compreendeu.”
Niels Bohr
…………………………………………………..…………...…………
Mais tarde, Atlan contou a Íris que uma das alavancas que lhe
permitiu escapar com vida daquela aflitiva situação em que se encontrara,
rodeado pela lava fervente, fora um invulgar *estado de indiferença* que
dele se apoderara quando esgotara todas as outras possibilidades de fuga...
Mas Íris
queria saber mais, muito mais. Subitamente sentia-se acometida por uma
incontrolável curiosidade em conhecer Atlan e tudo o que o levara até ali,
até àquela estranha façanha. Queria saber as suas motivações e os seus
objectivos profundos porque principiava a pressentir que eles se
relacionavam de algum modo com os seus próprios.
Atlan
confidenciou-lhe então que a “transmutação” representava o sonho e o
trabalho de toda uma vida, de toda a sua vida...
Íris
pediu-lhe para a esclarecer melhor sobre o que é que ele queria dizer com
essa “transmutação”.
– Desde a
minha mais remota infância que sinto haver em nós uma enorme verdade
escondida – respondeu – uma verdade capaz de transformar tudo. Capaz de
transformar completamente a nossa relação com o que nos rodeia e... até de
nos transformar a nós próprios!
– Capaz de
nos transformar a nós próprios?
– Sim, capaz
de nos transformar a nós, meros seres humanos, em seres semelhantes a
deuses!... – disse ele enquanto estendia os braços... muito abertos!
E Íris ficou
ali, abismada com tão estranha revelação a olhar para aquele jovem homem e a
pensar que ele dedicara toda a sua vida a perseguir um sonho tão inédito
quanto aparentemente impossível: o de se transmutar num ser ilimitado!...
Enquanto
contemplava o seu olhar profundo parecia-lhe estar a viver uma espécie de
sonho acordada. Ela própria vinha investigando o tema da transmutação há
vários anos, embora de uma perspectiva mais impessoal, mais teórica, mais
relacionada com a Física e a transmutação dos elementos... e, mesmo assim,
muitas vezes se interrogava se não estaria a perseguir uma quimera e a
perder o seu tempo numa pesquisa impossível!... Porém, pela primeira vez na
sua vida, tinha acabado de encontrar alguém que parecia acreditar mais ainda
naquele sonho do que ela.
Quis saber o
que ele tinha já descoberto, até onde tinha ele chegado, quais tinham sido
os seus passos.
Atlan
começou então a contar-lhe que a sua longa investigação se iniciara há muito
tempo atrás, ainda na sua infância, com uma coisa a que ele gostava de
chamar “a teoria do puzzle”...
………………………………………………………………………….
A
Teoria
do Puzzle...
Atlan
sempre fora uma criança muito diferente das outras. Possuía uma forma tão
invulgar, tão clara e tão estranhamente pura de ver as coisas que parecia
deixar adivinhar em si uma qualquer natureza alienígena... como se viesse,
não daqui, da Terra, mas de um outro mundo distante.
A sua
vida sempre fora pautada por retumbantes brilhantismos nas áreas mais
diversas, assim como por desencantos e totais períodos de desinteresse.
Nasceu morto, vítima de um parto difícil e para além da época.
Quando, finalmente, abriu os olhos para o mundo, achou que ele deveria ter
mais cor, mais beleza, mais amor e, sobretudo... deveria ser mais delicado.
Foi essa falta de delicadeza e sensibilidade com que deparou que o levou a
esbarrar, várias vezes, com os que o rodeavam. Sentia-se como uma lisa placa
de cristal, coberta apenas por uma fina camada de cera, que aterrava numa
terra de arestas pontiagudas e escarpadas que feriam a sua sensível
superfície... rasgando nela rudes e violentos sulcos.
O
mundo que percepcionava labutava já, frenética e atarefadamente, numa
algazarra de agressividade e truques de competição que, aos olhos do pequeno
Atlan, era egocêntrica e grotesca.
No
entanto, havia muitas outras coisas, no mundo, que o fascinavam e a sua
maior paixão era descobrir, descortinar “o que era tudo isto” no qual se
encontrava inserido.
Foi
assim que, aos seis anos, quase dois antes da sua entrada para a escola,
esboçou a sua primeira teoria: a “teoria do puzzle”...
...havia no mundo, na vida, na existência em geral, uma grande quantidade e
diversidade de “peças” soltas (como num “puzzle” ou “quebra-cabeças”) —
ainda que fosse, de facto, uma quantidade bem pequena quando comparada com a
imensidão da “imagem” total, constituída por todas as “peças” da existência.
Num
típico jogo de puzzle, reconstituir a imagem global era uma tarefa
simples: bastava, para isso, procurar e encaixar as peças em falta.
Mas o
mesmo não se passava com a “Imagem” do mundo, com a “imagem” da Vida e da
Existência: havia muitas peças que faltavam e que não era possível encontrar
— porque não estavam ainda disponíveis pelo conhecimento humano.
Eram
questões fundamentais cujas respostas ninguém parecia conhecer. E como
encontraria ele essas “peças”?... essas “peças” da “imagem” global da
existência — do “o que é a existência?” — que o pequeno Atlan procurava
reconstruir, como se de um puzzle gigantesco se tratasse...
Sim.
E como?... Como descobrir, por si próprio, aquilo que a ciência ignorava
ainda?
Seria
possível?...
A
ideia reveladora surgiu-lhe como que por mero acaso.
Foi
durante uma desses longos momentos que ocorriam quando sua mãe encontrava
uma amiga na rua e conversava sobre coisas que nada diziam a Atlan. Ainda
por cima, ele ficava ali preso, pela mão da mãe, sem poder saltar e brincar
nas suas loucas cavalgadas imaginárias.
O seu
espírito irrequieto era por demais activo para ficar parado, imóvel, por
tanto tempo. E, já que o seu corpo não podia mover-se, restava-lhe mover o
seu espírito.
Foi
assim que começou a entreter-se, ao olhar para o molho de chaves que sua mãe
agitava enquanto conversava:
“Como
será uma fechadura por dentro?”
“Qual
será o tipo de mecanismo que permite, às chaves, abrir e cerrar as
fechaduras das portas?”, foram os seus primeiros pensamentos.
Talvez que se Atlan tivesse, naquele momento, os movimentos livres, se
aventurasse a desmanchar uma fechadura e a ver qual seria o seu
mecanismo interior.
Mas
encontrava-se restrito à prisão da imobilidade... e restava-lhe apenas o seu
pensamento para descobri-lo.
O que
o terá levado a enveredar por “caminhos” menos experimentalistas...
...Sentiu a sedução do processo de descoberta realizada sem ver o
interior do objecto que pretendia conhecer...
“Era
muito interessante”, pensou, “e era um óptimo entretenimento para se
distrair durante as horas de interminável tédio.
A
fechadura, que era tapada, oculta — e que nem sequer estava ali presente —
era como um espécie de “caixa negra” para Atlan, que desejava
“adivinhar-lhe”, ou “deduzir-lhe” o seu conteúdo.
Restava-lhe, assim, tentar descobrir como seria o mecanismo no interior
dessa “caixa negra” através, apenas, das suas relações com o meio, isto é,
através das interacções da “caixa” com a chave.
Começou por olhar atentamente para a forma das chaves e para todas as suas
ranhuras...
E foi
assim que esboçou toda uma série de processos mentais baseados no que, ele
não sabia ainda, se designaria por indução, lógica, dedução, intuição,
extrapolação...
Atlan
ficou fascinado com a sua “teoria da caixa negra” porque se apercebeu,
imediatamente, que ela o poderia ajudar imenso... A descobrir quais e como
eram essas “peças” em falta: essas “peças” ainda desconhecidas pelo homem.
Esses “fragmentos de imagem” do seu enorme “brinquedo”: o imenso “puzzle” da
“imagem” do universo.
Portanto, as suas teorias da “caixa negra” e do “puzzle” completavam-se!...
Curiosamente, poucos anos mais tarde, um grupo de cientistas
norte-americanos viria a elaborar uma teoria cibernética muito semelhante à
sua: à qual chamaram — também por curiosa coincidência — “the black box
theory”, a teoria da caixa negra. Que constituiu um dos marcos mais
significativos da ciência: através de diversas operações mentais e da
análise das interacções de um objecto cujo interior é desconhecido (“black
box”), algoritmizar o seu funcionalismo, para chegar a inferir, a descobrir,
como é o seu mecanismo interior – sempre sem o ver.
Mas
a “teoria do puzzle” de Atlan prosseguia, mesmo durante as suas brincadeiras
e tropelias: a sua actividade física sempre fora, e continuou a ser, muito
intensa.
E a
sua “teoria da caixa negra” era apenas um auxiliar — ainda que poderoso —
para a descoberta “disto ao nosso redor” pelo qual nos encontramos todos
envolvidos, e “daquilo que somos” afinal.
Mas, para Atlan, a palavra “descoberta” não era a sua preferida. Preferia a
palavra “integração”... Integração das peças do seu puzzle gigantesco.
Quanto mais gigantesco, tanto mais o desafiava e fascinava...
E
tudo lhe servia para tentar obter novas “peças” para o seu “puzzle”: todos
os conhecimentos, analogias e inferências fornecidas pelas mais diversas
ocorrências do seu quotidiano infantil.
Mas
apercebeu-se, muito rapidamente, de que nem todos os conhecimentos
“apanhados do chão”, ou mesmo os deduzidos, poderiam ser considerados
“seguros”, isto é, fiáveis e certos.
Havia muitas coisas que pareciam, mas não eram...
O
que fazer com esses “conhecimentos”, com essas “peças” dúbias?
Não
as poderia, simplesmente, jogar fora.
Quem sabe, até viessem a ser futuramente confirmados. Ou, apesar de
aparentarem ser de todo irreais, talvez tivessem alguma coisa de
aproveitável. Ou, mesmo ainda que completamente falsos, talvez deles se
pudessem inferir “coisas” verdadeiras...
“Se
aquilo é falso, então é porque é falso em relação a alguma coisa
verdadeira”, reflectiu Atlan.
E
seria, portanto, mais fácil descobrir o que seria verdadeiro — porque pelo
menos uma coisa, a falsidade, já estava eliminada...
Mas, para suportar toda essa grande (talvez mesmo maioria) de conhecimentos
dúbios ou “inseguros” no seu “puzzle” mental, tornava-se necessário criar um
grande ‘espaço’ na sua mente.
Como o seu ‘espaço’ ou ‘área de memória’ não lhe parecia ser infinito,
começou então por menosprezar a memorização de uma grande quantidade de
pormenores que não lhe pareciam relevantes e significativos, tais como as
longas e aborrecidas conversas dos seus familiares e amigos, os números em
geral (dos telefones, das casas, das datas dos acontecimentos, dos
aniversários), e os nomes de pessoas.
Só
dava primazia à memorização — ou melhor, à compreensão — de conceitos, de
ideias, descobertas e teorias...
...eram esses os seus “cromos” favoritos.
E
para manter em memória também todos os ‘conhecimentos dúbios’ criou um
sistema mental que chamou de “gavetas abertas”: tudo aquilo de que não
estivesse seguro ou certo, deixava numa “gaveta” aberta da sua enorme
“estante” conceptual de memória.
E
foi assim que, sem se aperceber do exagero, desenvolveu uma memória quase
inteiramente conceptual...
A
sua memória conceptual conduzia-o a um total desinteresse em “decorar”
coisas: por exemplo datas e nomes de reis. Eram ‘pormenores’ que para Atlan
nada significavam. O que, para ele, era realmente importante, era
compreender as coisas e o ‘como’ e o ‘porquê’ dessas ocorrências. Sem isso,
pouco conseguia memorizar.
Apesar disso, mantinha um rendimento geral semelhante ao dos outros alunos.
Embora, é claro, não sabia muito bem o que é que estava a fazer ali, na
escola, onde as pessoas pareciam papagaios, constantemente a repetir, a
repetir... coisas que, para Atlan, na sua maior parte, não faziam qualquer
sentido...
...como o “A, E, I, O, U”. Porque é que era obrigado a decorar o “a, e, i,
o, u”?... não conseguia compreender o que é que aquilo poderia significar!
E
como não compreendia, não fixava.
O
que Atlan não sabia ainda é que não há nada para compreender no “A, E, I, O,
U”. Porque o “a, e, i, o, u” não significa coisa alguma!...
...e se significa — o que eu penso que sim; que na verdade até se poderiam
escrever livros inteiros apenas sobre o “a, e, i, o, u” (mas isso virá, mais
tarde, a ser o trabalho de pesquisa de Elya Lang e da Semântica Quântica do
Som...) — ...e se significa, dizia eu, então, seguramente, não seria algo
que os professores lhe pudessem explicar... porque eles próprios também não
sabiam, nem nunca tal lhes ocorrera!
Atlan gostava muito de folia e de brincadeira e sempre sentira desprezo pelo
Tempo, o qual considerava como sendo apenas mais uma das prisões que
interferia com a sua ideia de liberdade. O que o levava a chegar,
geralmente, um pouco atrasado à sala de aula.
Isto fazia “ferver” de impaciência o seu professor que, já por natureza,
tinha sempre as duas faces bem afogueadas.
Atlan sempre o achara um ditador com ideias rígidas e intolerantes.
Atlan dedicava-se alegremente às “descobertas” das suas brincadeiras
favoritas: explorar velhas mansões e palacetes abandonados, observar o
enigmático deambular atarefado das formigas, e testar até onde iriam as suas
capacidades físicas ao saltar de muros muito altos...
Claro que a sua mãe que sempre se colocara ao lado das maiorias e das
pessoas com autoridade — como, de resto, o faz quase toda a gente —
acreditava mais no professor do que nas explicações confusas de Atlan.
E
passou a considerar que o seu filho talvez tivesse menos capacidade
intelectual que os outros — “...não tivera ele tão absurdas
dificuldades para aprender uma coisa tão simples como o «A, E,
I ,O, U»?”
E
foi assim que Atlan passou a ser alvo da primeira máquina de propaganda:
os bloqueios de infância, provocados pelas afirmações condicionadoras e
castrantes ditas pelos adultos às criancinhas tenras e psicologicamente tão
frágeis ainda...
Claro que ele não sabia ainda o que era a ‘propaganda’ (e será que
alguém sabe?) mas nem por isso deixou de ser afectado por ela. “Ela”, a
propaganda, apenas desempenhava o seu papel ao convencer Atlan de que ele
era um medíocre intelectual... muitas vezes através de pequenas
frases ditas aqui, ditas acolá...
E
os nossos pensamentos, aquilo em que acreditamos, tem realmente muita força
e é muito actuante, podendo mesmo alterar a realidade... e corremos o risco
de passarmos a ser aquilo que pensamos que somos: foi, aliás, a própria
ciência que veio confirmar esta “mecânica do pensamento”, através das
ilações que se tiram da teoria física da “mecânica quântica”...
—
Não te importes, Atlan — dizia-lhe a mãe talvez com a melhor das intenções —
as crianças pouco inteligentes, com menos capacidades, também podem
conseguir obter bons resultados. Quase tão bons como os dos ‘outros’. Basta
que se esforcem e estudem mais do que ‘eles’...
É
claro que, frases como essa tinham sempre uma afirmação dissimulada, mas
implícita: a de que Atlan era “burro”.
Ou
quase.
Isso, para Atlan, não deixou de ser uma surpresa. Mas se era essa a opinião
geral, talvez fosse verdade...
E
assim, com uma frase aqui, outra acolá, se foi cimentando em Atlan a
crença de que ele seria realmente medíocre.
Foi
desse modo que começou a sua primeira fase de “anos negros”...
“Bem, já que é assim”, pensou, “então prefiro dedicar-me cada vez mais às
coisas de que gosto — ainda que ninguém as pareça compreender — do que às
coisas da escola que, além de serem muito menos interessantes, me acusam de
ser burro...”
Mas
a escola era obrigatória e, ainda que Atlan a tenha frequentado com um quase
contínuo desinteresse, não reprovou nenhum ano. Fazia apenas por passar. E
passava: de forma tangencial e com fracas notas...
Outra das coisas que o incomodava na escola era a de os professores falarem
com ele sempre “naquela” linguagem ‘escolhida’ “para falar com crianças”.
Começou a aperceber-se que o mundo era um terrível complexo de “castas” e de
tratamentos desiguais... e cada vez detestava mais as fronteiras e
restrições impostas pelas idades... e pelo Tempo.
O
mundo era, afinal, também — para além daquilo que tinha de belo — um enorme
labirinto de vicissitudes humanas: de muitos tipos diferente de
“racismos”, de enganos, e de “tramóias”!
Mas, sobretudo, as pessoas afiguravam-se-lhe muito brutas, insensíveis e...
dormentes.
Dormentes... “ninguém” queria saber, ou se interessava pela paixão mais
íntima de Atlan: a de descobrir “o que é tudo isto!”
Parecia-lhe mesmo que todos estavam “nas tintas” para isso: o que queriam
era apenas a satisfação imediata dos seus prazeres... e o resto “que se
lixasse!”
Havia muitas coisas que escapavam à compreensão do pequeno Atlan;
principalmente aquelas ditas mais “humanas”, e que eram tão
diferentes da elegância e harmonia que observava na natureza...
...o enganar; o aproveitar-se de uma situação; a satisfação de “tramar”
alguém; o pensar-se só em si, desprezando o que possa acontecer aos outros;
a procura de qualquer prazer imediato, desprezando a continuidade... Sim,
porque Atlan ainda ignorava as palavras “egoísmo” e “falcatrua”:
E,
apesar de a sua “lógica natural” não alcançar a compreensão de algumas
dessas coisas, servia-lhe pelo menos (“que remédio!”) para criar mais
algumas dessas “gavetas abertas” do seu espaço mental conceptual. E um dia
viria a saber o alcance delas.
Foi
o caso, por exemplo, de algumas ocorrências que o surpreenderam:
Como aquela em que, enquanto se entretinha com alguns dos seus brinquedos
favoritos à porta de casa, tinha surgido um “miúdo” desconhecido que lhe
pediu para brincar com eles. Explicou a Atlan que era pobre e não tinha
brinquedos... Atlan entregara-lhos quase todos e ficou contente por ter mais
um novo amigo com quem brincar. Mas a brincadeira foi de curta duração.
Porque o menino — aliás, já bem maior que Atlan — enfiou todos os brinquedos
debaixo dos braços e fugiu. E Atlan nunca mais o viu!
...Ficou triste por esse menino ter trocado a amizade que Atlan tão
espontaneamente lhe entregara, por aqueles brinquedos. Tinha pensado que uma
amizade seria sempre muito melhor que brinquedos... e que os brinquedos
poderiam ser compartilhados.
Ou
como aquela outra ocorrência que presenciara quando os seus companheiros de
rua descobriram um grande quantidade de lindos bichinhos azuis e vermelhos
e, para surpresa de Atlan, desataram a pisá-los e a esmagá-los rindo como
possessos! Decididamente, para Atlan, aquilo não fazia qualquer sentido.
Sentiu-se um completo alienígena no meio deles! Ficou chocado com aquela
desapiedade e ausência de sensibilidade... de onde lhes viria aquela fonte
de prazer mórbido? O que é que os levaria a rirem-se tanto?
Ou
ainda outras situações que presenciava no seu dia-a-dia, como o apedrejar
dos cachorros à saída da escola...
...Havia coisas “humanas” mesmo muito estranhas...
...as próprias feras selvagens, as bestas, como lhes chamavam, não faziam
isso umas às outras, nem se expolinhavam em gargalhadas de prazer por fazer
o mal...
Para Atlan, afigurava-se-lhe muito mais fácil trabalhar na reconstrução do
seu gigantesco puzzle mental, e descobrir a estrutura da existência, do que
compreender a natureza humana. Não sabia mesmo por que ponta lhe pegar!...
restava-lhe apenas ir deixando atrás de si uma enorme quantidade de “gavetas
abertas”...
…………………………..…………………………...…………………
No regresso das Filipinas Íris contemplava pensativa as águas
distantes do oceano azul-turquesa...
Agora que ela conhecera uma parte importante da infância de Atlan
adivinhava que viria a compreendê-lo e sentia que aquele manto de estranheza
que o encobria, derivado da forma inédita como o conhecera, parecia estar a
desvanecer-se e a deixar transparecer um Atlan bem mais humano e com uma
sede de respostas, afinal, um tanto semelhante à sua.
Ela própria também nunca aceitara completamente esta nossa posição
colectiva de simples e frágeis seres mortais sujeitos às forças da natureza,
do tempo e da morte. No fundo, não sabia bem porquê, sempre tivera essa
estranha intuição de que nós, humanos, possuímos “mais qualquer coisa” lá
bem no nosso interior, enterrada ou perdida nas nossas profundezas; e que
“essa tal coisa” nos poderia potenciar até ao ponto de nos transformar, isto
é, de nos “transmutar” em seres capazes de dominar o Tempo e o Espaço...
...Sim, de algum modo ela sempre pressentira que existia em nós,
algures, a “essência adormecida dos deuses”... nos quais nos poderíamos a
nós próprios transmutar!
Talvez não passasse de um sonho louco...
Mas agora ela conhecera Atlan... que parecia ter um sonho
comparável ao seu!
Olhou para trás no tempo e reviu algumas das suas pesquisas e
apercebeu-se como elas estavam tão relacionadas com a grande busca de Atlan.
Também ela procurava uma nova forma de lidar com a realidade, capaz de
actuar sobre ela e de a alterar através da pura acção da nossa vontade e
consciência.
Recordou-se dos tempos passados no Centro Europeu de Pesquisa
Nuclear, o CERN, onde obtivera as suas primeiras experiências com
aceleradores de partículas atómicas. Ali conseguiam já transmutar-se algumas
porções ínfimas de matéria (até mesmo chumbo em ouro!) embora sem qualquer
interesse económico ou prático devido às enormes e dispendiosas quantidades
de energia necessárias ao processo...
……………………………………………...……..…………………….
APONTAMENTO #1:
“/.../ Em ordem a compreender
as leis destas
transmutações
e, se possível, tirar
proveito do seu conhecimento, o Homem começou por estudar a radiação cósmica
natural, fonte das partículas de alta energia originadas na nossa galáxia ou
alhures e construir depois aceleradores [de partículas] e pilhas atómicas.
Todavia, as quantidades de material tratado pelos aceleradores de alta
energia permanecem infinitesimais em relação, por exemplo, ao ciclo do
dióxido de carbono. Um moderno sincrotão precisaria de mais de dez mil
anos para tratar um grama de material protónico!
“Portanto, até
agora apenas se tem podido recorrer à química mais simples para produzir
moléculas à custa dos elementos tal como se nos apresentam, sem
possibilidade de neles encontrar a energia que permitiria
a transmutação
directa
do carbono em oxigénio,
a não ser que um fenómeno, presentemente desconhecido e de toda a aparência
improvável, tornasse possível a referida
transmutação a baixa
energia.”
Robert Gouiran,
Particles and Accelerators
…………………………………………..…………...…………………
Íris pensava que o seu “Princípio da Certeza” seria a alavanca
fundamental para conseguir realizar a
transmutação a baixa energia.
Sem
dúvida que muito admirava os fabulosos aceleradores de partículas. Eram
admiráveis obras da Física Nuclear e muito tinham contribuído para a
descoberta da constituição da matéria.
Mas não
era esse, o tipo de abordagem transmutacional que procurava.
As
partículas constituintes dos átomos mantêm-se coesas por poderosas forças —
principalmente pela força electromagnética, pela força nuclear forte e pela
força nuclear fraca. Para provocar um novo arranjo nessas partículas era
necessário aplicar-lhes uma outra força que contrariasse essas forças de
coesão. O que exigiria um dispêndio enorme de energia...
Não lhe
parecia nada elegante, para os fins em vista.
Era o que
se passava nos aceleradores de partículas: para se obter a transmutação de
apenas pequenas quantidades de átomos de um dado elemento em átomos de outro
elemento diferente: era utilizado o processo de os bombardear com partículas
super-aceleradas a muito altas energias.
Este
método duro, de bombardear umas partículas com outras, aceleradas por forças
gigantescas, para perfurarem as suas barreiras de forças electromagnéticas e
nucleares, resultava num consumo imenso de energia. Além de exigir meios
tecnológicos muito sofisticados.
Deveria
haver uma forma mais essencial, mais vinda de dentro, para o fazer.
Mexer no
cerne da questão, na ‘raiz’ do problema, para lhe alterar os ‘ramos’. Em vez
de os procurar ‘vergar’ à força.
E claro
que, supunha Íris, a criação de algo como o que designava de
‘MetaConsciência’ representaria, também, um factor vital na
transmutação
directa...
…era aí que a sua linha de pesquisa colidia com a de Atlan.
Mas Atlan queria, fundamentalmente e para além de tudo isso,
transmutar-se a ele próprio!...
……………………………………………..………...………………….
As III Fases
As III fases
da descontinuidade
I
Fase
II Fase
III Fase
Nascente
Os Negros
Anos Luz
Poente
A DERIVAÇÂO
O OBLÌVIO
A ReIntegração
A perda da Memória
a Individualização A recuperação da Memória
A
Fragmentação
A viva morte A Rá Nascença
...A
Transmutação
As
III fases da luz
AS III FASES A Grande Viagem
AS III FASES A Grande Viagem
“Esta é a grande
viagem”, disse Atlan para Althi, “se não tens coragem, desiste. Mas
lembra-te, ao fazê-lo estarás também a desistir da verdadeira Vida, da vida
Plena. Da qual, ‘esta’ não é mais que uma mera sombra cinzenta... como
sombras serão o que restará da tua fascinante beleza muito em breve...
nesta vida.”
Nu,
ou Noum
– o Caos Primordial.
Onde entropia e anti-entropia (ou neguentropia) existiam ainda de forma
indefinida e misturadas num todo amorfo.
Ptah,
Ptah Sokaris, ou Ptah-Socar-Osíris
– um deus muito antigo, talvez o primeiro.
Criou, ou recriou,
um universo menos entrópico e mais propício à vida. Fê-lo com um grande e
estrondoso >Ptah!<, talvez aquilo a que chamamos hoje ‘Big-bang’. (Na
escrita hieroglífica o seu nome é representado pelo símbolo de uma porta,
geralmente associada ao som >ptah<).
Imprimiu assim (ou
vincou) uma tendência neguentrópica ao Caos. E o Caos, que persistiu e
permanece ainda subjacente a tudo, engloba agora dois movimentos mais
definidos: Entropia e Neguentropia. A entropia é a tendência de fundo para a
desordem e para estados de energia mínima. Por outro lado, reforçada por
Ptah, a neguentropia contraria a entropia com uma tendência para a ordem,
para a complexidade, para a vida, e para estados de energia máxima.
O Caos
continua a ser fundamental à existência ao fornecer-lhe um ‘motor
aleatório’. Tão necessário ao “baralhar” incessante do mundo quântico que
produz a variabilidade e a diversidade.
Motivado pelo
objectivo de se multiplicar em muitos seres semelhantes a si, Ptah
derivou-se em vários fragmentos ou ‘quantos’ e desencadeou assim as III
Fases da descontinuidade: Derivação, Fragmentação e Reintegração.
Ou:
1)Perda da memória
2)Oblívio e Individualização
e
3)Recuperação da Memória e Reintegração.
O objectivo final será a
replicação em múltiplas divindades, semelhantes à inicial, e a sua comunhão
consciente.
São as duas grandes
viagens da Barca Celeste de Het-Kah-Ptah, “a Terra do Corpo subtil de
Ptah”... o Egipto:
A ‘MAN-dj-it’
— é a viagem da
Barca Celeste desde a aurora (Nascente) até ao meio-dia — é a formação da
huMANidade.
A ‘Oua-dj-it’
— o percurso da Barca
Celeste do meio-dia até ao Poente — o poente dos homens é o reNascer dos
deuses...
Eus
— entidade ou Ser
Colectivo resultante da primeira Derivação e composta por muitos eu’s.
D-Eu-s,
Netter-u,
El-ohim...
“Deus” é uma
palavra que
não existe no singular — significa uma entidade múltipla. “Elohim” /
“Netteru” / “Dios” / “Theos” / “Devas” /... / “Deus” = deuses.
Rá,
Tum, Aton, Antares, Sírius, Orion, Indra
— divindades solares,
fontes de energia e geradores de mundos.
Os Seres Alados
e os Feros
— “An-Dj-El”,
an-g-el’s, anjos — criações de El (deus).
“Pher”, Fero, feros
— fogo, ardor, luz ardente, energia feroz, fulgor — seres de elevada
energia ou de energia fulgorante.
El, Osíris,
Yhvh, Al, T-e-T
— deus que se
fragmentou, disseminou (analogamente ao “scattering” das partículas
subatómicas) e misturou com a espécie para fazer emergir da humanidade um
deus ou uma multiplicidade de outros deuses semelhantes a ele próprio...
É o grande processo
da reprodução dos deuses.
Mas, entretanto,
Osíris jaz com os seus membros arrancados, fragmentados, disseminados e
dispersos pelos mais longínquos ‘cantos’ do universo.
E engendra a sua
própria ressurreição.
A ressurreição do
deus mártir que representará o restabelecimento e o ressurgir do ‘ser
múltiplo’ em toda a sua primeira integridade...
Porém, enquanto isso,
Osíris, ligado à morte, tolhido nas suas faixas, é o Mundo, atado,
petrificado, cristalizado e materializado, privado de liberdade e submetido
às leis da natureza e aos ritmos implacáveis do destino...
‘Nu’, o Caos, se
bem que possuindo já o ‘Imprint’ inteligente de Ptah, volta a dominar, a ser
preponderante. E há até quem suspeite que Seth, o ‘adversário’ de Osíris, o
‘falso Deus’, ocupou o trono de Ptah e reina em vez dele, fazendo-se passar
pelo verdadeiro Deus. Convencendo tudo e todos de que é o deus único — mas
continuando, afinal, a esmagar tudo e todos com a entropia, a morte e a
impossibilidade... — entretém o Homem com ardis e jogos sem sentido, ou com
filosofias. Vedando-lhe o legítimo direito a ser um deus e acusando-o,
através das religiões, do desejo de heresia ao aspirar a tal estado.
O seu objectivo é
prolongar o mais possível o seu reinado... mantendo o Homem dormente e,
impedindo assim, “Ptah” de emergir através dele.
“Ptah” — o único
tipo de ser(es) capaz(es) de o destronar.
E os seres humanos
reduzem-se, assim, a procurar satisfazer os seus sentidos, numa vida sem
sentido...
O apogeu do sol do
homem, no meio-dia, é a escuridão dos deuses.
É o início do longo
reinado da escuridão.
Os “negros
anos luz”...
Man-u
— deus(es) criador ou
gerador da huMANidade.
É a
emergência do ser ou do corpo fragmentado de Osíris no seio da humanidade. É
a forma humana de Deus. É o longo processo através do qual o próprio Ptah
procura emergir. É Deus feito homem — a corporização de Deus. É a ponte. A
emergência vertical de Dj, ou Djedi, outro dos nomes de Osíris que significa
pilar ou verticalidade (“dj” é um som geralmente associado aos deuses e que
poderá significar, também, “de”, ou o próprio som ou acto de criar. Anjo,
angel, An-Dj-El, significaria “um-de-Deus”, um ser ou uma unidade “de”
Deus, ou “criada” por ele).
Man-u
é, também, “Deus-em-huMANidade”, “Em-Manu-El”, ‘filho de Deus’.
É
Hórus, filho de Osíris, gerado através da humanidade, sendo ele próprio
também Osíris, e o próprio Ptah. E é também Ra, e El... um qualquer deus é,
também, todos os outros.
E o homem, ao
identificar-se com os deuses e como sendo um deles, tornar-se-á, ele
próprio, num deus...
...principalmente devido a ter gerado um. Ao ter tido um filho deus, o
homem, como “pai”, é também um deus em potencial...
...e, como cada
coisa é todas as outras (princípio da ‘nuvem de possibilidades’), o homem
pode transformar-se assim num deus.
Na
realidade, ele já o foi no passado (Ptah-Eus-Ra-Osíris) e já o será no
futuro (Ra-Man-u, ElEl, Man-u-Ra, Ra-ma). Porque ser um
deus é, no fundo, a sua natureza transtemporal.
E
porque a emergência do homem em divindade é vital para o próprio deus Ra. Se
o Kha, ou a alma do homem, não subir ao “Amenti”, a própria existência de
Ra fica ameaçada. O homem poderia assim “impedir Ra de subir ao Céu” — e o
Sol não percorreria mais o céu da existência, ficando para sempre submerso
nas “águas do Nilo”... ou do “Nada”.
Éolipus
— é um cavaleiro das
nuvens fúlgidas. Um ser entre o Céu e a Terra. Herdeiro de um estado
intermédio e oscilante entre ser e não ser, entre o divino e o humano.
Eoalkper
Eoasell, Skorpion, Gilgamesh, Quetzalcoatl, Orejona, Akhenaton, Krishna,
Em-Manu-El
— são emergências de
Ptah no seio do homem, ou através do homem. Alguns são originários de outros
mundos e chegaram à Terra vindos do céu cósmico. Outros emergiram mesmo
aqui.
Skorpion
— desceu do abismo
celeste, ou ‘eSkarpa’ cósmica para ‘fundar’ a huManidade.
Vindo
de uma estrela distante, construiu um país a partir de algumas tribos
dispersas e outros tantos pastores de rebanhos. Através de conhecimentos
inéditos na época, abre os primeiros canais de irrigação do Nilo tornando
possível a agricultura e o desenvolvimento.
Inicia
a dinastia dos Faraós, Pharaoes, ‘Feros’ — humanos semidivinos com o poder e
energia das feras. A ferocidade do fogo ardente.
O rei escorpião (ignora-se o
seu verdadeiro nome) foi assim um dos fundadores da huManidade no vale do
Nilo. “In”, “On”, ou “An” é a Terra, ou local da “Chegada” — é “Kem”, o nome
inicial do Egipto. “Kem”, tão semelhante a “Keb”, deus da Terra, e às
palavras “Come” e “Kome”, de ‘vir’, ‘chegar’. O som e a palavra “K” parecem
estar relacionadas a ‘campo’, ‘corpo’, ‘região’, ‘local’, ‘cidade’.
Man-es,
Menes, Manis, ou NarMer
— filho do rei
escorpião torna-se no primeiro faraó do Egipto.
De novo, o
seu nome é semelhante aos diversos nomes do Homem, encontrados em quase
todas as línguas do mundo:
Man, Men, Manu, Manitu, Mana, Manes, Manis (como o “plural” de ‘muitos’,
‘many’s), Wo-Man, Homo, Homem, Homme...
Menes
Conserva ainda grande parte da energia de um semideus, herdada de seu pai
Skorpion. Com ela unifica o país e dá início a um império.
Os
feros, ou faraós, são, a partir daí, considerados deuses ou descendentes de
deuses na Terra...
...
Atlan,
Íris, Elya, Aleator, Tália McFee
— embora nossos
contemporâneos do século XXI, eles são os viajantes do mundo perdido e do
tempo esquecido.
Anseiam por
recordar-se e voltar a Ser.
‘Viajam’
em busca da reintegração... e sonham transmutar-se.
O que eles não
sabem ainda é que aquilo que procuram não é a transmutação: se o soubessem
não procurariam transmutar-se em algo que não são. Mas, assim, esforçam-se
por descobrir o Cálculo Transmutacional que transformará ‘A’ em ‘B’, sendo
‘B’ diferente de ‘A’ (A~~>B, A¹B
)...
...E,
afinal, o que eles precisam não é de se transmutarem, mas sim de se
retro-transmutarem, ou voltarem a ser aquilo que são afinal... E para isso
basta recordarem-se de si mesmos.
Recordarem-se do que verdadeiramente são, das ‘memórias’ e dos nomes
perdidos dos deuses.
Deveriam contudo passar pelo ‘ponto zero’, pela anulação de si próprios
enquanto Homens.
Tinha
sido esse o propósito inicial do projecto “Livro da Luz”, ou “livro das
metamorfoses”,
iniciado há mais de
7.000 anos no Egipto.
Mas o
texto inicial sofrera logo diversas deformações na época. Derivadas da
incompleta compreensão dos escribas, do esquecimento das ‘memórias’ e da
tendência dos antigos sacerdotes para perpetuarem o seu poder.
E por fim, com a
queda do império, o manuscrito tinha ficado perdido, enterrado no tempo...
Porém, em 1827,
Champollion, um arqueólogo francês, descobre um papiro de vinte metros,
coberto de hieroglifos egípcios.
E assim
sobraram e chegaram até aos nossos dias alguns textos incompletos que os
egiptólogos traduziram e intitularam de “livro dos mortos” do antigo egipto.
Um documento que tem sido sempre considerado como um amontoado de chorrilhos
e textos incompreensíveis...
Até
que, Atlan, Íris,
Elya e Aleator, o
lêem à luz da física quântica e da língua perdida dos deuses. E começam a
decifrar o mistério...
...
Tudo é
e não é. Um ser é todos os outros.
E, para
voltar a ser, é necessário recordar-se.
Para
ser os deuses é necessário identificarmo-nos com eles e
como
eles, tornando-nos assim neles próprios...
...
E assim
vai
começar a segunda grande viagem da barca celeste: o “Oua-dj-it”, ou “Se-K-TeT”,
o retorno à verdadeira essência. O retorno à divindade perdida(*).
Mas não
sem antes passarem pelo eclipse Solar — a longa fase da escuridão. O
oblívio.
O
período do esquecimento e a fase da individualização. Onde as pessoas são
muros rodeadas de muros.
A
grande prisão. A sujeição. A angústia.
Os
longos anos da escuridão.
Os
“negros anos
luz”...
(*)
A letra “S”
e o som “Sa” ou “Se”,
estão associados em muitas línguas antigas e contemporâneas — desde o
sânscrito, ao egípcio e ao grego — à palavra “Sabedoria”... E a
conceitos relacionados: Sa-grado, Se-rpente, Sa-nto,
Se-gredo, Sa-madhi (transe, absorção em consciência de deus).
Assim, “Sa”, parece exprimir sabedoria, mas “sabedoria” é algo
que as línguas antigas não conseguem dissociar do “divino”.
FASE I
NASCENTE
….....……………………………………………..………..……………
O que era mais insólito era o sentimento crescente em Íris de que
havia algo de profundamente alienígena em Atlan…
Ele parecia possuir estranhas memórias!
Seriam recordações mais ou menos fugazes de um qualquer passado
distante vivido não sabia onde nem quando?...
Algumas dessas “lembranças” eram tão invulgares que parecia não se
poderem enquadrar em qualquer época, mundo, ou situação em que nós, seres
humanos, pudéssemos alguma vez ter vivido. E, no entanto, ele
confidenciou-lhe que por vezes as sentia tão suas e tão reais que era como
se, por breves instantes, a sua mente interior descerrasse uma cortina para
lá da qual se escondia uma outra realidade pessoal ainda mais ampla, ainda
mais verdadeira e profunda do que aquela em que viviam.
Uma dessas aparentes “memórias”, talvez uma das mais remotas, era a
de “um deus muito antigo”, algo que Atlan tentara descrever e sintetizar num
pequeno texto que escrevera na sua adolescência...
…………………………………………..……………...……………….
Um
deus antigo
Ele era Ptah, o três vezes
grande Ptah.
E caminhava para Ptah, capital
do seu império de GoneWonLane...
Ele era um ser muito antigo.
Talvez um deus... de um
universo há muito desaparecido ou perdido no tempo.
Não sei...
Talvez tenha sido poupado,
tolerado ou respeitado por todos os deuses e universos que lhe sucederam.
...Até ao nosso Tempo.
Mas quis misturar-se com a
espécie. Sentir Tudo.
Vislumbrar todos os
parâmetros.
Ser um ser ínfimo e ser também
o infinito.
Ser animal e ser humano.
Perfeito, mas também tropeçar.
Descobriu ser essa a plenitude
do seu desejo: Ser
Tudo.
...
Mas, para isso, pareceu-lhe
ser necessário descer dos céus e morrer como deus que era...
Então criou um adversário ..
...e deixou-se despedaçar por
ele. Fragmentou-se em vários pedaços dispersos.
E assim, de certo modo, como
unidade, morreu.
...E nasceu (ou nasceram) no
seio da sua própria criação,
como apenas mais um ser (ou
seres) por ele criado.
...
Mas agora ansiava por
recuperar a sua natureza perdida e iria empreender toda a longa marcha
que o levaria de novo ao seu
verdadeiro ser.
E no fim,
teria realizado a grande
síntese sinérgica:
Seria mais do que ele próprio
havia alguma vez sido.
....................................................................................................................................................................
A
aventura quântica começa na
Grécia Antiga, há 2500 anos (pelo menos segundo a História conhecida)...
É quando
Demócrito
considera que a matéria é um conjunto de minúsculas partículas, às quais
chama ‘átomos’.
‘Clinamen’
é a noção do incessante e errático movimento destas partículas (“de uma
desconexa turbulência!”) expressa mais tarde pelo poeta romano Lucrécio.
Empedócles ,
Epicuro e Pitágoras defendem a
teoria da descontinuidade
da matéria.
Mas a teoria
oposta, a da continuidade, defendida por Heráclito e pelos Eleatas mantém-se
dominante durante mais 23 séculos...
...até à descoberta
do
movimento browniano
em 1827.
Mas é só com os
trabalhos de Wiener, Delsaux e Carbonelle, entre 1863 e 1895 que se chega à
teoria
molecular
dos gases.
Já em 1811,
Avogadro estabelecera a sua hipótese de que volumes iguais de gases contêm o
mesmo número de moléculas.
Porém só em 1875,
Van der Waals mede o número de Avogadro = 6 x 1023 moléculas por
mole (molécula-grama de um gás).
Mas só com a
realização de experiências no domínio da electricidade se dá o grande
passo...
Assim, em 1880, é
observado o primeiro feixe de raios catódicos num
tubo de Crookes.
E em 1895 J. Perrin
demonstra que os raios catódicos são na realidade partículas em movimento.
Mas é com a famosa
experiência de J. J. Thomson que se evidencia, por um lado, serem tais
partículas desviadas pelos campos eléctricos e magnéticos e possibilita, por
outro, medir o quociente e/m
– das suas cargas pelas respectivas massas.
E assim nasce o
electrão,
a primeira das partículas elementares, indicada pelo símbolo
e–...
A Aventura Quântica, 1
....................................................................................................................................................................
………………………………………………………………..…………
Em outras ocasiões, os “estranhos sonhos”, ou “vislumbres
tumultuosos de uma qualquer memória não terrena” de Atlan condensavam-se na
visão de miríades de Seres Alados que nos primórdios turbilhonavam a
ebulição dos céus num frenesim de estranhas batalhas.
Eram milhares, ou mesmo milhões, de seres poderosos que viviam
entre o céu e a terra e que pareciam ter resultado da fragmentação em
múltiplos estilhaços de uma qualquer divindade única e inicial...
Era uma época de tempos sem tempo.
E em que o poder desses seres prevalecia sobre as próprias leis da física.
Atlan mostrou a Íris a folha de papel já amarelecida pelos anos onde
descrevera um desses seus “sonhos” de invulgar nitidez que tivera
recorrentemente na sua infância.
Chamava-lhe “Batalha Púrpura” porque lhe parecia uma contenda travada sobre
as nuvens inflamadas dos tons avermelhados do poente e tingidas do sangue
dos cavaleiros alados…
E durante esse “sonho” ou “regresso momentâneo do seu espírito a outro lugar
e a outro tempo” ele, Atlan, sentia que estivera lá, naquele cenário,
lutando por uma qualquer causa agora desconhecida.
………………………………………..……..………………..…………
Nem sabemos o que é
melhor:
conquistá-los ou sermos conquistados por eles. Os filhos de Dhrtarasästra
estão agora na nossa frente neste campo de batalha. E se os matássemos, não
nos importaria viver.
Antigo texto
Veda do Bhagavad-gitä
A Batalha Púrpura
Naquele tempo [será que deverei dizer ‘tempo’?] os homens [será que deverei
dizer ‘homens’] não eram escravos da
Irreversibilidade
[ah! é por isso que não eram homens ~!] e a Guerra era apenas um Jogo e uma
Arte
~~~
“Escravo” – qualquer indivíduo que é obrigado a fazer [ou
ser]
aquilo que não quer, sem qualquer alternativa.
“Liberdade” – qualidade daquele que não é escravo.
Ptah decaíra
inicialmente apenas para um estado intermédio...
E, tal como o bosão
intermediário,
...Ele(s) viviam
entre o céu e a terra.
...Eram miríades de
cavaleiros que povoavam as nuvens fúlgidas...
A Batalha
Púrpura
Os cascos dos cavalos martelavam furiosamente
as poças vermelhas dispersas por toda a parte.
Os cavalos seriam brancos,
mas, ou tinham reflexos de fogo,
ou estavam tingidos de sangue.
No centro de todas estas nuvens, banhadas de púrpura
pelo sol poente, Eólipus lutava com vigor.
Mergulhado até aos joelhos, mas de pé firme,
brandia furiosamente a espada.
O seu cavalo estava já não sabia onde,
mas ele continuava,
escorrendo sangue pelos braços, pelos flancos,
pelas espáduas.
Golpeava, penetrava e decepava
os valentes e nobres adversários.
O vermelho tudo tingia.
Era um banho de sangue,
era a violência total. A dor. Implacável.
As nuvens estavam alagadas
de pequenas e grandes poças de sangue;
os cavalos atropelavam-se;
os guerreiros rasgavam-se.
Mas, surpreendentemente… era belo.
Até mesmo magnífico!
Era a apologia total da violência…
…Mas de uma violência divina…
...porque, afinal, todos eles eram Reversíveis.
E por isso tinham o poder de se reconstruirem,
e de se regenerarem..
...totalmente!
...
e
então,
no agora,
Atlan supunha
que o que tornava terrível
a violência na Terra e
insuportável a dor,
era a
irreversibilidade.
... porque todos nós somos,
afinal,
escravos do
Tempo.
Nunca houve um tempo que
Eu não tenha existido, nem tu, nem todos esses reis; nem no futuro nenhum de
nós deixará de existir...
Diálogo entre Krishna e Arjuna,
antigo texto Veda do
“Bhagavad-gitä”
V. – The Puranas
say that Jnanis warred against Jnanis. How is that?
Bh. – Yes, Sri
Krishna fought against Bhishma. The Jnanis view all as Brahman, yet they
fight.
[Jnani = the
Awakened, the Enlightened, the Self-Realised.]
in
“Guru Ramana” por S. S. Cohen
Fragmento #1
Os
Seres Alados...
Olhos de azul-lápis
e todas as cores
que
te olhavam
e te não viam.
Asas douradas
esvoaçantes nos céus;
riscos brancos
tingidos de lágrimas.
Tingidos de lilás
ou roxo...
...Até encontrar, de novo,
o néctar do Impossível!
Fragmento #2
…e
os Pheros
O grande monarca, no
trono sumptuoso, estava imerso em profundas reflexões:
“Um dia, Gea veio
ter comigo a Uruk. Foi há muito, muito tempo...
“Trazia
um pequeno Phero* ao colo.
“E pediu-me que a
deixasse levá-lo ao mundo de baixo.
“Seria uma curta
viagem”, dissera, “...em breve regressaria.”
“Como justificação
deu-me um propósito indefinido.
“Mas o Phero nunca
mais voltou.”
...tinha ficado
perdido no tempo.
“Estranho e Pheroz
Phero aquele, que se refugiava no convívio dos leões.
“Sempre lhe
pressenti uma vontade obstinada e qualquer objectivo desconhecido, mas nunca
o compreendi.
“Nem à sua força
Impetuosa e indomável, capaz de vergar leões*.
Gilgamesh, REI de Uruk, dominando um Leão
(Baixo relevo Sumério)
“Gilgamesh, onde
andará ele agora?...”
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Reminiscências passadas?
Porque se
identificava Atlan tanto com algumas espécies de seres lendários?
Em certos
momentos a sua memória parecia descerrar um véu que o deixava entrever
vivências de seres poderosos que se situavam entre os deuses e os homens...
Íris
questionava-se muitas vezes se esse fenómeno não seria afinal uma capacidade
mais aguçada que o comum que Atlan tinha de recordar fragmentos de uma
“memória colectiva” subjacente a todos nós. O “inconsciente colectivo” da
nossa espécie?... Não, parecia algo mais profundo e abrangente do que
isso...
Segundo
mais tarde Atlan lhe explicou, ele considerava todas as entidades
existentes, isto é, todos os seres e objectos, como “nuvens de
possibilidades”.
–
Qualquer entidade existente, Íris, é afinal uma nuvem de possibilidades que
contém, predominantemente, essa determinada entidade mas também todas as
outras entidades alternativas, as quais, aparentemente, ela não é.
– Mas
então, se tudo são “nuvens de possibilidades” – perguntou-lhe Íris – o que é
que distingue as coisas umas das outras?
“Uma boa
questão, sem dúvida”, pensou Atlan continuando a caminhar com o olhar preso
no infinito.
– Talvez
apenas a memória Íris. Talvez
seja apenas um diferencial de memória o que nos separa, por exemplo,
dos deuses...
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Finalmente, em 1910
Milikan realiza a experiência que permite medir a carga eléctrica do
recém-nascido electrão.
Já há algum tempo
atrás se conhecia o fenómeno luminoso da interferência que levava a admitir
ser a luz
uma onda sinusoidal
que se propagasse no espaço como as vagas no oceano.
E Maxwell,
em 1868, definira o seu movimento numa das mais elegantes equações da
física, considerando as vibrações luminosas como o caso particular das ondas
electromagnéticas em que a frequência de oscilação é
maior
, o que corresponde a um
menor
comprimento de onda.
Em 1896
Henri Becquerel
descobre a
radiactividade,
através da impressão acidental das radiações de sais de urânio numa placa
fotográfica.
E em 1899 Giesel e
Meyer descobrem uma outra radiação penetrante dotada de carga eléctrica.
Marie Curie,
Villard e Becquerel descobrem radiações sem carga eléctrica em 1901.
É então que
Rutherford,
em 1903, identifica a radiação
a
como uma partícula e conclui que a radiactividade é o sinal da desintegração
do núcleo atómico.
Mais tarde,
sugere um
modelo atómico
onde electrões giram em torno de um núcleo de carga eléctrica positiva mas
da mesma magnitude que a dos seus electrões.
Admite-se então
que:
a
partícula
a
é um núcleo de hélio (2 protões e 2 neutrões)
o
raio beta
é um electrão
o
raio gama
é um quanto
de radiação electromagnética
...e supõe-se que
o fotão
será um
“grão de luz”.
A Aventura Quântica, 2
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“Um deus no corpo de um homem não é um deus nem é um homem”, ouvia
Íris tantas vezes dizer Atlan quase que num queixume. E, nesses momentos,
quando olhava para ele, talvez num fugaz momento da sua imaginação,
parecia-lhe não o ver simplesmente a ele mas a um ser complexo… talvez algo
como uma mistura de seres, talvez algo como um Ptah-Eólipus-Gilgamesh-Atlan…
E então soltava a sua fantasia e deixava-a voar até admitir
a hipótese de que aquele jovem que caminhava ali, ao seu lado, pudesse ter
sido, algures nos meandros da teia da existência e do tempo, uma qualquer
espécie de ser dotado de poderes quase ilimitados ou divinos que, por algum
motivo, decaíra para um estado de baixa energia e agora sofria com isso e só
ansiava por recuperar a divindade da sua natureza perdida... Percebia-lhe o
seu sofrimento, angústia e pavor de nunca vir a conseguir recuperar o seu
anterior estado intemporal e quase absoluto. Isso claro, se as “estranhas
memórias” de Atlan tivessem qualquer base real…
Por vezes Atlan também sonhava com supostas soluções para o seu
problema: soluções que possibilitassem transmutar-se a si e à realidade nas
suas condições anteriores à queda no estado humano e mortal. Alguns desses
sonhos seriam possivelmente o resultado de tantas horas de pesquisa como as
que despendia na física das partículas sub-atómicas:
“Se alterarmos o bosão intermediário, toda a realidade se
alterará”... fora esse um dos estranhos sonhos que tivera. E que no momento
lhe parecera uma estrela, uma luz na
escuridão. Uma porta para a Liberdade Total.
Mas, de novo lhe faltavam meios para testar mais essa ideia. Não
era fácil remar sozinho contra tudo e todos e querer abarcar ao mesmo tempo
os segredos mais íntimos da estrutura da existência…
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Devido a partilharem cada vez mais o encantamento que rodeava o
segredo da transmutação, Íris e Atlan passaram a encontrar-se com
frequência.
Eram habituais os seus longos passeios através da frescura de
frondosos jardins onde passavam horas e horas a deliciarem-se com aquilo que
iam conhecendo um do outro.
Por vezes entrelaçavam as mãos e Atlan apercebia-se de como era
macia e acolhedora a pele de Íris e de como era bom estar ali, simplesmente,
com ela.
Ele possuía uma invulgar memória onírica e contou-lhe, com uma
precisão admirável, sonhos que tivera há muitos anos atrás, alguns deles
ainda na sua infância. Mas aquele que mais a impressionou foi “A Saga de
Eoalkper Eoasell”.
Devido à sua estranha nitidez assemelhava-se mais a uma experiência
realmente vivida do que a um sonho. E quando Atlan o evocou, ao começar a
contar-lho, Íris olhava para ele e sentia que ele o vivia de novo:
– Subitamente caí num sono profundo e vi-me a mim próprio numa
outra parte da Terra, um umbigo do mundo sulcado de ilhas numa época
distante. E nem sequer me chamava Atlan, chamava-me Eoalkper Eoasell...
…………………………………………………………..………………
A saga de eoalkper eoasell
A saga de eoalkper eoasell
síntese simbólica de um
percurso
Há coisas que nunca se podem verdadeiramente dividir...
Há muitos
milhares de anos, perdida na imensidão do tempo, existia uma pequena nação
de guerreiros onde vivia uma criança chamada Eoalkper Eoasell.
Eoasell
era um menino com sete anos de idade em tudo semelhante aos outros. Mas,
tinha a estranha sensação de que aquilo que era, não correspondia ao seu
verdadeiro ser. Sentia que este seu corpo era muito frágil e limitado; como
que o estranhava. Porém, perguntava-se:
“Como posso estranhá-lo se nunca tive outro?”
Por vezes,
tinha realmente a sensação de que já tinha tido uma natureza diferente,
poderosa e ilimitada e, que agora, estava aprisionado neste corpo onde
aprisionadas estavam também as suas capacidades.
Não, esta não poderia ser a sua verdadeira natureza: nas suas
brincadeiras, a sua força interior, fazia-o saltar de altos muros, mas ao
aterrar, rachava a cabeça e magoava-se. Apesar disso, persistia, sentia que
não poderia ser assim, ele “não era assim, não poderia ser assim frágil”.
Ao brincar de guerreiro, atirava-se sozinho contra muitos adversários. As
outras crianças envolviam-no como formigas e acabavam por fazê-lo tombar. No
interior de Eoasell pulsava um outro tipo de ser — um ser indomável e
ilimitado. Um ser que se entristecia por não poder cruzar os céus como um
cometa e mergulhar no fogo do sol, atravessando-o de um lado ao outro e
ficando ao rubro, mas mantendo-se indestrutível, imparável, pleno de
liberdade total. Deveria ser capaz de derrubar muros, de remover rochedos,
de parar a chuva e, sempre que se ferisse, o seu corpo deveria regenerar-se
de imediato. Eram estas as estranhas sensações do pequeno Eoalkper Eoasell.
Quando fez
quinze anos, passou casualmente em casa de Elinoa, uma velha sábia, e
encontrou-a reunida com outras anciãs. Soube que algumas eram de terras
distantes, do outro lado da costa. Como estavam na estação fria,
sentavam-se em volta do fogo que crepitava e contavam lendas e histórias de
um passado longínquo e nebuloso. Uma dessas lendas causou um impacto e um
sentimento de familiaridade inesperados em Eoasell. Quem a contava
chamava-se Amaroa:
“Há muito
tempo atrás, existia um deus chamado Manu. A sua aparência física era
semelhante à de um humano. Diz-se até que por ele foi criada a nossa
espécie…
“A dada
altura, não se sabe bem porquê, Manu decidiu deixar de ser um deus para se
tornar humano. Talvez porque se sentia só e queria ser um entre muitos seus
iguais, ou porque queria fazer evoluir os seres humanos a algo semelhante a
si próprio, ou porque se queria transcender... ninguém sabe ao certo.
“Manu
fragmentou-se então em muitas partes e misturou-se com as almas dos embriões
humanos. Ao dividir-se em várias partes perdeu a consciência de si próprio e
entrou no oblívio, no esquecimento de si mesmo. Porém, em algumas crianças,
sobraram memórias vagas da natureza passada de Manu.
“Foi o que
ocorreu com um menino chamado Eus. Desde muito cedo começou a sentir uma
estranha nostalgia. Era como se estivesse habituado a outro tipo de
existência, mais livre, com menos impossíveis. Sentia-se também pouco
integrado na sua espécie. As outras crianças não partilhavam da sua
sensibilidade e do seu gosto por desvendar os mistérios do universo.
Divertiam-se a fazer mal aos animais e faziam chacota do seu interesse por
aprender as ciências do mundo. Mentiam e, por vezes, roubavam-lhe coisas.
Eus não compreendia a maldade que encontrava nos seus semelhantes, sobretudo
nos adultos que cometiam actos ainda mais cruéis e brutais. Não se sentia
fazendo parte da mesma espécie nem se sentia em casa. Por isso sonhava em
encontrar o caminho para casa e conviver com os da sua própria
espécie.
“Um dia
teve um sonho muito estranho. Sonhou que estava suspenso a alguns metros do
solo sobre umas colinas verdes onde passava um ribeiro. Ele irradiava
energia e tudo à sua volta, as árvores, o céu e a água, pareciam ondular e
vibrar de acordo consigo numa coreografia viva e plena de amor. Toda a
natureza em seu redor comportava-se como uma extensão de si próprio. Depois,
subitamente, o seu corpo transformou-se numa bola de fogo que ascendeu ao
céu e explodiu em inúmeras centelhas de luz. As centelhas voaram e, como que
por instinto, cada uma delas encontrou um feto humano com o qual se fundiu.
Aqui, Eus acordou.
“Depois
desse dia, a natureza de Manu começou a despertar em Eus que, como que por
instinto, seguia o caminho para alcançar a liberdade dessa existência
sonhada.
“Após ter
vivido ainda muitos anos alcançou-a mesmo e tornou-se um ser sem limitações
como Manu, mas conservou também todas as boas qualidades da humanidade.
“Assim
termina a lenda de Eus” – concluiu Amaroa.
Uma
lágrima rolou quente pela face de Eoasell. Era a primeira vez que ouvia algo
de comum com o que sempre sentira no seu interior. Pensou que talvez algo
de idêntico com a lenda que escutara tivesse ocorrido com ele. Isso
explicaria a sensação que sempre tivera de não pertencer verdadeiramente ali
e de já ter sido um ser muito diferente.
Quer fosse
assim ou não, Eoasell começou a pensar que deveria ser possível
transformar-se num ser ilimitado. “Mas como?” – interrogava-se.
A sua
busca não foi fácil. Frequentou todos os arquivos e leu todos os escritos
que pôde, mas não havia quase nada que o pudesse ajudar a descobrir como
conseguir transformar a sua natureza em algo ilimitado. Era algo estranho e
ignorado.
Prosseguiu
no entanto com a sua aprendizagem sobre o que se conhecia do ser humano e
das leis da natureza. Havia vestígios de ciências antigas, de um tempo em
que houvera na Terra um conhecimento mais avançado e parcialmente perdido.
Depois da sua deambulação por vários lugares do seu mundo e da meditação
daquilo que se conhecia da história da humanidade, só lhe restava deixar-se
guiar pelo seu instinto e pela sua intuição. Começou então a fazer
experiências consigo próprio. Aprendera uma coisa com um velho místico que
conhecera numa ilha distante e que lhe trazia uma espécie de conhecimento
silencioso. O velho dizia que era uma forma de beber directamente da fonte
do conhecimento universal. Era uma espécie de meditação em que se mergulhava
por breves instantes num estado sem pensamentos. Durante esse tempo a
consciência habitual anulava-se e ficava apenas um outro tipo de
consciência, uma consciência impessoal. O velho Quatl chamava-lhe atingir o
estado zero, tornar-se no nada.
“Ser o
nada e conseguir doseá-lo, manejá-lo, nisso consiste o grande segredo da
existência” — dizia.
Porém,
para o próprio Quatl, isso era uma verdade intuitiva e nem ele compreendia
todo o seu alcance.
“É muito
difícil atingir o nada” — prosseguia o velho —”e ainda mais difícil é
conseguir Sê-lo; e Manejá-lo, a esse estado entre o nada e o ser.”
Um dia,
Eoasell teve um grave acidente. Caiu por um precipício e através dos seus
ferimentos perdeu quase metade do seu sangue. As dores eram lancinantes e
sentiu que estava a morrer. Então, subitamente, mergulhou numa espécie de
sonho, mas sem as características habituais de um sonho; possuía todas as
qualidades e nitidez de uma experiência real: encontrava-se à entrada de um
estranho edifício que reconheceu ser uma biblioteca, não tendo no entanto
visto nunca uma igual. Também o tempo e o lugar lhe eram estranhos. Apesar
disso entrou e sentiu-se fortemente atraído por um dos volumes daquilo que
lhe disseram ser um livro, um conjunto de folhas envolto por uma capa dura.
Abriu-o, aparentemente ao acaso e, sem saber como, compreendia perfeitamente
a língua em que estava escrito. Mas o mais surpreendente é que estava lá
tudo, com uma clareza e uma simplicidade impressionantes. Todos os segredos
que procurara desvendar todos esses anos: os segredos acerca do controlo
total sobre o corpo e a alma e sobre a expansão da consciência.
Os
princípios eram tão claros que resolveu experimentar de imediato. A primeira
sensação que teve foi a de sentir o seu corpo flutuar até se encontrar
próximo do tecto da sala. Nessa fase sentia que metade do seu eu estava no
seu corpo e metade espalhada no ambiente à sua volta. Expandiu mais a sua
consciência, a sua presença, e percepcionou uma parte do mundo em que estava
inserido. Viu centenas de pessoas, de casas, de paisagens...
Expandiu-se ainda mais e viu uma multidão de imagens, de rostos, de
acontecimentos. Teve a sensação de que era toda a Terra.
O
movimento de expansão continuou e as sensações tornaram-se mais difíceis de
definir porque eram visões caleidoscópicas, muitas imagens de muitos
mundos, de muitas realidades. A sua consciência estava espalhada por toda a
existência.
Entretanto, o movimento prosseguia. O seu ser deixava-se ir, atraído cada
vez mais para o todo, para o infinito... até que as formas já não eram
distinguíveis. A sua percepção de conjunto assemelhava-se a um oceano de
energia com um formato semelhante a uma galáxia de uma luz suave e de cor
clara, na qual estava a essência de todas as coisas. Havia apenas um som que
era a fusão de todos os sons e se assemelhava ao rumor longínquo de um
oceano, porém constante, infinito e incessante. Havia apenas um sentimento,
agradável, de paz, de totalidade, de suave plenitude. Mas o que mais
caracterizava este sentimento era a ausência de ego e do seu eu, uma
sensação impessoal de pertencer à consciência universal (aquilo seria
Deus?). Havia apenas uma cor, apenas um som, apenas um sentimento.
Eoasell
sentia-se como que uma gota de água a começar a mergulhar e a dissolver-se
nesse oceano existencial. Sentia que era um indivíduo com a sua pequena
consciência prestes a perder a sua individualidade para passar a fazer parte
dessa consciência gigantesca e impessoal. Era como se estivesse próximo de
deixar de ser. A existência absoluta afigurava-se-lhe semelhante à não
existência. Ao mesmo tempo, aquele estádio, parecia ser o patamar máximo que
qualquer ser poderia algum dia atingir: a eternidade, a paz absoluta. A
imutabilidade resultante da soma de todas as mudanças.
Sentiu que
estava a ir longe de mais e que, se avançasse apenas mais um pouco, o
processo seria irreversível e jamais poderia recuar. E perderia também, para
sempre, a sua consciência individual.
Tudo isto
foram as suas impressões e reflexões realizadas apenas numa fracção de
segundo, nessa fase intermédia em que a sua mente principiava a deixar de
pensar e começava a diluir-se na essência da totalidade. Mas foi o bastante:
produziu-se imediatamente um movimento súbito de recuo, como de um elástico.
Sentiu-se atravessar rapidamente em sentido inverso os estados anteriores
que o conduziam à sua individualidade e abriu os olhos num sobressalto: não
estava na biblioteca. Encontrava-se deitado no seu quarto e ao seu lado,
olhando para si, estava Quatl, boquiaberto.
“Onde
estava o livro?” – foi o primeiro pensamento de Eoasell. Procurou
desesperadamente lembrar-se do que lera. Por um momento tivera na mão todos
os segredos da existência e agora não se lembrava de quase nada. Apenas
recordava uma frase síntese, algo como “o que é preciso é ser o nada e
manter o nada, ou manejar o nada”... uma frase semelhante à que lhe dissera
o velho.
“O que
aconteceu?”– perguntou Quatl –“Pensei que tinhas morrido. Já faz algum tempo
que o teu corpo tem estado completamente inerte, como morto; tens estado sem
respirar e o teu coração sem bater.”
Eoasell
contou-lhe a sua experiência e o velho disse-lhe que possivelmente estivera
muito próximo da morte física e que, se não tivesse recuado, o seu corpo não
teria regressado à vida. Disse-lhe também que, provavelmente, acabara de
desperdiçar uma das raras oportunidades que o ser humano tem de voltar a
fundir-se com a Unidade e atingir assim a paz obtida pela libertação do ego
e do sofrimento da consciência individual. Provavelmente, a possibilidade
que lhe restava agora seria a de efectuar uma longa caminhada, talvez ao
longo de muitas vidas, até ao dia em que, eventualmente, pudesse atingir um
estado de pureza tal que o seu ego se desvanecesse e ele conseguisse, enfim,
descansar na plenitude da “inexistência” dessa existência absoluta que ele
havia percepcionado como um mar de energia.
Depois
dessa experiência, tentou em vão recordar-se do que lera nesse estranho
livro. De qualquer forma, sentia-se diferente, como se os seus horizontes
interiores tivessem alargado e o alcance da sua mente se tivesse expandido.
A sua
mente era agora mais rápida. A partir daí, lançou-se progressivamente numa
exploração vertiginosa do alcance do seu próprio pensamento. Pôs tudo em
causa, dissecou todas as ideias, pensou sobre os seus próprios pensamentos.
Reflectiu sobre a origem do mundo e do universo, sobre Deus e o objectivo da
existência e descobriu que, ao ultrapassar os limites do pensamento,
penetrara nas raias da loucura. Verificou que para atingir determinadas
acepções tinha de pôr de lado a lógica e o senso comum e, quando as
características do pensamento se diluíam e todo o raciocínio se tornava
difuso, era preciso mesmo assim continuar, nem que fosse às cegas até
encontrar de novo a luz.
Esse foi o
início daquilo a que chamaria mais tarde “A Batalha da Loucura” – o
atravessar do túnel do pensamento até sair, finalmente, pelo orifício
oposto.
Era como
atravessar um longo campo de areias movediças. Parar a meio seria
afundar-se, seria enlouquecer. Era necessário avançar, avançar sempre. Os
extremos tocavam-se e a luz deveria voltar a surgir e com ela o alcance do
seu objectivo: a amplificação da consciência.
Eoasell
não sabia que essa seria uma batalha que, ainda que entrecruzada com muitas
outras, se estenderia por cerca de vinte anos...
A sua
busca, todavia, continuou. Em breve realizou a primeira experiência consigo
próprio, em que procurou transcender os limites do seu ser. Baseou-se numa
ideia que vinha desenvolvendo há algum tempo atrás, fruto da sua pesquisa e
reflexões. Pressentia em todos os seres uma mesma natureza intrínseca, uma
força, uma energia ilimitada. O que cristalizava os seres humanos em formas
tão limitadas de poder era uma espécie de fuligem que encobria essa energia
luminosa que agora apenas ardia no âmago dos seres, reduzida à dimensão de
uma centelha. Essa fuligem era constituída por todas as dúvidas e temores
que castravam o infinito em cada um de nós.
Todas as
nossas crenças nas impossibilidades disto e daquilo aprisionavam-nos em
gaiolas existenciais. Assim como também todos os nossos condicionalismos: só
estaríamos libertos e limpos quando ultrapassássemos os limites impostos
pela nossa espécie, pelo nosso sexo, pela nossa idade, pela nossa
nacionalidade, pela nossa educação, pela nossa realidade, pelo nosso ser.
Mas o que
Eoasell não sabia ainda, era que para atingir a Liberdade Total do seu Ser
teria que desaprender muitos dos dogmas que a sociedade dos homens lhe
inculcara e que o encarceravam numa gaiola de dúvidas. E eram essas dúvidas
que o impediam de aceder às suas capacidades infinitas.
E teria também de ultrapassar diversos fracassos, decepções e
períodos de desânimo ou aqueles que viriam a ser alguns dos seus
longos ‘Anos Negros’...
...e ainda
assim persistir, sempre, na sua escalada pelas escarpas que talvez o
conduzissem à transmutação.
………………………….……………………………………………….
Muitos dias se passaram em que Íris reflectia frequentemente sobre
esse estranho sonho de Atlan e naquilo que pareciam ser as verdades
profundas descobertas por ele como Eoalkper Eoasell…
Mas hoje era um dia muito especial para ela, um momento aguardado
com muita ansiedade.
Era hoje que Atlan iria, finalmente, mostrar-lhe algo que
mencionara já por diversas vezes mas sempre com receio e talvez até com
alguma vergonha de partilhar por ser algo de tão íntimo.
Ao entrar no jardim onde habitualmente se encontravam, Íris olhou
para o lago e viu que Atlan já lá estava, sentado no seu banco preferido com
um espesso caderno entre as mãos.
Finalmente ele iria deixá-la ler algumas das primeiras páginas do
seu “Diário das Transmutações”.
Ele chamava assim ao caderno onde registara as diversas tentativas
praticas que fizera para se transmutar.
– O que te vou mostrar, Íris, é apenas um livro de apontamentos
onde anotei, de forma sintética, as ocorrências mais significativas
processadas durante esses períodos de tempo em que ascendi a fases mais
elevadas e poderosas do meu próprio ser – explicou-lhe Atlan enquanto
folheava o caderno de capa dourada. E prosseguiu:
– É uma espécie de diário das abordagens que fiz à transmutação;
muito embora, no início, eu quisesse apenas explorar toda aquela minha
ampla realidade interior que se projectava para além do meu estado comum e
me prometia mil e uma capacidades fantásticas!... A vanguarda da psicologia
correlaciona, actualmente, alguns desses fenómenos com os chamados “estados
alterados de consciência” nos quais possuímos uma maior facilidade para
desencadear acções paranormais. Talvez isso se deva ao facto de o nosso
cepticismo e a nossa tendência habitual para duvidar das nossas capacidades
infinitas se encontrarem enfraquecidos nesses estados especiais de
consciência. No entanto, Íris, para já, prefiro que leias apenas as minhas
três experiências iniciais e que deixemos as outras para mais tarde...
………………………………………………….……………………….
O Diário de Atlan – 1
A minha 1ª Abordagem:
Na minha primeira tentativa de alcançar um estado ontológico acima
do estado comum, o meu objectivo principal era conseguir agir directamente
na matéria através da minha consciência.
Parti da hipótese de que, se acreditasse totalmente que conseguiria actuar
num objecto, suprimindo qualquer dúvida, o resultado seria efectivo.
Baseava-me na leitura de registos em que determinados indivíduos, através do
poder da fé, tinham realizado acções aparentemente impossíveis.
Tentar suprimir todas as dúvidas em que conseguiria actuar num
objecto, sem lhe tocar fisicamente, revelou-se impossível. Havia sempre uma
dúvida latente. A dúvida está relacionada com a lógica e o raciocínio, ambas
actividades do consciente. Pensei então que deveria experimentar enfraquecer
a actividade consciente. Nos sonhos acreditamos e conseguimos fazer coisas
que nos parecem impossíveis quando acordados. Possivelmente porque o córtex
cerebral durante o sono entra em repouso, reduzindo a actividade consciente
e racional.
Havia que cansar o córtex, provocando que entrasse em repouso mas
sem que eu ficasse adormecido. Seria algo semelhante a entrar num estado de
sono acordado.
Mantive-me sem dormir durante seis dias e seis noites.
Encontrava-me no sul do país, no Algarve, a trabalhar num
Aparthotel durante o meu período de férias escolares que antecedia a entrada
na universidade. Fazia o horário das 10h da noite às 5h da manhã no
bar-discoteca do empreendimento. Passava o resto do tempo em constantes
actividades para não adormecer.
Ao 4º dia senti que o meu pensamento racional e crítico era já
muito ténue. Uma das primeiras sensações estranhas foi a de pressentir
grande parte dos acontecimentos com minutos ou horas de antecedência. O meu
corpo movia-se de um local para outro conduzido por vontades espontâneas da
minha consciência mas sem pensar, sem reflectir. Ao conversar com algumas
pessoas sentia que diversas ocorrências se tinham passado com elas e obtive
as suas confirmações.
O meu intelecto parecia tornar-se, também, cada vez mais rápido e
poderoso. Estive, nessa altura, em casa de uma família holandesa com a qual
me comunicava em Inglês, por ignorar completamente a sua língua.
Subitamente, todos os elementos da família irromperam numa discussão,
falando holandês. Não sei explicar como mas, a dado momento, deparei comigo
a compreender tudo o que diziam.
Na manhã do 5º dia, encontrava-me
na recepção de um aldeamento turístico a olhar para uma placa onde estava
escrito, em seis línguas, o seu regulamento. Sentia a minha mente a ler e a
relacionar, com uma velocidade incrível, todas as frases e palavras nas
diversas línguas e a aprender o significado das palavras que eu desconhecia.
Nessa época, além de português, apenas falava um pouco de Francês e Inglês.
Mais tarde, assisti, durante cerca de trinta minutos, à transmissão
televisiva do campeonato de salto e mergulho em piscina. Não tinha qualquer
conhecimento prévio mas observei com toda a atenção os perigosos e difíceis
saltos mortais, triplos mortais, parafusos, empranchados, etc. Em seguida,
dirigi-me à piscina do Aparthotel e, da prancha mais elevada, executei
razoavelmente bem, com uma habilidade que desconhecia, os mergulhos mais
difíceis que tinha observado, pela primeira vez, momentos antes na
televisão.
Junto à piscina havia um quiosque
com livros em várias línguas estrangeiras (o Algarve é uma região turística
frequentada por pessoas de diversas nacionalidades). Tinha começado, havia
pouco, a falar com um grupo de rapazes holandeses que estavam admirados com
os meus mergulhos. De repente, disse-lhes que, se quisesse, conseguiria ler
e compreender a sua língua. Escolhi um livro em holandês da prateleira do
quiosque e abri-o ao acaso.
Comecei a traduzi-lo rapidamente
para Inglês. ‘A medida que eu lia eles verificavam que a tradução estava
correcta. O que eu sentia na minha mente, quando lia, pareciam ser uma série
de operações muito rápidas de análise a cada palavra, a cada frase,
procurando semelhanças com palavras das línguas que eu conhecia, tentando
encontrar o significado pelo contexto lendo mais à frente e voltando atrás,
encontrando outros significados por intuição, decomposição das palavras,
etc. Porém todas estas operações eram muito rápidas e não se notavam porque,
como resultado final, eu traduzia, falando a uma velocidade normal.
Toda a minha hiperactividade deu lugar a muitas outras situações
estranhas. Em dado momento, apeteceu-me dispor de um carro por algumas
horas. Como a minha normal tendência para duvidar, estava já muito
enfraquecida, pensei: “Vou por esta rua e ao voltar da esquina, vai
passar-se algo que me proporcionará um carro.” Fui e não duvidei. Ao voltar
da esquina, encontrei um conhecido da minha cidade, que estava no Algarve a
passar férias. Eu conhecia-o mal ma, em poucas frases fui persuasivo e ele
pôs-me o carro à disposição.
Na tarde do 5º dia, o meu perfil
psicológico era o seguinte: encontrava-me num estado de maravilhamento com
tantos poderes novos e desconhecidos. Sentia-me , no entanto, com alguma
dificuldade em me conduzir pelo desenrolar dos acontecimentos, já que tudo
era muito rápido e quase não havia pensamentos pelo meio. Era muito estranho
não pensar, ou pelo menos, não pensar da forma comum. Eu era
impulsionado por um pensamento sem pensamentos. Quase como num sonho. E
depois, como não duvidava, executava tudo o que essa espécie de consciência
me ditava. Tinha desaparecido todo o pensamento aristotélico e cartesiano.
Eu não pensava, eu agia; fruto dos impulsos de vontade de uma espécie
de consciência mágica, não raciocinante. Por vezes, sentia que eu não
conduzia as minhas acções, mas era conduzido. Fisicamente sentia-me bem e
com energia; já não me sentia cansado e com sono como sucedera nos 3
primeiros dias.
Ao fim da tarde do 5º dia atrevi-me a tentar a acção directa da
mente sobre a matéria. Isto era o que temia como mais difícil, no meu estado
normal. As tentativas frustradas no passado tinham-me enraizado fortes
dúvidas de obter sucesso. Talvez ainda não completamente liberto delas,
tentei algo que me pareceu mais fácil: Dentro do bar do hotel havia, em
cada mesa, uma vela rodeada de uma campânula. Surpreendi-me com a
facilidade com que conseguia reduzir a chama, quase apagando-a e, aumentá-la
até se tornar uma chama grande.
No 6º dia, estava na esplanada do
bar com algumas pessoas, quando passou próximo de nós um empregado,
transportando uma bandeja cheia de copos. Disse aos meus conhecidos:
“aqueles copos vão partir-se.” Penso que quis fazer com que a minha
acção mental os partisse. Porém, eles não quebraram imediatamente. O
empregado deu mais um passo e a bandeja caiu ao chão partindo os copos.
A partir daqui tudo se acelerou e
complicou. As pessoas que estavam comigo à mesa ficaram assustadas. Alguém
avisou o gerente que quis expulsar-me do local. Eu fiquei furioso e entrei
no interior do bar. Ao entrar, a iluminação foi abaixo e tudo ficou às
escuras. Gerou-se alguma confusão com o gerente e os empregados que estavam
nervosos e assustados comigo. Eu estava com a sensação maniqueísta de que
o gerente era um homem mau e perverso e abandonei o local.
Pouco depois, deparei comigo muito
descontrolado emocionalmente. Estava com convulsões de riso e de choro, tudo
ao mesmo tempo. Sentia vontade de deixar tudo, de morrer. Procurei
desesperadamente uma escarpa para o mar, um precipício. Estava convencido
de que os havia ali, naquela zona da costa. Mas enganei-me; quando cheguei
à borda vi que esta era baixa e que se me atirasse não morreria. Recuei sem
saber o que fazer. Nesse momento veio ao meu encontro uma amiga que se
apercebera do meu estado. Deu-me alguns soníferos e conseguiu que eu
dormisse cerca de doze horas. Quando acordei estava mais próximo do meu
estado normal, mas ainda um pouco estranho.
Decidi regressar a casa. Dormi profundamente, durante toda a viagem
de 700 Quilómetros até ao norte do país. Nos dois dias seguintes dormi a
maior parte do tempo.
Sentia-me como um fusível meio queimado. Tinha perdido as minhas
capacidades paranormais, já não sentia toda aquela energia dentro de mim e
estava algo confuso e assustado com o desfecho da minha “aventura”.
Durante oito anos senti-me interiormente vazio.
Decorreram mais cinco anos em que eu continuava a sonhar com a
minha escalada no domínio do paranormal, quando realizara a 1ª abordagem à
transmutação. Será que algum dia voltarei a ter outra oportunidade?
O Diário de Atlan – 3
A minha 2ª Abordagem:
Foi um período longo. No total, incluindo algumas quebras,
estendeu-se por mais de 6 meses.
Após os vários anos que decorreram desde a primeira abordagem,
suponho que um dos factores que estiveram na origem desta 2ª “ascensão” se
relacionou com um cavalo. Comprara-o há mais de um ano e era a minha
primeira entrada num mundo que sempre me fascinara: o da equitação. Apesar
de ser um belo cavalo, revelara-se difícil no treino e nas duas únicas vezes
que o montara havia sido violentamente projectado ao solo. Quando finalmente
o cavalo se começou a entregar, fiquei radiante. Montava-o e treinávamos os
dois quase todos os dias, durante horas e horas. Apesar de ficar exausto por
travar autênticas lutas com o animal, o meu entusiasmo era crescente porque,
de dia para dia, obtinha mais progressos.
Este exercício diário intenso, uma progressiva redução das horas de
sono e uma alimentação mais rara, aliados à fusão energética que sentia com
o cavalo, fizeram-me entrar num estado de espírito diferente.
O primeiro fenómeno invulgar que recordo foi durante uma corrida
que fiz, a pé, com alguns amigos. Um deles tinha apenas 17 anos e era um
óptimo corredor. Pouco depois de começarmos, imprimi uma aceleração tão
grande que os deixei para trás vários metros. Continuei a correr sem sentir
cansaço, mas antes, satisfação e prazer em cada passada que dava. Quando
parei, uma longa distância após todos terem parado, estava perfeitamente
normal; sem respiração ofegante e sem pulsação acelerada.
Ao longo dos dias em que treinava equitação, por vezes em situações
de cansaço extremo, eu obrigava-me a prosseguir os exercícios sem parar. Aí,
desaparecia a sensação de cansaço e eu continuava por horas e horas.
O cavalo era um animal possante e rebelde; tinha provocado
traumatismos em dois treinadores anteriores. As minhas actividades com ele
eram frequentemente verdadeiras lutas. Transformou-se no meu ginásio físico
e espiritual. Sem me aperceber, espontaneamente, comecei a entrar em novo
processo de transmutação.
Experimentava também, baseado em livros de Castañeda, a abstinência
sexual e a canalização dessa energia para me catapultar a estados de ser
mais elevados. Dormia pouco e devorava livros. Estava fascinado com o
ressurgir de capacidades paranormais há muito perdidas.
Vários fenómenos ocorriam: por vezes: borboletas vinham
poisar nos meus dedos, outras vezes, eram aves que se aproximavam; a minha
empatia com animais era muito grande, mas principalmente, com cavalos e
cães. A maioria dos animais obedecia-me, ou melhor, compreendia-me com um
pequeno gesto.
Passei a andar com um pequeno caderno no bolso em que escrevia, a
cada instante, o que me surgia por inspiração. A maior parte dos escritos,
relacionavam-se com a transformação do ser humano comum, elevando-se ao
estado de semideus. Intitulei esse pequeno livro de “Meta-H” –
significando “Meta Homem”, um estado para além do humano.
Uma ocasião visitei uma escola de artes marciais onde nunca
estivera. Alguns alunos apontaram para uma pintura na parede onde estavam
os símbolos da sua escola. Disseram-me que antes, estavam ali pintados
outros símbolos. Olhei para a parede e, não visualizei propriamente, mas
antes senti, uma cobra e um macaco. Quando lhes comuniquei o que tinha
“visto” eles confirmaram surpresos.
Tinha cada vez menos vontade de comer alimentos convencionais.
Comia muito pouco e gostava de me sentir assim; mais leve, mais espiritual.
Fazia, com frequência, os exercícios de absorção de energia solar,
aprendidos nos livros de Castañeda. Era a minha principal forma de
“alimentação”. Por vezes, à noite, sentia uma “fome imensa de energia”.
Ligava-me então, várias vezes, a fontes de electricidade,
experimentando a sensação de absorver aquela forma de energia. Não sei o
que realmente se passava, nem se conseguia assimilar qualquer energia mas,
estranhamente, não ficava electrocutado, sentindo apenas um tremor
suportável.
Embora na altura eu não me apercebesse, penso agora que, por vezes,
o meu estado psicológico atingia algo de loucura. Em toda a movimentação e
impetuosidade do meu dia a dia, sentia vontade de fazer coisas que,
habitualmente, não são consideradas naturais ou de bom senso. Numa dessas
ocasiões, senti que conseguiria levantar o meu cavalo. Coloquei-me curvado
por baixo dele e, com a força das costas e das pernas, empurrei para cima o
animal. Apesar de naquele momento ter uma espécie de certeza intuitiva de
que o conseguiria, não deixei de me admirar quando senti que o animal se
elevava ficando apenas as patas da frente a tocar o chão. Isto aconteceu
numa praia e algumas pessoas vieram depois falar comigo não entendendo como
é que eu o fizera. Eu tão pouco o sabia, pois o cavalo pesava cerca de
setecentos quilos.
Os fenómenos mais estranhos relacionaram-se com a minha crescente
empatia e identificação com o sol. Na verdade, sentia uma quase adoração
pela fonte de energia que ele representava.
Nessa época costumava tomar o pequeno-almoço numa das esplanadas do
edifício em que residia. Uma ocasião, durante o Inverno, estava tempo de
chuva, cinzento e encoberto.
Naquele momento eu olhei para o céu com frio, e desejei que o sol
brilhasse e me aquecesse por fora e também por dentro. De alguma forma que
não consigo descrever, senti que eu e o sol éramos um e que, essa outra
parte de mim iria brilhar, ao meu encontro, ao encontro de estreitar a sua
ligação comigo. Senti que de alguma forma tinha comunicado com aquele astro,
que se me afigurava não apenas como um astro mas com algo de mais vasto,
relacionado com a energia do mundo e comigo – num passado ou futuro
distante. Isto durou apenas um momento, mas muito rapidamente as nuvens
começaram a dissipar-se e o sol brilhou forte e quente. Passados cerca de
vinte minutos, não havia nuvens; o céu estava completamente azul.
Eu poderia atribuir esta experiência ao acaso porém, depois desta
primeira vez, o mesmo fenómeno repetiu-se vezes sem conta e, cada vez mais,
eu confiava nesta interacção. Muitas vezes, eu tomava o pequeno-almoço
acompanhado por uma colaboradora. Quando estava mau tempo, por vezes até a
chover, eu dizia-lhe, com uma naturalidade cada vez maior, para nos
sentarmos na esplanada e não no interior, que iria fazer sol. E assim
acontecia.
Passado algum tempo, o fenómeno era tão familiar para ela como para mim.
Recordo-me de situações até algo cómicas: em dias de chuva ela pedia-me para
“ir até lá fora, para o tempo melhorar”.
Todas estas pequenas ou grandes conquistas me enchiam de satisfação
por me parecer que cada vez estava mais próximo do meu objectivo final: a
transmutação, total e irreversível. Porém, também me distraíam
e me faziam andar à deriva, impedindo-me de concentrar energias no objectivo
final e não nas dezenas de fenómenos fascinantes que surgiam pelo caminho.
Eu também não conhecia o caminho. Era como caminhar às escuras. Tentava
avançar baseando-me em conhecimentos e hipóteses e na minha intuição. Eu
pensava que só realizando a transmutação essa escalada seria irreversível e
eu não voltaria a perder as faculdades alcançadas. Lembrava-me da minha 1ª
abordagem após a qual voltara à normalidade.
A textura do meu próprio corpo parecia um pouco diferente e a
capacidade de recuperação de ferimentos era muito rápida. Além disso toda a
minha aparência física tinha-se tornado, de novo, muito mais jovem. Tinha a
sensação de que apresentava sinais de principiar a transmutação do meu corpo
num corpo incorruptível.
Por vezes, tinha dificuldade em controlar a enorme quantidade de
energia que possuía. Sentia-me como se estivesse ao volante de um automóvel
com um motor demasiado poderoso em que não conseguia dominar a aceleração e
derrapava nas curvas. Tornava-me facilmente arrastado pelos meus ímpetos e
não ponderava as minhas acções.
Outras vezes, tinha quebras em que me sentia muito fraco e vulnerável,
possivelmente porque dormia e comia muito pouco.
Numa dessas ocasiões, fui vítima de quatro agressores que me deixaram com
muitos traumatismos e quase morto. Não obstante, a minha recuperação no
hospital foi invulgarmente rápida.
Porém, como trabalhava por conta própria, o período em que estive
hospitalizado e em convalescença foi fatal para os meus negócios. Isso e
outros desgostos que tive no mesmo período arrastaram-me para o estado comum
de normalidade e, posteriormente, para uma depressão psicológica. Perdera
completamente o estado de espírito energético e todas as capacidades
paranormais.
Não conseguira atingir o ponto de irreversibilidade e tudo
se desmoronara.
……………………………………………………………………..……
Atlan explicou-me como esta sua impossibilidade em conservar as
“extra-capacidades” adquiridas durante as suas “ascensões” o precipitava
depois em longos períodos de desânimo e desilusão nos quais se sentia
novamente despido de quaisquer poderes.
– Sinto-me como um alpinista que está muito próximo de atingir o
cume e de repente se vê estatelado na base da montanha... De facto, Íris,
quando regresso à frustrante normalidade sinto-me morrer – confessou-me ele
um dia. – Voltar a ser um homem, depois de ter sido quase um deus, é a pior
das torturas... é como sentir-me completamente esvaziado de energia e de
poder; é terrível! Dá-me a sensação de que é um tempo que jamais irá
terminar. Nessas fases mergulho na descrença e convenço-me de que jamais
conseguirei concretizar os meus objectivos...
Eram essas as longas temporadas a que Atlan chamava de “anos
negros”... anos de sofrimento e dor. E perda da esperança de conseguir,
algum dia, vir a transmutar-se.
…………………………………………………………..………………
FIM DA FASE I
D
®
0
h
®
¥
[quando o “estado divino” (ou “Deus”)
tende para ZERO (0),
o
“estado humano”
tende para infinito(¥)]
...Deus
apaga-se
...e nasce o
homem.
...São os Longos
Anos
Negros
da Escuridão;
da Ignorância;
da Perda de MEMÓRIA;
e do Obscurantismo...
...efeitos simultâneos da
Poderosa Máquina de
PROPAGANDA...
...é aí “Onde Mora o Mal” !
FASE II
os negros anos luz
……………………...…………………………………………..……….
Aleator trabalhava no Instituto de Estudos Quânticos e era um dos
maiores amigos de Atlan.
Era um investigador que procurava conciliar duas grandes áreas de
pesquisa: a psicologia e os fenómenos aleatórios.
Conhecia Atlan desde a sua infância e seria através dele que Íris
viria a obter muitas revelações sobre os seus longos períodos de desânimo.
Atlan tentara por diversas vezes aceder aos “céus” para aí se
transmutar mas, de cada vez que não conseguira aí fixar-se e consumar a sua
transmutação, despenhara-se nos mais terríveis “infernos” existenciais.
Por vezes entrara num estado de inanição e num desinteresse tão
grande que era como se temporariamente morresse.
Durante esses longos períodos de subvida ele isolara-se de tudo e
de todos e, desiludido, afastara-se ao encontro da morte.
As suas saudades do “céu” eram tão grandes que não suportara a
perspectiva de nunca mais para “lá” voltar; foi isso o que sentiu Íris
enquanto escutava Aleator contar-lhe sobre a carta que recebera de Atlan:
…………………………………………………………..………………….
Inferno
Na primavera de 97
Aleator convenceu-se que, de facto, era verdade.
Atlan
desaparecera.
A carta que recebeu, na
véspera da sua partida para o Kazaquistão confirmou as suas suspeitas.
Continha várias folhas e a que caiu ao chão foi a que leu primeiro:
“13
Abril 1997
Amigo Aleator:
Pronto, estou no inferno!
Eu sei que não me devo lamentar. Sei que mereço cá estar. Mas julgo
também que não me é negado o direito a escrever sobre isso. A desabafar no
papel toda a tortura que me vai na alma... Não o faço apenas por isso, mas
por que sinto que, apesar de tudo – e de toda a loucura – houve uma
multidão de acontecimentos e de experiências, muitos dos quais singulares e
fantásticos, que devem ser registados e analisados.
Apesar de tudo, e de ter desembocado neste beco estéril – o
“inferno” – não deixou de ser uma odisseia estonteante, uma acrobacia
ontológica, uma aventura louca!... que talvez eu gostasse
absorvidamente de ler, não tendo sofrido e sangrado tanto por tê-la vivido
e não sufocando tanto com os remorsos pelo que fiz passar a mim e a
outros...”
Enquanto lia, as
palavras passavam vertiginosamente pelos seus olhos deixando-o completamente
absorvido. As paredes e o chão à sua volta apagaram-se envolvendo-o na
escuridão.
Então era assim
que se sentia o canto do cisne?... uma melodia louca que se escondia por
trás das palavras fazendo saltar um barulho imenso de silêncio?...
Havia algo de
definitivo no que lia. Uma sensação de “fim”.
Era algo que
deixava Aleator estupefacto pois, sem se ter apercebido, Atlan havia-o
impregnado, ao longo dos anos, de um sentimento de eternidade, de
imortalidade; como se fosse uma pessoa que não acaba nunca. E no entanto,
racionalmente, ele nunca o admitira.
Não conseguia
parar de ler:
“Fui um louco, um megalómano, um mitómano e um egocêntrico.
E, ao mesmo tempo, paradoxalmente, não fui nada disso: fui apenas
um miúdo que tentou ser um deus. Que acreditou possível e justo
transformar-se num ser ilimitado e arrastou o seu ser humano, falível e
frágil com muitos defeitos e algumas virtudes, como a maioria dos seres
humanos, numa esforçada maratona sobre-humana que pôs mais em evidência as
suas vicissitudes do que as suas qualidades e redundou numa marcha
egocêntrica e trágica.”
Numa outra folha
continuava assim:
“Ao tentar, num esforço titânico, tornar-me o céu, caí no inferno.
Mereci-o. Desprezei o direito de outros àquilo que me parecia pequenez,
desinteresse ou descrença na transmutação pessoal. Vi-os apenas como vultos
que se movimentavam à minha volta. Uma sensação de desprezo se foi
lentamente apoderando de mim por sentir um desprezo semelhante, nos outros,
pelo alcançar do ‘céu‘ aqui na terra. E, sub-repticiamente, as minhas
qualidades se foram pervertendo deixando-me apenas a ilusão de que
permaneciam.”
“Fiz muitos estragos. Passei por cima de muitas e importantíssimas coisas.
Desrespeitei a fragilidade humana que é afinal como a minha própria. Achei
que o meu plano, o meu projecto, era o mais importante e que todos
tinham o dever de me abrir passagem. Fui intolerante e parcial para os que o
não fizeram! Desenvolvi sentimentos de cólera pelos obstrutores e auto
convenci-me de que era ira divina. Julguei-me um deus, sem o ser ainda, e
perdi a humildade... tudo sem me aperceber, num sonho louco, conturbado e
agigantado.”
Muito do que
Aleator conhecia da vida de Atlan começava agora a fazer sentido. Embora já
o conhecesse há tantos anos, tinham decorrido por vezes longos períodos de
tempo em que ele lhe perdera o contacto. Depois, quando se encontrara com
ele, houvera certas frases e acções que não compreendera muito bem. Agora,
suspeitava que durante essas ausências, Atlan tivesse estado completamente
absorvido nas suas “escaladas ontológicas”. A isso se deveriam certamente as
suas desaparições.
Pegou na folha
seguinte e prossegui a leitura da carta:
“Possivelmente não voltarás a ver-me. Gostaria porém que tentasses reunir os
meus escritos dispersos, muitos dos quais poderás encontrar em minha casa e,
juntamente com tudo o que sabes das minhas vivências, procurasses
reconstituir os passos mais significativos da minha vida.
Quando morre a esperança morre tudo. E eu estou a morrer.
Sinto necessidade de desaparecer.
Como achas que me sinto? Ainda há menos de um ano o meu corpo tinha
cerca de vinte e três anos e agora aparenta ter perto de quarenta?!...
Estou em rápida deterioração. Todos os anos que travei estão a
cair-me em cima vertiginosamente. E já não consigo, de novo, voltar a ser
intemporal.
Desapareceram as minhas capacidades extra-sensoriais.
O meu corpo definha dia para dia, enche-se de rugas, os cabelos caem, a pele
enche-se de manchas vermelhas. Encarquilho-me. Não sei se para a semana
terei oitenta anos...
Tudo se desmorona.
Todos os objectivos da minha vida se esboroam...
A carta terminava com um poema
de Atlan que Aleator se recordava de, por vezes, o ouvir “cantar” baixinho:
Se a minha tristeza
pudesse voar
Inundaria todos os espaços
Tingiria de roxo todos os seres
Até o rouxinol
que se despenharia dos céus
e se dilaceraria
nos espinhos das rosas
enganadoras…
O mundo seria por fora
aquilo que eu sou obrigado a ser por dentro.
……………………………….………………………………………….
Esta carta que Aleator mostrou a Íris fora escrita por Atlan ao fim
de um longo período de depressão e sofrimento.
Por vezes, após anos de preparação e espera para conseguir entrar
em fase de ascensão, Atlan sentia que alguns dos seus poderes ressurgiam. Mas
quando isso sucedia ele sentia “elevar-se” vertiginosamente de um modo muito
difícil de controlar. Tentava aguentar-se então o maior tempo possível nesse
estado o que era semelhante a sentir-se em cima de um balão que, por se elevar
demasiado velozmente para os céus, parece prestes a rebentar a todo o momento.
O seu poder interior ia aumentando mais e mais. Porém, sempre que
se sentira já muito próximo de se transmutar definitivamente num ser
incorruptível e com poderes quase ilimitados, despenhara-se e estatelara-se,
profundamente machucado e despido de poder.
E as depressões que se seguiam eram suplícios de Tântalo, nuvens
negras, imensidões de escuridão raramente entreabertas por um raio de luz ou um
momento de paixão.
……………………………………….………………………………….
Desânimo
Ah, se ele pudesse
libertar-se daquela depressão...
Libertar-se para
sempre daquela dor que lhe tolhia os movimentos. Era uma avalanche que, de
repente, derramava sobre si o total desinteresse. Já não acreditava em nada.
Pensou em pintar.
Retraiu-se perante a ideia. Tinha medo de pintar. Já não vislumbrava em si
qualquer talento... desacreditava-se.
Semtia falta
Dela...
mas não sabia como nem de quem!
Estava perdido,
completamente perdido e só; abandonado e confuso nesse estranho universo do
qual, no fundo, nada sabia.
O tempo passava e
ele estava cada vez mais velho. A vida esvaía-se.. e ele não tinha controle
sobre isso. Não tinha controle nem poder sobre nada. Não era nada.
“O que é que eu
sou?”, interrogava-se Atlan. “Porque é que vivo e até quando vivo?... e depois?”
Não tinha dinheiro.
Sentia-se cada vez mais paralisado. Porque tentava evitar gastar o pouco que
tinha, permanecia só, em casa.
Pensou em mover
iniciativas para ganhar dinheiro e acabar, pelo menos, com esse problema... mas
para quê?... não era feliz. Nada lhe interessava. Nada tinha por que lutar.
Esperança? O que era
a esperança? Afigurava-se-lhe descabido ter alguma esperança... sentia-se o
próprio erro de tudo... uma fraude.
Sentia que era capaz de tudo,
mas que em tudo talvez fosse uma fraude, um esboço. Talvez não tivesse realmente
talento em nada. Sentia que se enganava a si próprio e aos outros.
Pintava, compunha
musica, escrevia, fazia investigação científica, desenvolvia software,
construía, projectava... e duvidava da qualidade de tudo o que fazia.
Não, mas havia algo
de que não duvidava. Acreditava numa coisa entre tudo o que fizera na vida: um
quadro que pintara. Considerava a “Divina” uma obra-prima.
Quereria isso dizer
que ele, Atlan, tinha valor?
Justificar-se-ia a sua
existência com a criação de um quadro que via como sendo uma obra de arte?
“Não sei, não sei, não sei”,
pensou.
Por vezes, quando não estava em
depressão e começava a fazer algo, como por exemplo pintar um quadro, acreditava
no que estava a fazer. Acreditava que algo de genial iria brotar dali.
Mas outras vezes, quando estava
a chegar ao fim da sua obra, ao olhá-la, parecia-lhe ver a composição um pouco
garatujada de um miúdo. Ou então via algo que era interessante, mas apenas isso,
e nada tinha de genial. ...Era apenas uma tela suja com cores.
Agora não havia inspiração, não
havia nada.
Eram dois
universos
estanques.
Passava parte do tempo num,
parte do tempo noutro e o resto entre os dois.
Quando estava neste
universo,
em que agora se encontrava, só havia uma vontade: a morte, o choro, o desespero,
a aniquilação. Porque não vislumbrava qualquer
bom sentido
para tudo isto. Para ele, para os outros, para o universo... para tudo.
Se ele descobrisse uma passagem
deste para o outro
universo (no qual ele
acreditava na grandeza, na felicidade, no
sentido!)...
transportar-se-ia imediatamente para lá.
“Mas essa passagem, se existir,
deve estar dentro da minha vontade”, pensou Atlan, “e a minha vontade não existe
para nada que me possa fazer sair da inércia do
universo
onde estou. Tolhe-me. Faz-me encolher, ficar anichado num canto e não querer
saber de nada. Isolar-me de tudo e todos. Dormir. Não existir.”
Deveria ele força-la? Acordar a
sua vontade e forçar-se a passar para esse outro
universo,
onde ele acreditava possuir recursos inesgotáveis de talento, onde ele sentia
que conseguiria encontrar-se e encontrar o seu génio?
Forçar a sua vontade a
conduzi-lo para “onde” ele acreditava em que havia um significado grandioso para
a Existência e que ele o conseguiria descobrir... força-la para “lá”, onde ele
confiava que descobriria os segredos do mundo e viajaria entre as estrelas e
seria um cidadão do universo, envolvido por ele com amor e transformado num ente
com possíveis divinos.
Num ente que poderia ser livre de fluir pelo espaço e pelo tempo.
Força-la para “onde” ele ainda
conseguia ter uma ténue esperança de a encontrar, a Ela e ao amor total?
“Mas se eu me sinto tão perdido,
sem alento, sem sequer saber bem o que quero e o que sou, onde estou, etc...”,
reflectia Atlan com desespero.
“Meu Deus, eu queria perseguir a
depressão e acabar definitivamente com ela, para sempre. Mesmo que isso
significasse que eu vivesse na ilusão para esse sempre. Na ilusão de acreditar.”
“Mas pelo menos viveria.”
“E não sofreria esta dor que me
paralisa os movimentos, a imaginação, a alma.”
Pensou em escrever tudo aquilo.
Pelo menos serviria para que alguém pudesse compreender o que sentia e como era
a sua doença,
pois não conseguia explicar por palavras quando lhe perguntavam o que sentia.
Mas este simples pensamento
causou em si um arrepio de desconforto e sentiu-se tolher no seu sofá para que
dali não saísse nem escrevesse nada.
Para quê escrever. Para quê
fazer qualquer coisa.
Era como se um mecanismo de
preguiça lhe dissesse:
– Vais levantar-te, vais
esforçar-te... para nada. Deixa-te ficar na distracção de um programa
televisivo.
Todo o seu corpo e a sua vontade
se uniam para que nada fizesse.
Observou-se ao espelho.
Os seu olhos estavam baços, o
seu rosto descaído. Abatido por um desânimo e um desleixo desinteressado...
Vagueou pela casa. Comeu uma
bolacha. Nem tinha apetite... nem tinha nada.
Comer para quê? Não lhe apetecia
nada...
Recordou com sensações de
desconforto e dor os escolhos da sua vida decorrida. As suas perdas. As várias
vigarices de que tinha sido alvo. As suas loucuras. As coisas que estragou em
períodos conturbados. Dinheiro que “queimara” e que agora lhe fazia falta para
poder viver melhor. Alguma namorada que deixara e da qual agora sentia falta.
Mas, mesmo nesse tempo, nenhuma delas fora suficiente para o curar dessa sua
doença,
desse seu estranho desespero...
Finalmente, a angústia foi
grande e, movido por uma vaga esperança de se compreender a si próprio e de que
escrever poderia contribuir para uma futura solução, levantou-se.
Encheu páginas de caracteres e
continuou a sentir que não se expressara completamente; que não conseguira
traduzir tudo o que sentia.
Por fim, abandonou a secretária
e dirigiu-se para o seu quarto levando consigo um “talvez” em que pouco
acreditava. Um “talvez que amanhã acordasse no
outro universo em que
acreditava no belo e no infinito”.
Mas não conseguia pensar
“acredito que vou encontrá-la”... Já passara demasiado tempo, e o tempo aniquila
as esperanças e el… ele já não sabia nada!...
...
Paixão
Atlan estava activo. Os seus
pensamentos sucediam-se, rápidos:
“Penso em descobrir o sistema
holista que permite o pensamento! Entrego-me ao estudo da neurologia, da
psicologia, da física, da matemática, da inteligência artificial, da
cibernética.”
“Anoto as minhas conclusões.
Sinto estar a avançar. Acredito na possibilidade de o conseguir e na certeza do
meu engrandecimento com esses conhecimentos.”
...
“(Estou cansado de escrever.
Passa da meia noite Será que tem alguma utilidade, algum interesse, todo este
trabalho e este tempo despendido a tentar exprimir o que sinto?)”
Levantou-se, vagueou pela casa
pensando nisso, e decidiu escrever mais um pouco:
“Sinto que descubro que há, na
Arte, algo por criar. O que está, no homem, para além do consciente. O que
ultrapassa o real. E acredito-me criador dessa nova corrente artística.”
“Vislumbro um novo passo
ontológico do Homem. A passagem a uma nova fase e a um novo grau de consciência.
O desenvolvimento da
MetaConsciência.”
“E empenho-me em encontrar na
Arte a expressão do enaltecer dessa
MetaConsciência,
dessa meta-realidade”
“Do Surrealismo e da arte
Abstracta como expressão da
psicologia das profundezas e do
inconsciente – a
Psicanálise, lanço-me à procura do
Metarrealismo
como expressão da
psicologia das alturas e do MetaConsciente.”
As ideias tornavam-se cada vez
mais nítidas na mente de Atlan.
“Uma realidade holista, a
alma
do real que ganha a sua existência através da soma sinérgica dos componentes
desse real. Ultrapassando o real e criando, assim, uma forma existencial plena e
bela.”
“Esta ideia encanta-me. Acredito
que descobrirei a sua expressão plástica...”
...
Etc., etc.
...
Desânimo
“Agora parece-me que os meus
quadros não revelam nada de profundamente inovador que traduza o
meta-real
e a MetaConsciência.”
“Vejo-os apenas como esboços por
onde passa uma ténue brisa do que quero e de como quero.”
“Mesmo a minha
obra prima
insurge-se-me bela mas impossível. Impossível porque a realidade me faz crer que
não existe alguém assim, como represento no quadro.”
Levantou-se pensativo. Enquanto
deambulava pela sala, Atlan imaginou como seria encontrar essa mulher-deusa que
pintara, há dois anos atrás, numa noite febril.
“Já nem sei se conseguirei
encontrá-la e, mesmo que a encontre, não sei se conseguirei substituir a minha
solidão por ela. Esta solidão que me dói, também já me faz falta. Conseguiria
viver com ela e possuir também a solidão quando dela necessito? A minha confusão
é grande e sinto-me perdido...”
“Perdido num universo que,
quando esta depressão me envolve, já não sei se é um universo nas mãos de Deus
ou se é um universo à deriva, ao acaso.”
“Um universo ao acaso em que
depois da morte nada resta, em que a existência individual não tem sentido.”
Aquela hipótese de um cosmos não
inteligente, destituído de qualquer consciência perturbava-o. “E, no entanto,
era uma possibilidade. E perante essa possibilidade só restaria uma salvação”,
pensava Atlan, “transmutar-me! Seria a única forma de me preservar.”
“Vejo milhões de seres humanos
como grupos de moléculas que se agregam e desagregam. Um universo como um
brinquedo louco, sem inteligência nem consciência. Um mecanismo que bate as
horas por acaso. Sem alma, vazio, caótico.”
“Um brinquedo nas mãos de uma
criança acéfala que solta um riso louco. Uma criança que também não é, ela
própria, mais do que outro brinquedo num turbilhão de existência.”
“Sinto-me impotente, incapaz de
fazer
a minha própria vida. Incapaz de encontrar a minha companheira, incapaz de parar
a minha descida para a decadência, incapaz de viajar pelas estrelas, incapaz de
ser o que a minha vontade clama, incapaz de ir até onde a minha
vista
alcança, incapaz de fluir livre pelo universo, incapaz de saber onde estou e o
que sou, incapaz de parar a morte.”
“E até incapaz de ser feliz...
talvez por ser incapaz de tudo o resto.”
...
“Agora, na depressão, olho para
os meus progressos na investigação do mecanismo do pensamento através da
Inteligência Artificial e parecem-me rabiscos de criança. E parece-me tola a
minha ilusão de que poderia vir a descobri-lo.”
...
Atlan lembrou-se de Sofia, que
nunca compreendera muito bem o que ele sentia, e escreveu:
“Compreendes agora o que quero
dizer com a minha depressão?”
...
“...E esta sensação de perda.
Sentir sempre o tempo a esvair-se, como a minha vida a escoar-se, na areia de um
ampulheta...”
Os Negros Anos Luz
Outrora tudo correra bem para
Atlan.
Depois, subitamente, tudo
mudou.
A sua confiança foi abatida
por sucessivas vagas de insucessos.
A sua forma de pensar: lógica,
clara e probabilística foi ainda mais vulnerável do que se possuísse uma
mente simples e desordenada.
Acreditara sempre que as
ocorrências aleatórias, casuais, seguiam a lei das probabilidades.
Aí estava a sua
vulnerabilidade mental.
Sempre pensara que, ao atirar
uma moeda cem vezes ao ar, ela cairia aproximadamente cinquenta vezes para
cada face.
Assim, quando caiu cem vezes
“cara”, sentiu-se perdido.
claro que isto não se passou
com uma moeda.
Passou-se com a sua vida!
Recapitulando: a sua confiança
anterior funcionara assim:
em cada acção que realizava,
havia uma percentagem de sucesso seguramente maior do que os cinquenta por
cento de falha/sucesso. Atribuía essa vantagem às suas capacidades e
qualidades e a uma certa sorte.
E assim tinha vivido toda a
sua vida.
E mais, quando se tratava de
algo muito importante, e se empenhava a fundo, geralmente conseguia-o. Mesmo
que fosse alguma coisa muito difícil de atingir.
Isto fortalecia a sua
confiança na sua capacidade de realização.
E era normal. Tudo era ainda
perfeitamente normal e dentro de um universo probabilístico.
Os acontecimentos apenas
dependiam das circunstâncias, mais ou menos casuais, do universo onde
decorria o acontecimento, e dele próprio.
Não havia grandes mistérios.
Nada contrariava o seu
espírito científico.
A sua confiança evoluía num
universo casual e probabilístico onde o sucesso das suas acções era
determinado pelo seu empenho e capacidade face ao equilíbrio de
acontecimentos favoráveis e desfavoráveis.
Enfim, tudo era compreensível
e aceitável.
Assim, ele
conseguia viver.
O pior foi quando a “moeda”
lhe caiu cem vezes “cara”.
Ainda por cima, “cara”
significava “desfavorável” para ele.
Assim começou.
E a sua confiança foi
derrubada por cem vagas de luz negra.
Primeiro começou com o seu
trabalho.
Não conseguia obter
estabilidade económica.
Tinha tantas ideias, tantos
negócios, mas nenhum deles frutificava como devia.
Pela primeira vez encontrara
algo que não conseguia vencer.
Mas enfim, como no resto da
sua vida, a percentagem de sucesso era ainda elevada, continuou...
Porém, quando o insucesso
atingiu a parte amorosa tudo escureceu.
Foram os negros anos luz.
Antes, nunca tinha tido
dificuldade em encontrar companheira.
Claro que nunca encontrara “a
ideal”, mas tinha tido ligações bastante satisfatórias.
Agora não tinha nada.
Vagueava num deserto.
Um deserto de emoções, de
sensações, de ausência de coisas partilhadas e queridas.
O “ostracismo” era uma palavra
omnipresente nos seus pensamentos.
Chegou até esse deserto
flutuando de relação menos, e cada vez menos, satisfatória.
Antes tudo tinha sido
diferente.
Quantas vezes as paixões
vieram ter consigo. Um olhar, um sorriso, um convite. A maior parte das
vezes, ele não precisara de tomar qualquer iniciativa. As oportunidades
vinham ter consigo. E ele escolhia, dentre elas, a que mais gostava. Sempre
tinha vivido rodeado por pessoas que facilmente gostavam dele e se
apaixonavam.
Nunca pensou que à “batalha
económica” se seguiria a “batalha do amor”.
Agora, sem amor, as vagas dos
negros anos luz cada vez mais o sepultavam no limbo da indiferença e da
tristeza omnipresente.
Ainda atirou muitas vezes a
“moeda” ao ar, mas as frustrações sucediam-se.
Agora, já ninguém olhava para
ele.
Ou, pelo menos, era o que ele
sentia, pois a sua confiança transformara-se em anti-confiança e a sua fé em
fé no insucesso.
………………………...…………………………..…………………….
À medida que Íris ia tomando conhecimento dessas suas fases de
“baixa energia”, ou de desalento, admirava-se, ao mesmo tempo, com a
persistência de Atlan em não desistir de concretizar o seu grande sonho.
Por vezes, após dois ou mais anos de profundo desespero, ele
conseguia reiniciar uma nova “escalada” ou “abordagem” à transmutação e em
cada uma delas parecia ascender a um ponto ainda mais alto do que os
anteriores.
Hoje mostrar-lhe-ia mais algumas páginas do seu “diário”
correspondentes ao registo da sua terceira abordagem à transmutação.
…………………………...……………………………..……………….
O Diário de Atlan – 4
A 3ª Abordagem: (1 ano e meio depois)
de
Dezembro a Março: duração: 3 - 4 meses
Após ter estado mergulhado numa apatia depressiva, criei um novo
negócio na área informática que começou a correr bem. Isto melhorou o meu
estado de ânimo e comecei a libertar-me da depressão.
Contratei uma colaboradora para me auxiliar no meu trabalho.
Tornou-se uma agradável companhia diária e eu comecei a sentir-me de novo
num estado de elevada energia que canalizei para tentar entrar, novamente,
em processo de transmutação.
Não vou referir todos os fenómenos paranormais, pois muitos deles
são comuns às abordagens anteriores. Um dos primeiros foi o do sol. Mais
uma vez, o sol parecia brilhar, sempre que a minha disposição o solicitava –
com uma facilidade surpreendente.
As alterações atmosféricas sempre tinham estado relacionadas apenas
com o sol,.
Um fim de tarde, eu e Lisa, a minha colaboradora, estávamos na
costa a olhar para o mar. O céu estava limpo, sem nuvens. Por qualquer
motivo, talvez como experiência, eu desejei que surgissem relâmpagos.
Comentei com ela o meu desejo. Continuamos a olhar para o mar.
Subitamente, junto à linha do horizonte, começamos a ver os primeiros
relâmpagos.
Em pouco tempo tinham surgido nuvens escuras vindas do horizonte e que,
rapidamente se alastravam por todo o céu. Pouco depois, as trovoadas eram já
muito fortes. Ficamos os dois um pouco assustados e resolvemos entrar no
carro. Ao atravessarmos a cidade começou a chover fortemente. Eu tinha um
cliente para visitar em Felgueiras, a cerca de 60Km da cidade do Porto e,
para me afastar da cidade e do temporal que aparentemente causara,
resolvemos dirigir-nos para lá de imediato.
Nessa noite dormi, pelo menos seis ou sete horas, o que já não
fazia há algum tempo. Acordei sentindo-me cheio de energia. Dirigi-me à
janela; lá fora continuava a chover. Desejei que fizesse sol, muito sol.
Fiquei em frente à janela aberta fazendo aquilo que, parecia ser uma
respiração em uníssono com o céu, como se estivesse a puxar o sol e a soprar
para longe as nuvens escuras. Só ao fim de quinze minutos os raios de sol
começaram a irromper timidamente por entre as nuvens. Continuei e, ao fim
de meia hora, o céu estava limpo, azul, sem nuvens, e o sol brilhava
intensamente.
Devo referir que, nestas fases, por vezes, o meu estado de espírito
era muito susceptível. Quando contrariado por algo que considerava absurdo,
enfurecia-me facilmente. Após uma desavença com algumas pessoas, fiquei
indignado e desejei que trovejasse, que chovesse, etc.
Choveu e trovejou intensa e continuamente, durante três dias
consecutivos. Ao fim desse tempo apercebi-me pelas notícias da rádio e da
televisão que o mau tempo ameaçava atingir características catastróficas: a
barragem de Crestuma estava em risco de rebentar e havia vários animais e
gado mortos pelas cheias no Ribatejo. A morte destes animais inocentes
enterneceu-me e senti que eu poderia ser responsável pelo que estava a
acontecer. Recordo-me que ouvi estas notícias quando cheguei, já tarde, ao
hotel; deveriam ser umas cinco horas da manhã. Desejei, de uma forma
natural, que todo esse temporal terminasse e que voltasse a fazer bom tempo;
em seguida deitei-me e dormi. Quando acordei, quatro horas depois, estava um
sol radioso e um céu azul e eu estava calmo e com uma sensação de paz.
Liguei o rádio e ouvi as notícias. O tempo melhorara por todo o país, o
nível do rio baixara e já não havia o perigo de a barragem rebentar. As
notícias referiam que o estado do tempo começara a melhorar rapidamente a
partir das 5 horas da manhã.
Nos restantes eventos que ocorreram, o meu estado psicológico
desviou-se cada vez mais da normalidade. O choque e o atrito do mundo com a
minha realidade interior era grande e eu não estava a conseguir controlar,
com bom senso, a elevada energia que pulsava dentro de mim. Também a minha
velocidade interior e exterior eram muito grandes e desfasadas com a
movimentação lenta dos outros e da sociedade em que vivia inserido. Tudo
isso travava-me e enervava-me fazendo-me progressivamente perder o
controlo...
………………………………..…...…………………………………….
– O meu grande problema, Íris, são estes longos períodos de
desalento que se sucedem à queda de um desses estado de elevada energia –
desabafava Atlan – estes longos períodos são em tudo muito semelhantes a uma
depressão psicológica. As causas são outras mas a sintomatologia é idêntica.
Ao “olhar nu” de um psicólogo menos atento toda esta minha problemática não
passaria de um vulgar “transtorno bipolar”, um desequilíbrio químico no meu
metabolismo, algo que altera a produção dos neurotransmissores que actuam
entre as sinapses cerebrais produzindo assim uma tendência para eu oscilar
entre fases de euforia e confiança e fases de desânimo e depressão. Sim,
suponho que possuo em mim alguma tendência para esse desequilíbrio, sim… o que
agrava a minha situação. Mas também não me parece que possa encarar-se toda
a minha problemática apenas por esse ângulo. Seria procurar encontrar uma
explicação demasiado simplista. No entanto, essa tendência psíquica para o
desequilíbrio é aniquilante quando me arrasta para os abismos do desânimo e
da depressão. Aí passo a ser eu o principal adversário e atrofiador de mim
mesmo, para além de todas e quaisquer adversidades inerentes ao meu
percurso.
Realmente, pensava Íris, essa personalidade triste e apagada em que
mergulhava parecia nada ter a ver com aquele Atlan brilhante e entusiasta,
transbordante de energia e poder que conhecera em Montserrat, nas Filipinas,
durante aquela feroz erupção vulcânica.
Parecia que a sua anterior capacidade para actuar na realidade
moldando-a aos seus desejos se invertia; e que esta se transformava em algo
que se lhe opunha e o contrariava, abafando-o numa demolidora asfixia...
……………………………………..………...………………………….
Asfixia
O computador não arrancava.
Desligou-o e
voltou a ligá-lo.
Nada.
Agora o écran do monitor nem
dava sinal de vida.
Insistiu mais duas vezes.
O mesmo resultado.
Ia insistir mais uma vez, mas
pensou que, naquele momento, de nada iria adiantar.
Não era a primeira vez que uma
coisa daquelas lhe acontecia. Na verdade, aquele tipo de ocorrências era
frequente.
– Bem, tentarei mais logo –
disse com um suspiro.
Tinha de ir à vila e portanto
enfiou-se no carro e arrancou.
Ligou o rádio do carro.
Apetecia-lhe ouvir música, para espairecer...
O rádio começou a tocar e
depois desligou.
“Oh, não!” pensou Atlan. “Terá
avariado?”
Deu-lhe uma pancadinha e o
aparelho soltou algumas notas musicais. A seguir calou-se de novo.
Encostou o carro à berma da
estrada. Retirou o painel destacável e voltou a introduzi-lo.
“Talvez seja mau contacto”,
pensou.
Nada.
“Bom, desisto”, e arrancou de
novo.
Havia dias em que nada
funcionava direito, em que tudo avariava.
“Isso não era o pior”, pensou
Atlan.
O pior, para Atlan, era o que
acontecia no plano afectivo e profissional: o mesmo tipo de bloqueios.
“Lamentamos informá-lo que o
seu livro não se insere nas nossas linhas editoriais...”, recordou-se.
O pior não era isso. O pior
era quando se deixava dominar por uma sensação de asfixia e entrava em
pânico – tinha reais dificuldades em respirar.
Estacionou o carro no parque
do supermercado e saiu pensativo na mensagem que lera, essa manhã, no
telemóvel:
“Afinal não vou poder estar
contigo no teu aniversário.”
Enfim, era apenas mais uma
desilusão, no meio de tantas outras.
Provavelmente, passaria o seu
dia de anos sozinho. Como sempre.
Enquanto fazia as compras
mecanicamente viu uma cara bonita. Olhou-a com simpatia. Ela atirou-lhe uma
cara de susto, como se tivesse acabado de ver o personagem do “Alien”.
“Porque é que, ainda há poucos
anos, tudo era tão diferente?!...” interrogava-se e voltava a interrogar-se
Atlan.
Quando chegou a casa, entrou
no seu quarto e ligou a aparelhagem musical. Sintonizou-a na sua emissora
preferida.
Estava a tocar Sade Adu. O seu
último trabalho, “Sade lovers rock”.
Atlan adorava aquela música.
“Nem tudo é mau, afinal”,
pensou.
O aparelho fez um “pfff...” e
a emissora calou-se.
“Ter-se-á
dessintonizado?”,
pensou. Desligou e voltou a ligar o aparelho.
Voltou a premir o botão que
sintonizava a XFM.
Nada.
...
Da mente de Atlan soltavam-se
espirais confusas.
“Será a minha própria
força que me faz
estas coisas? Que me cria todos estes bloqueios? Ou será que é o mundo que
me cospe anticorpos porque me toma por um corpo estranho?”
“Será que estou a utilizar o
meu próprio poder contra mim?... e porquê?”
“Será que não estou a gerir
bem os meus recursos?”
“Será que tenho uma força
maior do que suponho , tão grande que consegue bloquear completamente a
minha vida, e isolar-me numa esfera de aço onde mirro aprisionado?”
“O que é que se passa?”
...
Quando passou por casa de
Carlos ele disse-lhe:
– Passa por aqui mais logo
para irmos tomar um copo.
Atlan recordou o género de
locais mundanos onde Carlos gostava de
tomar um copo
e começou a dizer:
– Carlos, não posso porque o
mundo está fech...
Reflectiu melhor e não
terminou a frase.
Como poderia explicar-lhe que
o mundo estava fechado para ele? E que só iria sentir-se pior ao sair com
ele e ver tantas caras lindas que lhe estavam vedadas?
Atlan sentia que quase tudo
lhe estava vedado naquele mundo. Por isso optou por dizer simplesmente:
– Carlos, hoje não posso.
Hoje não posso sair contigo.
E rumou para casa com o olhar
desfocado no infinito.
………………..…………………………………………………………….
Por vezes Atlan mergulhava na antítese do seu poder.
Por vezes Atlan mergulhava num anti-poder.
Fechava-se, então, como uma ostra, tão dentro de si...
…que sentia todos os outros, todo o mundo, fechar-se também para
ele, negando-lhe toda a participação, convívio, afecto, amizade e amor.
Sentia que o mundo o ostracisava!
Era a solidão máxima. Caminhava só, num mundo que o ignorava.
O que entretanto mais o surpreendia era que ninguém estava
interessado na Vida! Na verdadeira Vida! Todos se contentavam com esta
pseudo-morte que todos vivemos com fim anunciado.
‘Transmutação do Homem’? ‘Verdadeira Vida’? ...linguagens que
ninguém compreendia.
Neste mundo da morte, desejar a vida parecia um pecado, ou até uma
heresia, demasiadamente impensável.
E o isolamento entre ele e todos os outros tornava-se insuportável.
Até que o suplício atingiu o paroxismo e Atlan, num gesto samsónico
de revolta, arrancou do seu próprio ser, que era a única coisa que ainda
possuía, a força suficiente para quebrar todo aquele estado angustiante.
Afinal o Transmutalismo era também isso: transmutar uma situação
desoladora em algo belo. Iria fazê-lo, pelo menos para já, através das
formas que lhe fossem mais acessíveis. E uma dessas formas seria a Arte.
Sim, prosseguiria a Saga da sua luta pela Transmutação.
E sim, voltaria a pintar, e a consolidar a expressão (pelo menos a
artística) de uma nova forma de enfrentar a vida.
………………………………………..…………………………………….
Atlan e a Meta-Arte
No refúgio lusco-fusco do seu
pálido atelier, Atlan decidiu recomeçar a pintar.
Vislumbrava finalmente uma luz ao
fundo do túnel.
Enquanto olhava o sol poente, com
uma perna encavalitada sobre o parapeito da janela, decidiu que contra tudo
e todos iria continuar a sua pesquisa.
Até hoje ninguém compreendera a
sua Arte. Nem mesmo os especialistas. Ou muito menos esses.
“Tal como a Relatividade...”,
pensou, “...Einstein disse que as crianças eram as que melhor o
compreendiam. Porque não estavam atafulhadas de ideias preconcebidas...”
Era duro e difícil caminhar,
assim, num mundo. Contra a maré.
Mas, agora, ele acreditava em si
próprio.
Acreditava na inovação do seu
trabalho. E isso era o mais importante!... e também porque a Arte era o seu
modo de desenvolver a MetaConsciência. E a sua comunhão com a Linguagem
Aleatória Existencial...
Libertara-se de vez das dúvidas
impostas pelos comentários dos críticos de arte e pelas exposições quase sem
vendas.
“Quando se acredita numa coisa é
preciso ir até ao fim, mesmo que ninguém nos compreenda”, reflectiu.
Afinal, os comentários e críticas
que lhe tinham feito algumas das “autoridades” do mundo da arte, não faziam
sentido, e só demonstravam como não tinham alcançado os significados
profundos da sua obra: nem os aspectos técnicos, plásticos, nem tão pouco os
fundamentos teóricos.
Alguns até o tinham confundido
com os surrealistas! E opinaram que o que ele estava a fazer “estava
ultrapassado”, pertencia “ao passado”!...
Quando era precisamente o
contrário...
A Meta-Arte nunca havia existido.
Pertencia ao Futuro.
Então Atlan ergueu um cálice de
Porto e brindou:
“Ao futuro do Impossível
Próximo…”
Fim do 1º Volume
No 2º Volume…
…………………………………………………………………………..
Atlan constata duas realidades: a do ser humano e a do meio que o envolve:
A da fragilidade do ser humano efémero, escravo das vicissitudes da vida, à
mercê dos elementos, das circunstâncias mais ou menos desfavoráveis da vida,
à mercê da vilania dos outros seres humanos, e condicionado pelo espaço e
pelo tempo que não controla, principalmente este último. Ser efémero escravo
da morte.
E a dura realidade do meio que envolve o ser humano e que o aprisiona nas
leis do espaço e do Tempo e de todas as limitações inierentes que o
condicionam.
Atlan não pode aceitar nem uma nem outra. Tanto a realidade da fragilidade e
efemeridade da sua natureza de humano como a opressora realidade em que
vivemos são inaceitáveis.
Viver com essas duas realidades arrastara-o pela depressão dos longos Anos
Negros.
Finalmente, vê através da arte , principalmente através da sua pintura, uma
forma de começar a idealizar a transmutação dessas duas realidades
transcendendo-as. A frágil condição de ser humano transmuta-se na de um ser
desprovido de limitações e a castradora e sofrida realidade é transmutada na
sua pintura por uma realidade ao serviço do novo ser humano transmutado.
A arte foi assim o seu ponto de partida. A realidade opressora não poderia
pura e simplesmente ser aceite. Terá de ser transmutada numa realidade mais
bela e cujos horizontes são mais promissores. A realidade sofrida,
castrante, escravizante e opressora não é mais pintada sem que seja pintada
também a sua transmutação na nova e bela realidade ao serviço do homem
transmutado e transmutador. A sua arte reflecte e representa a transmutação
do homem num deus. A condição humana é rejeitada para se converter na
espécie divina do novo homem. E as leis da natureza e do espaço-tempo são
alteradas pela consciência deste novo ser que deixa de ser um simples
escravo à mercê dos elementos para se tornar o criador-recriador da própria
realidade. E com tudo isto Atlan cria uma nova corrente artística: o
Transmutalismo.
E é através do transmutalismo que Atlan começa a dobrar a penosa realidade
ao invés de a aceitar e de a ela se adaptar.
Entretanto, com Íris encontra a cumplicidade e a sinergia impulsionadora
resultante do encontro e da colaboração de uma alma-gémea.
Organiza com ela um expedição de barco para analisar o ser vivo que possui,
provavelmente, a maior longevidade na Terra, o Pogonóforo.
Durante essa expedição debate com Íris o tema da possibilidade da
imortalidade física.
Íris toma conhecimento da quarta abordagem de Atlan à transmutação através
da leitura do seu diário. E encontra nela mais manifestações de poderes
desconhecidos e percepções extrasensoriais. Íris apercebe-se também de que,
Atlan, no estado mental que experiencia durante estas abordagens se torna
num autêntico viajante por realidades alternativas que se encontram
misturadas na própria realidade em que vivemos…
Entretanto, entre Íris e Atlan reuniu-se um pequeno grupo de amigos
fascinados com a ideia da transmutação: Aleator, Tália…
Íris sente a necessidade de desenvolver a sua ideia de que será essencial
enunciar uma espécie de “Princípio da Certeza” para despoletar em nós a “fé”
necessária à realização de actos paranormais e outras acções consideradas
impossíveis pelo pensamento quotidiano. Retira-se da cidade e embrenha-se na
solidão inspiradora da floresta para descobri-lo…
………………………………………………………………………..
Totalmente Rebeldes
– Um Grito de Liberdade
Sempre fui um rebelde.
Toda a vida me disseram para ser como os outros.
Mas nunca acatei o tempo nem a morte.
Nunca gostei de mexer o café no sentido dos ponteiros do
relógio. Gosto de o mexer no sentido contrário. Ao do tempo.
Sei que pareço nadar contra a corrente..
Mas não existirão mais realidades como eu?
– que não queiram sujeitar-se aos
mecanismos da existência?
Se, pelo menos, há o direito a
ser diferente, porque não terei eu o direito a recusar o domínio do meio
sobre mim?
Não existirão outros como eu,
dispersos, por esse mundo fora?...
– Totalmente Rebeldes?...
(Ou; não o seremos todos um
pouco?)
Tudo nos parece dizer que na
natureza tudo perece, tudo morre, tudo envelhece, tudo definha, tudo tem os
seus limites, tudo está sujeito a um poder maior, as coisas são apenas o que
são...
– eu quero ser tudo!
Mesmo as doutrinas mais profundas
e elevadas, subrepticiamente, nos aconselham a aceitar os mecanismos da
existência; falam-nos de infinito mas continuam a reduzir-nos à sujeição. À
insignificância da sujeição aos elementos.
Falam-nos de paranormal e das
nossas imensas capacidades, mas dizem-nos que há certas fronteiras e
limites... ...e quanto ao que toca à transmutação – a quebrar, a furar as
leis que nos regem a nós e aos outros seres vivos... faz-se silêncio! É
tabu! É heresia! É falta de humildade, é ambição,...,é loucura!
Há sempre um
acarneirar... há sempre
fronteiras.
E eu não aceito fronteiras,
quaisquer fronteiras!
Nem limites, nem sujeições.
Haverá outros “loucos” como eu?
Terá de haver sempre um “mestre”?
Não podemos, nunca, deixar de
acarneirar?
É apenas isso que eu sou:
– um grito.
Apenas um grito.
De revolta e
liberdade!
Pelo direito de ser,
“o que me der na gana”!
Atlan,
Eus
Kad
i, Outubro
2000
E um dia
sorriremos sempre
.........
Quando
caminharmos, levitaremos
.........
E
jorrará luz dos nossos olhos
.........
F. Alan Wolf,
“Spacetime and Beyond”
E
todos os tempos se encontrarão num mesmo tempo
|
E
todos os espaços num mesmo espaço
|
E
não haverá mais dor
|
Nem
necessidade
|
da
morte.
|
Atlan
Este livro é:
um Holograma
uma história Quântica
uma Estrutura Complexa
Interligada
um texto Holístico
um
Buraco Negro–Buraco Branco
um Anel de Möbius
um Atractor Caótico
e uma
composição Transmórfica
IGNIUS
O Livro
da Transmutação
(Síntese)
VOL. 2
…………………………………………………………………………..
Atlan constatara duas realidades: a do ser humano e a do meio que o envolve:
A da fragilidade do ser humano efémero, escravo das vicissitudes da vida, à
mercê dos elementos, das circunstâncias mais ou menos desfavoráveis da vida, à
mercê da vilania dos outros seres humanos, e condicionado pelo espaço e pelo
tempo que não controla, principalmente este último. Ser efémero escravo da
morte.
E a dura realidade do meio que envolve o ser humano e que o aprisiona nas leis
do espaço e do Tempo e de todas as limitações inierentes que o condicionam.
Atlan não pode aceitar nem uma nem outra. Tanto a realidade da fragilidade e
efemeridade da sua natureza de humano como a opressora realidade em que vivemos
são inaceitáveis.
Viver com essas duas realidades arrastara-o pela depressão dos longos Anos
Negros.
Finalmente, vê através da arte , principalmente através da sua pintura, uma
forma de começar a idealizar a transmutação dessas duas realidades
transcendendo-as. A frágil condição de ser humano transmuta-se na de um ser
desprovido de limitações e a castradora e sofrida realidade é transmutada na
sua pintura por uma realidade ao serviço do novo ser humano transmutado.
A arte foi assim o seu ponto de partida. A realidade opressora não poderia pura
e simplesmente ser aceite. Terá de ser transmutada numa realidade mais bela e
cujos horizontes são mais promissores. A realidade sofrida, castrante,
escravizante e opressora não é mais pintada sem que seja pintada também a sua
transmutação na nova e bela realidade ao serviço do homem transmutado e
transmutador. A sua arte reflecte e representa a transmutação do homem num deus.
A condição humana é rejeitada para se converter na espécie divina do novo homem.
E as leis da natureza e do espaço-tempo são alteradas pela consciência deste
novo ser que deixa de ser um simples escravo à mercê dos elementos para se
tornar o criador-recriador da própria realidade. E com tudo isto Atlan cria uma
nova corrente artística: o Transmutalismo.
E é através do transmutalismo que Atlan começa a dobrar a penosa realidade ao
invés de a aceitar e de a ela se adaptar.
Entretanto, com Íris encontra a cumplicidade e a sinergia impulsionadora
resultante do encontro e da colaboração de uma alma-gémea.
Organiza com ela um expedição de barco para analisar o ser vivo que possui,
provavelmente, a maior longevidade na Terra, o Pogonóforo.
Durante essa expedição debate com Íris o tema da possibilidade da imortalidade
física.
Íris toma conhecimento da quarta abordagem de Atlan à transmutação através da
leitura do seu diário. E encontra nela mais manifestações de poderes
desconhecidos e percepções extrasensoriais. Íris apercebe-se também de que,
Atlan, no estado mental que experiencia durante estas abordagens se torna num
autêntico viajante por realidades alternativas que se encontram misturadas na
própria realidade em que vivemos…
Entretanto, entre Íris e Atlan reuniu-se um pequeno grupo de amigos fascinados
com a ideia da transmutação: Aleator, Tália…
Íris sente a necessidade de desenvolver a sua ideia de que será essencial
enunciar uma espécie de “Princípio da Certeza” para despoletar em nós a “fé”
necessária à realização de actos paranormais e outras acções consideradas
impossíveis pelo pensamento quotidiano. Retira-se da cidade e embrenha-se na
solidão inspiradora da floresta para descobri-lo…
………………………………………………………………………..
Atlan e a Meta-Arte
No refúgio lusco-fusco dos seu pálido
atelier, Atlan decidiu continuar a pintar.
Vislumbrava finalmente uma luz ao
fundo do túnel.
Enquanto olhava o sol poente, com uma
perna encavalitada sobre o parapeito da janela, decidiu que contra tudo e todos
iria continuar a sua pesquisa.
Até hoje ninguém compreendera a sua
Arte. Nem mesmo os especialistas. Ou muito menos esses.
“Tal como a Relatividade...”, pensou,
“...Einstein disse que as crianças eram as que melhor o compreendiam. Porque não
estavam atafulhadas de ideias preconcebidas...”
Era duro e difícil caminhar, assim,
num mundo. Contra a maré.
Mas, agora, ele acreditava em si
próprio.
Acreditava na inovação do seu
trabalho.
E isso era o mais importante!
...e também porque a Arte era o seu
modo de desenvolver a MetaConsciência. E a sua comunhão com a Linguagem
Aleatória Existencial...
Libertara-se de vez das dúvidas
impostas pelos comentários dos críticos de arte e pelas exposições sem vendas.
“Quando se acredita numa coisa é
preciso ir até ao fim, mesmo que ninguém nos compreenda”, reflectiu.
Afinal, todos os comentários e
críticas que lhe tinham feito as “autoridades” do mundo da arte, não faziam
sentido, e só demonstravam como eles não tinham alcançado os significados
profundos da sua obra: nem os aspectos técnicos, plásticos, nem tão pouco os
fundamentos teóricos.
Alguns até o tinham confundido com os
surrealistas! E opinaram que o que ele estava a fazer “estava ultrapassado”,
pertencia “ao passado”!...
Quando era precisamente o
contrário...
A Meta-Arte nunca havia existido.
Pertencia ao Futuro.
“Ao futuro do Impossível Próximo”,
cantarolou Atlan.
Até o tinham aconselhado a conviver
mais com os “artistas contemporâneos” e a “visitar mais exposições para ver o
que se passava nos padrões da estética”...
Como se ele já não o tivesse feito!
Eles, os honoráveis apreciadores, não
compreenderam, ou não sabiam, o estudo profundo, quase sobre-humano, que ele
realizara a toda a Arte, a todas as formas de Arte. E a tudo o que com a Arte se
relacionava. Uma análise profunda e minuciosa através da História, e também na
actualidade. Uma pesquisa muito para além dos estudos universitários...
Evidentemente que não desprezara uma
longa digressão pelo que faziam os seus colegas contemporâneos...
E era para ele quase impossível não
encontrar, em Arte, trabalhos que não apreciasse.
(e até havia, na arte contemporânea,
algumas coisas que se aproveitavam)
Mas era uma arte que estava seca e
decadente.
E, apesar de Atlan não ignorar o que
ela tinha de belo, achava que a arte contemporânea só pertencia ao passado.
“Não, não iria vender a sua alma para
fazer coisas semelhantes aos outros, aos “contemporâneos”, só porque isso
agradaria mais às pessoas, que já estavam familiarizadas com esse tipo de arte,
com essa estética comum e aceite pelos círculos sociais e artísticos...”
“As pessoas só sabiam apreciar uma
nova forma de arte depois de esta ter sido digerida e “aceite” pela opinião das
“autoridades”, cogitou Atlan.
“A não ser que se possuam bons
padrinhos...”
Mas o comercialismo era algo que
sempre fora incompatível com a pureza da sua alma.
Só lhe restava a ‘estrada de Van
Gogh’...
O qual, apesar de ter sido um
inovador e de ter pintado mais de oitocentos e quarenta quadros, nunca vendeu
nenhum. E nunca foi reconhecido...
O seu reconhecimento post-mortem
só serviu para engordar meia dúzia de “comerciantes de arte” que leiloaram as
suas obras por milhões...
Van Gogh...
“Como é triste a história de um homem
que não é reconhecido...”
“Como é triste a história de qualquer
‘Opera-dor’ que contribuiu com uma grande obra — com uma grande “Ópera”
— para a humanidade, e que não recebeu qualquer reconhecimento em troca...”
“Mas não faz mal”, pensou.
“Quando se faz uma obra realmente
válida, ela fica “registada” para sempre, como um contributo enriquecedor, na
humanidade e no Todo.”
“Pelo menos é assim que sinto. Chego
mesmo a pensar que, mesmo que um gigantesco incêndio devorasse todas as grandes
obras de arte, elas perdurariam de algum modo. Tenho a firme sensação de que, ao
realizarmos uma grande obra, impressionamos definitivamente o “tecido da
existência”; engrandecemo-lo. E, de alguma forma, a obra fica aí registada.”
“Por isso, nunca é em vão!...”
“Mesmo para aqueles cujas fabulosas
obras nunca chegaram a ser conhecidas e que acabaram por morrer em sótãos
poeirentos...”
“Mesmo para esses...”
“Porque contribuíram com algo de
belo... para a existência.”
“Se não estivéssemos tão mergulhados
nesta sociedade capitalista e de consumo compulsivo, talvez nos apercebêssemos
de que os verdadeiros valores estão nos verdadeiros actos e nas verdadeiras
obras...”
Atlan achava que o que era
realmente importante em alguém eram as suas obras e não o que ele dizia ou fazia
crer — ou o seu “status”, ou a “autoridade”, ou a “projecção” que lhe davam os
“média”.
Mas isso, era precisamente o
contrário do que o “mundo” achava...
Deu duas voltas ao atelier.
Entretanto, lançou uma “vista de
olhos” pelos seus quadros amontoados ou encostados às paredes.
Eram de várias épocas e os seus
“estilos” pareciam ser todos diferentes uns dos outros...
Mas não eram.
“São apenas variações de uma mesma
corrente artística desdobrada nos seus vários estilos de representação”, foi do
que ele se apercebeu ao reparar que todos eles continham os mesmos fundamentos
plásticos do transmutalismo.
“Então foi por isso que não consegui
evitar aquela multiplicação de estilos...”
O que confundira os galeristas que,
automaticamente, tinham afirmado: “nota-se que o artista ainda não se
encontrou...”
“...que ainda não definiu o seu
estilo...”
Claro que, uma coisa era ser um
pintor preocupado em atingir um estilo único, inserido numa determinada corrente
artística e, outra coisa completamente diferente, era ser um pintor a
desenvolver uma corrente artística em si mesma.
A qual englobaria, certamente,
diversos estilos...
“...assim como, por exemplo, nem
todos os artistas da «corrente abstracta» pintaram ao estilo de Picasso.”
Mas uma ideia que lhe tinha surgido,
ao passar os olhos pelos seus diferentes quadros, fora a de enunciar as
características comuns a todos eles e que evidenciavam o que ele entendia como
sendo a “corrente de arte transmutalista”.
“Que ideia preciosa!”, pensou Atlan
entusiasmado.
“Como foi que nunca me ocorreu?”
Claro que já fizera algo um pouco
semelhante de forma intuitiva e difusa, mas...
Fazer um estudo sistemático seria
algo muito importante para a sua Arte.
Até mesmo para ele próprio a
compreender melhor! Pensou enquanto começava a pegar nos quadros e a pendurá-los
ao longo das paredes.
Precisava de obter uma visão de
conjunto.
Mas foi aí que a campainha tocou
interrompendo-lhe os pensamentos.
Era Tália.
A “misteriosa” Tália McFee.
— Tália!... há quanto tempo!... As
tuas raras visitas são sempre um bálsamo para o meu isolamento!
— Olá Atlan!... não são tão raras
assim...
— Entra, entra. O que queres tomar?
— O que tens para oferecer?
— Bem, tenho sumo, Porto, chá, e... é
tudo.
— Tomaria um Porto, Atlan, obrigada.
— Muito bem.
— Mmm... o teu atelier hoje parece
uma galeria — disse Tália olhando, interessada, para as paredes forradas de
quadros.
— Tinha acabado de os distribuir
pelas paredes. É que estava a fazer uma coisa interessante. Talvez até me possas
ajudar. Estava a fazer uma análise e um inventário das características
transmutalistas comuns aos meus quadros.
— E tens aqui reunidas obras de todas
as tuas fases, pelo que vejo...
— É precisamente isso: quero fazer
uma análise extensiva a todas as minhas “épocas”. Quero “agarrar o pássaro”.
Quero equacionar a minha arte.
— Excelente ideia. Apesar do teu
‘amor’ pela indefinição, por vezes é preciso definir um pouco... até para melhor
compreenderes o que estás a criar.
— Exacto!... mas como é que eu não me
lembrei de fazer isto antes?
— Talvez não fosse ainda a altura. Se
definirmos qualquer coisa demasiado cedo corremos o risco de a atrofiar... Mmm,
o teu Porto é mesmo bom!
— Como sei que és apreciadora, tinha
aqui este “vintage” à tua espera...
— Wau, que honra!...
...
— E então Tália, por onde tens
andado?
Tália era uma escultora. Muito
invulgar.
Também ela pesquisava novas formas de
esculpir...
— Por aí. Pelos “Infinitos”... —
respondeu ela — ...na minha louca cavalgada pelo Impossível Próximo.
— Imagino, imagino... — sussurrou
Atlan baixinho com o olhar vago no infinito.
Tália era tanto ou mais “alienígena”
do que ele.
Era uma jovem desconcertante...
...quando mergulhava em alguma coisa,
fazia-o tão profundamente até atingir o paroxismo. até sair pelo “outro lado”.
Tinha uma vontade firme como o aço.
Não se deixava levar ou convencer pelas opiniões estabelecidas. Viessem elas de
uma maioria ou de uma creditada minoria.
De facto, Tália nunca se deixara
vergar pelo “establishment”.
Nem pelo academismo. Frequentara
apenas os primeiros anos de dois cursos superiores e “devorara” rapidamente os
seus conteúdos por sua própria iniciativa. Até ao fim.
E quando achou que já nada de
importante tinha ali a aprender — e depois de ter levantado diversas questões às
quais os seus professores não souberam responder — retirou-se.
Na verdade também estava farta do
imbecilismo e das brincadeiras fúteis com que os outros estudantes queimavam
o tempo.
E o “Tempo” era vital para
ela, apesar de não acreditar na sua existência real. Ou talvez por isso mesmo.
Alguns sugeriram-lhe também que ela
estava deslocada no tempo.
Mas Tália não se importava. Seguia o
seu caminho. Em linha recta.
Além disso havia muitas outras áreas
do conhecimento que lhe interessava aprofundar.
E principalmente porque, como todos
os que formavam aquele pequeno grupo de amigos, havia nela um objectivo comum: a
transmutação.
Ela bela, inteligente e encantadora.
E, todavia, de uma enorme simplicidade. E nenhum convencimento.
Ela era Ela.
— Conta-me então sobre os resultados
que obtiveste pela análise à tua arte... — pediu Tália.
— Bem... — disse Atlan pensativo e
olhando para uma das paredes repleta de quadros — começo por vislumbrar três
aspectos principais:
1.
Os que presidem à
génese e motivação da obra
2.
Os que fazem parte do
meio pessoal ou instrumento mental de execução utilizado
3.
Os que caracterizam os
aspectos técnicos e físicos de execução da obra
1. Elementos da génese
Os símbolos e mitos do transmutalismo - a linguagem aleatória Universal
Os símbolos do transmutalismo
estão normalmente subjacentes na mente do artista nos momentos iniciais da
execução da obra. Essa presença indelével é o suficiente para que, a meio ou no
fim da pintura comecem a emergir formas, elementos ou um contexto geral,
relacionado com a transmutação. Tanto assim que, o artista, não deve forçar, com
o seu consciente, a aparição dessas formas. A utilização do consciente e do
racional deve ser mínima.
Outro elemento que deve presidir à
génese é uma clareza de espírito capaz de transparecer para a tela, através de
pinceladas perfeitamente aleatórias, a linguagem
existencial. Entendo o aleatório não como sinónimo de acaso mas sim como a
expressão quase indecifrável da existência. Uma linguagem
multi-dimensional, caleidoscópica.
Na medida em que não é uma linguagem
comum, deveremos considerar essa expressão da natureza como uma infra-linguagem
ou como uma meta-linguagem?
Poderíamos tender a classificá-la de
infra-linguagem já que, devido à nossa percepção e consciência limitadas, se
assemelha a um “ruído” de fundo. “Ruído” semelhante ao écran de uma televisão
que não recebe sinal de nenhuma emissora. “Ruído” semelhante ao ruído de fundo
do universo captado pelos radiotelescópios e que corresponde à recepção de todas
as ondas electromagnéticas e partículas que nos chegam, vindas do espaço.
“Ruído” também semelhante ao da configuração com que caem uma porção de pequenas
folhas de chá lançadas à sorte e na qual alguns adivinhos chineses procuravam
ver o futuro ou descortinar os tramites de alguma situação.
Tudo está interligado e qualquer uma
dessas configurações acidentais é uma rosto, uma expressão do mega-corpo
existencial, que contém em si mil significados, mil interpretações. De um
qualquer desses “ruídos” podemos fazer um número ilimitado de leituras. É isso
que constitui o aspecto singular desta “linguagem” aleatória: é não
determinista, é não limitada e não limitante. Possivelmente, se ampliássemos
ou reduzíssemos uma das nossas línguas humanas ao ponto de que cada texto,
cada frase, cada palavra traduzisse ou pudesse traduzir uma imensidade de
significados diferentes e possibilitasse assim uma “infinidade” de
interpretações e leituras, essa língua redundaria em algo semelhante a um ruído
aleatório – aparentemente casual e sem sentido para a nossa mente habituada ao
unidimensionalismo e ao determinismo da definição. Cada palavra ampliar-se-ia
até à enormidade para poder conter em si todas as palavras e os significados que
lhe estão associados ou, então, reduzir-se-ia até pouco mais de um ponto para
poder ser o menos definidora possível e, assim, castrar minimamente outros
significados diferentes para essa mesma palavra – o que se assemelha bastante à
multidão de “pontos” que constituem o ruído de fundo cósmico.
Isto é, não estamos habituados a
lidar com sistemas multi-significantes. Num desses sistemas cada um dos seus
elementos (palavras, objectos ou seres) conteria em si mesmo não só o próprio
elemento ou significado mas também todos os outros elementos ou significados
diferentes sob a forma de realidades menos “pesadas” ou menos prováveis. Mas
igualmente possíveis, contingentes e coexistentes. Da não limitação. Para que
cada coisa possa ser não-limitada ela necessita conter em si tudo aquilo que não
é, tudo aquilo que é diferente de si. Necessita ser tudo. O que conduz de novo à
ideia de completar o axioma matemático da identidade (A=A) com A=A
Ù
A¹A.
Não só um elemento precisa conter em
si todos os outros elementos, mas também todas as fases temporais de si próprio.
Não compreendo como é que o universo
é dinâmico, e não estático, se assim não for.
E o que é esta omniexistência,
esta omniontologia, esta multiplicidade – de um elemento ser, ao mesmo
tempo, todos os [outros] elementos?
Na perspectiva da Física, sabemos
actualmente, através da célebre equação E=mc2, que a matéria é
energia convertida em massa e que, portanto, todos os elementos partilham uma
forma, essência ou natureza comum – a de serem energia.
A energia tem uma natureza indefinida
e é extremamente versátil. Uma forma de energia é passível de se transformar em
qualquer outra: energia térmica em energia cinética, energia cinética em energia
eléctrica, ou magnética, e vice-versa.
A massa pode transformar-se em
energia e a energia em massa, isto é, por trás dos elementos materiais há toda
uma versatilidade e multiplicidade potencial.
A transmutação dos elementos passa
por aí.
Depois de toda esta reflexão
parece-me mais adequado classificar a linguagem aleatória existencial não
como um ruído, não como uma infra-linguagem, mas sim como uma
meta-linguagem pois ultrapassa o conceito de linguagem.
E, possivelmente, o transmutalismo
não será própriamente arte. Talvez deva ser compreendido como fazendo parte de
uma meta-arte.
A semântica do aleatório é a base da
arte transmutalista.
É claro que quanto mais puro
for esse ruído, isto é, quanto menor for a intervenção do consciente,
mais puras e sublimes serão as formas plásticas resultantes...
Uma grande sensibilidade e um vazio
interior devem estar presentes, no artista, durante o início da pintura, para
permitir essa expressão aleatória. Deve ser a “consciência universal”
a pintar por nós. Devemos deixar fluir os movimentos que vão impregnando o
quadro de manchas e cores sem os filtrar por nenhum juízo consciente. O artista
deve colocar-se mais na posição de parteiro da existência do que
de artesão. Deve funcionar como um canal que ajuda a nascer, na tela, a
perfeição da forma, da cor e da mensagem de que só o Absoluto é capaz. Mais
tarde, a meio ou na parte final da execução da obra, descobriremos como essas
formas aleatórias se enquadram fazendo emergir um sentido...
— Atlan, devo dizer-te que adorei a
tua explanação — interveio finalmente Tália — mas, mesmo assim, não sei se
atingi bem a essência do que é a linguagem aleatória da existência e de como a
arte transmutalista pode tê-la como seu suporte e ponto de partida...
— É natural. O melhor será dar-te um
pequeno exemplo prático. Toma faz aí meia dúzia de rabiscos — disse-lhe ele
estendendo-lhe um papel e uma caneta.
— Rabiscos?
— Sim, completamente à sorte, sem
pensar. Depois explico-te porquê.
Bastaram três ou quatro segundos para
que a caneta que Tália deixou deslizar pela folha deixassem nelas alguns riscos
casuais.
Em seguida, Atlan apenas começou a
acentuar alguns dos traços...
E depois pareceu completar
ligeiramente outros...
E após alguns minutos obteve o
resultado que considerou suficiente para exemplo…
— Sim, agora compreendo melhor o que
querias dizer com a Linguagem Aleatória... quem diria que, daqueles rabiscos,
sairia uma imagem tão “inteligentemente” estruturada.
— É verdade, parece um ser marinho,
semelhante a uma orca, a emergir das águas de um oceano revolto mas cheio de
sol... Mas vou então prosseguir a minha análise com aquilo que me parece ser o
segundo aspecto identificador do transmutalismo em arte:
O meio mental utilizado...
2. O meio mental utilizado
A metaconsciência – estados não
comuns de realidade – interpretação das formas aleatórias
A meio e na parte final da obra, o
objectivo é permanecer num estado de espírito que, nos permita funcionar,
fundamentalmente, com áreas mentais mais elevadas, as quais designo como
MetaConsciência. Áreas, possivelmente, ainda embrionárias ou então
atrofiadas que se situarão num nível oposto ao do inconsciente ao qual se
atribuem os abismos da mente. Estas alturas da mente identificar-se-ão
mais com a “consciência” da energia universal, com a região situada entre
o estado humano e o divino, do que com os medos, dores e prazeres do nosso ego.
O nosso estado de consciência deve
ser capaz de percepcionar e de exprimir elementos de estados não comuns de
realidade. Suponho que ocupando o mesmo espaço, da realidade que
normalmente percepcionamos, encontram-se outras realidades (quase como cascas de
cebola), que não conseguimos perceber no estado comum de consciência. Devemos
ser flexíveis para nos podermos mover para além do nível comum de realidade e
transportar para a tela as nossas impressões. Por vezes, numa mesma obra,
surgem-nos assim, diversos níveis de realidade, diversos espaços e diversas
localizações temporais. As fronteiras da realidade e do espaço-tempo a que
estamos habituados, desvanecem-se e as realidades surgem como um todo,
desprovidas dos seus limites.
Um estado metaconsciente
é essencial para interpretar, de forma consistente, as formas
aleatórias que foram semeadas, na primeira fase e no meio da obra e
completá-las ou dar-lhes uma expressão mais vincada, mais definida, mais
inteligível. Só este estado mental pode imprimir uma interpretação ascendente e
não se prender, apenas, a interpretações arquetípicas ou fantasmáticas do
inconsciente. Assim, quando a nossa interpretação faz surgir das manchas
aleatórias, os monstros do nosso inconsciente ou, imagens que se prendem ao
maniqueísmo do bem e do mal e à dualidade da nossa cultura, é para os inserir
num contexto mais vasto e mais liberto das vicissitudes do nosso ego.
3. Características técnicas e físicas
o movimento – transmutações da cor
- pinceladas quânticas – vórtices de energia e movimento – deformações
energéticas do espaço-tempo em redor dos centros de energia – deformação dos
objectos – transmutações das formas e dos seres – formas metamórficas –
representação frequente de estados de transição – a indefinição (formas e cores)
– a indefinição dos limites das formas, do espaço e do tempo – espaços múltiplos
/ caleidoscópio de paisagens – fusão com o meio – os dois tipos de arquétipos
O movimento
é omnipresente na pintura transmutalista. As pinceladas distribuem-se ao longo
de linhas de força, as figuras e objectos sofrem alongamentos, os horizontes
expandem-se e a cor movimenta-se em gradações.
As gradações exprimem a
transmutação das cores que se movimentam, apresentando os tons intermédios,
até se transformarem, por completo, noutras cores.
Em determinadas regiões da pintura,
as pinceladas tornam-se quânticas, assemelhando-se ao movimento de
partículas. Aí, a energia irradiada pela figura humana ou pelo objecto é grande
e as manchas do pincel desprendem-se umas das outras seguindo o movimento
causado pelos centros de energia.
Estes centros de energia são os
vórtices de movimento. Qualquer ser que transaccione uma quantidade de
energia acima do comum, como por exemplo um indivíduo em vias de
transmutação, pode comportar-se com um vórtice. Porém, também um objecto
impregnado de energia pode exigir uma representação semelhante.
Estes pólos de elevada energia
provocam deformações no espaço-tempo em seu redor que, como um efeito de
campo, são visíveis na distorção dos objectos ou seres abrangidos.
Existe uma tendência para representar
as possibilidades da transmutação das formas e dos seres ou, pelo menos,
o início desse processo que, também é, em si mesmo, uma forma de movimento.
Em toda a miríade de estados
de ser que se movimentam em níveis de energia não comuns, os limites e as
delimitações da forma esbatem-se e, os seres e objectos ultrapassam as
fronteiras da rigidez, metamorfoseando-se.
Estas formas metamórficas
de seres e objectos, por vezes animizados e por vezes humanizados surgem ao
longo de toda a representação pictórica.
Contudo, a expressão artística
predominante são os estados intermédios. Os estados de transição entre o
ser humano comum e o ser transmutado e, também, as transições entre as formas
em geral e as cores.
A indefinição
possui uma qualidade vital – a independência da rigidez das características da
entidade que por a definirem, também a aprisionam e limitam a isso mesmo.
A figura indefinida ou pouco definida é mais livre e pode, mais facilmente,
transformar-se noutra coisa. A definição rígida é limitante e aprisiona os entes
às suas características. O movimento ascendente geral, que conduz os
seres à transmutação, leva-os a abdicar dos seus limites bem definidos e a
mergulhar na indefinição antes de evoluir para outras formas.
A indefinição traduz, na
pintura transmutalista, a libertação da prisão ontológica e da prisão do
espaço-tempo, prisões estas, que no fundo, se situam na mente dos seres. Uma
forma indefinida, uma idade indefinida, uma cor indefinida. Isto é, a
independência em relação ao tipo de ser, em relação ao tempo, em relação ao
espaço.
A cor e a forma surgem
muitas vezes indefinidas mas, esta indefinição dilata-se, também, aos
próprios limites do espaço e do tempo.
As figuras centrais enquadram-se, com
frequência, não em um espaço, um horizonte, mas sim em vários horizontes e
perspectivas. Estes espaços múltiplos em que se situam os seres são, por
vezes, os espaços subjectivos da mente nos quais vivem. Quando estamos situados
numa determinada paisagem, o espaço que subjectivamente nos envolve não é,
apenas, esse espaço, essa paisagem, mas todas as projecções, todos os panoramas,
aos quais associamos essa vivência. O enquadramento das figuras torna-se assim
um caleidoscópio de horizontes, de paisagens.
Por vezes, a ausência de
delimitação das formas significa uma fusão do ser ou do objecto
com o meio envolvente. A figura está embebida na atmosfera da qual faz
parte.
É necessária alguma sensibilidade para detectar e posteriormente realçar as formas arquetípicas que surgem, por vezes, das pinceladas e manchas mais ou menos aleatórias.
Descubro, geralmente, dois tipos destas imagens:
1) as figuras mais comuns que identifico com os arquétipos gerais do nosso subconsciente ou com estereótipos da nossa vida corrente;
2) outro tipo de figuras que não consigo encaixar nessa categoria mas que, contudo, possuem um perfil ou estilo arquetípico.
Esta segunda classe de imagens
não é tão evidente mas, não deixa de transmitir uma sensação algo familiar como
a dos arquétipos mais comuns e parece reportar a uma realidade ou a uma vivência
menos conhecida pertencente a planos existenciais mais elevados e vividos com
muito menor frequência. Algumas destas formas recordam-me, por exemplo, figuras
evocadas nas visões celestes do místico E. Swedenborg ou dos iogues hindus.
Como observar uma pintura transmutalista
Uma
qualquer coisa é igual e diferente de si própria - Várias imagens numa só imagem
- A atitude de um vidente perante o aleatório - A diferença relativamente aos
criptogramas
Segundo a minha opinião sobre a
incompletude dos axiomas que estão na base da matemática, uma coisa não só é
igual a si mas também diferente. Isto é, contém em si própria todas as suas
diferenças:
“A” é igual a ”A” e “A” é diferente de “A”.
O axioma está assim completo e permite explicar que as coisas se
transformem e transmutem noutras.
Em algumas das imagens que surgem na pintura
transmutalista estão “entrelaçadas” outras imagens. Uma só imagem contém, ou
é, várias imagens diferentes. Normalmente, uma dessas imagens é dominante e
é aquela que sobressai ou é inicialmente percepcionada. Mas, se nos deixarmos
levar pela imaginação, adoptando uma atitude de contemplação flexível vemo-la
transformar em outras imagens. Muitas vezes, essas outras imagens aparecem
também enquadradas em diferentes perspectivas espaciais ou temporais e o quadro
desdobra-se em vários planos, em várias histórias, em várias visões de conjunto.
O descascar da realidade noutras realidades relacionadas.
A
melhor atitude a adoptar perante algumas destas pinturas (aquelas que possuem
maior dose de transmutalismo) é a atitude de um vidente ou adivinho
perante a linguagem aparentemente indecifrável e casual do desconhecido
e da natureza. Isto é o que sempre fizeram os videntes de muitos povos e de
muitas eras quando procuravam ver o futuro ou os meandros de uma situação nas
entranhas de um animal, nos pedacinhos de folhas de chá dispostos “ao acaso”,
nas cartas, nos fragmentos de ossos, na disposição casual de pequenos
búzios lançados sobre uma superfície, etc. O meio utilizado não importa desde
que traduza a linguagem aleatória da natureza.
Talvez que perante a pintura transmutalista, o
observador tenha a visão facilitada e não necessite de grandes capacidades de
vidência, já que, as imagens estão parcialmente definidas e interpretadas pelo
artista que as ajudou a nascer na tela, a partir das iniciais e aleatórias
pinceladas e fragmentos de luz, cor e forma.
De qualquer modo o observador
só terá vantagens em não se deixar prender pela primeira interpretação e se
deixar voar para se poder aperceber de outras imagens acopladas,
tangenciais ou derivantes que, por vezes, existem numa mesma imagem. Descobri
que, em alguns quadros, existe, por exemplo, uma imagem que se transforma ou
transmuta na mesma figura mas em diferentes fases do tempo e que, por vezes, é
um conjunto de figuras a fazê-lo desdobrando o quadro em vários quadros ou
panoramas diferentes com diferentes conteúdos ou fases temporais. É o que
acontece com o quadro “Batalha púrpura” em que cada cavaleiro ou cavalo,
dependendo da profundidade com que são visualizados, assume várias
posições diferentes relativas a diferentes fases do combate. A visão de conjunto
desdobra-se também em fases diferentes da batalha. Para além disso, uma
diferente profundidade visual, permite que nos apercebamos, que
determinadas figuras, transportam em si outras possibilidades a que correspondem
diferentes imagens que talvez não sejam, propriamente, desdobramentos temporais
da mesma figura mas antes potencialidades paralelas da mesma entidade; por
exemplo, ainda no mesmo quadro, na parte superior esquerda existe a forma, mais
preponderante, de um cavaleiro com elmo e com corpo completamente humano que
luta aguerridamente mas que, visto através de outra perspectiva é uma espécie de
anjo, não humano, de asas douradas que não luta mas irradia energia.
Os conteúdos de algumas
imagens (que são aquelas que mais aprecio por serem as que possuem maior
percentagem de transmutalismo) surgem assim como imagens de diferentes níveis de
visualização de um holograma.
Esta é a grande diferença
em relação, por exemplo, aos criptogramas: estes necessitam do esforço
visual para os focar num outro nível para ver, afinal, uma só imagem.
A outra diferença é que aqui,
a focagem deve ser mais realizada com a mente e a consciência do que com a nossa
visão.
—...Bem, e por agora penso
que será o bastante para que o Transmutalismo seja aceite e reconhecido
como uma nova corrente artística — concluiu Atlan.
— A ser assim... seria algo
completamente inédito em Portugal — disse Tália pensativa — já que nunca aqui
surgiu uma nova corrente em arte. E, de resto, contam-se pelos dedos aquelas que
surgiram em todo o mundo, ao longo de todo o tempo...
Como sempre, ele e Tália
tinham-se perdido no tempo.
E era já de madrugada quando
ela, por fim, deixou o atelier do insólito artista...
…………………………………………………………………...………….
Íris
estava convencida de que esta atitude de Atlan, de procurar transmutar através
da sua pintura, contribuíra para a sua entrada numa nova fase mais próxima do
seu ideal.
Entretanto, estreitaram-se os laços de amizade entre ela e Atlan e também entre
a escultora Tália McFee e Aleator. Surgiu entre eles o sentimento de que este
grupo pequeno, mas forte e coeso, fora uma das melhores coisas que lhes sucedera
nas suas vidas. Todos partilhávamos o mesmo objectivo e sentiam-se como
elementos de uma mesma família no seio deste mundo estranho.
Agora não
eram apenas um ou outro indivíduo isolados num mundo que não acreditava na
possibilidade de realizarem os seus sonhos. Eram um grupo de colaboradores e
amigos. Começaram a designar-se a eles próprios por “Akins”, inspirados na
palavra inglesa que significa “irmãos de sangue”.
Esta
união dava-lhes uma força tremenda, era uma intensa sinergia.
Os
extremos tocavam-se... e assim como a primeira fase – o Nascente – parecia ter
representado a desagregação da divindade inicial em múltiplos seres e no
“nascimento” do Homem, a terceira fase – o Poente – iria representar a
reunificação e o renascimento da divindade...
...ou,
talvez mais propriamente, o nascimento de várias divindades.
No fundo,
talvez o objectivo da Existência fosse mesmo esse: a multiplicação ou reprodução
da divindade inicial em várias divindades semelhantes entre si...
...isto
é, nós mesmos: transmutados em seres à imagem e semelhança de... ”deuses”.
………………………………………………………...………………….
“Nunca houve um tempo que
Eu não tenha existido, nem tu, nem todos esses reis; nem no futuro nenhum de nós
deixará de existir...”
Diálogo
entre Krishna e Arjuna,
antigo texto Veda “Bhagavad-gitä”
FASE III
POente
Descobrirei quem sou
para além daquilo que sou
...e me conheço.
Serei o nada para ser o infinito.
E coexistirei num total
intemporal e ilimitado
no espaço.
Serei uma substância simples.
Já o sou,
mas então sabê-lo-ei.
O Diário
de Atlan – 6
Condições e fases essenciais para a transmutação
Com base em toda a investigação e
experiências que realizei penso poder distinguir certas condições e fases
essenciais no percurso orientado para a transmutação pessoal:
–
Antes que tudo deverá existir uma intenção, uma volição ou, talvez melhor,
um intento subjacente de realizar a transmutação. Este intento, mesmo
que diluído ao longo de fases posteriores é determinante na impressão de uma
direcção e de um sentido nos movimentos interiores do indivíduo. É criada
assim uma dinâmica orientada para a abolição ou eliminação dos limites do
ser. Passa a existir uma dinâmica do ser para a transmutação de si próprio
noutro tipo de ser (que aboliu os seus limites). [A transmutação incorpora
uma alternativa à morte como o fim a atingir].
A natureza do ser passa, assim, de rígida a plástica. E a dinâmica
desencadeada pelo intento realiza na natureza plástica do ser uma série de
alongamentos, deformações e diluições conducentes à sua completa
transformação.
–
A segunda fase é uma fase de limpeza. É necessário limpar tudo o que
aprendemos e em que acreditamos. Cada crença impede outras crenças [A crença
de que somos criaturas terrestres castra-nos a crença de que podemos voar. A
crença de que apenas os objectos mais leves que o ar podiam voar impediu, no
passado, a crença de que aviões mais pesados que o ar pudessem fazê-lo]. Por
outras palavras: as crenças são as maiores fomentadoras das dúvidas. As
dúvidas são o principal impeditivo à realização das nossas potencialidades
paranormais.
[...]
Síntese:
0. Condição inicial: O intento para se transmutar.
1. Limpar a fuligem que encobre a nossa essência ou natureza luminosa. Isto
é, desaprender todo o conhecimento imbuído de conceitos de impossíveis e da
“consciência” dos nossos limites.
2. Entrar num estado de relaxe mental e atenuação da actividade consciente
principalmente do raciocínio e da dúvida.
3. Dissolver o nosso eu e viver em fusão com o todo. Adquirir fluidez.
Tomada de consciência de tipo universal: de nós como partículas integradas
no todo. O indivíduo e o todo são um e devem viver em uníssono.
Atenuam-se o egocentrismo e o egoísmo e em contrapartida desenvolvem-se o
heliocentrismo e a oblatividade.
·A
prática da meditação transcendental, da contemplação e da livre dança ou
expressão corporal poderão intensificar a dissolução do eu e a obtenção de
espaço vazio interior que se prestará a albergar energia.
4. A ausência / atenuação
de
·
diálogo interior
· de pensamentos vincados
· do conflito interno
·
da dúvida (habitante quase omnipresente do mundo dos
pensamentos)
e
· a atitude de
desprendimento adquirida nas fases anteriores criaram (ou esvaziaram) um
espaço interior [onde anteriormente não havia espaço]. Esta foi a condição
que permitiu que esse espaço comece, automaticamente, a ser preenchido por
toda a energia anteriormente dissipada pelos pensamentos, conflito e diálogo
interno.
5. Essa libertação das correntes da dúvida e da cápsula apertada do nosso eu
proporcionam-nos Alegria que catalisa mais Energia [suponho que a Alegria é
o maior catalisador de Energia interior].
6. Acções paranormais e percepções extrasensoriais ocorrem espontaneamente.
7. Aumenta a Alegria e a autoconfiança que geram mais Energia.
8. Podem ser usados vários processos para acumulação de
Energia:
- Estimulação da Kundalini
- Meditação Transcendental
- Contemplação
- Fusão com o Todo
- Anulação do Ego
- Absorção da energia solar
- Alinhamento da informação mental
- Alegria causada pelo Amor
- Expressão Corporal e exercitação física
- ‘Imaginação actuante’
- ‘Não-fazeres’ diários
- Estado de indiferença ou abandono
9. Passa-se a um novo estado de ser de elevada energia.
10. Aumenta a distância relativa aos outros elementos da sociedade
11. Entra-se numa fase de risco. Forte tendência para o
descontrole Energético, Emocional, Mental e Físico.
12. Deve-se procurar estabilizar e ultrapassar esta fase.
Talvez o seguinte ajude:
- É preciso saber parar.
- Todas as acções empreendidas deverão possuir um sentido: o da
prestação de um serviço ao Todo e a compartilhação com as outras partes
desse Todo (os nossos semelhantes, os animais, as plantas, os minerais,
etc.).
Esta poderá ser a fase de eliminação dos indivíduos que não estão eticamente
preparados para ascender a um estado superior de controlo.
Penso que só ultrapassará esta fase o indivíduo com ausência de conflito
interno, sem medos, sem dúvidas e sem ódios.
13. Para evitar o efeito reversível (de regressar, mais cedo ou mais
tarde, ao “estado comum de ser”) deve-se deixar a energia acumular sem a
desperdiçar em acções paranormais ou outro tipo de esforços que requeiram
muita energia.
A acumulação de energia deve aumentar até ao ponto em que se processe uma
transformação estrutural do próprio ser.
Paralelamente a consciência ter-se-á expandido e
aumentado o controle sobre o seu ser até orientar toda a energia, a produzir
essa alteração estrutural, transmutando-se assim num novo tipo de ser.
A energia tem a capacidade de se auto-organizar e, possivelmente, quando
atingida uma concentração suficientemente elevada num indivíduo, de
modificar a sua composição estrutural e de o transmutar.
Recapitulando:
· Intento de transmutação
· Limpeza de conceitos limitantes
· Dissolução do Eu e Fusão com o Todo
· Manejar o mecanismo de anulação do ser
· Surge o espaço vazio no qual se vai acumular energia
· Gera-se Alegria que gera energia
· Ocorrem acções paranormais espontâneas
· Aumenta a Alegria e a Energia
· Passa-se a um novo estado de ser (de alta energia)
· Distancia e rotura com outros elementos da sociedade
· Fase de Risco (tendência para descontrole)
· Procurar ultrapassa-la até alcançar uma fase estável
· Contenção da energia para produzir alteração
estrutural do próprio ser, isto é, transmutação.
Pogonóforos
“Será a morte necessária?”,
pensava Atlan enquanto observava o corpo do Pogonóforo que jazia sobre o convés.
Estava encostado à balaustrada do
pequeno barco que alugara, ali próximo, nas ilhas. Não era o ideal, mas, com os
escassos fundos de que dispunha, fora o que se pudera arranjar. Os subsídios
para investigação eram somente concedidos aos lobbies académicos e pouco
mais. Como sempre... Era por isso que só lhe restava auto financiar as
suas próprias investigações.
Voltou-se para Íris, à qual
pertencia a iniciativa daquela pesquisa, e deixou escapar a pergunta que lhe ia
na mente:
— Será a morte inevitável?
Íris pareceu reflectir um pouco
antes de responder.
Encavalitou-se na amurada do barco
e, contemplando as transparentes águas azuis turquesa, dispôs-se a discorrer
sobre o assunto:
— Bem, para nós, mamíferos, que
estamos tão habituados a que o ser vivo nasça, cresça e morra, a morte parece
ser realmente inevitável... creio que, instintivamente, generalizamos o nosso
ciclo de vida a todo o reino animal e vegetal. No entanto —continuou virando-se
agora para Atlan — a vida das bactérias e das grandes árvores
decorre de maneira bem diferente da nossa. A reprodução das bactérias que se
dividem em partes iguais, confere-lhes uma espécie de eternidade, sem terem
assim de passar pela morte. E podemos afirmar que, as bactérias de hoje são, de
certo modo, a bactéria primordial, que vivia há centenas de milhões de anos na
“sopa primitiva” dos oceanos.
— Sim — disse Atlan — isso é
espantoso... embora esse tipo de “imortalidade”, alcançado pelas bactérias ao
reproduzirem-se por cissiparidade, não é perfeito porquanto as memórias obtidas
na experiência de vida de cada bactéria não são completamente transmitidas aos
descendentes. Só é transmitida, ou melhor, reproduzida, a memória ‘física’, a
codificação genética, a memória “hardware”...
...é semelhante ao que se passa no
processo de clonagem: as memórias das experiências e das vivências do indivíduo
perdem-se. Não são reproduzidas juntamente com o corpo.
Talvez esta perda não seja total —
reconsiderou Atlan —talvez os cromossomas retenham alguma coisa da vida do
indivíduo... ou talvez tenham sido ligeiramente alterados ou afectados ao longo
da vida de um ser, retendo assim, através de um imperceptível e ligeiro
rearranjo, uma conformação que conserve, a um nível holístico, algo das memórias
da vida de cada indivíduo, pelo menos daquelas memórias que foram mais
marcantes. Bem, mas isso é algo que ainda se desconhece...
Mas faz sentido. Imagina, Íris,
que a codificação genética não possui apenas um nível de codificação
(unidimensional) mas, pelo menos dois...
...sendo o segundo uma codificação
a nível holístico — o genoma poderia então conter exactamente os mesmos
pares de aminoácidos geradores do corpo físico, mas, uma ligeira diferença, na
localização ou na orientação espacial dos aminoácidos que compõem o ADN (Ácido
Desoxirribo Nucléico), ou até das moléculas que os constituem,
não poderia, de algum modo, ‘codificar’ parte do comportamento adquirido?
Retendo assim algo das memórias das vivências de cada indivíduo?...
— Mmm... não deixa de ser uma
ideia curiosa: dois níveis de codificação... ou talvez três, ou, quem sabe, até
uma infinidade deles!...
...mas tendo cada um,
provavelmente, um “peso” ou preponderância cada vez menor, à medida que aumenta
o factor
holístico...
¾
disse Íris como quem pensa em voz alta, enquanto se baixava para melhor examinar
o estranho pogonóforo estendido no convés.
E então, subitamente, emergiu do
seu rosto uma expressão de surpresa.
— Imagina com o que é que esta
suposição é perfeitamente congruente?
— Não sei, não estou a
relacionar... com o quê? — perguntou Atlan com alguma impaciência.
— Com a ideia de “nuvem de
possibilidades” expressa no transmutalismo!
— Ah, sim! — exclamou efusivamente
Atlan ao aperceber-se da conexão — realmente, segundo esse ‘axioma’, qualquer
entidade é uma nuvem de possibilidades contendo todas as
entidades alternativas. E, como previsto — prosseguiu reflectindo — cada uma
dessas entidades alternativas terá um ‘peso’ progressivamente menor quanto maior
for a diferença em relação à entidade principal, a entidade que nós percebemos
como concreta.... não achas que poderíamos então dizer que, as outras entidades
¾
as alternativas
¾
vão tendo, em contrapartida, um ‘peso’ holístico cada vez maior?... ou que se
situarão cada vez mais num nível holístico, ao mesmo tempo que serão cada
vez menos concretas?
— Estou a ver onde queres chegar.
Faz sentido... Já que no conceito transmutalista de ‘nuvem de possibilidades’
se considera que a entidade em si, ou seja, a sua ‘porção’ mais
concreta, é o núcleo denso dessa nuvem
®
é a região onde as possibilidades são mais prováveis. E, segundo a tua ideia, o
conceito de probabilidades poderá coincidir, aqui, com o conceito de níveis
holísticos....
— Sim, a esse nível parecem ser
até a mesma coisa, mas vistas de “ângulos” diferentes!...
— Então pensas que as moléculas
genéticas de ADN poderão “memorizar” alguma coisa da vida do
indivíduo — disse Íris recapitulando e organizando as ideias de Atlan — que
poderão codificar algo mais do que a sua estrutura física. E que essa
codificação poderá ser a de algumas das memórias da vida de um
ser...
— Sim — continuou Atlan — e
admito que o possam fazer através de uma espécie de codificação holística...
Cada figura geométrica representa uma entidade da Nuvem. A pirâmide
é a entidade principal, é a mais concreta. A esfera vermelha e o
cubo verde são entidades alternativas ainda assim muito “próximas”
ou prováveis. Já a estrela azul de oito pontas, assim como outras
figuras indistintas, embora fazendo parte da entidade – ou ser –
global, têm nela um ‘peso’ muito menor. São visíveis aqui como uma
aura evanescente.
— Com a
qual vês uma certa congruência com a concepção de ‘nuvem de
possibilidades’ e achas que, ao nível da codificação em si, holismo
e probabilidades poderão, no fundo, ser a mesma coisa...— Sim, na medida em que as nuvens de probabilidades (as zonas mais “densas” das nuvens de possibilidades) também ‘codificam’ os comportamentos das entidades (como o do electrão por exemplo). Na realidade, elas ‘codificam’ as entidades em si: mas, para sermos mais precisos, e de acordo com a concepção transmutalista, as ‘nuvens’ não apenas descrevem e codificam, mas são essas próprias entidades!
Assim, cada estrato de
probabilidades de uma nuvem pode ser entendido como uma entidade
ligeiramente diferente da entidade principal.
Mas quando nos afastamos
desse “núcleo” mais denso da entidade e os estratos se ‘esbatem’,
tornando-se apenas em possibilidades, isso reflecte que, “aí”, as
entidades alternativas já são muito diferentes da entidade
principal.
Isto poderá ou não ser
tomado como uma forma de codificação?...
Íris sentia-se mergulhar
completamente nas teses desenvolvidas por Atlan. A tal ponto que sentia que
era como se fossem as suas próprias ideias!...
...e sentia-se, assim,
naturalmente impelida a prosseguir e completar os seus raciocínios:
— Sim, claro... sob esse
prisma... poderíamos tomar as nuvens de probabilidades e, de resto, todas as
‘incertezas’ de Heisenberg como codificações de informação...
...e, visto que informação
é realidade, é existência, é ser... poderíamos então concluir que as nuvens
de probabilidades são ‘codificações’ de seres, de entidades. Daí que,
cada um de nós não seria apenas o seu próprio ser, mas sim o núcleo de uma
imensa nuvem contendo em si todas as coisas, todos os seres.
Na realidade, contendo todo
o resto do universo — mas com ‘pesos’ progressivamente menores para as
entidades mais “afastadas” do ‘núcleo’. Ou seja, para aquelas mais
“diferentes” daquilo que actualmente percebemos como sendo nós próprios.
Isso será, afinal, o nosso eu “concreto”, isto é, a zona mais densa da nuvem
de possibilidades. Mais precisamente, a zona mais densa de uma região já de
si densa — a região de ‘probabilidades’ da nuvem...
¾
E a nível quântico passa-se o mesmo
¾
acrescentou Atlan
¾
diferentes estratos de uma mesma nuvem de probabilidades descrevem
diferentes partículas...
De súbito, como que atingido
meteóricamente por uma nova ideia, Íris sentiu-o fazer um parêntesis e
observou-o a circular à volta do convés, completamente abstraído do que o
rodeava.
“É preciso unificar
tudo”, pensava Atlan, “é tudo a mesma coisa! Tudo não passa de diferentes
visões ou leituras de uma mesma coisa, de um hiper-fenómeno!...”
Depois, tão subitamente como
‘partira’, regressou prosseguindo com a exposição das suas ideias.
—... Uma determinada nuvem de
probabilidades representa um átomo. Mas, um estrato mais profundo dessa
mesma nuvem de probabilidades, já representa uma outra entidade, por exemplo
o núcleo do átomo. E, outro estrato da nuvem, ainda mais nítido, representa
os nucleões ( protões e neutrões). Mas, estratos ainda mais refinados da
nuvem poderão representar cada uma das partículas que compõem o neutrão:
um protão, um electrão e um neutrino de
electrão.
Para além de que poderíamos
admitir ainda ‘estratos’ intermédios para representar os bosões
intermediários – as partículas portadoras dos campos: forte,
fraco, electromagnético e gravitacional. Esses estratos da nuvem
situar-se-iam nas regiões intermédias entre os tipos de partículas das quais
os bosões são mediadores:
·
Entre as partículas carregadas electricamente (por exemplo, electrões e
protões) esse estrato representaria fotões
¾
os agentes de campo electromagnético;
·
Entre as partículas sujeitas à interacção nuclear forte (por exemplo,
neutrões e protões) esse estrato intermédio representariam gluões (p,K),
os agentes de campo da interacção nuclear forte;
·
E, dentro da nuvem dos próprios neutrões, outros estratos de probabilidade
ainda mais refinados poderiam representar os bosões intermediários W+,
W- e Zo, os agentes de campo da força
nuclear fraca.
—...Mas, e o holismo? O que
te leva a considerar probabilidades e holismo como sendo a ‘mesma’ coisa?
¾
interveio Íris.
— Apenas os considero a mesma
coisa na medida em que ambos são codificadores. Ambos codificam informação.
E ambos o podem fazer em diverso graus, escalas, ou níveis. São codificações
com diversos níveis de integração.
O mesmo conjunto de
elementos de um destes codificadores, e usando até a mesma
disposição desses elementos, pode codificar tipos de informações
completamente distintos, completamente diferentes!... Só depende da
forma, ou do nível, através do qual são aproveitadas. O que dependerá,
naturalmente, do propósito em vista.
Atlan deteve-se um pouco na
observação do insólito pogonóforo que, indiferente a tudo, permanecia
estendido sobre o convés do pequeno barco, e prosseguiu o seu raciocínio:
¾
Repara no caso de Tália e na forma como ela faz emergir da sua nuvem de
possibilidades os seres mais adequados a cada situação!... a
facilidade com que ela transporta o seu núcleo ínfimo de consciência através
de todos os seus seres alternativos ‘clivando’ apenas aqueles que lhe
interessam num dado momento.... ...há, de facto, uma certa semelhança com
a clivagem de um cristal, já que cada clivagem faz surgir, nele ou
dele, outro(s) cristal(is) com uma estrutura completa em si mesma e
representativa de um novo cristal, distinto daquele que o continha.
E a nível holístico, por
exemplo, já vimos que existe este mesmo tipo de multicodificação, ou
codificação em diversos níveis. Como é o caso, por exemplo, da fotografia de
um jornal constituída por muitos pontinhos. Cada um dos quais, isoladamente,
isto é, separado dos outros, não significa nada para além do próprio
pontinho. Mas, quando em conjunto com os outros pontos, codifica uma imagem
— a da fotografia. Percebemos isto quando nos afastamos um pouco e, de um
simples conjunto ampliado de pontos, obtemos uma visão de conjunto que tem
como resultado a imagem contida na fotografia.
Até aqui nada de novo... Mas
imagina agora, Íris, que esses pontos (nos quais vejo um certo paralelismo
com os códigos genéticos) codificariam mais do que um nível de informação. O
que é que se poderia passar neste caso?... Para além da informação que salta
ao nível da vista desarmada — isto é, a própria imagem — se
aprofundássemos mais a nossa visão, ampliando a imagem, poderíamos ver
outras imagens formadas por determinadas disposições nos agrupamentos dos
pontos que a formam. Aprofundando ainda mais a “visão”, até chegar ao
nível da percepção dos próprios pontos, ainda assim poderíamos “ver” mais
do que um conjunto de pontos sem significado — bastaria para tal que, por
exemplo, os pontos estivessem codificados como “letras” que formariam
“palavras” quando emparelhadas com os pontos (“letras”), mais próximos.
Assistiríamos, assim, a um
terceiro nível, holístico, de informação. Neste caso, uma página
bidimensional de palavras contendo um texto unidimensional. (Já que a
leitura de um texto é um processo sequencial — palavra após palavra e letra
após letra — então podemos considerá-lo como o fio de um novelo e afirmar
que é unidimensional.)
De resto, esse mesmo nível,
poderia ser tridimensional, se as “letras” se ligassem topologicamente como
o faz uma rede tridimensional de neurónios.
Mas não ficaríamos apenas por
aí!...
Julgo que, teoricamente, a
quantidade possível de níveis de codificação de um sistema
formado por vários componentes, seria imensa...
Basta para tal imaginar
que introduziríamos a referida imagem no descodificador de um computador
e que
seríamos informados de que
existiria uma outra ‘mensagem’ codificada pelos grupos de pontos
distribuídos ao longo da diagonal da imagem. Ou pelos grupos de pontos
equidistantes de dez em dez. Ou pela relação (ou diferencial) entre
sub-níveis da imagem (obtidas entre pontos e agrupamentos desses mesmos
pontos). Ou por outro tipo de codificação realizada através de, por exemplo,
uma imagem ou mensagem formada por todos os pontos de apenas a mesma cor...
...ou mesmo codificações
indirectas que resultariam, por exemplo, apenas quando sobre a imagem se
fizesse incidir uma determinada luz ou radiação, o que faria emergir dela
uma outra imagem ou qualquer outro tipo de informação...
Repara, Íris, há toda uma
série de possíveis codificações virtuais: pela inter-relação de uns
componentes com os outros, de uns níveis com os outros, de umas
características com as outras, etc. Penso que poderíamos chamar codificações
diferenciais a estas ultimas, já que resultam de um código obtido por
‘diferenças’ entre vários componentes ou grupos de componentes.
Há , virtualmente, uma
infinidade de codificações possíveis num mesmo sistema de código. (Assim
como uma infinidade de entidades numa mesma entidade.)
...foi assim que, por
analogia, cheguei à ideia de que também os genes poderão, pelo menos em
potencial, codificar diversos níveis de informação.
Não digo que o façam
actualmente. Mas sim que poderiam fazê-lo. Que existe essa possibilidade.
E essa qualidade, potenciada a
alto nível, teria como consequência que os nossos filhos herdassem,
juntamente com o nosso património genético, todas as nossas memórias!...
— E qual poderia ser o
resultado disso? — inquiriu Íris.
— A consequência seria que a
evolução humana auferiria de um incremento tão acelerador — sem perda de
informação de geração para geração — que faria com que a humanidade,
muito rapidamente, ultrapassasse todas as barreiras dos impossíveis e se
tornasse uma espécie divina e imortal!
De resto — concluiu Atlan —
nessa situação, a morte tal como a entendemos hoje já não existiria, pois já
não haveria a mesma perda de informação. A informação de todas as
vivências, conhecimentos e prazeres, experimentados por cada indivíduo,
seria transmitida aos seus descendentes, conferindo-lhe assim uma quase
verdadeira continuidade.
E aliás, não é a perda de
informação a causa do envelhecimento, da decadência e da morte?...Os
cromossomas, ao longo das sucessivas duplicações celulares, vão “encurtando”
e perdendo informação através dos telómeros. Também as células cerebrais,
como não se regeneram, vão sendo insuficientes para gerir convenientemente
toda a informação e podemos dizer que há informação que se perde porque
deixa de ser útil, na medida em que deixou de ser gerida. A morte é perda
de informação.
¾
Será baseado nisso que reside o segredo da quase eternidade do pogonóforo?
Terá ele reduzido a sua perda de informação?
¾
questionou-o Íris olhando na direcção do longo corpo do ser enigmático que
tinham encontrado nas profundezas do oceano.
¾
É uma boa hipótese
¾
concedeu Atlan
¾
já que toda a causa da morte é, no fundo, a incapacidade em conservar
informação.
Repara, Íris, que, mesmo
quando um corpo é destruído, por exemplo esmagado, também aí a morte se
tornou irreversível e permanente porque houve incapacidade do
indivíduo em conservar informação — a informação definidora da estrutura do
seu próprio ser. Se a conservação de informação fosse completa, isto é, não
só a codificação da estrutura de um determinado ser, mas também a
codificação da informação necessária para efectuar o processo de regeneração
ou duplicação dessa estrutura (desse ser), então esse ser não morreria.
Ou, se morresse, seria apenas
uma morte temporária. Apenas durante o período que levaria a concluir
a regeneração do seu organismo... três dias, um dia, um minuto?
¾
Uma morte temporária... isso não te faz lembrar nada, Atlan?
¾
Claro, claro que faz!... não temos assim tantos casos de morte temporária na
história conhecida para que essa correlação me passe despercebida... El
Em Manu.
¾
Deus Em Humanidade. Ou Em-Manu-El, isto é, Em/com huMANos Deus. “With Us
God” ou “God With Us”…
¾ Sim, já que era o seu
verdadeiro nome. Embora não seja o nome pelo qual é geralmente conhecido...
Já agora, Íris, quais são as tuas opiniões sobre esse fenómeno histórico?
¾
Bem... vou começar por te contar isto:
Uma ocasião, coloquei a seguinte
questão a um membro de uma religião: “Jesus, enquanto homem, transmutou o
seu corpo adquirindo a imortalidade. Isto não poderá significar que nós,
humanos, teremos a possibilidade de fazer o mesmo?”
A sua resposta foi: “Não. Jesus
conseguiu fazê-lo porque era filho de Deus e porque isso fazia parte da sua
missão.”
E eu fiquei a pensar se não será
isto uma desculpa para o homem... “Se Jesus o conseguiu foi porque
era diferente de nós, por isso, estamos desculpados por não tentar fazer o
mesmo.”
Da mesma forma diz-se muitas
vezes que determinado indivíduo conseguiu algo na vida porque era rico, ou
porque era mais inteligente, ou mais alto, etc. Desculpámo-nos
frequentemente do nosso insucesso, atribuindo ao ser bem sucedido, uma
característica que não possuímos, algo que não somos. É claro que não somos
todos iguais, mas isso não tem impedido que diferentes indivíduos tenham
atingido os mesmos objectivos. Situamo-nos todos dentro da mesma espécie,
dentro do mesmo tipo de ser.
No meu caso, a leitura que faço
da vida de Em-Manu-El é a seguinte:
Numa época de mentalidade rígida
e comportamento regido pela Tora e pelas leis moisaicas nasce um ser que
evolui mais do que os seus contemporâneos. Como fruto dessa evolução
ontológica desenvolve uma mentalidade de amor, tolerância e paz. Transmite
aos outros essa nova mensagem e são muitos os que o escutam e seguem.
A sua evolução prossegue e, como
consequência, a sua consciência passa a ter acção directa sobre o meio, isto
é, sobre os outros, sobre a matéria e sobre si mesmo. Estas acções directas
da sua consciência sobre o meio são interpretadas como milagres: a
transmutação da água em vinho, a multiplicação dos pães, a cura de doentes,
o caminhar sobre a água, o ressuscitar de um morto.
Jesus continua o seu caminho e a
sua consciência vai transformando-se no seu centro; cada vez mais dominante
sobre o seu corpo e sobre o meio. O seu corpo passa a ser, apenas, um dos
instrumentos da sua consciência. Entretanto, o seu ego diminui cada vez
mais, tendendo para zero. A sua consciência, ao contrário, expande-se e
identifica-se progressivamente com a consciência universal. Ele e o Todo, ou
ele e Deus tornam-se um só. E aqui ele identifica-se, de facto, como filho
de Deus.
A quantidade e a qualidade da
energia que flui e reflui no seu corpo é cada vez maior. Consequentemente,
este entra em processo de transmutação: o fluxo extraordinário de energia
altera a sua estrutura corrigindo imperfeições e fraquezas.
No fim, Jesus sofre um ataque
massivo das forças humanas (ou do Con-Sistema) que, pelo menos
aparentemente, provocam a sua morte. Porém, em si mesmo, na sua estrutura
ontológica, havia já uma matriz indeformável (transconsciência?)
¾
o processo de transmutação do seu corpo estava, nesse momento, mais
adiantado do que a destruição que lhe foi infligida. Após a morte, a
transmutação completa-se. O seu corpo morto é regenerado num corpo ainda
mais perfeito e incorruptível...
¾
E, pelo que consta nos registos históricos, o seu corpo terá levado três
dias a regenerar-se...
¾
comentou Atlan.
¾
E talvez a realizar, também, uma qualquer outra acção... porque afinal, o
próprio Em-Manu-El tinha, anteriormente, ressuscitado Lázarus em apenas
alguns minutos, segundo consta nos evangelhos.
¾
Sim... Mas voltando à codificação... ...É surpreendente, Íris, quando
pensamos que toda a codificação da informação de um ser humano
poderia ser guardada num espaço menor do que a ponta de um alfinete!
E que esse espaço
poderia permanecer ileso, mesmo que o indivíduo em causa fosse
esmagado por uma pedra de duas toneladas!...
“O núcleo de uma única célula
do nosso corpo”, pensou Íris, “contém todo o ADN que nos define e que seria
suficiente para fazer um duplicado físico de nós mesmos... e, realmente,
ocupa um espaço menor do que a ponta de um alfinete! Mas...”
¾
...Mas, quanto à protecção, Atlan: porque dizes que esse espaço, por ser
muito pequeno, poderia permanecer ileso?
¾
Quão menor é o tamanho ocupado pelos códigos definidores (da estrutura de um
ser) mais fácil é protegê-lo.
Repara, por exemplo, no
neutrino: é uma partícula tão pequena (e tão “indiferente” aos
relacionamentos com as outras (porque destituída de carga eléctrica)) que
atravessaria facilmente a Terra sem sequer se ter apercebido!...
Os corpos muito pequenos são
quase inafectáveis pela matéria, pelos acontecimentos, pelas catástrofes...
e, de resto, pelo próprio tempo.
Além disso, a energia para
proteger um sistema de pequenas dimensões, é também muito menor.
Mas há uma outra razão:
Possivelmente, um corpo muito pequeno poderá ter uma muito pequena perda
de informação porque terá mais facilidade em conservá-la. E isto porque
é um alvo muito menor aos bombardeios de aleatoriedade...
...O que está de acordo com as
teses de Aleator
¾
concluiu Atlan puxando do seu caderninho de apontamentos do bolso traseiro
das calças e fazendo, ali mesmo na amurada, um esboço:
¾
Estas linhas onduladas representam o “bombardeamento”, sobre um sistema, de
quaisquer factores aleatórios: partículas, radiações, acontecimentos, etc.
Quaisquer factores capazes de alterar, causar danos, ou até de destruir
completamente a informação aí contida
¾
explicou. — E, como a perda de informação de um sistema é a sua
entropia aniquiladora...
...isto leva-me a crer que um
buraco negro é um ser, ou uma entidade anti-entrópica
®
como nada escapa de um buraco negro, nem sequer a luz, também ele, assim,
não perde qualquer informação, conservando toda a ‘memória’.
— Um buraco negro é um ‘ser’?
— interveio Íris.
— Na realidade penso que sim.
A vida é, em si, uma
neguentropia, uma entropia negativa. Ora, se um buraco negro não
tem qualquer perda de informação, ele possui assim uma elevada escala de
neguentropia que é, fundamentalmente, a qualidade definidora da vida.
(Na realidade não gosto de lhe
chamar buraco negro. Essa designação imperfeita deve-se apenas às primeiras
‘observações’ dos buracos negros no cenário cósmico: eram visíveis apenas
como regiões escuras do espaço. Isso por não reflectirem a luz e por esta
também não passar através deles. O que se passa é que, devido à sua
gravidade super intensa, o buraco negro aprisiona a luz dentro do seu
domínio de acção.)
Tudo indica que um buraco
negro usufrua de um ganho contínuo e sempre crescente de informação. Em cada
‘rotação’ revisita todo o seu horizonte de acontecimentos, repetindo
assim, constantemente, a sua informação. Será como um processo sucessivo de
reinformação. Em cada ‘rotação’ no seu espaço fechado sofrerá
um incremento de informação. E, consequentemente, de entropia negativa ou
neguentropia.
Os buracos negros parecem ser
‘coágulos de eternidade’ no tecido
entrópico e perecível da existência. Foram estrelas que deixaram de ser
afectadas pelas vicissitudes da natureza e, “transmutando-se”,
ganharam o direito à independência e à eternidade.
E, no entanto, coexistem num
universo de seres perecíveis e degradáveis.
É como se fossem, por
analogia, os seres máximos em que nos poderíamos tornar ao vencer a
morte.
¾
Mas não achas que o buraco negro, ao isolar-se do restante tecido
espaço-temporal, alcançou assim uma imortalidade muito solitária?
¾
observou Íris.
¾
Não! Aí é que está: muito pelo contrário! Ao dissociar uma ‘porção’ do
próprio “espaço-tempo”, o buraco negro alcançou, não só o conhecimento
do universo inteiro, mas obteve também o convívio com a totalidade da
existência... com todas as entidades do universo!... E isto
deve-se à minha suposição de que a dissociação de uma porção de espaço-tempo
possui a mesma estrutura e constituição do restante ‘tecido’ existencial:
“Cada parte contém o todo”
¾
2º axioma transmutalista.
Uma “pequena” parte do tecido
espaço-temporal, como aquela que é dissociada pelo buraco negro, é como uma
miniaturização da existência, contendo em si todas as suas ‘reflexões’, isto
é, no fundo, todos os seus objectos e entidades.
É como uma ‘bola de sabão’:
ela reflecte, na sua superfície, todos os objectos do ambiente que a
envolve. E, se dela se dissociar outra bolha mais pequena, também esta
reflectirá todos os objectos que a rodeiam (em formato menor, proporcional
ao tamanho da bolha).
¾
Mas estás a falar de reflexões... e não dos objectos em si
¾
objectou Íris.
¾
Esta “reflexão” poderá ter pouco a ver com o conceito que temos de reflexão.
Penso que esta ‘reflexão’
dos objectos do universo no tecido existencial é equivalente aos próprios
objectos. São os objectos em si mesmos. Tão reais como os
‘objectos-reflexo’ em outros buracos negros ou os objectos de que nos
apercebemos neste universo...
...tudo são, possivelmente,
manifestações de ‘consciência’. De uma ‘consciência’ existencial (para além
espaço-tempo).
E não são os objectos que
estão reflectidos no ‘tecido’ espaço-temporal, mas sim unidades, partes, ou
componentes dessa ‘consciência’...
Os ‘objectos’ em si
não passam, na realidade, de meras projecções da ‘consciência’ existencial.
E assim, entre as
projecções ou “reflexos” dos objectos e os objectos em si mesmos, não haverá
grande diferença. (Ou mesmo nenhuma.)
Atlan pesou as implicações
das suas conjecturas e prosseguiu:
¾
“Tudo vem do pó, e tudo volta ao pó”, não é assim a velha frase?... bem, na
realidade estou convencido de que deve existir um muito pequeno número de
possibilidades diferentes de escapar à aniquilação
¾
ou à reabsorção — pela existência dos seres nela criados...
...mas que talvez uma
dessas formas seja através da dissociação do tecido
existencial:
esse ser hipotético criaria
assim um espaço-tempo próprio, privado, pessoal. E
isso poderá ser, de resto, o que fazem os buracos negros ao isolar uma
porção do tecido espaço-temporal, separando-o do resto do universo.
Tudo me leva a crer que,
qualquer processo que obtenha o “merecimento” de ganhar a eternidade, tal
como se fosse o “presente da águia” dos índios toltecas, envolve uma
‘elevada gravidade’... (Isto é, enormes quantidades de
energia ou matéria
¾
que no fundo são equivalentes, como o demonstrou Einstein com a sua famosa
equação E = m c2) ...e gravidade, claro está, tem
sido sempre a qualidade de “mãe geradora” necessária para parir ou
criar qualquer forma alternativa de existência. Talvez até mesmo para criar
uma entidade livre dos condicionalismos da morte.
— A “morte”... a morte
está sempre presente nas tuas reflexões... Tens assim tanto medo de
morrer, Atlan?
— Não, eu não me importo de
morrer... Importo-me é de não ser livre de optar entre morrer e
não-morrer. E, para mim, não ser livre é ser escravo... e sempre
detestei a escravatura.
— Mas não achas que a
imortalidade poderá estar depois da morte, numa vida eterna como espíritos?
(Até há em quem se satisfaça encarando a morte como sendo a própria
“transmutação”!!...)
— Mesmo que isso se verifique,
essa existência após a morte, continua a haver perda de informação,
porquanto o corpo físico, que faz também parte da entidade, se
perde. A sua informação não foi, assim, conservada. Logo isso seria uma
imortalidade incompleta, limitada e não-livre. Além de que seria, também,
uma imortalidade obrigada, forçada, conduzida ao sabor e “vontade” da
existência e não do indivíduo em si.
De todo não me satisfaz porque
continua a não haver liberdade. O ser continuaria a não ser
livre de escolher: de ser e de viver os seus próprios
desígnios.
—“Liberdade”... outra
das palavras omnipresentes no universo dos teus desejos!... sentes-te preso,
é? Porque é que estás sempre com a ideia fixa da liberdade? Olha à tua
volta, achas que a maioria das pessoas tem esse tipo de preocupações?
— Eu sei que não... mas,
só quem nunca provou o mel não estranha o fel. E eu já provei o
“mel”... ao mergulhar em estados de alta energia...
— Sim, já li algumas dessas
experiências quando me mostraste o teu precioso diário. O diário das
tuas abordagens à transmutação...
Mas o calor apertava, ali no
convés do pequeno barco flutuante nas águas tranquilas, e Íris sugeriu uma
bebida.
— Oh, mas isso é uma excelente
ideia! — exclamou Atlan deliciado — Queres que te ajude a prepará-la?
— Obrigada, não é preciso —
respondeu Íris enquanto se dirigia para a pequena cabina do barco.
Íris era magnífica, pensou
Atlan. Os seus longos cabelos de um indefinível castanho-dourado-avermelhado
eram não somente belos, como pareciam irradiar uma qualquer espécie de
energia...
Entretanto, Íris preparava um
delicioso sumo de frutos tropicais, que comprara numa ilhota próxima, ao
mesmo tempo que se sentia assaltar por um quase-irresistível desejo de
mergulhar no oceano.
Mas regressou afinal, e com
dois enormes copos transbordantes, para junto de Atlan que torrava ao sol.
— Divino — exclamou Atlan
após ter escorrido para dentro de si a maior parte do refrescante suco — Só
mesmo tu tens esta habilidade tão feminina de fazer de qualquer coisa, algo
tão delicioso!
— Ora, não é nada de mais.
Apenas juntei alguns frutos exóticos com mel e...
— Sim, claro, claro...
Ainda bem que para ti não é nada de especial. Aliás, é precisamente essa tua
simplicidade aquilo que mais gosto em ti.
Íris pareceu ruborizar ao
de leve. O que, secretamente, encantou Atlan.
— O que estás a pensar,
Atlan?...
— Hã? ah, nada... bem, há
pouco estava a pensar que foste tu quem originou todo este encadear de
ideias e suposições...
— Eu?
— Sim, quando me perguntaste
com o que é que a hipótese de uma multicodificação holística, por parte do
ADN genético, era “perfeitamente congruente”. Lembras-te?
— Ah, sim, claro!... Pergunta
à qual não me respondeste por não estares, nesse momento, a relacionar com a
concepção da ‘nuvem de possibilidades’.
Bem... mas quando eu te sugeri
essa correlação, nunca mais paraste!...
Viste a nuvem de
possibilidades também como um sistema de multicodificação por
probabilidades. E daí partiste para o ‘mundo quântico’ e deduziste que uma
mesma nuvem codificaria diversas entidades ou partículas subatómicas,
dependendo do estrato de probabilidades que fosse “observado”.
Mas, voltaste atrás, e fizeste
uma previsão do que poderia causar uma codificação holística de todas as
memórias das vivências de um indivíduo nos genes dos cromossomas.
E chegaste assim à ideia de
que, a transmissão de todas as memórias e conhecimentos dos progenitores aos
seus descendentes, faria avançar de tal modo a espécie humana que a
transformaria rapidamente numa espécie divina e imortal.
...O que te levou a concluir
que a perda de informação de um sistema é a causa da sua morte, a sua
“entropia aniquiladora”!
E daí avançaste para a
suposição de que o buraco negro é um “ser” que escapou a essa aniquilação,
já que não perde nada. Já que nada escapa da enorme força de gravidade de um
buraco negro, nem sequer a luz, logo não tem perda de informação. O que lhe
confere imortalidade. Tornando-o assim num “coágulo” do tecido existencial.
Tornando-o dissociado.
Em seguida, quando te
perguntei se, devido a essa dissociação, a imortalidade conquistada pelo
buraco negro não seria muito isolada e solitária, esboçaste-me a analogia do
tecido espaço-temporal com a superfície das bolas de sabão...
(...que eu achei muito
engraçada.)
Segundo a tua analogia —
prosseguiu Íris sempre com a sua musicalidade ligeiramente infantil — o
tecido existencial “reflecte” todos os ‘objectos’ do espaço-tempo ao seu
alcance, como o faz uma bola de sabão. E, na medida em que a totalidade do
“tecido” engloba todo o universo, todas as coisas, ele é curvo e “fechado”
como uma bola de sabão. Logo “reflecte” todas as coisas existentes do
universo no seu interior, como uma bola de sabão reflecte todas as coisas do
seu exterior, do panorama que a envolve.
E, assim como da “membrana” de
uma bola de sabão se pode soltar, dissociar, outra bolha mais pequena que
continua a reflectir todo o panorama à sua volta, também da “membrana” ou
“tecido” espaço-temporal se pode dissociar uma “bolha” mais pequena que
continuará a reflectir todos os objectos e entidades da existência.
O que permite ao buraco negro
não ser um solitário, mas sim conhecer e ‘conviver’ com todos os seres e
coisas do universo.
Aí, quando eu objectei que as
“reflexões” de entidades no tecido existencial e as próprias entidades não
seriam propriamente a mesma coisa, tu começaste a reflectir sobre isso e
chegaste à suposição de que seria precisamente o contrário! Aquilo que nós
tomamos como sendo ‘objectos’ não passaria também de reflexões no tecido
existencial. Os “verdadeiros” ‘objectos’ “serão” os componentes da própria
‘consciência’ do além espaço-tempo. Da qual, de resto, tudo serão
“manifestações” emergentes...
Atlan escutava, assombrado com
a memória e a clareza dela. Em poucas palavras sintetizava as horas de
conversa por que se tinha estendido toda aquela manhã.
“Por vezes, ele e Íris,
pareciam ser uma só mente distribuída em dois corpos” — pensou Atlan
fascinado e, ao mesmo tempo, intrigado — “porque é que aquilo só ocorria com
Íris? Seria ela, afinal, a sua alma gémea?”
— ...Mas depois acabei por te
perguntar porque é que a morte te afligia assim tanto — continuava Íris — ao
que me respondeste que não era a morte que mais te afligia, mas sim a tua
ausência de liberdade em poder escolher os teus próprios destinos. Nesse
ponto reflectimos um pouco sobre o teu sentido de liberdade ser tão estranho
à maioria das pessoas. E acabamos por concluir que isso se devia a teres
conhecido estados de muito maior liberdade existencial, nas temporadas em
que entraste em fases de alta energia. Experiências que registaste no teu
diário de abordagens à transmutação...
E depois eu sugeri uma
bebida!...
— Que memória! Como é
possível?... retiveste todas as etapas do nosso “raciocínio”...
— Ora, não fiques assim tão
espantado Atlan. Isso é apenas o meu “stack memory” a trabalhar. A minha
memória não é propriamente excepcional.
— O teu “stack memory”... sim,
já me tinhas falado qualquer coisa sobre isso — a tua pilha de memória de
endereços de subrotinas — bem ao estilo dos microprocessadores...
— Exacto, memorizo sempre o
“número de ordem” (ou “endereço”) de uma ideia antes desta partir para
outra. Para não “perder o fio à meada”, compreendes? Os microprocessadores
fazem isso com as subrotinas de um programa: o que lhes permite voltar
sempre ao ponto de partida.
— Sim, eu faço algo de
semelhante... mas não com a tua precisão!
— É apenas uma questão de
treino.
—Vou dedicar-me a isso — disse
Atlan pensativo enquanto, como exercício, recapitulava do fim para o
princípio toda a série de ideias que tinham sido desenvolvidas.
Até chegar à pergunta de
Íris.
Que permitira associar a ideia
da nuvem de possibilidades à multicodificação de níveis holísticos
possível a qualquer sistema de vários componentes.
Isso permitira-lhe ‘ver’ a
“nuvem” também como um sistema de multicodificação, mas realizando-a através
de estratos de probabilidades.
“Uma entidade engloba em si
mesma todas as outras entidades, dentro dessa nuvem que é ela
própria...”, pensou recordando o axioma transmutalista.
E todo o conceito de nuvem
estava de algum modo relacionado com a incerteza de Heisenberg.
E logo com os factores
aleatórios intrínsecos à natureza.
“...E logo com o Caos!”,
pensou Atlan apercebendo-se de uma nova correlação.
Movido pelo súbito entusiasmo,
fixou Íris com um ar interrogativo:
— E agora, Íris, é a tua vez
de imaginar com o que é que o holismo e a ‘nuvem de possibilidades’ são
“perfeitamente congruentes”!
— Ah, claro, agora é a minha
vez!...
Ela passeou os seus olhos
verde esmeralda pelas águas tranquilas e sentiu de novo o desejo de
mergulhar.
Mas, voltando-se para ele,
disse com alguma impaciência:
— Bem, Atlan... diz lá... Onde
é que queres chegar?
— À teoria dos atractores!...
não vês? Cada entidade da nuvem poderia ser considerada um
atractor. Um ponto, um centro de “gravidade”, à volta do qual se
distribuem, de modo mais ou menos probabilístico e caótico, todas as
entidades alternativas de cada indivíduo...
Os Atractores representam um determinado sistema ou entidade através do
seu ‘comportamento’ num “espaço de estados” (state space). Os dois
atractores da esquerda representam
sistemas previsíveis:
O 1º é um ‘ciclo-limite’ (ex. oscilações de um pêndulo de relógio). O 2º
é um tórus atractor (oscilações compostas, ou comportamento
quase-periódico).
Atractor Caótico.
O seu comportamento é
imprevisível,
circunscrevendo-se, no entanto, às regiões de probabilidade (pontos vermelhos).
— De facto! Nunca tinha
pensado nisso...
— Nem eu!
— Que pena Aleator não estar
aqui. Ele iria adorar esta ideia, já que se relaciona tanto com o seu campo
de pesquisa: a teoria do caos: os fractais, os atractores... e a
linguagem aleatória da existência.
— Sim, Íris, a linguagem
existencial!... como já tiveste a oportunidade de te aperceber, por
vezes eu penso, assim como alguns físicos ‘quânticos’ visionários, que nós
e, de resto, todas as coisas, somos as “manifestações” da consciência do
‘além espaço-tempo’ que emerge, de forma quântica, na nossa ‘realidade
concreta’.
E assim sendo, tudo se
conjuga: a ‘linguagem aleatória existencial’, o ‘caos’, os ‘atractores’, as
‘nuvens de possibilidades’, a natureza da ‘realidade quântica’, a emergência
de uma ‘consciência existencial além espaço-tempo’, e, de certa forma,
também os níveis holísticos de codificação...
— Sim, tudo se encaixa —
comentou Íris meditativa ao mesmo tempo que olhava através do céu azul e se
apercebia, novamente, de algo estranho. Algo quase imperceptível que a
deixava sempre na dúvida se seria ou não apenas imaginação sua... “Aqueles
dois «globos» parecem mover...”
¾
Gostei da tua dissertação sobre o tipo de vida das bactérias
¾
disse Atlan interrompendo-lhe as cogitações.
Acercou-se do Pogonóforo
intrigado em penetrar o mistério que o encobria.
E lembrou-se:
¾
Mas ias ainda falar-me sobre outro tipo de vida diferente: o das grandes
árvores.
¾
Sim, pois ia... na continuação à questão inicial que me colocaste: “será a
morte inevitável?”
¾
fala-me então, dessas tuas amigas árvores que tão bem conheces.
¾
Não as conheço assim tão bem como afirmas. Mas, de facto, além de gostar
muito delas, admiro-as e respeito-as muito. E não há dúvida que por vezes
consigo ter com as árvores uma grande empatia e aprendo muito com elas.
Bem, realmente, para além das
bactérias, a vida das grandes árvores também decorre de maneira bem
diferente da nossa. Elas vivem dezenas de séculos!... e parecem morrer
apenas acidentalmente, como as sequóias americanas. Além do que, pelas
minhas experiências com as árvores, elas parecem ter uma espécie de
consciência quase colectiva!...
...Mas, nem mesmo os peixes
dos nossos rios têm um prazo fatal para morrer, com data fixa e sempre mais
ou menos a mesma. Com efeito, o seu crescimento não para, como acontece com
os mamíferos, mas continua durante toda a vida, podendo esta prolongar-se
por mais de um século. Deve ser por esta razão que encontramos por vezes
carpas e lúcios gigantes.
Mesmo nos insectos cuja vida
é, por vezes, extraordinariamente breve, conhecemos excepções, como no caso
das rainhas dos insectos sociais, que vivem numerosos anos.
Mas o mais extremo de todos os
casos extremos conhecidos
¾
prosseguiu Íris dando pequenos passos circulares no apertado convés até se
acercar do insólito animal
¾
é, sem dúvida, o dos pogonóforos, estes estranhos animais que
constituem uma classe especial.
Os pogonóforos, tal como este
aqui, têm um corpo muito alongado, provido de intermináveis tentáculos com a
ajuda dos quais se alimentam, de resto, de um modo bem particular, visto que
não têm intestinos: são os tentáculos que os substituem.
Os pogonóforos encontram-se
principalmente nos abismos marinhos, mas na realidade este não foi assim tão
fácil de encontrar...
¾
De facto! Não foi nada fácil
¾
expirou Atlan ao lembrar-se das longas horas de mergulho que, ele e Íris,
empreenderam até, finalmente, encontrar um pogonóforo...
¾
Bem, mas como ambos sabemos, crê-se que estes seres têm uma vida
inacreditável!... Engemann estudou o problema da idade que podem atingir.
Íris pegou no seu bloco de
apontamentos e, começando a esboçar um desenho, prosseguiu com as suas
reflexões:
¾
O tubo que envolve o animal começa perto da superfície dos sedimentos e pode
atingir comprimentos consideráveis. Como no caso deste que é um
Zenkewitchiana longissima e tem um tubo de um metro e meio!
Parou um pouco para reflectir.
E continuou recapitulando tudo o que tinham apurado acerca dos pogonóforos:
¾
A idade dos sedimentos da extremidade do tubo pode fornecer a idade do
animal, visto que estes tubos, muito moles, não podem enterrar-se no lodo e
que o comprimento do tubo excede em muito o do animal. O mesmo tubo parece
ser apenas ocupado por um único e mesmo indivíduo. Se num tubo, uma das
larvas substituísse os pais, descobrir-se-ia provavelmente qualquer lacuna
nas zonas de crescimento, o que não acontece. Ora, os sedimentos da
extremidade inferior do tubo mostrariam que ele se encontra aí há, pelo
menos, 25.000 anos!!...
Pegou na sua calculadora de
bolso e prosseguiu:
¾
Se tomarmos o caso extremo da Zenkewitchiana, admitindo uma
taxa de sedimentação de 3 cm por 1000 anos e que só metade do tubo está
enterrado na lama do fundo, obtemos:
75 x 1000 = 25.000
anos
3
Mas, repara Atlan, que se
reduzirmos a velocidade de sedimentação de 1 mm por 250 anos, como, de
resto, admitem diversos oceanógrafos, então, supondo que 1 m de tubo está
enterrado, obtemos:
1000 mm x 250 = 250.000
anos!!!...
1 mm
¾
É incrível como algo assim tem passado quase despercebido à humanidade...
¾
comentou Atlan.
¾
Sim, é verdade. Porque repara que os anéis que encontramos no tubo devem
corresponder a zonas de crescimento anuais e, mesmo neste caso, verificamos
uma idade de, pelo menos 1000 anos, o que faz dos pogonóforos os campeões da
longevidade. O que é realmente espantoso e, até aqui, sem exemplo no reino
animal.
¾
Sim, sem dúvida que é. Mas
¾
ponderou Atlan cauteloso
¾
alguns cálculos poderão não estar correctos devido à omissão de qualquer
factor que desconheçamos; Como sabes, os grandes abismos são ainda um
domínio muito misterioso...
¾
Sim, e também há a considerar que, o frio dos abismos e a quase absoluta
constância desses ambientes, poderiam perfeitamente constituir o meio ideal
para animais de vida muito longa, já que, como atrás mencionaste, o
“bombardeio aleatório” também aí seria muito menor. E como os pogonóforos se
alimentam de partículas microscópicas, não podem deixar de ser raros no
fundo dos abismos. O que iria no sentido de um
crescimento muito lento,
geralmente associado a uma grande longevidade.
¾
Sim... e, no fundo
¾
concluiu Atlan
¾
apesar da notável proeza dos pogonóforos, a verdadeira eternidade só
me parece possível através da transmutação. Ou, o que resulta no
mesmo, através do desenvolvimento da ‘metaconsciência’ que poderia
criar assim um pequeno “núcleo” definidor e gerador da entidade, aquilo que
designo de ‘transconsciência’. Seria esta que conteria a codificação
completa para restaurar o indivíduo...
...E possuiria ao seu
redor uma “membrana” impermeável e invulnerável ao espaço-tempo.
Essa eternidade seria como
um pequeno coágulo, um quanto, uma descontinuidade no ‘tecido
existencial’...
Verdadeiramente livre.
Íris reviu rapidamente
toda aquela manhã e exclamou enquanto se despia completamente:
— Sabes, Atlan, eu acho é
que somos completamente loucos...
... “Mas
completamente!...”
E rindo mergulhou
finalmente no oceano.
Atlan riu-se também porque
estava precisamente a pensar o mesmo... “loucos, completamente loucos!”, e
começou a desembaraçar-se das suas roupas.
“Existirá alguma cura para
as nossas doenças?...”, pensaram ambos enquanto se afundavam nas águas
tranquilas.
O Diário
de Atlan – 7
A 4ª abordagem
Se eu tivesse adoptado
outra atitude ao escrever estes apontamentos neste “diário” de abordagens
(ou tentativas) de consumar a minha própria transmutação física e
espiritual possivelmente não incluiria aqui a descrição da 4ª abordagem.
Talvez porque tivesse receio de que alguém as lesse e ficasse chocado.
Talvez porque nesta abordagem vieram à superfície as deformações escondidas
na nossa psique. Aqui, com fenómenos de paranormal, misturam-se fenómenos
provocados por perturbações psíquicas e a sua distinção nem sempre é
evidente.
Porém, como a atitude
que adoptei é de inteira transparência, descrevo-a e faço-o com mais
pormenor para permitir uma melhor análise. Penso que só com transparência é
possível realizar um estudo sério, profundo e completo.
Após a terceira abordagem, outra vez se estendeu um período depressivo e de
pouca energia. Tudo voltava à normalidade ou, mais propriamente, a uma
realidade ainda inferior à realidade comum.
A frustração de ter caído do estado superior de ser e já não
possuir as minhas capacidades paranormais nem a poderosa energia interior
que estava aliada a uma grande lucidez, inteligência e sensação de bem-estar
puxava-me, cada vez mais, para baixo.
Ainda tentei resistir a esta tendência dedicando-me a actividades
profissionais. Mas os meus esforços não eram bem sucedidos e os resultados
eram desencorajadores. Por fim, a firma da qual eu era colaborador e onde
trabalhava em informática, resolveu mudar de ramo. Propuseram-me sociedade
no novo tipo de negócio a que se iriam dedicar porém, quando me apercebi que
a nova actividade não estava de acordo com os meus princípios éticos,
resolvi rejeitar a proposta. A partir daí criaram-me diversos problemas e
acabei por me retirar sem nada ter ganho depois de tanto trabalho e tempo
perdido.
Passou-se um longo período de quase prostração e desânimo.
Finalmente, comecei a tentar fazer algo para mudar a minha situação
geral. Iniciei uma pequena actividade profissional que progredia muito
lentamente. Apesar da sua dimensão e ganhos reduzidos foi importante para
mim porque criou-me esperanças numa situação melhor e, ao manter-me
entretido, começou a arrancar-me ao marasmo em que me encontrava. O trabalho
livre, criativo e sossegado era uma coisa saudável e a pouco e pouco comecei
a sentir que voltava a viver.
Neste período, comprei um pequeno livro que fortaleceu a minha
ténue esperança e a minha, ainda muito débil, autoconfiança. Chamava-se “As
leis espirituais do sucesso” de Deepak Chopra. Um capítulo que chamou a
minha particular atenção referia-se a que devemos estar atentos e prontos a
identificar e aproveitar uma oportunidade para atingir os nossos fins porque
essa oportunidade surgiria, mais cedo ou mais tarde. Por algum motivo
acreditei que assim fosse e tornei-me vigilante e sensível a tudo o que
pudesse representar uma oportunidade. Incrivelmente essa oportunidade
surgiu. Não me bateu à porta mas entrou pela minha caixa de correio.
O teor da carta que recebi, normalmente me teria passado despercebido e
tê-la-ia rejeitado. Porém, como estava atento vi nela uma oportunidade ou
transformei-a em tal. O resultado traduziu-se em ganhar uma quantia
considerável de dinheiro que investi na criação de um escritório dedicado à
prestação de serviços na Internet. Correspondia a uma ideia que me surgira
há algum tempo atrás mas que não pudera pôr em prática por falta de capital.
Tudo parecia estar a correr bem; pelo menos no plano profissional.
“O resto se seguiria”, pensava eu.
De facto, há muito que sentia a falta de amor na minha vida. A
ausência de alguém por quem sentisse uma forte ligação já se estendia por
longo tempo. Acredito que toda essa grande carência no plano afectivo tenha
contribuído para um desequilíbrio interno cada vez maior. Para além de que,
esta abordagem foi fortemente afectada pela perda de um companheiro
inseparável de há vários anos – Prince, um lobo da Sibéria. Talvez
por isso, este período foi caracterizado por grandes distúrbios
psicológicos.
Para permitir uma análise mais profunda relatarei esta abordagem
com mais pormenor.
Outra das razões para estas anomalias psíquicas poderá estar
relacionada com a limpeza kundalínica, isto é, em estados de alta energia,
todas as pequenas deformações e vicissitudes latentes do nosso ego tendem a
vir à superfície, precisamente para poderem ser identificadas e,
posteriormente, limpas.
Kundalini é uma palavra sânscrita (antiga língua da Índia) que
significa energia espiral. Esta é uma força evolutiva individual cujo
reservatório se situa na base da coluna onde jaz enrolada. Através do
despertar desta energia os iogues tântricos despertam os poderes de
divindade adormecidos ou latentes dentro de si, personificados pela deusa
adormecida Kundalini.
A Kundalini é por vezes designada por shakti – centelha
divina de força vital. Daí, a origem do Shakti Ioga, o ioga do controlo da
energia. A sua libertação é, normalmente, pela coluna acima até ao alto da
cabeça e para fora, através do que se designa por chakra coronário
(ou da coroa). Chakra também é uma palavra sânscrita que significa “roda” e
se refere aos diversos vórtices ou redemoinhos de energia existentes no
nosso corpo etérico.
Segundo Genevieve Paulson, especialista nesta matéria, um indivíduo
que tenha desenvolvido a sua kundalini de uma forma integral poderá possuir
dotes paranormais excepcionais, uma grande consciência espiritual e ser
considerado um génio ou um quase-deus. Por outro lado, pessoas cuja
Kundalini se manifestava sem o seu conhecimento e que relatavam os seus
sintomas aos outros eram, geralmente, consideradas malucas. Se na sua
subida, o fluxo kundalínico for impedido por padrões energéticos impróprios,
por negatividade, ou por um corpo não preparado ou limpo, poderá abater-se
alguns dias mais tarde, reiniciando, lenta e dolorosamente, a sua ascensão
ao longo do corpo, limpando-o e purificando-o à medida que sobe. Este
processo pode provocar perturbações físicas, emocionais ou mentais. Os
bloqueios de energia são causados por atitudes ou sentimentos recalcados ou
por antigas cicatrizes emocionais ou mentais.
Havia vários nódulos na minha personalidade que nunca haviam
sido dissolvidos porque eram quase imperceptíveis, principalmente para mim
que estava acostumado a viver há muito com eles. Refiro-me a pequenos medos
ou fobias, manias, complexos e, sobretudo, a certos conceitos míticos que
criamos, por vezes, para darmos uma explicação, a nós próprios, para a
ocorrência de determinados acontecimentos ou fenómenos que nos
impressionaram. Um exemplo simples: quando muitas coisas seguidas correm mal
pode, em muitos de nós, surgir a ideia de que “parece que está tudo contra
nós” ou, ainda pior, de que “existe um complôt contra nós”. Numa
situação agravada (como iremos ver) estas impressões subjacentes podem
transformar-se em mania de perseguição ou paranóia. Outro
exemplo: quando observamos, numa pessoa, determinados comportamentos que não
compreendemos e reprovamos, podemos sofrer a tendência de a classificar como
uma pessoa má, como se pertencesse a uma outra espécie diferente da
nossa. Estes conceitos míticos não têm qualquer base lógica ou fundamentada
e, no entanto, jazem fortemente enraizados debaixo da superfície da nossa
mente e são preponderantes no mecanismo de criação e escolha dos nossos
sistemas de crenças e convicções. São mais impressões do que conceitos
porque têm uma forte carga emocional. Baseiam-se muitas vezes apenas no que
se ouviu dizer, na mitologia ou em fragmentos da nossa cultura
maniqueísta gravemente afectada pelo dualismo do bem e do mal (penso que
também possam estar relacionadas com o funcionamento de estratos cerebrais
mais primitivos, muito ligados ao instinto de sobrevivência, pautado pelo “aproxima-te
ou afasta-te de algo, porque isso é bom ou mau para a
tua preservação”).
Essas pequenas deformações psíquicas que todos temos nunca se tinham
evidenciado muito em mim e, desse modo, porque não pareciam prejudicar-me
grandemente, eram um fardo que eu transportava ao longo dos anos. Mas, como
mais tarde viria a constatar, essas pequenas anomalias psíquicas
tornar-se-iam altamente prejudiciais em momentos de crise.
Após a entrada em funcionamento do meu escritório a minha passagem
a um nível de energia superior ocorreu de modo quase imperceptível.
Possivelmente foi devido ao entusiasmo e à alegria que começava a sentir
face às perspectivas animadoras da minha nova actividade. Assim, quando me
apercebi, constatei que já tinha entrado num estado correspondente ao
limiar, ou aos primeiros patamares do percurso ascendente:
maior energia, maior lucidez e inteligência, sensação de poder e de
bem-estar e pouca necessidade de sono e de descanso.
Veio ainda potenciar este estado, aquilo que me pareceu ser o prenúncio de
uma ligação afectiva.
Yufku jantava tranquilamente no pequeno restaurante que eu
recentemente frequentava. Foi a primeira vez que vi a jovem japonesa. Era
atraente embora não fosse especialmente bonita. Senti uma grande curiosidade
por conhecê-la. A fisionomia oriental sempre tinha exercido em mim um certo
fascínio.
A minha refeição tinha terminado. Após alguns momentos de hesitação e depois
de pensar que provavelmente nunca mais a veria levantei-me e perguntei-lhe
se lhe podia fazer um pouco de companhia enquanto terminava o jantar. Ela
acedeu com simpatia. Conversamos muito. No fim ela disse que no dia seguinte
partiria para Coimbra onde ficaria alguns dias.
Dois dias depois telefonou-me. Como no dia seguinte começava o fim
de semana resolvi ir passá-lo a Coimbra. Coimbra ficava a cerca de 120Km da
cidade do Porto na qual eu vivia. Estava um lindo dia e almoçamos
prolongadamente sob o sol de Março numa esplanada na praça central da
cidade. Regressara a minha adoração pelo sol e eu sentia-me a absorver a sua
energia durante as horas que passaram enquanto conversávamos e comíamos.
Caiu-me como um bálsamo.
Entretanto, também me apercebera de algo que por um lado me
agradava e por outro me deixava interrogativo e com uma sensação de
estranheza: a enorme profusão de jovens de outras nacionalidades na cidade.
Pelo que eu sabia isso não era habitual; ainda estivera em Coimbra poucos
anos antes e nunca tinha notado esse cosmopolitismo.
De qualquer forma senti-me muito feliz durante essa tarde soalheira
compartilhada com Yufku.
Já era o fim da tarde quando me dirigi ao hotel para dormir apenas
duas horas. Na noite anterior não dormira e sentia-me cansado.
Depois que Yufku e uma sua amiga me acordaram, levantei-me sentindo que o
meu sono fora insuficiente e que não estava completamente recuperado. Sentia
necessidade de me recompor para estar fresco e com bom aspecto para a ceia
que se iria seguir. Intuitivamente, enchi a banheira de água muito quente e
deixei-me afundar encolhido numa posição fetal. Esqueci-me de respirar. Foi
como se mergulhasse numa espécie de inconsciência enquanto a água e o calor
regeneravam o meu corpo. Não sei estimar quanto tempo decorreu. A seguir,
emergi e tomei um duche de água fria. Quando vi o meu reflexo no espelho
fiquei admirado: estava rejuvenescido e com um aspecto radiante.
Interiormente também me sentia cheio de frescura e vivacidade. Saltitei ao
encontro das minhas amigas. Tivemos uma noite encantadora ceando e ouvindo
lindas músicas de fado. O serão terminou num pequeno bar onde falei,
a Yufku e a um jovem professor da universidade de Coimbra que conhecêramos
na casa de fados, sobre alguns dos projectos, no domínio da tecnologia
electrónica e da informática, que estava a desenvolver no meu escritório.
No dia seguinte, iriam começar a emergir, do seu estado latente, as
minhas pequenas fobias ainda não resolvidas e que vinha carregando
há anos.
Depois do pequeno almoço decidi dar um passeio, a pé, pelo centro
da cidade.
Sentado junto à fonte, na praça central, Eric soltava acordes
maravilhosos do seu violino. Eu e Yufku tínhamos conhecido este músico
escocês no dia anterior, ali naquela mesma praça.
Ouvi-o durante um longo tempo. Quando terminou, Eric levantou-se e veio
cumprimentar-me. Após alguns momentos de conversa eu reparei que a bateria
do meu telemóvel estava descarregada e que esquecera o carregador no
escritório, no Porto. Decidi ir lá buscá-lo e convidei Eric para me fazer
companhia e conhecer o escritório da minha pequena firma de que eu tanto me
orgulhava.
Iniciamos a viagem pela auto-estrada que liga estas duas cidades.
Eric pediu-me para conduzir com velocidade moderada porque as estradas
estavam perigosas. Curiosamente, recordei-me de duas ocorrências estranhas
quando fizera a viagem para Coimbra: era noite e enquanto conduzia tinha
passado por mim uma fila de automóveis que, aparentemente, viajavam em
conjunto. Algum tempo depois, mais à frente, aproximei-me de um novo
conjunto de carros que talvez fosse o mesmo. Como o primeiro pareceu-me que
se moviam em grupo. Eu seguia alguns metros atrás e tive a sensação de
presenciar um acontecimento estranho. Quando o grupo de automóveis se
acercou de um condutor solitário, alguns ultrapassaram-no, outros
mantiveram-se a par e os restantes deixaram-se seguir atrás. Mas todos se
aproximaram perigosamente desse condutor. Mantiveram-se nesse “jogo” durante
algum tempo, cercando o automóvel. A dada altura pareceu-me que esse
automóvel se movia de forma algo descontrolada e temi o seu despiste.
Aproximei-me e fiz sinais de luzes. O suposto grupo de automóveis pareceu
dispersar-se e, finalmente, ultrapassei-os julgando que tudo fora imaginação
minha e esquecendo o incidente.
Mal tinha terminado estas recordações e deparámos com um acidente na
auto-estrada. Tudo indicava que acabara de ocorrer. Parecia ter sido um
despiste pois via-se apenas um automóvel voltado ao contrário na borda da
estrada. Sobre a relva, junto ao carro, estavam dois corpos. Mais à frente
vi que dois automóveis encostavam e paravam. Também fiz o mesmo e
dirigimo-nos, a correr, para o local do acidente. Um dos indivíduos
estendidos sobre a relva estava morto e o outro parecia estar a morrer.
Tinha espasmos muito débeis, parte do crânio estava ferido e a cara estava
ensanguentada. Aparentemente, já tinha perdido a consciência. Havia um
terceiro homem entalado dentro do carro que me pareceu não ter ferimentos
tão graves. Assim, voltei a acercar-me daquele que me pareceu precisar de um
auxílio mais imediato.
Talvez por, nessa altura, me encontrar num estado de ser um
pouco superior ao estado comum e um dos atributos desses estados ser a maior
tendência para amar, não tive hesitações. Ignorei o sangue e outras
secreções que escorriam do rosto do moribundo e fiz-lhe respiração boca a
boca. Ele não reagia, tinha a faringe bloqueada impedindo-lhe a entrada de
ar. Corri ao carro e vasculhei a mala à procura de algo que me pudesse
servir de tubo. Finalmente encontrei um spray tapa furos e
arranquei-lhe o tubo de plástico. Corri de novo para o ferido e entubei-o,
desbloqueando-lhe a faringe. O ar já circulava, porém após várias
insistências ele não dava sinais de recuperar a respiração e o seu coração
parecia ter parado. Uma jovem médica aproximara-se e eu pedi-lhe que lhe
continuasse a fazer respiração boca a boca enquanto eu lhe massajava o
coração. Com uma expressão que traduzia alguma repugnância, o que agora
compreendo devido ao estado do rosto do moribundo, respondeu-me que não se
sentia capaz. De qualquer modo, fez-lhe massagens cardíacas enquanto eu lhe
continuava a fazer respiração artificial. Os nossos esforços resultaram
infrutíferos. Só haveria uma coisa a fazer: estimular o coração com choques
eléctricos, usando um desfibrilizador, mas a ambulância nunca mais chegava.
Quando finalmente chegou não trazia equipamento de reanimação cardíaca.
Afastei-me frustrado e com uma triste sensação de impotência por não ter
podido salvar aquela vida.
Prosseguimos viagem. Paramos na próxima estação de serviço para irmos aos
lavabos e tomar um café. Enquanto o tomava, pensei como era estranho que um
automóvel se tivesse despistado numa auto-estrada, em plena recta e tive uma
lembrança fugaz do episódio do dia anterior, quando viajara para Coimbra.
Chegamos ao Porto ao fim da tarde. Quando abri a porta do edifício
onde ficava o meu escritório saiu de lá um indivíduo que eu conhecia por
trabalhar no café ao lado. Pareceu-me bêbedo e tinha um olho pisado. Não
compreendi o que ele pudesse estar a fazer dentro do prédio.
Ao abrir a porta do escritório senti um forte odor a fumo de
cigarro como se tivesse acabado de lá estar alguém. Estranhei este facto e
inspeccionei tudo à procura de algum indício que confirmasse a minha
suspeita. Não me pareceu detectar nada de anormal mas fiquei na dúvida –
“será que alguém teria lá estado?” – como não dei pela falta de nada, a
única coisa que algum eventual intruso poderia ter feito, seria ter-se
inteirado das actividades e projectos da firma. Passou-me pela cabeça que,
como ela se dedicava às novas tecnologias, tudo era possível, mesmo a
espionagem de alguma empresa concorrente.
-- Maybe it’s paranoia my friend... however some people say that paranoia
it’s the most accurate state of mind... very useful to survive in a crisis
situation. – disse Eric.
Talvez ele tivesse razão, talvez fosse mesmo paranóia minha.
Por fim, acabei por pensar que tudo isso não passava da minha
imaginação e fiz por esquecer as suspeitas.
Pouco passava das 10 da noite quando regressamos a Coimbra.
Dirigi-me à casa de fados onde tinha combinado encontrar-me com Yufku. Junto
à entrada estava um cão com um aspecto horrível que nos rosnou. Subitamente,
Prince, o meu lobo da Sibéria, avançou para ele e desataram os dois a correr
até que desapareceram ao dobrar de uma esquina. Tentei encontrá-lo em vão.
Resolvi entrar, preocupado, mas esperando que ele regressasse. Ao entrar
senti o peso de uma estranha atmosfera. Foi uma sensação subliminar mas, de
uma forma instintiva, pareceu-me que algo ameaçador pairava no ar.
Yufku estava sentada numa mesa ao fundo com outras pessoas. Não sei se foi
por ver a sua mesa cheia ou se por me sentir pouco à vontade que resolvi
sentar-me com Eric numa mesa à entrada.
-- Olha, chegaram os Vikings! – ouvi alguém dizer em tom
zombeteiro.
A voz viera de um ponto intermédio entre a nossa mesa e a mesa do
fundo onde estava Yufku. Um indivíduo com aspecto de “yupie”, de cabelo
curto, muito bem cortado, e envergando um fato dispendioso e de qualidade,
aparentando cerca de vinte e sete ou vinte e oito anos, conversava de pé
para outro indivíduo mais novo que estava sentado à mesa. Pelo tom de voz,
fora ele que produzira a exclamação. Falava alto e descaradamente como se
fosse o dono de tudo. E falava um pouco para todos. Existia uma certa
cumplicidade entre ele e o pessoal da casa de fados, inclusive o gerente.
Como se o temessem, deixavam-no falar.
– O Atlan vai apanhar uma lição que não vai sair de casa durante um mês!
E ria-se.
– É do “Puorto”!... não é que eu tenha nada contra as pessoas do
Porto... (só que não sei se gosto delas)... até é capaz de haver muito boa
gente no Porto... Mas ele vai aprender a não se meter onde não é chamado!
…
ALEATOR
– Qual será a fonte da Aleatoriedade?
Reconstruir o mundo a partir de um grão de areia...
“Existe ordem no caos: o
aleatório possui uma forma geométrica subjacente.”
Crutchfield, Farmer, Norman Packard e Robert S. Shaw
“Como podemos nós
resolver o giro paradoxal de que o macrocosmos – o mundo de todos os dias –
determina a realidade microscópica que, por sua vez, o constitui? Como é que o
observador se tem de comportar para projectar o nebuloso microcosmos para um
estado de realidade concreta?”
Paul Davies
Aleator saiu apressadamente do edifício e esbarrou em Íris. Ali, mesmo à
porta do Instituto de Estudos Quânticos.
— Íris! Que feliz coincidência. Ainda
há pouco pensei em ti!
— “Coincidência”?... que giro ouvir
essa palavra da tua boca! Tu, um estudioso do aleatório e das
coincidências...
— É mesmo, Íris!... apanhaste-me em
flagrante!
— Não te preocupes... é claro que
estamos todos ainda muito imbuídos da linguagem e da filosofia do velho mundo...
— Sim, e ‘coincidência’ sempre foi
uma palavra tão usada para definir acontecimentos... como era? ah, sim – “frutos
de mero acaso”! — exclamou Aleator em tom reflexivo.
— E pelos vistos não há mesmo
coincidências, não é Aleator? — interrogou Íris fitando-o com um olhar maroto.
— Sim, na verdade, cada vez me
convenço mais de que está tudo interligado.
— E tens avançado muito nas tuas
investigações?
— Sim,
bastante. Ainda hoje combinei passar a tarde com Kérík para estudar a sua forma
de pintar o aleatório... Mas, já que estás aqui, porque não vamos tomar um chá?
Conheço um local aqui perto que tem uns bolinhos de canela!... — disse Aleator
esfregando as mãos de prazer ao imaginar a iguaria.
— Excelente ideia! Adoro bolos de
canela!
A pequenina e acolhedora casa de chá
ficava apenas a dois quarteirões, em frente ao frondoso jardim do lago verde.
Tinha um nome pitoresco. Chamava-se “La Palissade”.
“Oh, ainda por cima com música de
‘Oskorri’ a tocar!...”, pensava Íris enquanto entrava naquele ambiente forrado a
cores pastéis, “divino! simplesmente inacreditável...”
— E então, Íris, conta-me: como vai o
teu “Princípio da Certeza”?
— Ah, o princípio da certeza...
cada vez com mais possibilidades, mas cada vez também com uma maior quantidade
de hipóteses a testar... mas vai bem. Sabes, Aleator, vou fazer um pequeno
retiro para a minha cabana da floresta. Inspira-me trabalhar lá!... é lá
que irei prosseguir a minha pesquisa.
— Sentes uma conexão com a natureza
cada vez maior, não é?
— Sim.
Principalmente com algo que está subjacente à própria natureza...
mas que é anterior a ela. E que emerge através dela.
— O quê,
Íris? — perguntou Aleator com uma súbita curiosidade.
— Não
sei bem... sinto que é algo anterior a tudo. Até ao próprio Deus e aos
deuses... Sinto que é algo que tem uma natureza selvagem e indomada. Primordial
e antiquíssima. Mas que ainda existe!...
— Alguma
espécie de consciência?
— Não
será bem isso. Talvez antes uma espécie de “consciência” amorfa,
ou uma “consciência inconsciente”. Algo que tem a ver com o Caos. Um
Caos primordial, subjacente a todas
as coisas...
— Caos?
—
Sim... Bem, já vi que isso te “toca”!...
— Claro
que sim!... Poderá ser isso a fonte da aleatoriedade? Poderá ser isso que
está na base da dinâmica aleatória presente no “ruído” do tecido da
existência? Poderá ser essa a fonte de todos os fenómenos aleatórios?... que
se processam por toda a parte e a todo o momento no universo? — o interesse de
Aleator tinha sido subitamente despoletado. Há vários anos que a sua maior
ambição era descobrir o segredo que estava por detrás da aparente casualidade
imanente a tudo. E vinha dedicando as suas pesquisas ao desvendar do “Como” e do
“Porquê” do factor aleatório da existência. Para ele, o âmago de todas as coisas
residia aí.
—
Talvez... talvez se relacione com o aleatório.
Talvez isso seja a própria estrutura de um tipo de consciência
bem diferente. Bem diferente daquilo que estamos habituados a considerar como
consciência.
—
...talvez uma consciência constituída por elementos aleatórios — completou
Aleator reflectindo — uma super estrutura consciente, constituída por
estruturas inconscientes, aleatórias... O que é, de resto, concordante com
certas inferências derivadas da Teoria do Caos: embora o Caos seja
geralmente encarado em termos das limitações que implica – tais como a falta de
previsibilidade de um sistema – a natureza, todavia, deve empregar o caos
construtivamente...
...Através da amplificação de pequenas flutuações, a natureza pode proporcionar
aos sistemas naturais o acesso à inovação.
Uma
presa escapando ao ataque de um predador poderá usar um controle de voo
aleatório como elemento de surpresa para evitar a captura.
Evolução
biológica exige variação genética; o caos providencia um meio de
estruturar as mudanças aleatórias, fornecendo com isso a possibilidade de
colocar a variabilidade sob controle evolucionário.
Mesmo o
processo de progressão intelectual se baseia na injecção de novas ideias , e em
novas formas de conectar ideias antigas. Os indivíduos que possuem grande
criatividade inata devem possuir um processo caótico subjacente que
amplifica, selectivamente, pequenas flutuações aleatórias e as molda em
macroscópicos e coerentes esquemas mentais que são experimentados como
pensamentos.
Em
certos casos, estes pensamentos podem ser decisões, ou aquilo que é
percebido como o exercício da vontade, do querer, do arbítrio.
Através
deste prisma, é o Caos que fornece um mecanismo que permite o livre arbítrio
dentro de um mundo governado por leis determinísticas...
...Mas,
Íris, como obtiveste a ideia de que esse “algo”, que sentes ser subjacente e
anterior à própria natureza, possa tratar-se de um tipo de consciência,
ainda que muito diferente da nossa?
— Não
sei bem. Sinto-o intuitivamente. Principalmente depois de algumas experiências
pessoais que me fizeram entrar em conexão com o âmago da natureza.
— És
fortemente intuitiva!... e sentiste mais alguma coisa?
— Sim,
senti que é como uma espécie de força. Algo com uma tonalidade acastanhada
indefinida. Senti que é uma “consciência” pouco interventiva. Tem uma natureza
mais passiva que activa... e, contudo, age. Possui uma dinâmica: actua, emerge.
E, apesar de me parecer tratar-se de uma consciência amorfa, sinto que nada lhe
“escapa”, que nada lhe é incompreensível. Mesmo consciências como a nossa.
—
Fala-me dessas experiências.
— Bem,
vou referir-te apenas uma:
Ocorreu
numa fase em que eu estava num estado de alta energia pessoal. Apesar disso,
naquele momento estava muito fatigada. E o sol já se tinha posto...
Como me
encontrava na orla de uma pequena floresta, deixei-me conduzir por uma subtil
intuição para o seu interior. O que me movia eram duas necessidades instintivas:
a de me restaurar fisicamente e a de me fundir com a própria Terra. Eram não só
uma necessidade, mas um desejo profundo, muito profundo. Quando me encontrei em
frente a uma zona de ervas altas e densas, a minha empatia com a “alma” da terra
era já muito grande e senti que, naquele momento único, eu seria capaz de me
fundir, sem medos, com aquela essência obscura e misteriosa da qual toda a
existência tinha surgido.
Deixei-me cair...
E
afundei, de costas, na profundidade das longas ervas que pareceram engolir-me na
escuridão. Uma poalha de chuva muito fina pousava suavemente acariciando-me a
face. Vislumbrei ainda algumas estrelas no céu distante que desapareceram
rapidamente nas trevas que me envolveram...
E
mergulhei na inconsciência total. Tão total quanto tranquila.
O vazio
de tempo decorrido seria impossível de determinar.
Era um
tempo sem Tempo.
...
Regressei à realidade de uma forma instantânea, imediata: senti, junto a cada um
dos meus ouvidos, o sibilar de uma serpente — e levantei-me de um salto
automático e assustado.
Em dois
ou três passos rápidos afastei-me do local.
Olhei
para lá, mas tudo parecia estar envolto na mesma tranquilidade.
Era
noite profunda.
Sentia-me estranhamente revigorada e detentora de algo diferente dentro de mim.
Algo muito poderoso, mas incognoscível.
Não
consigo saber o que se passou nesse “entretempo”. Mas sentia-o. Sentia que
mergulhara no âmago de algo inimaginável. Algo anterior ao próprio tempo.
Anterior a tudo. Mas que tudo permeava... Estava, ou continuava a estar,
imperceptivelmente em todas as coisas. Tão indefinida e suavemente como uma
sombra invisível.
E senti
a sua natureza amorfa, indomada, selvagem.
Não era
uma natureza “má”. Era apenas selvagem, agreste... ...eu é que me assustei com
aquele sibilar. Talvez porque senti que a minha natureza era mais frágil do que
aquele “gear”, do que aquele “movimento” lento, imperceptível, mas poderoso e
indomado...
—
“Gear”?
— Foi a
palavra que me surgiu para descrever, de algum modo, a sensação que obtive
daquele tipo de “vida”... “gear”, como se fosse o movimento lento, mas poderoso
e imparável da lava vulcânica... Assim como me surgiram as palavras “Geo”,
“Geos” e “Geus”, para designar aquela “natureza”. Tinha realmente algo a ver com
‘caos’, mas com um caos de alguma forma “consciente”... é muito difícil tentar
definir o indefinível! — concluiu Íris.
—
Sabes... isso poderá estar na base dos fractais...
E poderá ser a fonte daquilo a que chamo a Linguagem Aleatória
da Existência.
Talvez seja o aleatório, esse factor de imprevisibilidade, que
possibilita a vida
® ao conferir-lhe uma dinâmica de liberdade. Sem a
qual, de resto, creio que tudo seria determinista. E portanto, não existiria
vida, pelo menos tal como a entendemos... Talvez existissem apenas “máquinas” ou
“peças de relógio”.
Mas
vamos recapitular um pouco sobre as origens, na física, do comportamento
Aleatório:
– Foi o movimento Browniano
que nos forneceu um exemplo clássico da aleatoriedade. Uma porção de
poeira observada através de um microscópio é vista como movendo-se num contínuo e
errático sacudir. Isto é causado pelo bombardeamento da partícula de pó pelas
moléculas de água que a rodeiam e que estão animada de movimento térmico. Devido
às moléculas de água não serem visíveis e existirem em grande número, o
movimento detalhado da partícula de pó é inteiramente imprevisível. Aqui, a
teia de influências causais entre as sub-unidades pode surgir tão emaranhada
que o padrão de comportamento resultante se torna perfeitamente aleatório.
Pensava-se que somente uma teia constituída por uma enorme quantidade
de sub-unidades ou elementos causais poderia originar comportamentos deste
tipo.
Porém,
este ponto de vista foi alterado recentemente: descobriu-se que sistemas simples
e deterministas, com apenas alguns elementos, podem gerar
comportamento aleatório!
A
aleatoriedade é imanente e fundamental – e não é a acumulação de uma maior
quantidade de informação que a faz desaparecer. A aleatoriedade gerada
por esta forma – como por exemplo através dos atractores e fractais –
começou a ser designada por caos. Um aparente paradoxo é que
este caos é determinista, gerado por regras fixas que não
envolvem em si quaisquer elementos de acaso. Em princípio o futuro deveria ser
completamente determinado pelo passado, mas na prática acontece que pequenas
incertezas são amplificadas, e assim, não obstante o
comportamento ser previsível a curto prazo, ele torna-se imprevisível a longo
prazo.
Mas
existe alguma ordem neste Caos:
Subjacente ao
comportamento caótico surgem elegantes formas geométricas que
criam aleatoriedade do mesmo modo que o faz um “croupier” ao baralhar um jogo de
cartas ou um pasteleiro ao misturar a massa dos bolos.
A descoberta deste caos originou um
novo paradigma na criação de modelos científicos. Por um lado, implica novos e
fundamentais limites na aptidão de fazer previsões. Por outro lado, o
determinismo inerente ao caos implica que muitos dos fenómenos
aleatórios são mais previsíveis do que já alguma vez se pensou. Muita da
Informação aparentemente aleatória colhida no passado – e posta de lado por ser
considerada demasiado complicada – pode ser agora explicada em termos de leis
simples. O caos permitiu encontrar ordem em sistemas tão diversos como a
atmosfera e a meteorologia, o gotejar de uma torneira, e o coração.
Deixa-me
mostrar-te a análise que fiz a um trabalho realizado por um grupo de
investigadores constituído por Crutchfield, Farmer, Packard e Shaw e que está
relacionado com as minhas pesquisas, apesar de não coincidir completamente com o
objecto da minha procura...
Mas como
o trabalho que te vou mostrar se baseia na Teoria do Caos e no seu
desenvolvimento fundamental — os atractores, é melhor fazermos aqui um
pequena revisão para melhor compreendermos o alcance desse trabalho e,
principalmente, para atingirmos o significado dos resultados do meu próprio
trabalho de pesquisa que te mostrarei a seguir.
A Teoria
do Caos faz parte de um recentíssimo ramo da ciência que se chama Ciência
da Complexidade. Ou seja, o estudo da complexidade constituiu-se,
finalmente, como uma ciência em si mesma.
É claro
que a teoria do caos está também relacionada com a área da matemática que estuda
as probabilidades, as variáveis aleatórias e os processos estocásticos.
Existem duas espécies de atractores: os previsíveis e os
caóticos (ou estranhos). Os atractores previsíveis são formas
geométricas que caracterizam um comportamento a longo prazo num “espaço
de estados”. Vulgarmente falando, um atractor é aquilo para que tende o
comportamento de um sistema, ou para o qual é atraído.
O seu caso mais simples é representado como um ponto fixo(·)
que poderá corresponder, por exemplo, a um pêndulo sujeito à fricção; o pêndulo
tende sempre para a mesma posição de repouso (um ponto), independentemente de
como, onde e quando começou a oscilar.
Os atractores da esquerda
representam dois outros sistemas previsíveis.
O 1º é um ciclo-limitado
(por ex. as oscilações de um pêndulo de relógio).
O 2º é um atractor tórus (um
exemplo de oscilações compostas, ou comportamento quase-periódico)Literatura Transmutalista.
Mas
analisemos agora o que é um atractor caótico, já que é essa a base
do trabalho que iremos ver a seguir e que se fundamenta nos princípios daquele
que é o caso mais simples dos atractores caóticos — o atractor de Rössler
Um atractor caótico tem uma
estrutura muito mais complicada do que um atractor previsível (tal como o
ponto, o ciclo limitado ou o tórus). Observado em grande
escala, um atractor caótico não é uma superfície lisa, mas sim uma superfície
repleta de dobras. A imagem da direita representa os passos necessários para
produzir um atractor caótico para o caso mais simples: o atractor de Rössler (à
esquerda). Baseia-se em dois tipos de operações: “esticar” e “amassar” (de forma
semelhante ao esticar e amassar da massa do pão; poderemos imaginar as linhas
que se formariam se nela misturássemos uma porção de pigmento azul). 1)
Inicialmente, as trajectórias contíguas dentro do próprio objecto deverão “esticar-se”,
ou divergir exponencialmente; nesta operação a distância entre as
trajectórias vizinhas duplica aproximadamente. 2) Para manter o objecto
compacto, ele deverá “dobrar-se” sobre si mesmo, ou “amassar-se”:
a superfície encurva-se sobre si própria até que as duas pontas se encontrem. O
atractor de Rössler tem vindo a ser encontrado em muitos sistemas, desde
o fluxo de fluidos a reacções químicas, ilustrando o axioma de Einstein de que a
natureza prefere as formas simples…
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