quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Páginas Transmutalistas



Metarrealismo é o esboço teórico que precedeu o Transmutalismo. Tendo sido concebido em 1976, surgiu a público pela primeira vez em Outubro de 1989 num programa da Rádio Televisão Portuguesa explanado pelo seu criador. O Metarrealismo surgiu essencialmente como uma metodologia de pesquisa. "Uma pesquisa dos níveis mais elevados da consciência e do seu modo de percepcionar o universo". Ao conjunto desses níveis de consciência ainda muito pouco explorados o autor designava de "Metaconsciência". Um dos exemplos considerados era o estado de Meditação Transcendental.
Metarrealismo significa, etimologicamente, para além da realidade. Assim, contrariamente à psicologia das profundezas de Freud que explorava os "abismos" da mente como o inconsciente e o irracional, o Metarrealismo dedicar-se-ia a explorar os outros extremos da mente que denominava de "Altitudes da Consciência".
A actividade artística produzida em estados elevados de consciência foi um dos campos iniciais de experimentação do Metarrealismo que pretendia ser assim, também, uma corrente artística distinta fundamentada numa base filosófica própria. Derivava-se daqui também a necessidade do estabelecimento de uma área da psicologia direccionada para o estudo de estados de ascese e de níveis elevados de consciência.
Na matemática, a Análise Complexa, que engloba entidades ditas imaginárias para poder, de forma consistente, explicar fenómenos da existência (através do corpo dos Números Complexos constituídos por uma parte real e uma parte imaginária, "a+bi"), parecia estar em perfeita concordância com a perspectiva metarrealista.
Na Física, os últimos avanços da Mecânica Quântica revolucionando a anterior visão rígida e lógica do universo e demonstrando que nós, os observadores, deformamos os acontecimentos no universo ao nosso redor coincidiram com as hipóteses metarrealistas de que as características e o grau dessas deformações estão relacionadas com o nível (ou "camada") do estado de consciência em que se encontra o observador.
"A realidade perde a sua rigidez e torna-se flexível, perde as suas fronteiras e unifica-se num todo. Existe um pequeno universo ao redor do ponto de consciência do executor da obra, depende dele." in 'Metarrealismo como Expressão Artística', 1991.




 
O  Livro  da  Transmutação
 

 
 
(Síntese Vol. I)
 
 
 
      Toda a Mentalidade e Pensamento Quotidiano assentam sobre axiomas.
      Os axiomas são tomados como as verdades básicas ou fundamentais a partir das quais toda a estrutura do pensamento é construída.
      Essa estrutura de pensamento determina a forma como interpretamos a Realidade e o modo como lidamos com a mesma.
     
      Porém, os axiomas são apenas proposições aceites como verdades já que não podem ser demonstrados como tal.
      Um dos axiomas básicos é o Princípio da Identidade que diz:
      “Uma coisa é igual a si própria, ou A = A”.
 
      Eu suponho que este axioma (como outros) está incompleto, o que originou toda uma matemática e lógica incompletas e um resultante sistema de pensamento deficiente.
      Como consequência ficamos privados da possibilidade de domar a Realidade por não possuirmos uma instrumentação mental completa.
     
      Assim, para completar o Princípio da Identidade, e apesar de aparentemente ilógico, enunciei o Axioma 1 do Transmutalismo como:
      “Uma coisa é igual e diferente de si própria, ou A = A  Ù  A ≠ A”.
 
      Deste axioma resulta o Conceito Transmutalista de que qualquer entidade é, afinal, uma Nuvem de Possibilidades contendo um número infinito de entidades diferentes:
 
      Assim, uma entidade é o núcleo denso de uma nuvem de possibilidades que engloba em si também todas as entidades alternativas, isto é, tudo aquilo que essa entidade não é!
 
      Este é o mecanismo que permitirá não apenas a Transmorfose mas também Transmutação definitiva do ser.
 
 
 
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         Enquanto se dirigiam para o Instituto de Estudos Quânticos, Íris contemplou Atlan, ali ao seu lado, e recordou-se das estranhas circunstâncias em que o conhecera.
 
         Fora em Montserrat, nas Filipinas, durante a violenta erupção daquele feroz vulcão…
 
         Como mais tarde veio a saber, Atlan aventurava-se frequentemente em locais muito além dos seguros. E fora ali que o vira pela primeira vez mesmo na margem do rio de lava fervente que o começara a cercar…
                    
         Ele não se apercebera de que ela, da outra margem, o observara... tão secretamente quanto fascinada.
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Ø

TRANSMORPHOSYS
 
 
E, quase sem ter dado por isso, ali se encontrava ele

naquela terrível situação:  agachado na margem,

enfrente ao rio de lama fervente.

 

Estava muito calor e a lava principiava a rodeá-lo.

 

Precisava urgentemente de atravessar para a outra margem.

Ele possuía dois braços e duas pernas –

– nada que lhe fosse útil naquela situação!

Precisaria de voar sobre a lava,

para lá chegar.
O calor era insuportável.
O magma ardente incendiava as ervas próximas.
 
Ele saltou para cima do pequeno rochedo.
Mesmo a tempo, porque agora, a lava rodeava-o.
Ameaçava engolir tudo.
E ele estava ali, aprisionado naquele corpo.
No seu corpo.
Sem poder alcançar a outra margem.

 

A pele ardia-lhe.

Anichou-se na pequena rocha.

A lava subia.

O ar quente queimava-lhe as narinas e os pulmões.

Se pudesse libertar-se dali...

deixaria tudo, até o seu próprio corpo!

 

Era o fim.

Porque o magma já rasava os seus pés.

E ele estava ali, no seu último reduto.

Se pudesse desfazer os limites do seu corpo...

...voava dali!

 

Aninhou-se mais ainda, desesperado.

Iria ser engolido...
 

...Iria ser engolido...

 

“Pois então que fosse!...”,

pensou ele, já subitamente Indiferente* a tudo!

E foi quando aquilo aconteceu:

 

Eu não sei explicar:

algo nele rasgou limites,

estourou com a rigidez da sua forma.

Ele tornou-se em nada,

ou em tudo.

 

E o que vi foi ele diluir-se,

tornar-se uma espécie de  mancha de mata-borrão,

e voar por cima da lava ardente.

 

(Se é que se poderia chamar àquilo

“voar”!...)
                                   Íris.
 
A vida é o conjunto das
forças que resistem à morte.
               
                         Xavier Bichat
                                
     Quando interrompemos o fluxo da descrição da nossa  própria pessoa, libertamo-nos do encantamento do ego que quer fazer-nos acreditar que representa a única realidade. Nesse momento podemos reconhecer a nossa verdadeira natureza  de campos de energia, livre e fluida. A partir de então,  podemos assumir a tarefa de nos reinventarmos de um modo intencional e voluntário, capaz de responder de novas maneiras a novas situações surgidas a qualquer instante.
 
“Os ensinamentos de Carlos Castañeda”, Victor Sanchez
 
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         “Será que foi uma alucinação?”, pensou Íris ainda muito pouco segura do que acabara de observar, “Eu vi mesmo aquilo?!?”. E não conseguia impedir-se de ir avançando em direcção ao monte de arbustos por trás dos quais caíra aquele ser que supostamente se diluira para esvoaçar por cima do rio de lava fervente. Tinha de se certificar do que vira.
         Mas súbitamente pensou: “Será perigoso?...”, e assim, foi de forma mais cautelosa que prosseguiu a sua aproximação para não perturbar o que quer que ali estivesse. “Ver sem ser vista”, sim, isso seria o mais prudente. Sentia cada vez mais receio do que tudo aquilo pudesse significar. Mas a curiosidade era mais forte…
         E então viu-o. Através da folhagem apercebeu-se que era o mesmo homem jovem que estivera, ainda há momentos, encurralado do outro lado do rio de fogo provocado pela erupção do vulcão. Ele ainda não se apercebera da presença dela e ela esquadrinhava-o de alto a baixo procurando descobrir-lhe qualquer característica invulgar que justificasse o insólito fenómeno que presenciara. Era um rapaz alto, de longos cabelos loiros e vestia-se de uma forma que continha algo de incomum… como se tivesse um-não-sei-o-quê de época medieval, de cavaleiro, ou algo assim. Ele encontrava-se soerguido e de perfil para Íris, como procurando recompor-se de qualquer coisa. “Talvez da experiência por que passara!”, pensou Íris.
         Foi então que ele virou repentinamente a cabeça na sua direcção e, através da folhagem, os olhos de ambos se cruzaram.
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         Aqueles olhos vibrantes fitavam-no com uma intensidade quase feroz, pensou Atlan quando se apercebeu daquilo que inicialmente lhe pareceram ser duas brasas que cintilavam através da folhagem. Fora a sensação de estar a ser observado e analisado que o fizera voltar-se naquela direcção. E ali estava alguém por trás daquela moita que não tirava os olhos de si. Deveria ser uma mulher porque lhe vislumbrava, por entre a folhagem, aquilo que pareciam ser uns longos cabelos cor-de-fogo.
         Ficaram assim imóveis, observando-se, medindo-se, algo receosos, algo desconfiados durante o que parecia estar a tornar-se uma eternidade.
         O que estariam a sentir? Ainda não se conheciam… mas parecia um daqueles momentos ainda mais mágicos do que a “magia” por que tinham acabado de passar. Talvez ainda não o soubessem definir mas era como se sentissem que algo no íntimo deles estava a retorcer-se e ao mesmo tempo a tocar-se, por fim, após uma longa espera…
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         Quando Íris saiu da folhagem e os dois se viram frente a frente sentiu que ele estava tão estupefacto quanto ela com tudo aquilo. Pareceu-lhe que ele não tinha a certeza de que ela o tivesse ou não observado. De qualquer modo, como a lava não parava de se aproximar e não havia tempo para conversar, ele ofereceu-se para a conduzir sem demora a um porto seguro, e ela aceitou. Urgia abandonar a ilha.
         Só muito mais tarde, perante a insistência de Íris, Atlan lhe falou sobre o que quer que pudesse ter ocorrido com ele próprio, ali, durante a violenta erupção do vulcão.
         Ele introduziu a mão na sua pequena mochila e retirou de lá um livro espesso.
         – Esta é uma edição do “Livro dos Mortos” do Antigo Egipto. Talvez o livro mais antigo da humanidade – explicou. Possivelmente escrito há cerca de 7.000 anos!... Mas uma tradução mais exacta do seu título seria “Livro da Saída para a Luz de o Dia”… quanto a mim, prefiro chamá-lo de “Livro das Transmorfoses”...
         – “Transmorfoses”? – interrompeu Íris.
         – Sim, é como designo as mutações temporárias da forma de um ser. Este livro leva a crer que esse era um tema da maior importância para os antigos egípcios. Repara, por exemplo, neste capítulo...
         Abriu o livro numa página seleccionada e leu:
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Capítulo LXXXVI
do Livro dos Mortos
 
Para ser transformado em Andorinha
 
 
 
Eu sou uma andorinha, uma andorinha…
Eu sou também a deusa Escorpião, filha de Rá…
Oh! deuses quão doce e agradável me é vosso perfume que arde e sobe para o horizonte!
Vós que habitais a Cidade Celeste!
Estendei-me vossas mãos protectoras para que eu possa, sem perigo, residir no Lago de Fogo!...
Pronuncio as palavras de Poder, digo: “Olhai bem, Eu sou Horus, eu me apodero da Barca Celeste e torno a pôr em seu trono Osíris, meu Pai.

 
 
…do ‘Livro das TransMorfoses’
...também chamado ‘Livro da Saída para a Luz de o Dia’
...conhecido como ‘Livro dos Mortos do Antigo Egipto’
 

 
Reflexão 1:
A Transmutação...  será possível?
 
 
 
 
“Vagas de energia quântica traduzem-se em estruturas complexas quando se toma em consideração a famosa equação de Einstein E=mc2. Esta fórmula mostra que a energia e massa são equivalentes, ou que a energia pode criar a matéria. Partículas materiais que são criadas a partir das flutuações de energia quântica, sem qualquer introdução exterior de energia. O princípio de incerteza de Heisenberg opera como um banco de energia. A energia pode ser emprestada durante uma curta duração, desde o momento que seja paga prontamente.”
“Ao ir buscar energia emprestada, um fotão pode  transformar-se temporariamente num par electrão-positrão, ou num par protão-antiprotão. Foram feitas experiências para os apanhar em flagrante. Uma vez mais, um fotão ‘puro’ nunca pôde ser destilado a partir desta complexa rede de transmutações.”                      
 Paul Davies
 
 
 
“Quem não se sentir chocado com a Teoria Quântica é porque a não compreendeu.”
Niels Bohr
 
 
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         Mais tarde, Atlan contou a Íris que uma das alavancas que lhe permitiu escapar com vida daquela aflitiva situação em que se encontrara, rodeado pela lava fervente, fora um invulgar *estado de indiferença* que dele se apoderara quando esgotara todas as outras possibilidades de fuga...
         Mas Íris queria saber mais, muito mais. Subitamente sentia-se acometida por uma incontrolável curiosidade em conhecer Atlan e tudo o que o levara até ali, até àquela estranha façanha. Queria saber as suas motivações e os seus objectivos profundos porque principiava a pressentir que eles se relacionavam de algum modo com os seus próprios.
         Atlan confidenciou-lhe então que a “transmutação” representava o sonho e o trabalho de toda uma vida, de toda a sua vida...
         Íris pediu-lhe para a esclarecer melhor sobre o que é que ele queria dizer com essa “transmutação”.
         – Desde a minha mais remota infância que sinto haver em nós uma  enorme verdade escondida – respondeu – uma verdade capaz de transformar tudo. Capaz de transformar completamente a nossa relação com o que nos rodeia e... até de nos transformar a nós próprios!
         – Capaz de nos transformar a nós próprios?
         – Sim, capaz de nos transformar a nós, meros seres humanos, em seres semelhantes a deuses!... – disse ele enquanto estendia os braços... muito abertos!
         E Íris ficou ali, abismada com tão estranha revelação a olhar para aquele jovem homem e a pensar que ele dedicara toda a sua vida a perseguir um sonho tão inédito quanto aparentemente impossível: o de se transmutar num ser ilimitado!...
         Enquanto contemplava o seu olhar profundo parecia-lhe estar a viver uma espécie de sonho acordada. Ela própria vinha investigando o tema da transmutação há vários anos, embora de uma perspectiva mais impessoal, mais teórica, mais relacionada com a Física e a transmutação dos elementos... e, mesmo assim, muitas vezes se interrogava se não estaria a perseguir uma quimera e a perder o seu tempo numa pesquisa impossível!...  Porém, pela primeira vez na sua vida, tinha acabado de encontrar alguém que parecia acreditar mais ainda naquele sonho do que ela.
         Quis saber o que ele tinha já descoberto, até onde tinha ele chegado, quais tinham sido os seus passos.
         Atlan começou então a contar-lhe que a sua longa investigação se iniciara há muito tempo atrás, ainda na sua infância, com uma coisa a que ele gostava de chamar “a teoria do puzzle”...
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A Teoria do Puzzle...


Atlan sempre fora uma criança muito diferente das outras. Possuía uma forma tão invulgar, tão clara e tão estranhamente pura de ver as coisas que parecia deixar adivinhar em si uma qualquer natureza alienígena... como se viesse, não daqui, da Terra, mas de um outro mundo distante.
A sua vida sempre fora pautada por retumbantes brilhantismos nas áreas mais diversas, assim como por desencantos e totais períodos de desinteresse.
Nasceu morto, vítima de um parto difícil e para além da época.
Quando, finalmente, abriu os olhos para o mundo, achou que ele deveria ter mais cor, mais beleza, mais amor e, sobretudo... deveria ser mais delicado. Foi essa falta de delicadeza e sensibilidade com que deparou que o levou a esbarrar, várias vezes, com os que o rodeavam. Sentia-se como uma lisa placa de cristal, coberta apenas por uma fina camada de cera, que aterrava numa terra de arestas pontiagudas e escarpadas que feriam a sua sensível superfície... rasgando nela rudes e violentos sulcos.
O mundo que percepcionava labutava já, frenética e atarefadamente, numa algazarra de agressividade e truques de competição que, aos olhos do pequeno Atlan, era egocêntrica e grotesca.
No entanto, havia muitas outras coisas, no mundo, que o fascinavam e a sua maior paixão era descobrir, descortinar “o que era tudo isto” no qual se encontrava inserido.
Foi assim que, aos seis anos, quase dois antes da sua entrada para a escola, esboçou a sua primeira teoria: a “teoria do puzzle”...
...havia no mundo, na vida, na existência em geral, uma grande quantidade e diversidade de “peças” soltas (como num “puzzle” ou “quebra-cabeças”) — ainda que fosse, de facto, uma quantidade bem pequena quando comparada com a imensidão da “imagem” total, constituída por todas as “peças” da existência.
Num típico jogo de puzzle, reconstituir a imagem global era uma tarefa simples: bastava, para isso, procurar e encaixar as peças em falta.
Mas o mesmo não se passava com a “Imagem” do mundo, com a “imagem” da Vida e da Existência: havia muitas peças que faltavam e que não era possível encontrar — porque não estavam ainda disponíveis pelo conhecimento humano.
Eram questões fundamentais cujas respostas ninguém parecia conhecer. E como encontraria ele essas “peças”?... essas “peças” da “imagem” global da existência — do “o que é a existência?” — que o pequeno Atlan procurava reconstruir, como se de um puzzle gigantesco se tratasse...
Sim. E como?... Como descobrir, por si próprio, aquilo que a ciência ignorava ainda?
Seria possível?...

A ideia reveladora surgiu-lhe como que por mero acaso.
Foi durante uma desses longos momentos que ocorriam quando sua mãe encontrava uma amiga na rua e conversava sobre coisas que nada diziam a Atlan. Ainda por cima, ele ficava ali preso, pela mão da mãe, sem poder saltar e brincar nas suas loucas cavalgadas imaginárias.
O seu espírito irrequieto  era por demais activo para ficar parado, imóvel, por tanto tempo. E, já que o seu corpo não podia mover-se, restava-lhe mover o seu espírito.
Foi assim que começou a entreter-se, ao olhar para o molho de chaves que sua mãe agitava enquanto conversava:
“Como será uma fechadura por dentro?”
“Qual será o tipo de mecanismo que permite, às chaves, abrir e cerrar as fechaduras das portas?”, foram os seus primeiros pensamentos.
Talvez que se Atlan tivesse, naquele momento, os movimentos livres, se aventurasse a desmanchar uma fechadura e a ver qual seria o seu mecanismo interior.
Mas encontrava-se restrito à prisão da imobilidade... e restava-lhe apenas o seu pensamento para descobri-lo.
O que o terá levado a enveredar por “caminhos” menos experimentalistas...
...Sentiu a sedução do processo de descoberta realizada sem ver o interior do objecto que pretendia conhecer...
“Era muito interessante”, pensou, “e era um óptimo entretenimento para se distrair durante as horas de interminável tédio.
A fechadura, que era tapada, oculta — e que nem sequer estava ali presente — era como um espécie de “caixa negra” para Atlan, que desejava “adivinhar-lhe”, ou “deduzir-lhe” o seu conteúdo.
Restava-lhe, assim, tentar descobrir como seria o mecanismo no interior dessa “caixa negra” através, apenas, das suas relações com o meio, isto é, através das interacções da “caixa” com a chave.
Começou por olhar atentamente para a forma das chaves e para todas as suas ranhuras...

E foi assim que esboçou toda uma série de processos mentais baseados no que, ele não sabia ainda, se designaria por indução, lógica, dedução, intuição, extrapolação...
Atlan ficou fascinado com a sua “teoria da caixa negra” porque se apercebeu, imediatamente, que ela o poderia ajudar imenso... A descobrir quais e como eram essas “peças” em falta: essas “peças” ainda desconhecidas pelo homem. Esses “fragmentos de imagem” do seu enorme “brinquedo”: o imenso “puzzle” da “imagem” do universo.
Portanto, as suas teorias da “caixa negra” e do “puzzle” completavam-se!...


Curiosamente, poucos anos mais tarde, um grupo de cientistas norte-americanos viria a elaborar uma teoria cibernética muito semelhante à sua: à qual chamaram — também por curiosa coincidência — “the black box theory”, a teoria da caixa negra. Que constituiu um dos marcos mais significativos da ciência: através de diversas operações mentais e da análise das interacções de um objecto cujo interior é desconhecido (“black box”), algoritmizar o seu funcionalismo, para chegar a inferir, a descobrir, como é o seu mecanismo interior –  sempre sem o ver.
 
Mas a “teoria do puzzle” de Atlan prosseguia, mesmo durante as suas brincadeiras e tropelias: a sua actividade física sempre fora, e continuou a ser, muito intensa.
E a sua “teoria da caixa negra” era apenas um auxiliar — ainda que poderoso — para a descoberta “disto ao nosso redor” pelo qual nos encontramos todos envolvidos, e “daquilo que somos” afinal.
Mas, para Atlan, a palavra “descoberta” não era a sua preferida. Preferia a palavra “integração”...  Integração das peças do seu puzzle gigantesco.
Quanto mais gigantesco, tanto mais o desafiava e fascinava...
E tudo lhe servia para tentar obter novas “peças” para o seu “puzzle”: todos os conhecimentos, analogias e inferências fornecidas pelas mais diversas ocorrências do seu quotidiano infantil.
Mas apercebeu-se, muito rapidamente, de que nem todos os conhecimentos “apanhados do chão”, ou mesmo os deduzidos, poderiam ser considerados “seguros”, isto é, fiáveis e certos.
Havia muitas coisas que pareciam, mas não eram...
O que fazer com esses “conhecimentos”, com essas “peças” dúbias?
Não as poderia, simplesmente, jogar fora.
Quem sabe, até viessem a ser futuramente confirmados. Ou, apesar de aparentarem ser de todo irreais, talvez tivessem alguma coisa de aproveitável. Ou, mesmo ainda que completamente falsos, talvez deles se pudessem inferir “coisas” verdadeiras...
“Se aquilo é falso, então é porque é falso em relação a alguma coisa verdadeira”, reflectiu Atlan.
E seria, portanto, mais fácil descobrir o que seria verdadeiro — porque pelo menos uma coisa, a falsidade, já estava eliminada...

Mas, para suportar toda essa grande (talvez mesmo maioria) de conhecimentos dúbios ou “inseguros” no seu “puzzle” mental, tornava-se necessário criar um grande ‘espaço’ na sua mente. 
Como o seu ‘espaço’ ou ‘área de memória’ não lhe parecia ser infinito, começou então por menosprezar a memorização de uma grande quantidade de pormenores que não lhe pareciam relevantes e significativos, tais como as longas e aborrecidas conversas dos seus familiares e amigos, os números em geral (dos telefones, das casas, das datas dos acontecimentos, dos aniversários), e os nomes de pessoas.
Só dava primazia à memorização — ou melhor, à compreensão — de conceitos, de ideias, descobertas e teorias...
...eram esses os seus “cromos” favoritos.
E para manter em memória também todos os ‘conhecimentos dúbios’ criou um sistema mental que chamou de “gavetas abertas”: tudo aquilo de que não estivesse seguro ou certo, deixava numa “gaveta” aberta da sua enorme “estante” conceptual de memória.
E foi assim que, sem se aperceber do exagero, desenvolveu uma memória quase inteiramente conceptual...

A sua memória conceptual conduzia-o a um total desinteresse em “decorar” coisas: por exemplo datas e nomes de reis. Eram ‘pormenores’ que para Atlan nada significavam. O que, para ele, era realmente importante, era compreender as coisas e o ‘como’ e o ‘porquê’ dessas ocorrências. Sem isso, pouco conseguia memorizar.
Apesar disso, mantinha um rendimento geral semelhante ao dos outros alunos. Embora, é claro, não sabia muito bem o que é que estava a fazer ali, na escola, onde as pessoas pareciam papagaios, constantemente a repetir, a repetir... coisas que, para Atlan, na sua maior parte, não faziam qualquer sentido...
...como o “A, E, I, O, U”. Porque é que era obrigado a decorar o “a, e, i, o, u”?... não conseguia compreender o que é que aquilo poderia significar!
E como não compreendia, não fixava.
O que Atlan não sabia ainda é que não há nada para compreender no “A, E, I, O, U”.  Porque o “a, e, i, o, u” não significa coisa alguma!...
...e se significa — o que eu penso que sim; que na verdade até se poderiam escrever livros inteiros apenas sobre o “a, e, i, o, u” (mas isso virá, mais tarde, a ser o trabalho  de pesquisa de Elya Lang e da Semântica Quântica do Som...) — ...e se significa, dizia eu, então, seguramente, não seria algo que os professores lhe pudessem explicar... porque eles próprios também não sabiam, nem nunca tal lhes ocorrera!

Atlan gostava muito de folia e de brincadeira e sempre sentira desprezo pelo Tempo, o qual considerava como sendo apenas mais uma das prisões que interferia com a sua ideia de liberdade. O que o levava a chegar, geralmente, um pouco atrasado à sala de aula.
Isto fazia “ferver” de impaciência o seu professor que, já por natureza, tinha sempre as duas faces bem afogueadas.
Atlan sempre o achara um ditador com ideias rígidas e intolerantes.
Atlan dedicava-se alegremente às “descobertas” das suas brincadeiras favoritas: explorar velhas mansões e palacetes abandonados, observar o enigmático deambular atarefado das formigas, e testar até onde iriam as suas capacidades físicas ao saltar de muros muito altos...
Claro que a sua mãe que sempre se colocara ao lado das maiorias e das pessoas com autoridade — como, de resto, o faz quase toda a gente — acreditava mais no professor do que nas explicações confusas de Atlan.
E passou a considerar que o seu filho talvez tivesse menos capacidade intelectual que os outros — “...não tivera ele tão absurdas dificuldades para aprender uma coisa tão simples como o «A, E, I ,O, U»?”

E foi assim que Atlan passou a ser alvo da primeira máquina de propaganda: os bloqueios de infância, provocados pelas afirmações condicionadoras e castrantes ditas pelos adultos às criancinhas tenras e psicologicamente tão frágeis ainda...
Claro que ele não sabia ainda o que era a ‘propaganda’ (e será que alguém sabe?) mas nem por isso deixou de ser afectado por ela. “Ela”, a propaganda, apenas desempenhava o seu papel ao convencer Atlan de que ele era um medíocre intelectual... muitas vezes através de pequenas frases ditas aqui, ditas acolá...
E os nossos pensamentos, aquilo em que acreditamos, tem realmente muita força e é muito actuante, podendo mesmo alterar a realidade... e corremos o risco de passarmos a ser aquilo que pensamos que somos: foi, aliás, a própria ciência que veio confirmar esta “mecânica do pensamento”, através das ilações que se tiram da teoria física da “mecânica quântica”...
— Não te importes, Atlan — dizia-lhe a mãe talvez com a melhor das intenções — as crianças pouco inteligentes, com menos capacidades, também podem conseguir obter bons resultados. Quase tão bons como os dos ‘outros’. Basta que se esforcem e estudem mais do que ‘eles’...
É claro que, frases como essa tinham sempre uma afirmação dissimulada, mas implícita: a de que Atlan era “burro”.
Ou quase.
Isso, para Atlan, não deixou de ser uma surpresa. Mas se era essa a opinião geral, talvez fosse verdade...
E assim, com uma frase aqui, outra acolá, se foi cimentando em Atlan a crença de que ele seria realmente medíocre.
Foi desse modo que começou a sua primeira fase de “anos negros”...
“Bem, já que é assim”, pensou, “então prefiro dedicar-me cada vez mais às coisas de que gosto — ainda que ninguém as pareça compreender — do que às coisas da escola que, além de serem muito menos interessantes, me acusam de ser burro...”
Mas a escola era obrigatória e, ainda que Atlan a tenha frequentado com um quase contínuo desinteresse, não reprovou nenhum ano. Fazia apenas por passar. E passava: de forma tangencial e com fracas notas...
Outra das coisas que o incomodava na escola era a de os professores falarem com ele sempre “naquela” linguagem ‘escolhida’ “para falar com crianças”.
Começou a aperceber-se que o mundo era um terrível complexo de “castas” e de tratamentos desiguais... e cada vez detestava mais as fronteiras e restrições impostas pelas idades... e pelo Tempo.
O mundo era, afinal, também — para além daquilo que tinha de belo — um enorme labirinto de vicissitudes humanas: de muitos tipos diferente de “racismos”, de enganos, e de “tramóias”!
Mas, sobretudo, as pessoas afiguravam-se-lhe muito brutas, insensíveis e... dormentes.
Dormentes... “ninguém” queria saber, ou se interessava pela paixão mais íntima de Atlan: a de descobrir “o que é tudo isto!”
Parecia-lhe mesmo que todos estavam “nas tintas” para isso: o que queriam era apenas a satisfação imediata dos seus prazeres... e o resto “que se lixasse!”
Havia muitas coisas que escapavam à compreensão do pequeno Atlan; principalmente aquelas ditas mais “humanas”, e que eram tão diferentes da elegância e harmonia que observava na natureza...
...o enganar; o aproveitar-se de uma situação; a satisfação de “tramar” alguém; o pensar-se só em si, desprezando o que possa acontecer aos outros; a procura de qualquer prazer imediato, desprezando a continuidade... Sim, porque Atlan ainda ignorava as palavras “egoísmo” e “falcatrua”:
E, apesar de a sua “lógica natural” não alcançar a compreensão de algumas dessas coisas, servia-lhe pelo menos (“que  remédio!”) para criar mais algumas dessas “gavetas abertas” do seu espaço mental conceptual. E um dia viria a saber o alcance delas.
Foi o caso, por exemplo, de algumas ocorrências que o surpreenderam:
Como aquela em que, enquanto se entretinha com alguns dos seus brinquedos favoritos à porta de casa, tinha surgido um “miúdo” desconhecido que lhe pediu para brincar com eles. Explicou a Atlan que era pobre e não tinha brinquedos... Atlan entregara-lhos quase todos e ficou contente por ter mais um novo amigo com quem brincar. Mas a brincadeira foi de curta duração. Porque o menino — aliás, já bem maior que Atlan — enfiou todos os brinquedos debaixo dos braços e fugiu. E Atlan nunca mais o viu!
...Ficou triste por esse menino ter trocado a amizade que Atlan tão espontaneamente lhe entregara, por aqueles brinquedos. Tinha pensado que uma amizade seria sempre muito melhor que brinquedos... e que os brinquedos poderiam ser compartilhados.
Ou como aquela outra ocorrência que presenciara quando os seus companheiros de rua descobriram um grande quantidade de lindos bichinhos azuis e vermelhos e, para surpresa de Atlan, desataram a pisá-los e a esmagá-los rindo como possessos! Decididamente, para Atlan, aquilo não fazia qualquer sentido. Sentiu-se um completo alienígena no meio deles! Ficou chocado com aquela desapiedade e ausência de sensibilidade... de onde lhes viria aquela fonte de prazer mórbido? O que é que os levaria a rirem-se tanto?
Ou ainda outras situações que presenciava no seu dia-a-dia, como o apedrejar dos cachorros à saída da escola...

...Havia coisas “humanas” mesmo muito estranhas...
...as próprias feras selvagens, as bestas, como lhes chamavam, não faziam isso umas às outras, nem se expolinhavam em gargalhadas de prazer por fazer o mal...
Para Atlan, afigurava-se-lhe muito mais fácil trabalhar na reconstrução do seu gigantesco puzzle mental, e descobrir a estrutura da existência, do que compreender a natureza humana. Não sabia mesmo por que ponta lhe pegar!... restava-lhe apenas ir deixando atrás de si uma enorme quantidade de “gavetas abertas”...
 

 
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         No regresso das Filipinas Íris contemplava pensativa as águas distantes do oceano azul-turquesa...
 
         Agora que ela conhecera uma parte importante da infância de Atlan adivinhava que viria a compreendê-lo e sentia que aquele manto de estranheza que o encobria, derivado da forma inédita como o conhecera, parecia estar a desvanecer-se e  a deixar transparecer um Atlan bem mais humano e com uma sede de respostas, afinal, um tanto semelhante à sua.
           
         Ela própria também nunca aceitara completamente esta nossa posição colectiva de simples e frágeis seres mortais sujeitos às forças da natureza, do tempo e da morte. No fundo, não sabia bem porquê, sempre tivera essa estranha intuição de que nós, humanos, possuímos “mais qualquer coisa” lá bem no nosso interior, enterrada ou perdida nas nossas profundezas; e que “essa tal coisa” nos poderia potenciar até ao ponto de nos transformar, isto é, de nos “transmutar” em seres capazes  de dominar o Tempo e o Espaço...
         ...Sim, de algum modo ela sempre pressentira que existia em nós, algures, a “essência adormecida dos deuses”... nos quais nos poderíamos a nós próprios transmutar!
         Talvez não passasse de um sonho louco...
         Mas agora ela conhecera Atlan... que parecia ter um sonho comparável ao seu!
 
         Olhou para trás no tempo e reviu algumas das suas pesquisas e apercebeu-se como elas estavam tão relacionadas com a grande busca de Atlan. Também ela procurava uma nova forma de lidar com a realidade, capaz de actuar sobre ela e de a alterar através da pura acção da nossa vontade e consciência.
           
         Recordou-se dos tempos passados no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, o CERN, onde obtivera as suas primeiras experiências com aceleradores de partículas atómicas. Ali conseguiam já transmutar-se algumas porções ínfimas de matéria (até mesmo chumbo em ouro!) embora sem qualquer interesse económico ou prático devido às enormes e dispendiosas quantidades de energia necessárias ao processo...
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APONTAMENTO #1:
 
            “/.../ Em ordem a compreender as leis destas transmutações e, se possível, tirar proveito do seu conhecimento, o Homem começou por estudar a radiação cósmica natural, fonte das partículas de alta energia originadas na nossa galáxia ou alhures e  construir depois aceleradores [de partículas] e pilhas atómicas. Todavia, as quantidades de material tratado pelos aceleradores de alta energia permanecem infinitesimais em relação, por exemplo, ao ciclo do dióxido de carbono. Um moderno sincrotão precisaria de mais de dez mil anos para tratar um grama de material protónico!
 
            “Portanto, até agora apenas se tem podido recorrer à química mais simples para produzir moléculas à custa dos elementos tal como se nos apresentam, sem possibilidade de neles encontrar a energia que permitiria a transmutação directa do carbono em oxigénio, a não ser que um fenómeno, presentemente desconhecido e de toda a aparência improvável, tornasse possível a referida transmutação a baixa energia.”
 
Robert Gouiran, Particles and Accelerators
           
 
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Íris pensava que o seu “Princípio da Certeza” seria a alavanca fundamental para conseguir realizar a transmutação a baixa energia.  
Sem dúvida que muito admirava os fabulosos aceleradores de partículas. Eram admiráveis obras da Física Nuclear e muito tinham contribuído para a descoberta da constituição da matéria.
Mas não era esse, o tipo de abordagem transmutacional que procurava.
As partículas constituintes dos átomos mantêm-se coesas por poderosas forças — principalmente pela força electromagnética, pela força nuclear forte e pela força nuclear fraca. Para provocar um novo arranjo nessas partículas era necessário aplicar-lhes uma outra força que contrariasse essas forças de coesão. O que exigiria um dispêndio enorme de energia...
Não lhe parecia nada elegante, para os fins em vista.
Era o que se passava nos aceleradores de partículas: para se obter a transmutação de apenas pequenas quantidades de átomos de um dado elemento em átomos de outro elemento diferente: era utilizado o processo de os bombardear com partículas super-aceleradas a muito altas energias.
Este método duro, de bombardear umas partículas com outras, aceleradas por forças gigantescas, para perfurarem as suas barreiras de forças electromagnéticas e nucleares, resultava num consumo imenso de energia. Além de exigir meios tecnológicos muito sofisticados.
 
Deveria haver uma forma mais essencial, mais vinda de dentro, para o fazer.
Mexer no cerne da questão, na ‘raiz’ do problema, para lhe alterar os ‘ramos’. Em vez de os procurar ‘vergar’ à força.
E claro que, supunha Íris, a criação de algo como o que designava de  ‘MetaConsciência’ representaria, também, um factor vital na transmutação directa...
…era aí que a sua linha de pesquisa colidia com a de Atlan.
Mas Atlan queria, fundamentalmente e para além de tudo isso, transmutar-se a ele próprio!...
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As III Fases

 
As III fases da descontinuidade

          I Fase                             II Fase                              III Fase
         Nascente              Os Negros Anos Luz                      Poente
       A DERIVAÇÂO                 O OBLÌVIO                       A ReIntegração
   A perda da Memória               a Individualização                A recuperação da Memória
     A Fragmentação                  A viva morte                      A Rá Nascença
      ...A Transmutação



As III fases da luz
AS III FASES                                                 A Grande Viagem


“Esta é a grande viagem”, disse Atlan para Althi, “se não tens coragem, desiste. Mas lembra-te, ao fazê-lo estarás também a desistir da verdadeira Vida, da vida Plena. Da qual, ‘esta’ não é mais que uma mera sombra cinzenta... como sombras serão o que restará da tua fascinante beleza muito em breve...  nesta vida.”

Nu, ou Noum – o Caos Primordial. Onde entropia e anti-entropia (ou neguentropia) existiam ainda de forma indefinida e misturadas num todo amorfo.

Ptah, Ptah Sokaris, ou Ptah-Socar-Osíris – um deus muito antigo, talvez o primeiro.
Criou, ou recriou, um universo menos entrópico e mais propício à vida. Fê-lo com um grande e estrondoso >Ptah!<, talvez aquilo a que chamamos hoje ‘Big-bang’. (Na escrita hieroglífica o seu nome é representado pelo símbolo de uma porta, geralmente associada ao som >ptah<).
Imprimiu assim (ou vincou) uma tendência neguentrópica ao Caos. E o Caos, que persistiu e permanece ainda subjacente a tudo, engloba agora dois movimentos mais definidos: Entropia e Neguentropia. A entropia é a tendência de fundo para a desordem e para estados de energia mínima. Por outro lado, reforçada por Ptah, a neguentropia contraria a entropia com uma tendência para a ordem, para a complexidade, para a vida, e para estados de energia máxima.
            O Caos continua a ser fundamental à existência ao fornecer-lhe um ‘motor aleatório’. Tão necessário ao “baralhar” incessante do mundo quântico que produz a variabilidade e a diversidade.
Motivado pelo objectivo de se multiplicar em muitos seres semelhantes a si, Ptah derivou-se em vários fragmentos ou ‘quantos’ e desencadeou assim as III Fases da descontinuidade: Derivação, Fragmentação e Reintegração.
Ou:           1)Perda da memória
              2)Oblívio e Individualização
e            3)Recuperação da Memória e Reintegração.
O objectivo final será a replicação em múltiplas divindades, semelhantes à inicial, e a sua comunhão consciente.
São as duas grandes viagens da Barca Celeste de Het-Kah-Ptah, “a Terra do Corpo subtil de Ptah”... o Egipto:
A ‘MAN-dj-it—  é a viagem da Barca Celeste desde a aurora (Nascente) até ao meio-dia — é a formação da huMANidade.
A ‘Oua-dj-it— o percurso da Barca Celeste do meio-dia até ao Poente — o poente dos homens é o  reNascer dos deuses...

Eus — entidade ou Ser Colectivo resultante da primeira Derivação e composta por muitos eu’s.
            D-Eu-s, Netter-u, El-ohim...
“Deus” é uma palavra que não existe no singular — significa uma entidade múltipla. “Elohim” / “Netteru” / “Dios” / “Theos” / “Devas” /... / “Deus” = deuses.

Rá, Tum, Aton, Antares, Sírius, Orion, Indra — divindades solares, fontes de energia e geradores de mundos.

Os Seres Alados e os Feros — “An-Dj-El”, an-g-el’s, anjos — criações de El (deus).
“Pher”, Fero, feros — fogo, ardor, luz ardente, energia feroz, fulgor  — seres de elevada energia ou de energia fulgorante.

El, Osíris, Yhvh, Al, T-e-T — deus que se fragmentou, disseminou (analogamente ao “scattering” das partículas subatómicas) e misturou com a espécie para fazer emergir da humanidade um deus ou uma multiplicidade de outros deuses semelhantes a ele próprio...
É o grande processo da reprodução dos deuses.

Mas, entretanto, Osíris jaz com os seus membros arrancados, fragmentados, disseminados e dispersos pelos mais longínquos ‘cantos’ do universo.
E engendra a sua própria ressurreição.
A ressurreição do deus mártir que representará o restabelecimento e o ressurgir do ‘ser múltiplo’ em toda a sua primeira integridade...
Porém, enquanto isso, Osíris, ligado à morte, tolhido nas suas faixas, é o Mundo, atado, petrificado, cristalizado e materializado, privado de liberdade e submetido às leis da natureza e aos ritmos implacáveis do destino...
‘Nu’, o Caos, se bem que possuindo já o ‘Imprint’ inteligente de Ptah, volta a dominar, a ser preponderante. E há até quem suspeite que Seth, o ‘adversário’ de Osíris, o ‘falso Deus’, ocupou o trono de Ptah e reina em vez dele, fazendo-se passar pelo verdadeiro Deus. Convencendo tudo e todos de que é o deus único — mas continuando, afinal, a esmagar tudo e todos com a entropia, a morte e a impossibilidade... — entretém o Homem com ardis e jogos sem sentido, ou com filosofias. Vedando-lhe o legítimo direito a ser um deus e acusando-o, através das religiões, do desejo de heresia ao aspirar a tal estado.
O seu objectivo é prolongar o mais possível o seu reinado... mantendo o Homem dormente e, impedindo assim, “Ptah” de emergir através dele.
“Ptah” — o único tipo de ser(es) capaz(es) de o destronar.
E os seres humanos reduzem-se, assim, a procurar satisfazer os seus sentidos, numa vida sem sentido...

O apogeu do sol do homem, no meio-dia, é a escuridão dos deuses.
É o início do longo reinado da escuridão. Os “negros anos luz”...

Man-u — deus(es) criador ou gerador da huMANidade.
            É a emergência do ser ou do corpo fragmentado de Osíris no seio da humanidade. É a forma humana de Deus. É o longo processo através do qual o próprio Ptah procura emergir. É Deus feito homem — a corporização de Deus. É a ponte. A emergência vertical de Dj, ou Djedi, outro dos nomes de Osíris que significa pilar ou verticalidade (“dj” é um som geralmente associado aos deuses e que poderá significar, também, “de”, ou o próprio som ou acto de criar. Anjo, angel, An-Dj-El, significaria “um-de-Deus”, um ser ou uma unidade “de” Deus, ou “criada” por ele).
            Man-u é, também, “Deus-em-huMANidade”, “Em-Manu-El”, ‘filho de Deus’.
            É Hórus, filho de Osíris, gerado através da humanidade, sendo ele próprio também Osíris, e o próprio Ptah. E é também Ra, e El...  um qualquer deus é, também, todos os outros.
E o homem, ao identificar-se com os deuses e como sendo um deles, tornar-se-á, ele próprio, num deus...
            ...principalmente devido a ter gerado um. Ao ter tido um filho deus, o homem, como “pai”, é também um deus em potencial...
...e, como cada coisa é todas as outras (princípio da ‘nuvem de possibilidades’), o homem pode transformar-se assim num deus.
            Na realidade, ele já o foi no passado (Ptah-Eus-Ra-Osíris) e já o será no futuro (Ra-Man-u, ElEl, Man-u-Ra, Ra-ma). Porque ser um deus é, no fundo, a sua natureza transtemporal.
            E porque a emergência do homem em divindade é vital para o próprio deus Ra. Se o Kha, ou a alma do homem, não  subir ao “Amenti”, a própria existência de Ra fica ameaçada. O homem poderia assim “impedir Ra de subir ao Céu” — e o Sol não percorreria mais o céu da existência, ficando para sempre submerso nas “águas do Nilo”... ou do “Nada”.

Éolipus — é um cavaleiro das nuvens fúlgidas. Um ser entre o Céu e a Terra. Herdeiro de um estado intermédio e oscilante entre ser e não ser, entre o divino e o humano.

Eoalkper Eoasell, Skorpion, Gilgamesh, Quetzalcoatl, Orejona, Akhenaton, Krishna, Em-Manu-El — são emergências de Ptah no seio do homem, ou através do homem. Alguns são originários de outros mundos e chegaram à Terra vindos do céu cósmico. Outros emergiram mesmo aqui.

Skorpion — desceu do abismo celeste, ou ‘eSkarpa’ cósmica para ‘fundar’ a huManidade.
            Vindo de uma estrela distante, construiu um país a partir de algumas tribos dispersas e outros tantos pastores de rebanhos. Através de conhecimentos inéditos na época, abre os primeiros canais de irrigação do Nilo tornando possível a agricultura e o desenvolvimento.
            Inicia a dinastia dos Faraós, Pharaoes, ‘Feros’ — humanos semidivinos com o poder e energia das feras. A ferocidade do fogo ardente.
O rei escorpião (ignora-se o seu verdadeiro nome) foi assim um dos fundadores da huManidade no vale do Nilo. “In”, “On”, ou “An” é a Terra, ou local da “Chegada” — é “Kem”, o nome inicial do Egipto. “Kem”, tão semelhante a “Keb”, deus da Terra, e às palavras “Come” e “Kome”, de ‘vir’, ‘chegar’. O som e a palavra “K” parecem estar relacionadas a ‘campo’, ‘corpo’, ‘região’, ‘local’, ‘cidade’.

Man-es, Menes, Manis, ou NarMer — filho do rei escorpião torna-se no primeiro faraó do Egipto.
            De novo, o seu nome é semelhante aos diversos nomes do Homem, encontrados em quase todas as línguas do mundo: Man, Men, Manu, Manitu, Mana, Manes, Manis (como o “plural” de ‘muitos’, ‘many’s), Wo-Man, Homo, Homem, Homme...
            Menes Conserva ainda grande parte da energia de um semideus, herdada de seu pai Skorpion. Com ela unifica o país e dá início a um império.
            Os feros, ou faraós, são, a partir daí, considerados deuses ou descendentes de deuses na Terra...
...
Atlan, Íris, Elya, Aleator, Tália McFee — embora nossos contemporâneos do século XXI, eles são os viajantes do mundo perdido e do tempo esquecido.
Anseiam por recordar-se e voltar a Ser.
            ‘Viajam’ em busca da reintegração... e sonham transmutar-se.
         
O que eles não sabem ainda é que aquilo que procuram não é a transmutação: se o soubessem não procurariam transmutar-se em algo que não são. Mas, assim, esforçam-se por descobrir o Cálculo Transmutacional que transformará ‘A’ em ‘B’, sendo ‘B’ diferente de ‘A’ (A~~>B, A¹B )...
            ...E, afinal, o que eles precisam não é de se transmutarem, mas sim de se retro-transmutarem, ou voltarem a ser aquilo que são afinal... E para isso basta recordarem-se de si mesmos.
            Recordarem-se do que verdadeiramente são, das ‘memórias’ e dos nomes perdidos dos deuses.
            Deveriam contudo passar pelo ‘ponto zero’, pela anulação de si próprios enquanto Homens.
           
            Tinha sido esse o propósito inicial do projecto “Livro da Luz”, ou “livro das metamorfoses”, iniciado há mais de 7.000 anos no Egipto.
            Mas o texto inicial sofrera logo diversas deformações na época. Derivadas da incompleta compreensão dos escribas, do esquecimento das ‘memórias’ e da tendência dos antigos sacerdotes para perpetuarem o seu poder.
            E por fim, com a queda do império, o manuscrito tinha ficado perdido, enterrado no tempo...
 
Porém, em 1827, Champollion, um arqueólogo francês, descobre um papiro de vinte metros, coberto de hieroglifos egípcios.
            E assim sobraram e chegaram até aos nossos dias alguns textos incompletos que os egiptólogos traduziram e intitularam de “livro dos mortos” do antigo egipto. Um documento que tem sido sempre considerado como um amontoado de chorrilhos e textos incompreensíveis...
           
            Até que, Atlan, Íris, Elya e Aleator, o lêem à luz da física quântica e da língua perdida dos deuses. E começam a decifrar o mistério...
            ...
            Tudo é e não é. Um ser é todos os outros.
            E, para voltar a ser, é necessário recordar-se.
            Para ser os deuses é necessário identificarmo-nos  com eles e como eles, tornando-nos assim neles próprios...
            ...
            E assim vai começar a segunda grande viagem da barca celeste: o “Oua-dj-it”, ou “Se-K-TeT”, o retorno à verdadeira essência. O retorno à divindade perdida(*).

            Mas não sem antes passarem pelo eclipse Solar — a longa fase da escuridão. O oblívio.
            O período do esquecimento e a fase da individualização. Onde as pessoas são muros rodeadas de muros.
            A grande prisão. A sujeição. A angústia.
            Os longos anos da escuridão.
     Os “negros anos luz...
 

 

 
(*)         A letra “S” e o som “Sa” ou “Se”, estão associados em muitas línguas antigas e contemporâneas — desde o sânscrito, ao egípcio e ao grego — à palavra “Sabedoria”... E a conceitos relacionados: Sa-grado, Se-rpente, Sa-nto, Se-gredo, Sa-madhi (transe, absorção em consciência de deus). Assim, “Sa”, parece exprimir sabedoria, mas “sabedoria” é algo que as línguas antigas não conseguem dissociar do “divino”.
 
 
 
 
 
FASE I

NASCENTE
 

 
 
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O que era mais insólito era o sentimento crescente em Íris de que havia algo de profundamente alienígena em Atlan…
Ele parecia possuir estranhas memórias!
Seriam recordações mais ou menos fugazes de um qualquer passado distante vivido não sabia onde nem quando?...
Algumas dessas “lembranças” eram tão invulgares que parecia não se poderem enquadrar em qualquer época, mundo, ou situação em que nós, seres humanos, pudéssemos  alguma vez ter vivido. E, no entanto, ele confidenciou-lhe que por vezes as sentia tão suas e tão reais que era como se, por breves instantes, a sua mente interior descerrasse uma cortina para lá da qual se escondia uma outra realidade pessoal ainda mais ampla, ainda mais verdadeira e profunda do que aquela em que viviam.
Uma dessas aparentes “memórias”, talvez uma das mais remotas, era a de “um deus muito antigo”, algo que Atlan tentara descrever e sintetizar num pequeno texto que escrevera na sua adolescência...
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Um deus antigo
 
Ele era Ptah, o três vezes grande Ptah.
E caminhava para Ptah, capital do seu império de GoneWonLane...
 
 
Ele era um ser muito antigo.
Talvez um deus... de um universo há muito desaparecido ou perdido no tempo.
Não sei...
Talvez tenha sido poupado, tolerado ou respeitado por todos os deuses e universos que lhe sucederam.
...Até ao nosso Tempo.
 
Mas quis misturar-se com a espécie. Sentir Tudo.
Vislumbrar todos os parâmetros.
Ser um ser ínfimo e ser também o infinito.
Ser animal e ser humano.
Perfeito, mas também tropeçar.
Descobriu ser essa a plenitude do seu desejo: Ser Tudo.
...
Mas, para isso, pareceu-lhe ser necessário descer dos céus e morrer como deus que era...
Então criou um adversário ..
...e deixou-se despedaçar por ele. Fragmentou-se em vários pedaços dispersos.
E assim, de certo modo, como unidade, morreu.
 
...E nasceu (ou nasceram) no seio da sua própria criação,
como apenas mais um ser (ou seres) por ele criado.
 
...
Mas agora ansiava por recuperar a sua natureza perdida e iria empreender toda a longa marcha
que o levaria de novo ao seu verdadeiro ser.
 
E no fim,
teria realizado a grande síntese sinérgica:
Seria mais do que ele próprio havia alguma vez sido.

 
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A aventura quântica começa na Grécia Antiga, há 2500 anos (pelo menos segundo a História conhecida)...
       É quando Demócrito considera que a matéria é um conjunto de minúsculas partículas, às quais chama ‘átomos’.
Clinamen’ é a noção do incessante e errático movimento destas partículas (“de uma desconexa turbulência!”) expressa mais tarde pelo poeta romano Lucrécio.
Empedócles , Epicuro e Pitágoras defendem a teoria da descontinuidade da matéria.
Mas a teoria oposta, a da continuidade, defendida por Heráclito e pelos Eleatas mantém-se dominante durante mais 23 séculos...
...até à descoberta do movimento browniano em 1827.
Mas é só com os trabalhos de Wiener, Delsaux e Carbonelle, entre 1863 e 1895 que se chega à teoria molecular dos gases.
Já em 1811, Avogadro estabelecera a sua hipótese de que volumes iguais de gases contêm o mesmo número de moléculas.
Porém só em 1875, Van der Waals mede o número de Avogadro = 6 x 1023 moléculas por mole (molécula-grama de um gás).
Mas só com a realização de experiências no domínio da electricidade se dá o grande passo...
Assim, em 1880, é observado o primeiro feixe de raios catódicos num tubo de Crookes.

  

E em 1895 J. Perrin demonstra que os raios catódicos são na realidade partículas em movimento.
Mas é com a famosa experiência de J. J. Thomson que se evidencia, por um lado, serem tais partículas desviadas pelos campos eléctricos e magnéticos e possibilita, por outro, medir o quociente e/m – das suas cargas pelas respectivas massas.
E assim nasce o electrão, a primeira das partículas elementares, indicada pelo símbolo e...
A Aventura Quântica, 1
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Em outras ocasiões, os “estranhos sonhos”, ou “vislumbres tumultuosos de uma qualquer memória não terrena”  de Atlan condensavam-se na visão de miríades de Seres Alados que nos primórdios turbilhonavam a ebulição dos céus num frenesim de estranhas batalhas.
Eram milhares, ou mesmo milhões, de seres poderosos que viviam entre o céu e a terra  e que pareciam ter resultado da fragmentação em múltiplos estilhaços de uma qualquer divindade única e inicial...
Era uma época de tempos sem tempo.
E em que o poder desses seres prevalecia sobre as próprias leis da física.
Atlan mostrou a Íris a folha de papel já amarelecida pelos anos onde descrevera um desses seus “sonhos” de invulgar nitidez que tivera recorrentemente na sua infância.
Chamava-lhe “Batalha Púrpura” porque lhe parecia uma contenda travada sobre as nuvens inflamadas dos tons avermelhados do poente e tingidas do sangue dos cavaleiros alados…
E durante esse “sonho” ou “regresso momentâneo do seu espírito a outro lugar e a outro tempo” ele, Atlan, sentia que estivera lá, naquele cenário, lutando por uma qualquer causa agora desconhecida.
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Nem sabemos o que é melhor: conquistá-los ou sermos conquistados por eles. Os filhos de Dhrtarasästra estão agora na nossa frente neste campo de batalha. E se os matássemos, não nos importaria viver.
Antigo texto Veda do Bhagavad-gitä




A Batalha Púrpura
 
 
 
 
Naquele tempo [será que deverei dizer ‘tempo’?] os homens [será que deverei dizer ‘homens’] não eram escravos da Irreversibilidade [ah! é por isso que não eram homens ~!] e a Guerra era apenas um Jogo e uma Arte ~~~
 
 
 
“Escravo” – qualquer indivíduo que é obrigado a fazer   [ou ser] aquilo que não quer, sem  qualquer alternativa.
 
“Liberdade” – qualidade daquele que não é escravo.

 
Ptah decaíra inicialmente apenas para um estado intermédio...
E, tal como o bosão intermediário,
...Ele(s) viviam entre o céu e a terra.
...Eram miríades de cavaleiros que povoavam as nuvens fúlgidas...


                             A Batalha Púrpura                            
 
Os cascos dos cavalos martelavam furiosamente
as poças vermelhas dispersas por toda a parte.
 
Os cavalos seriam brancos,
mas, ou tinham reflexos de fogo,
ou estavam tingidos de sangue.
 
No centro de todas estas nuvens, banhadas de púrpura
pelo sol poente, Eólipus lutava com vigor.
Mergulhado até aos joelhos, mas de pé firme,
brandia furiosamente a espada.
O seu cavalo estava já não sabia onde,
mas ele continuava,
escorrendo sangue pelos braços, pelos flancos,
pelas espáduas.
Golpeava, penetrava e decepava
os valentes e nobres adversários.
 
O vermelho tudo tingia.
Era um banho de sangue,
era a violência total. A dor. Implacável.
As nuvens estavam alagadas
 de pequenas e grandes poças de sangue;
os cavalos atropelavam-se;
os guerreiros rasgavam-se.
 
Mas, surpreendentemente… era belo.
Até mesmo magnífico!
Era a apologia total da violência…
…Mas de uma violência divina…
 
...porque, afinal, todos eles eram Reversíveis.
E por isso tinham o poder de se reconstruirem,
e de se regenerarem..
...totalmente!
 
...
e
então,
no agora,
Atlan supunha
 que o que tornava terrível
    a   violência na Terra e insuportável a dor,
era a irreversibilidade.
 
 
... porque todos nós somos, afinal,
escravos do Tempo.
 
 

Nunca houve um tempo que Eu não tenha existido, nem tu, nem todos esses reis; nem no futuro nenhum de nós deixará de existir...
 
Diálogo entre Krishna e Arjuna,
 antigo texto Veda do “Bhagavad-gitä”
 
 
 
V. – The Puranas say that Jnanis warred against Jnanis. How is that?
Bh. – Yes, Sri Krishna fought against Bhishma. The Jnanis view all as Brahman, yet they fight.
 
[Jnani = the Awakened, the Enlightened, the Self-Realised.]
 in “Guru Ramana” por S. S. Cohen


 Fragmento #1
Os Seres Alados...

Olhos de azul-lápis
                        e todas as cores
que te olhavam
                        e te não viam.

Asas douradas
                        esvoaçantes nos céus;
riscos brancos
                        tingidos de lágrimas.
Tingidos de lilás
                        ou roxo...
...Até encontrar, de novo,
                        o néctar do Impossível!

 Fragmento #2
…e os Pheros
O grande monarca, no trono sumptuoso, estava imerso em profundas reflexões:

“Um dia, Gea veio ter comigo a Uruk. Foi há muito, muito tempo...
“Trazia um pequeno Phero* ao colo.
“E pediu-me que a deixasse levá-lo ao mundo de baixo.
“Seria uma curta viagem”, dissera, “...em breve regressaria.”
“Como justificação deu-me um propósito indefinido.
“Mas o  Phero nunca mais voltou.”
...tinha ficado perdido no tempo.
“Estranho e Pheroz Phero aquele, que se refugiava no convívio dos leões.
“Sempre lhe pressenti uma vontade obstinada e qualquer objectivo desconhecido, mas nunca o compreendi.
“Nem à sua força Impetuosa e indomável, capaz de vergar leões*.
             Gilgamesh, REI de Uruk, dominando um Leão
             (Baixo relevo Sumério)
“Gilgamesh, onde andará ele agora?...”
 
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Reminiscências passadas?
Porque se identificava Atlan tanto com algumas espécies de seres lendários?
Em certos momentos a sua memória parecia descerrar um véu que o deixava entrever vivências de seres poderosos que se situavam entre os deuses e os homens...
Íris questionava-se muitas vezes se esse fenómeno não seria afinal uma capacidade mais aguçada que o comum que Atlan tinha de recordar fragmentos de uma “memória colectiva” subjacente a todos nós. O “inconsciente colectivo” da nossa espécie?... Não, parecia algo mais profundo e abrangente do que isso...
Segundo mais tarde Atlan lhe explicou, ele considerava todas as entidades existentes, isto é, todos os seres e objectos, como “nuvens de possibilidades”.
– Qualquer entidade existente, Íris, é afinal uma nuvem de possibilidades que contém, predominantemente, essa determinada entidade mas também todas as outras entidades alternativas, as quais, aparentemente, ela não é.
– Mas então, se tudo são “nuvens de possibilidades” – perguntou-lhe Íris – o que é que distingue as coisas umas das outras?
“Uma boa questão, sem dúvida”, pensou Atlan continuando a caminhar com o olhar preso no infinito.
– Talvez apenas a memória Íris. Talvez seja apenas um diferencial de memória o que nos separa, por exemplo, dos deuses...
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Finalmente, em 1910 Milikan realiza a experiência que permite medir a carga eléctrica do recém-nascido electrão.
Já há algum tempo atrás se conhecia o fenómeno luminoso da interferência que levava a admitir ser a luz uma onda sinusoidal que se propagasse no espaço como as vagas no oceano.
       E Maxwell, em 1868, definira o seu movimento numa das mais elegantes equações da física, considerando as vibrações luminosas como o caso particular das ondas electromagnéticas em que a frequência de oscilação  é maior , o que corresponde a um menor comprimento de onda.
Em 1896 Henri Becquerel descobre a radiactividade, através da impressão acidental das radiações de sais de urânio numa placa fotográfica.
E em 1899 Giesel e Meyer descobrem uma outra radiação penetrante dotada de carga eléctrica.
Marie Curie, Villard e Becquerel descobrem radiações sem carga eléctrica em 1901.
É então que Rutherford, em 1903, identifica a radiação a como uma partícula e conclui que a radiactividade é o sinal da desintegração do núcleo atómico.
       Mais tarde, sugere um modelo atómico onde electrões giram em torno de um núcleo de carga eléctrica positiva mas da mesma magnitude que a dos seus electrões.
Admite-se então que:
a partícula a é um núcleo de hélio (2 protões e 2 neutrões)
o raio beta é um electrão
o raio gama é um quanto de radiação electromagnética

...e supõe-se que o fotão será um “grão de luz”.
A Aventura Quântica, 2
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“Um deus no corpo de um homem não é um deus nem é um homem”, ouvia Íris tantas vezes dizer Atlan quase que num queixume. E, nesses momentos, quando olhava para ele, talvez num fugaz momento da sua imaginação, parecia-lhe não o ver simplesmente a ele mas a um ser complexo… talvez algo como uma mistura de seres, talvez algo como um Ptah-Eólipus-Gilgamesh-Atlan…
E então soltava a sua fantasia e deixava-a voar até admitir a hipótese de que aquele jovem que caminhava ali, ao seu lado, pudesse ter sido, algures nos meandros da teia da existência e do tempo, uma qualquer espécie de ser dotado de poderes quase ilimitados ou divinos que, por algum motivo, decaíra para um estado de baixa energia e agora sofria com isso e só ansiava por recuperar a divindade da sua natureza perdida... Percebia-lhe o seu sofrimento, angústia e pavor de nunca vir a conseguir recuperar o seu anterior estado intemporal e quase absoluto. Isso claro, se as “estranhas memórias” de Atlan tivessem qualquer base real…
 
Por vezes Atlan também sonhava com supostas soluções para o seu problema: soluções que possibilitassem transmutar-se a si e à realidade nas suas condições anteriores à queda no estado humano e mortal. Alguns desses sonhos seriam possivelmente o resultado de tantas horas de pesquisa como as que despendia na física das partículas sub-atómicas:
“Se alterarmos o bosão intermediário, toda a realidade se alterará”... fora esse um dos estranhos sonhos que tivera. E que no momento lhe parecera uma estrela, uma luz na escuridão. Uma porta para a Liberdade Total.
Mas, de novo lhe faltavam meios para testar mais essa ideia. Não era fácil remar sozinho contra tudo e todos e querer abarcar ao mesmo tempo os segredos mais íntimos da estrutura da existência…
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Devido a partilharem cada vez mais o encantamento que rodeava o segredo da transmutação, Íris e Atlan passaram a encontrar-se com frequência.
Eram habituais os seus longos passeios através da frescura de frondosos jardins onde passavam horas e horas a deliciarem-se com aquilo que iam conhecendo um do outro.
Por vezes entrelaçavam as mãos e Atlan apercebia-se de como era macia e acolhedora a pele de Íris e de como era bom estar ali, simplesmente, com ela.
Ele possuía uma invulgar memória onírica e contou-lhe, com uma precisão admirável, sonhos que tivera há muitos anos atrás, alguns deles ainda na sua infância. Mas aquele que mais a impressionou foi “A Saga de Eoalkper Eoasell”.
Devido à sua estranha nitidez assemelhava-se mais a uma experiência realmente vivida do que a um sonho. E quando Atlan o evocou, ao começar a contar-lho, Íris olhava para ele e sentia que ele o vivia de novo:
– Subitamente caí num sono profundo e vi-me a mim próprio numa outra parte da Terra, um umbigo do mundo sulcado de ilhas numa época distante. E nem sequer me chamava Atlan, chamava-me Eoalkper Eoasell...
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A saga  de  eoalkper  eoasell
 

A saga de eoalkper eoasell

síntese simbólica de um percurso

 

 

Há coisas que nunca se podem verdadeiramente dividir...



            Há muitos milhares de anos, perdida na imensidão do tempo, existia uma pequena nação de guerreiros onde vivia uma criança chamada Eoalkper Eoasell.
Eoasell era um menino com sete anos de idade em tudo semelhante aos outros. Mas, tinha a estranha sensação de que aquilo que era, não correspondia ao seu verdadeiro ser. Sentia que este seu corpo era muito frágil e limitado; como que o estranhava. Porém, perguntava-se:
            “Como posso estranhá-lo se nunca tive outro?”
Por vezes, tinha realmente a sensação de que já tinha tido uma natureza diferente, poderosa e ilimitada e, que agora, estava aprisionado neste corpo onde aprisionadas estavam também as suas capacidades.
            Não, esta não poderia ser a sua verdadeira natureza: nas suas brincadeiras, a sua força interior, fazia-o saltar de altos muros, mas ao aterrar, rachava a cabeça e magoava-se. Apesar disso, persistia, sentia que não poderia ser assim, ele “não era assim, não poderia ser assim frágil”.  Ao brincar de guerreiro, atirava-se sozinho contra muitos adversários. As outras crianças envolviam-no como formigas e acabavam por fazê-lo tombar. No interior de Eoasell pulsava um outro tipo de ser — um ser indomável e ilimitado. Um ser que se entristecia por não poder cruzar os céus como um cometa e mergulhar no fogo do sol, atravessando-o de um lado ao outro e ficando ao rubro, mas mantendo-se indestrutível, imparável, pleno de liberdade total.  Deveria ser capaz de derrubar muros, de remover rochedos, de parar a chuva e, sempre que se ferisse, o seu corpo deveria regenerar-se de imediato. Eram estas as estranhas sensações do pequeno Eoalkper Eoasell.
 
Quando fez quinze anos, passou casualmente em casa de Elinoa, uma velha sábia, e encontrou-a reunida com outras anciãs. Soube que algumas eram de terras distantes, do outro lado da costa.  Como estavam na estação fria, sentavam-se em volta do fogo que crepitava e contavam lendas e histórias de um passado longínquo e nebuloso. Uma dessas lendas causou um impacto e um sentimento de familiaridade inesperados em Eoasell. Quem a contava chamava-se Amaroa:
 
“Há muito tempo atrás, existia um deus chamado Manu. A sua aparência física era semelhante à de um humano. Diz-se até que por ele foi criada a nossa  espécie…
“A dada altura, não se sabe bem porquê, Manu decidiu deixar de ser um deus para se tornar humano. Talvez porque se sentia só e queria ser um entre muitos seus iguais, ou porque queria fazer evoluir os seres humanos a algo semelhante a si próprio, ou porque se queria transcender... ninguém sabe ao certo.
“Manu fragmentou-se então em muitas partes e misturou-se com as almas dos embriões humanos. Ao dividir-se em várias partes perdeu a consciência de si próprio e entrou no oblívio, no esquecimento de si mesmo. Porém, em algumas crianças, sobraram memórias vagas da natureza passada de Manu.
“Foi o que ocorreu com um menino chamado Eus. Desde muito cedo começou a sentir uma estranha nostalgia. Era como se estivesse habituado a outro tipo de existência, mais livre, com menos impossíveis. Sentia-se também pouco integrado na sua espécie. As outras crianças não partilhavam da sua sensibilidade e do seu gosto por desvendar os mistérios do universo. Divertiam-se a fazer mal aos animais e faziam chacota do seu interesse por aprender as ciências do mundo. Mentiam e, por vezes, roubavam-lhe coisas. Eus não compreendia a maldade que encontrava nos seus semelhantes, sobretudo nos  adultos que cometiam actos ainda mais cruéis e brutais. Não se sentia fazendo parte da mesma espécie nem se sentia em casa. Por isso sonhava em encontrar o caminho para casa e conviver com os da sua própria espécie.
“Um dia teve um sonho muito estranho. Sonhou que estava suspenso a alguns metros do solo sobre umas colinas verdes onde passava um ribeiro. Ele irradiava energia e tudo à sua volta, as árvores, o céu e a água, pareciam ondular e vibrar de acordo consigo numa coreografia viva e plena de amor. Toda a natureza em seu redor comportava-se como uma extensão de si próprio. Depois, subitamente, o seu corpo transformou-se numa bola de fogo que ascendeu ao céu e explodiu em inúmeras centelhas de luz. As centelhas voaram e, como que por instinto, cada uma delas encontrou um feto humano com o qual se fundiu. Aqui, Eus acordou.
“Depois desse dia, a natureza de Manu começou a despertar em Eus que, como que por instinto, seguia o caminho para alcançar a liberdade dessa existência sonhada.
“Após ter vivido ainda muitos anos alcançou-a mesmo e tornou-se um ser sem limitações como Manu, mas conservou também todas as boas qualidades da humanidade.
“Assim termina a lenda de Eus” – concluiu Amaroa.
 
 
Uma lágrima rolou quente pela face de Eoasell. Era a primeira vez que ouvia algo de comum com o que sempre sentira  no seu interior. Pensou que talvez algo de idêntico com a lenda que escutara tivesse ocorrido com ele. Isso explicaria a sensação que sempre tivera de não pertencer verdadeiramente ali e de já ter sido um ser muito diferente.
Quer fosse assim ou não, Eoasell começou a pensar que deveria ser possível transformar-se num ser ilimitado. “Mas como?” – interrogava-se.
A sua busca não foi fácil. Frequentou todos os arquivos e leu todos os escritos que pôde, mas não havia quase nada que o pudesse ajudar a descobrir como conseguir transformar a sua natureza em algo ilimitado. Era algo estranho e ignorado.
Prosseguiu no entanto com a sua aprendizagem sobre o que se conhecia do ser humano e das leis da natureza. Havia vestígios de ciências antigas, de um tempo em que houvera na Terra um conhecimento mais avançado e parcialmente perdido. Depois da sua deambulação por vários lugares do seu mundo e da meditação daquilo que se conhecia da história da humanidade, só lhe restava deixar-se guiar pelo seu instinto e pela sua intuição. Começou então a fazer experiências consigo próprio. Aprendera uma coisa com um velho místico que conhecera numa ilha distante e que lhe trazia uma espécie de conhecimento silencioso. O velho dizia que era uma forma de beber directamente da fonte do conhecimento universal. Era uma espécie de meditação em que se mergulhava por breves instantes num estado sem pensamentos. Durante esse tempo a consciência habitual anulava-se e ficava apenas um outro tipo de consciência, uma consciência impessoal. O velho Quatl chamava-lhe  atingir o estado zero, tornar-se no nada.
“Ser o nada e conseguir doseá-lo, manejá-lo, nisso consiste o grande segredo da existência” — dizia.
Porém, para o próprio Quatl, isso era uma verdade intuitiva e nem ele compreendia todo o seu alcance.
“É muito difícil atingir o nada” — prosseguia o velho —”e ainda mais difícil é conseguir Sê-lo; e Manejá-lo, a esse estado entre o nada e o ser.”
 
 Um dia, Eoasell teve um grave acidente. Caiu por um precipício e através dos seus ferimentos perdeu quase metade do seu sangue. As dores eram lancinantes e sentiu que estava a morrer. Então, subitamente, mergulhou numa espécie de sonho, mas sem as características habituais de um sonho; possuía todas as qualidades e nitidez de uma experiência real: encontrava-se à entrada de um estranho edifício que reconheceu ser uma biblioteca, não tendo no entanto visto nunca uma igual. Também o tempo e o lugar lhe eram estranhos. Apesar disso entrou e sentiu-se fortemente atraído por um dos volumes daquilo que lhe disseram ser um livro, um conjunto de folhas envolto por uma capa dura. Abriu-o, aparentemente ao acaso e, sem saber como, compreendia perfeitamente a língua em que estava escrito. Mas o mais surpreendente é que estava lá tudo, com uma clareza e uma simplicidade impressionantes. Todos os segredos que procurara desvendar todos esses anos: os segredos acerca do  controlo total sobre o corpo e a alma e sobre a expansão da consciência.
Os princípios eram tão claros que resolveu experimentar de imediato. A primeira sensação que teve foi a de sentir o seu corpo flutuar até se encontrar próximo do tecto da sala. Nessa fase sentia que metade do seu eu estava no seu corpo e metade espalhada no ambiente à sua volta. Expandiu mais a sua consciência, a sua presença, e percepcionou uma parte do mundo em que estava inserido. Viu centenas de pessoas, de casas, de paisagens...
Expandiu-se ainda mais e viu uma multidão de imagens, de rostos, de acontecimentos. Teve a sensação de que era toda a Terra.
O movimento de expansão continuou e as sensações tornaram-se mais difíceis de definir porque eram visões caleidoscópicas, muitas imagens de muitos mundos, de muitas realidades. A sua consciência estava espalhada por toda a existência.
Entretanto, o movimento prosseguia. O seu ser deixava-se ir, atraído cada vez mais para o todo, para o infinito... até que as formas já não eram distinguíveis. A sua percepção de conjunto assemelhava-se a um oceano de energia com um formato semelhante a uma galáxia de uma luz suave e de cor clara, na qual estava a essência de todas as coisas. Havia apenas um som que era a fusão de todos os sons e se assemelhava ao rumor longínquo de um oceano, porém constante, infinito e incessante. Havia apenas um sentimento, agradável, de paz, de totalidade, de suave plenitude. Mas o que mais caracterizava este sentimento era a ausência de ego e do seu eu, uma sensação impessoal de pertencer à consciência universal (aquilo seria Deus?). Havia apenas uma cor, apenas um som, apenas um sentimento.
Eoasell sentia-se como que uma gota de água a começar a mergulhar e a dissolver-se nesse oceano existencial. Sentia que era um indivíduo com a sua pequena consciência prestes a perder a sua individualidade para passar a fazer parte dessa consciência gigantesca e impessoal. Era como se estivesse próximo de deixar de ser. A existência absoluta afigurava-se-lhe semelhante à não existência. Ao mesmo tempo, aquele estádio, parecia ser o patamar máximo que qualquer ser poderia algum dia atingir: a eternidade, a paz absoluta. A imutabilidade resultante da soma de todas as mudanças.
Sentiu que estava a ir longe de mais e que, se avançasse apenas mais um pouco, o processo seria irreversível e jamais poderia recuar. E perderia também, para sempre, a sua consciência individual.
Tudo isto foram as suas impressões e reflexões realizadas apenas numa fracção de segundo, nessa fase intermédia em que a sua mente principiava a deixar de pensar e começava a diluir-se na essência da totalidade. Mas foi o bastante: produziu-se imediatamente um movimento súbito de recuo, como de um elástico. Sentiu-se atravessar rapidamente em sentido inverso os estados anteriores que o conduziam à sua individualidade e abriu os olhos num sobressalto: não estava na biblioteca. Encontrava-se deitado no seu quarto e ao seu lado, olhando para si, estava Quatl, boquiaberto.
 
“Onde estava o livro?” – foi o primeiro pensamento de Eoasell. Procurou desesperadamente lembrar-se do que lera. Por um momento tivera na mão todos os segredos da existência e agora não se lembrava de quase nada. Apenas recordava uma frase síntese, algo como “o que é preciso é ser o nada e manter o nada, ou manejar o nada”... uma frase semelhante à que lhe dissera o velho.  

“O que aconteceu?”– perguntou Quatl –“Pensei que tinhas morrido. Já faz algum tempo que o teu corpo tem estado completamente inerte, como morto; tens estado sem respirar e o teu coração sem bater.”
Eoasell contou-lhe a sua experiência e o velho disse-lhe que possivelmente estivera muito próximo da morte física e que, se não tivesse recuado, o seu corpo não teria regressado à vida. Disse-lhe também que, provavelmente, acabara de desperdiçar uma das raras oportunidades que o ser humano tem de voltar a fundir-se com a Unidade e atingir assim a paz obtida pela libertação do ego e do sofrimento da consciência individual. Provavelmente, a possibilidade que lhe restava agora seria a de efectuar uma longa caminhada, talvez ao longo de muitas vidas, até ao dia em que, eventualmente, pudesse atingir um estado de pureza tal que o seu ego se desvanecesse e ele conseguisse, enfim, descansar na plenitude da “inexistência” dessa existência absoluta que ele havia percepcionado como um mar de energia.
 
Depois dessa experiência, tentou em vão recordar-se do que lera nesse estranho livro. De qualquer forma, sentia-se diferente, como se os seus horizontes interiores tivessem alargado e o alcance da sua mente se tivesse expandido.
 
A sua mente era agora mais rápida. A partir daí, lançou-se progressivamente numa exploração vertiginosa do alcance do seu próprio pensamento. Pôs tudo em causa, dissecou todas as ideias, pensou sobre os seus próprios pensamentos. Reflectiu sobre a origem do mundo e do universo, sobre Deus e o objectivo da existência e descobriu que, ao ultrapassar os limites do pensamento, penetrara nas raias da loucura. Verificou que para atingir determinadas acepções tinha de pôr de lado a lógica e o senso comum e, quando as características do pensamento se diluíam e todo o raciocínio se tornava difuso, era preciso mesmo assim continuar, nem que fosse às cegas até encontrar de novo a luz.
 
Esse foi o início daquilo a que chamaria mais tarde “A  Batalha da Loucura” –  o atravessar do túnel do pensamento até sair, finalmente, pelo orifício oposto.
Era como atravessar um longo campo de areias movediças. Parar a meio seria afundar-se, seria enlouquecer. Era necessário avançar, avançar sempre. Os extremos tocavam-se e a luz deveria voltar a surgir e com ela o alcance do seu objectivo: a amplificação da consciência.
Eoasell não sabia que essa seria uma batalha que, ainda que entrecruzada com muitas outras, se estenderia por cerca de vinte anos...
 
 
A sua busca, todavia, continuou. Em breve realizou a primeira experiência consigo próprio, em que procurou transcender os limites do seu ser. Baseou-se numa ideia que vinha desenvolvendo há algum tempo atrás, fruto da sua pesquisa e reflexões. Pressentia em todos os seres uma mesma natureza intrínseca, uma força, uma energia ilimitada. O que cristalizava os seres humanos em formas tão limitadas de poder era uma espécie de fuligem que encobria essa energia luminosa que agora apenas ardia no âmago dos seres, reduzida à dimensão de uma centelha. Essa fuligem era constituída por todas as dúvidas e temores que castravam o infinito em cada um de nós.
Todas as nossas crenças nas impossibilidades disto e daquilo aprisionavam-nos em gaiolas existenciais. Assim como também todos os nossos condicionalismos: só estaríamos libertos e limpos quando ultrapassássemos os limites impostos pela nossa espécie, pelo nosso sexo, pela nossa idade, pela nossa nacionalidade, pela nossa educação, pela nossa realidade, pelo nosso ser.
 
Mas o que Eoasell não sabia ainda, era que para atingir a Liberdade Total do seu Ser teria que desaprender muitos dos dogmas que a sociedade dos homens lhe inculcara e que o encarceravam numa gaiola de dúvidas. E eram essas dúvidas que o impediam de aceder às suas capacidades infinitas.
E teria também de ultrapassar diversos fracassos, decepções e períodos de desânimo ou aqueles que viriam a ser alguns   dos seus longos  ‘Anos Negros’...
 
...e ainda assim persistir, sempre, na sua escalada pelas escarpas que talvez o conduzissem à transmutação.

 
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Muitos dias se passaram em que Íris reflectia frequentemente sobre esse estranho sonho de Atlan e naquilo que pareciam ser as verdades profundas descobertas por ele como Eoalkper Eoasell…
Mas hoje era um dia muito especial para ela, um momento aguardado com muita ansiedade.
Era hoje que Atlan iria, finalmente,  mostrar-lhe algo que mencionara já por diversas vezes mas sempre com receio e talvez até com alguma vergonha de partilhar por ser algo de tão íntimo.
Ao entrar no jardim onde habitualmente se encontravam, Íris olhou para o lago e viu que Atlan já lá estava, sentado no seu banco preferido com um espesso caderno entre as mãos.
Finalmente ele iria deixá-la ler algumas das primeiras páginas do seu “Diário das Transmutações”.
Ele chamava assim ao caderno onde registara as diversas tentativas praticas que fizera  para se transmutar.
– O que te vou mostrar, Íris, é apenas um livro de apontamentos onde anotei, de forma sintética, as ocorrências mais significativas processadas durante esses períodos de tempo em que ascendi a fases mais elevadas e poderosas do meu próprio ser – explicou-lhe Atlan enquanto folheava o caderno de capa dourada. E prosseguiu:
– É uma espécie de diário das abordagens que fiz à transmutação; muito embora, no início, eu quisesse apenas  explorar toda aquela minha ampla realidade interior que se projectava para além do meu estado comum e me prometia mil e uma capacidades fantásticas!... A vanguarda da psicologia correlaciona, actualmente, alguns desses fenómenos com os chamados “estados alterados de consciência” nos quais possuímos uma maior facilidade para desencadear acções paranormais. Talvez isso se deva ao facto de o nosso cepticismo e a nossa tendência habitual para duvidar das nossas capacidades infinitas se encontrarem enfraquecidos nesses estados especiais de consciência. No entanto, Íris, para já, prefiro que leias apenas as minhas três experiências iniciais e que deixemos as outras para mais tarde...
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O Diário de Atlan – 1

A minha 1ª Abordagem:          
 
Na minha primeira tentativa de alcançar um estado ontológico acima do estado comum, o meu objectivo principal era conseguir agir directamente na matéria através da minha consciência.
 
Parti da hipótese de que, se acreditasse totalmente que conseguiria actuar num objecto, suprimindo qualquer dúvida, o resultado seria efectivo. Baseava-me na leitura de registos em que determinados indivíduos, através do poder da fé, tinham realizado acções aparentemente impossíveis.
 
Tentar suprimir todas as dúvidas em que conseguiria actuar num objecto, sem lhe tocar fisicamente, revelou-se impossível. Havia sempre uma dúvida latente. A dúvida está relacionada com a lógica e o raciocínio, ambas actividades do consciente. Pensei então que deveria experimentar enfraquecer a actividade consciente. Nos sonhos acreditamos e conseguimos fazer coisas que nos parecem impossíveis quando acordados. Possivelmente porque o córtex cerebral durante o sono entra em repouso, reduzindo a actividade consciente e racional.
Havia que cansar o córtex, provocando que entrasse em repouso mas sem que eu ficasse adormecido. Seria algo semelhante a entrar num estado de sono acordado.
 
Mantive-me sem dormir durante seis dias e seis noites.

 
Encontrava-me no sul do país, no Algarve, a trabalhar num Aparthotel durante o meu período de férias escolares que antecedia a entrada na universidade. Fazia o horário das 10h da noite às 5h da manhã no bar-discoteca do empreendimento. Passava o resto do tempo em constantes actividades para não adormecer.
 
Ao 4º dia senti que o meu pensamento racional e crítico era já muito ténue. Uma das primeiras sensações estranhas foi a de pressentir grande parte dos acontecimentos com minutos ou horas de antecedência. O meu corpo movia-se de um local para outro conduzido por vontades espontâneas da minha consciência mas sem pensar, sem reflectir. Ao conversar com algumas pessoas sentia que diversas ocorrências se tinham passado com elas e obtive as suas confirmações.
 
O meu intelecto parecia tornar-se, também, cada vez mais rápido e poderoso. Estive, nessa altura, em casa de uma família holandesa com a qual me comunicava em Inglês, por ignorar completamente a sua língua. Subitamente, todos os elementos da família irromperam numa discussão, falando holandês. Não sei explicar como mas, a dado momento, deparei comigo a compreender tudo o que diziam.
 
Na manhã do 5º dia, encontrava-me na recepção de um aldeamento turístico a olhar para uma placa onde estava escrito, em seis línguas, o seu regulamento. Sentia a minha mente a ler e a relacionar, com uma velocidade incrível, todas as frases e palavras nas diversas línguas e a aprender o significado das palavras que eu desconhecia. Nessa época, além de português, apenas falava um pouco de Francês e Inglês.
Mais tarde, assisti, durante cerca de trinta minutos, à transmissão televisiva do campeonato de salto e mergulho em piscina. Não tinha qualquer conhecimento prévio mas observei com toda a atenção os perigosos e difíceis saltos mortais, triplos mortais, parafusos, empranchados, etc. Em seguida, dirigi-me à piscina do Aparthotel e, da prancha mais elevada, executei razoavelmente bem, com uma habilidade que desconhecia, os mergulhos mais difíceis que tinha observado, pela primeira vez, momentos antes na televisão. 
Junto à piscina havia um quiosque com livros em várias línguas estrangeiras (o Algarve é uma região turística frequentada por pessoas de diversas nacionalidades). Tinha começado, havia pouco, a falar com um grupo de rapazes holandeses que estavam admirados com os meus mergulhos. De repente, disse-lhes que, se quisesse, conseguiria ler e compreender a sua língua. Escolhi um livro em holandês da prateleira do quiosque e abri-o ao acaso.
Comecei a traduzi-lo rapidamente para Inglês. ‘A medida que eu lia eles verificavam que a tradução estava correcta. O que eu sentia na minha mente, quando lia, pareciam ser uma série de operações muito rápidas de análise a cada palavra, a cada frase, procurando semelhanças com palavras das línguas que eu conhecia, tentando encontrar o significado pelo contexto lendo mais à frente e voltando atrás, encontrando outros significados por intuição, decomposição das palavras, etc. Porém todas estas operações eram muito rápidas e não se notavam porque, como resultado final, eu traduzia, falando a uma velocidade normal.

Toda a minha hiperactividade deu lugar a muitas outras situações estranhas.  Em dado momento, apeteceu-me dispor de um carro por algumas horas.  Como a minha normal tendência para duvidar, estava já muito enfraquecida, pensei: “Vou por esta rua e ao voltar da esquina, vai passar-se algo que me proporcionará um carro.”  Fui e não duvidei. Ao voltar da esquina, encontrei um conhecido da minha cidade, que estava no Algarve a passar férias. Eu conhecia-o mal ma, em poucas frases fui persuasivo e ele pôs-me o carro à disposição.
 
Na tarde do 5º dia, o meu perfil psicológico era o seguinte: encontrava-me num estado de maravilhamento com tantos poderes novos e desconhecidos. Sentia-me , no entanto, com alguma dificuldade em me conduzir pelo desenrolar dos acontecimentos, já que tudo era muito rápido e quase não havia pensamentos pelo meio. Era muito estranho não pensar, ou pelo menos, não pensar da forma comum.  Eu era impulsionado por um pensamento sem pensamentos. Quase como num sonho. E depois, como não duvidava, executava tudo o que essa espécie de consciência me ditava. Tinha desaparecido todo o pensamento aristotélico  e  cartesiano. Eu não pensava, eu agia; fruto dos impulsos de vontade de uma espécie de consciência mágica, não raciocinante. Por vezes, sentia que eu não conduzia as minhas acções, mas era conduzido.  Fisicamente sentia-me bem e com energia; já não me sentia cansado e com sono como sucedera nos 3 primeiros dias.
 
Ao fim da tarde do 5º dia atrevi-me a tentar a acção directa da mente sobre a matéria. Isto era o que temia como mais difícil, no meu estado normal. As tentativas frustradas no passado tinham-me enraizado fortes dúvidas de obter sucesso. Talvez ainda não completamente liberto delas, tentei algo que me pareceu mais fácil:  Dentro do bar do hotel havia, em cada mesa, uma vela rodeada de uma campânula.  Surpreendi-me com a facilidade com que conseguia reduzir a chama, quase apagando-a e, aumentá-la até se tornar uma chama grande.

No 6º dia, estava na esplanada do bar com algumas pessoas, quando passou próximo de nós um empregado, transportando uma bandeja cheia de copos. Disse aos meus conhecidos: “aqueles copos vão partir-se.”   Penso  que  quis fazer com que a minha acção mental os partisse.  Porém, eles não quebraram imediatamente. O empregado deu mais um passo e a bandeja caiu ao chão partindo os copos.
 
A partir daqui tudo se acelerou e complicou.  As pessoas que estavam comigo à mesa ficaram assustadas.  Alguém avisou o gerente que quis expulsar-me do local. Eu fiquei furioso e entrei no interior do bar. Ao entrar, a iluminação foi abaixo e tudo ficou às escuras. Gerou-se alguma confusão com o gerente e os empregados que estavam nervosos e assustados comigo.  Eu estava com a sensação maniqueísta  de que o gerente era um homem mau e perverso e abandonei o local.
 
Pouco depois, deparei comigo muito descontrolado emocionalmente. Estava com convulsões de riso e de choro, tudo ao mesmo tempo.  Sentia vontade de deixar tudo, de morrer.  Procurei desesperadamente uma escarpa para o mar, um precipício.  Estava convencido de que os havia ali, naquela zona da costa.  Mas enganei-me; quando cheguei à borda vi que esta era baixa e que se me atirasse não morreria.  Recuei sem saber o que fazer.  Nesse momento veio ao meu encontro uma amiga que se apercebera do meu estado. Deu-me alguns soníferos e conseguiu que eu dormisse cerca de doze horas. Quando acordei estava mais próximo do meu estado normal, mas ainda um pouco estranho.

 
Decidi regressar a casa. Dormi profundamente, durante toda a viagem de 700 Quilómetros até ao norte do país. Nos dois dias seguintes dormi a maior parte do tempo.
Sentia-me como um fusível meio queimado. Tinha perdido as minhas capacidades paranormais, já não sentia toda aquela energia dentro de mim e estava algo confuso e assustado com o desfecho da minha “aventura”.
Durante oito anos senti-me interiormente vazio.
 
 
Decorreram mais cinco anos em que eu continuava a sonhar com a minha escalada no domínio do paranormal, quando realizara a 1ª abordagem à transmutação. Será que algum dia voltarei a ter outra oportunidade?

 




O Diário de Atlan – 3
A minha 2ª Abordagem:          
 
Foi um período longo. No total, incluindo algumas quebras, estendeu-se por mais de 6 meses.
 
Após os vários anos que decorreram desde a primeira abordagem, suponho que um dos factores que estiveram na origem desta 2ª “ascensão” se relacionou com um cavalo.  Comprara-o há mais de um ano e era a minha primeira entrada num mundo que sempre me fascinara: o da equitação. Apesar de ser um belo cavalo, revelara-se difícil no treino e nas duas únicas vezes que o montara havia sido violentamente projectado ao solo. Quando finalmente o cavalo se começou a entregar, fiquei radiante. Montava-o e treinávamos os dois quase todos os dias, durante horas e horas. Apesar de ficar exausto por travar autênticas lutas com o animal, o meu entusiasmo era crescente porque, de dia para dia, obtinha mais progressos.
 
Este exercício diário intenso, uma progressiva redução das horas de sono e uma alimentação mais rara, aliados à fusão energética que sentia com o cavalo, fizeram-me entrar num estado de espírito diferente.
O primeiro fenómeno invulgar que recordo foi durante uma corrida que fiz, a pé, com alguns amigos.  Um deles tinha apenas 17 anos e era um óptimo corredor. Pouco depois de começarmos, imprimi uma aceleração tão grande que os deixei para trás vários metros. Continuei a correr sem sentir cansaço, mas antes, satisfação e prazer em cada passada que dava.  Quando parei, uma longa distância após todos terem parado, estava perfeitamente normal; sem respiração ofegante e sem pulsação acelerada.

Ao longo dos dias em que treinava equitação, por vezes em situações de cansaço extremo, eu obrigava-me a prosseguir os exercícios sem parar. Aí, desaparecia a sensação de cansaço e eu continuava por horas e horas.
O cavalo era um animal possante e rebelde; tinha provocado traumatismos em dois treinadores anteriores.  As minhas actividades com ele eram frequentemente verdadeiras lutas.  Transformou-se no meu ginásio físico e espiritual.  Sem me aperceber, espontaneamente, comecei a entrar em novo processo de transmutação.
 
Experimentava também, baseado em livros de Castañeda, a abstinência sexual e a canalização dessa  energia para me catapultar a estados de ser mais elevados. Dormia pouco e devorava livros. Estava fascinado com o ressurgir de capacidades paranormais há muito perdidas.
 
Vários fenómenos ocorriam: por vezes: borboletas vinham
 poisar nos meus dedos, outras vezes, eram aves que se aproximavam; a minha empatia com animais era muito grande, mas principalmente, com cavalos e cães. A maioria dos animais obedecia-me, ou melhor, compreendia-me com um pequeno gesto.
 
Passei a andar com um pequeno caderno no bolso em que escrevia, a cada instante, o que me surgia por inspiração.  A maior parte dos escritos, relacionavam-se com a transformação do ser humano comum, elevando-se ao estado de semideus.  Intitulei esse pequeno livro de “Meta-H” – significando “Meta Homem”, um estado para além do humano.

Uma ocasião visitei uma escola de artes marciais onde nunca estivera.  Alguns alunos apontaram para uma pintura na parede onde estavam os símbolos da sua escola.  Disseram-me que antes, estavam ali pintados outros símbolos.  Olhei para a parede e, não visualizei propriamente, mas antes senti, uma cobra e um macaco.  Quando lhes comuniquei o que tinha “visto” eles confirmaram surpresos.
 
Tinha cada vez menos vontade de comer alimentos convencionais. Comia muito pouco e gostava de me sentir assim; mais leve, mais espiritual.  Fazia, com frequência, os exercícios de absorção de energia solar, aprendidos nos livros de Castañeda.  Era a minha principal forma de “alimentação”.  Por vezes, à noite, sentia uma “fome imensa de energia”.
 
Ligava-me então, várias vezes, a fontes de electricidade, experimentando a sensação de absorver aquela forma de energia.  Não sei o que realmente se passava, nem se conseguia assimilar qualquer energia mas, estranhamente, não ficava electrocutado, sentindo apenas um tremor suportável.
Embora na altura eu não me apercebesse, penso agora que, por vezes, o meu  estado psicológico atingia algo de loucura. Em toda a movimentação e impetuosidade do meu dia a dia, sentia vontade de fazer coisas que, habitualmente, não são consideradas naturais ou de bom senso. Numa dessas ocasiões, senti que conseguiria levantar o meu cavalo. Coloquei-me curvado por baixo dele e, com a força das costas e das pernas, empurrei para cima o animal. Apesar de naquele momento ter uma espécie de certeza intuitiva de que o conseguiria, não deixei de me admirar quando senti que o animal se elevava ficando apenas as patas da frente a tocar o chão. Isto aconteceu numa praia e algumas pessoas vieram depois falar comigo não entendendo como é que eu o fizera. Eu tão pouco o sabia, pois o cavalo pesava cerca de setecentos quilos.

Os fenómenos mais estranhos relacionaram-se com a minha crescente empatia e identificação com o sol. Na verdade, sentia uma quase adoração pela fonte de energia que ele representava.
Nessa época costumava tomar o pequeno-almoço numa das esplanadas do edifício em que residia. Uma ocasião, durante o Inverno, estava tempo de chuva, cinzento e encoberto.
Naquele momento eu olhei para o céu com frio, e desejei que o sol brilhasse e me aquecesse por fora e também por dentro. De alguma forma que não consigo descrever, senti que eu e o sol éramos um e que, essa outra parte de mim iria brilhar, ao meu encontro, ao encontro de estreitar a sua ligação comigo. Senti que de alguma forma tinha comunicado com aquele astro, que se me afigurava não apenas como um astro mas com algo de mais vasto, relacionado com a energia do mundo e comigo – num passado ou futuro distante. Isto durou apenas um momento, mas muito rapidamente as nuvens começaram a dissipar-se e o sol brilhou forte e quente. Passados cerca de vinte minutos, não havia nuvens; o céu estava completamente azul.
Eu poderia atribuir esta experiência ao acaso porém, depois desta primeira vez, o mesmo fenómeno repetiu-se vezes sem conta e, cada vez mais, eu confiava nesta interacção.  Muitas vezes, eu tomava o pequeno-almoço acompanhado por uma colaboradora.  Quando estava mau tempo, por vezes até a chover, eu dizia-lhe, com uma naturalidade cada vez maior, para nos sentarmos na esplanada e não no interior, que iria fazer sol. E assim acontecia.
Passado algum tempo, o fenómeno era tão familiar para ela como para mim. Recordo-me de situações até algo cómicas: em dias de chuva ela pedia-me para “ir até lá fora, para o tempo melhorar”.
 
Todas estas pequenas ou grandes conquistas me enchiam de satisfação por me parecer que cada vez estava mais próximo do meu objectivo final: a transmutação, total e irreversível. Porém, também me distraíam e me faziam andar à deriva, impedindo-me de concentrar energias no objectivo final e não nas dezenas de fenómenos fascinantes que surgiam pelo caminho.  Eu também não conhecia o caminho. Era como caminhar às escuras. Tentava avançar baseando-me em conhecimentos e hipóteses e na minha intuição. Eu pensava que só realizando a transmutação essa escalada seria irreversível e eu não voltaria a perder as faculdades alcançadas. Lembrava-me da minha 1ª abordagem após a qual voltara à normalidade.
A textura do meu próprio corpo parecia um pouco diferente e a capacidade de recuperação de ferimentos era muito rápida. Além disso toda a minha aparência física tinha-se tornado, de novo, muito mais jovem. Tinha a sensação de que apresentava sinais de principiar a transmutação do meu corpo num corpo incorruptível.
Por vezes, tinha dificuldade em controlar a enorme quantidade de energia que possuía. Sentia-me como se estivesse ao volante de um automóvel com um motor demasiado poderoso em que não conseguia dominar a aceleração e derrapava nas curvas.  Tornava-me facilmente arrastado pelos meus ímpetos e não ponderava as minhas acções.
Outras vezes, tinha quebras em que me sentia muito fraco e vulnerável, possivelmente porque dormia e comia muito pouco. 
Numa dessas ocasiões, fui vítima de quatro agressores que me deixaram com muitos traumatismos e quase morto. Não obstante, a minha recuperação no hospital foi invulgarmente rápida.
Porém, como trabalhava por conta própria, o período em que estive hospitalizado e em convalescença foi fatal para os meus negócios. Isso e outros desgostos que tive no mesmo período arrastaram-me para o estado comum de normalidade e, posteriormente, para uma depressão psicológica.  Perdera completamente o estado de espírito energético e todas as capacidades paranormais.
Não conseguira atingir o ponto de irreversibilidade e tudo se desmoronara.
 

 
 
……………………………………………………………………..……
Atlan explicou-me como esta sua impossibilidade em conservar as “extra-capacidades” adquiridas durante as suas “ascensões” o precipitava depois em longos períodos de desânimo e desilusão nos quais se sentia novamente despido de quaisquer poderes.
– Sinto-me como um alpinista que está muito próximo de atingir o cume e de repente se vê estatelado na base da montanha... De facto, Íris, quando regresso à frustrante normalidade sinto-me morrer – confessou-me ele um dia. – Voltar a ser um homem, depois de ter sido quase um deus, é a pior das torturas... é como sentir-me completamente esvaziado de energia e de poder; é terrível! Dá-me a sensação de que é um tempo que jamais irá terminar. Nessas fases mergulho na descrença e convenço-me de que jamais conseguirei concretizar os meus objectivos...
Eram essas as longas temporadas a que Atlan chamava de “anos negros”... anos de sofrimento e dor. E perda da esperança de conseguir, algum dia, vir a transmutar-se.
…………………………………………………………..………………
 
 
 
 
FIM DA FASE  I

 
D ® 0
h ® ¥

[quando o “estado divino” (ou “Deus”) tende para ZERO (0),
o “estado humano” tende para infinito(¥)]
                                                                    
                                               ...Deus apaga-se

                                               ...e nasce o homem.
 
 
 
...São os Longos Anos Negros da Escuridão;
 
 
 
 
da Ignorância;
 
 
da Perda de MEMÓRIA;
 
 
e do Obscurantismo...
 
 
 
 
 
...efeitos simultâneos da
 
 
Poderosa Máquina de
PROPAGANDA...
 
 
 
...é aí  “Onde Mora o Mal” !

 
 
 
FASE II
 
os negros anos luz
 
 

 
 
……………………...…………………………………………..……….
Aleator trabalhava no Instituto de Estudos Quânticos e era um dos maiores amigos de Atlan.
Era um investigador que procurava conciliar duas grandes áreas de pesquisa: a psicologia e os fenómenos aleatórios.
Conhecia Atlan desde a sua infância e seria através dele que Íris viria a obter muitas revelações  sobre os seus longos períodos de desânimo.
Atlan tentara por diversas vezes aceder aos “céus” para aí se transmutar mas, de cada vez que não conseguira aí fixar-se e consumar a sua transmutação, despenhara-se nos mais terríveis  “infernos” existenciais.
Por vezes entrara num estado de inanição e num desinteresse tão grande que era como se temporariamente morresse.
Durante esses longos períodos de subvida ele isolara-se de tudo e de todos e, desiludido, afastara-se ao encontro da morte.
As suas saudades do “céu” eram tão grandes que não suportara a perspectiva de nunca mais para “lá” voltar; foi  isso o que sentiu Íris enquanto escutava Aleator contar-lhe sobre a carta que recebera de Atlan:
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Inferno
 
            Na primavera de 97 Aleator convenceu-se que, de facto, era verdade.
            Atlan desaparecera.
            A carta que recebeu, na véspera da sua partida para o Kazaquistão confirmou as suas suspeitas. Continha várias folhas e a que caiu ao chão foi a que leu primeiro:
 
                13 Abril 1997
         Amigo Aleator:
 
Pronto, estou no inferno!
         Eu sei que não me devo lamentar. Sei que mereço cá estar. Mas julgo também que não me é negado o direito a escrever sobre isso. A desabafar no papel toda a tortura que me vai na alma... Não o faço apenas por isso, mas por que sinto que, apesar de tudo – e de toda a loucura – houve uma multidão de acontecimentos e de experiências, muitos dos quais singulares e fantásticos, que devem ser registados e analisados.
         Apesar de tudo, e de ter desembocado neste beco estéril – o “inferno” – não deixou de ser uma odisseia estonteante, uma acrobacia ontológica, uma aventura louca!... que talvez eu gostasse absorvidamente de ler, não tendo sofrido e sangrado tanto por tê-la vivido  e não sufocando tanto com os remorsos pelo que fiz passar a mim e a outros...”
               
            Enquanto lia, as palavras passavam vertiginosamente pelos seus olhos deixando-o completamente absorvido. As paredes e o chão à sua volta apagaram-se envolvendo-o na escuridão.
            Então era assim que se sentia o canto do cisne?... uma melodia louca que se escondia por trás das palavras fazendo saltar um barulho imenso de silêncio?...
            Havia algo de definitivo no que lia. Uma sensação de “fim”.
            Era algo que deixava Aleator estupefacto pois, sem se ter apercebido, Atlan havia-o impregnado, ao longo dos anos, de um sentimento de eternidade, de imortalidade; como se fosse uma pessoa que não acaba nunca. E no entanto, racionalmente, ele nunca o admitira.
            Não conseguia parar de ler:
           
                “Fui um louco, um megalómano, um mitómano e um egocêntrico.
         E, ao mesmo tempo, paradoxalmente, não fui nada disso: fui apenas um miúdo que tentou ser um deus. Que acreditou possível e justo transformar-se num ser ilimitado e arrastou o seu ser humano, falível e frágil com muitos defeitos e algumas virtudes, como a maioria dos seres humanos, numa esforçada maratona sobre-humana que pôs mais em evidência as suas vicissitudes do que as suas qualidades e redundou numa marcha egocêntrica e trágica.”
 
            Numa outra folha continuava assim:
 
                “Ao tentar, num esforço titânico, tornar-me o céu, caí no inferno. Mereci-o. Desprezei o direito de outros àquilo que me parecia pequenez, desinteresse ou descrença na transmutação pessoal. Vi-os apenas como vultos que se movimentavam à minha volta. Uma sensação de desprezo se foi lentamente apoderando de mim por sentir um desprezo semelhante, nos outros, pelo alcançar do ‘céu‘ aqui na terra. E, sub-repticiamente, as minhas qualidades se foram pervertendo deixando-me apenas a ilusão de que permaneciam.”
 
         “Fiz muitos estragos. Passei por cima de muitas e importantíssimas coisas. Desrespeitei a fragilidade humana que é afinal como a minha própria. Achei que o meu plano, o meu projecto, era o mais importante e que todos tinham o dever de me abrir passagem. Fui intolerante e parcial para os que o não  fizeram! Desenvolvi sentimentos de cólera pelos obstrutores e auto convenci-me de que era ira divina. Julguei-me um deus, sem o ser ainda, e perdi a humildade... tudo sem me aperceber, num sonho louco, conturbado e agigantado.”
 
            Muito do que Aleator conhecia da vida de Atlan começava agora a fazer sentido. Embora já o conhecesse há tantos anos, tinham decorrido por vezes longos períodos de tempo em que ele lhe perdera o contacto. Depois, quando se encontrara com ele, houvera certas frases e acções que não compreendera muito bem. Agora, suspeitava que durante essas ausências, Atlan tivesse estado completamente absorvido nas suas “escaladas ontológicas”. A isso se deveriam certamente as suas desaparições.
            Pegou na folha seguinte e prossegui a leitura da carta:
 
                “Possivelmente não voltarás a ver-me. Gostaria porém que tentasses reunir os meus escritos dispersos, muitos dos quais poderás encontrar em minha casa e, juntamente com tudo o que sabes das minhas vivências, procurasses reconstituir os passos mais significativos da minha vida.
 
         Quando morre a esperança morre tudo. E eu estou a morrer.
        
Sinto necessidade de desaparecer.
         Como achas que me sinto? Ainda há menos de um ano o meu corpo tinha cerca de vinte e três anos e agora aparenta ter perto de quarenta?!...
         Estou em rápida deterioração. Todos os anos que travei estão a cair-me em cima vertiginosamente. E já não consigo, de novo, voltar a ser intemporal.
         Desapareceram as minhas capacidades extra-sensoriais.
O meu corpo definha dia para dia, enche-se de rugas, os cabelos caem, a pele enche-se de manchas vermelhas. Encarquilho-me. Não sei se para a semana terei oitenta anos...
Tudo se desmorona.
         Todos os objectivos da minha vida se esboroam...

A carta terminava com um poema de Atlan que Aleator se recordava de, por vezes, o ouvir “cantar” baixinho:
 
Se a minha tristeza
                 pudesse voar   
  Inundaria todos os espaços
  Tingiria de roxo todos os seres
 
  Até o rouxinol
que se despenharia dos céus
e se dilaceraria
         nos espinhos das rosas                                                     enganadoras…
 
  O mundo seria por fora
         aquilo que eu sou obrigado a ser por dentro.

 
 
……………………………….………………………………………….
Esta carta que Aleator mostrou a Íris fora escrita por Atlan ao fim de um longo período de depressão e sofrimento.
Por vezes, após anos de preparação e espera para conseguir entrar em fase de ascensão, Atlan sentia que alguns dos seus poderes ressurgiam. Mas quando isso sucedia ele sentia “elevar-se” vertiginosamente de um modo muito difícil de controlar. Tentava aguentar-se então o maior tempo  possível nesse estado o que era semelhante a sentir-se em cima de um balão que, por se elevar demasiado velozmente  para os céus, parece prestes a rebentar a todo o momento.
O seu poder interior ia aumentando mais e mais. Porém, sempre que se sentira já muito próximo de se transmutar definitivamente num ser incorruptível e com poderes quase ilimitados, despenhara-se e estatelara-se, profundamente machucado e despido de poder.
E as depressões que se seguiam eram suplícios de Tântalo, nuvens negras, imensidões de escuridão raramente entreabertas por um raio de luz ou um momento de paixão.
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Desânimo

            Ah, se ele pudesse libertar-se daquela depressão...
 
            Libertar-se para sempre daquela dor que lhe tolhia os movimentos. Era uma avalanche que, de repente, derramava sobre si o total desinteresse. Já não acreditava em nada.
 
            Pensou em pintar. Retraiu-se perante a ideia. Tinha medo de pintar. Já não vislumbrava em si qualquer talento... desacreditava-se.
 
            Semtia falta Dela... mas não sabia como nem de quem!
 
            Estava perdido, completamente perdido e só; abandonado e confuso nesse estranho universo do qual, no fundo, nada sabia.
           
            O tempo passava e ele estava cada vez mais velho. A vida esvaía-se.. e ele não tinha controle sobre isso. Não tinha controle nem poder sobre nada. Não era nada.
            “O que é que eu sou?”, interrogava-se Atlan. “Porque é que vivo e até quando vivo?... e depois?”
 
            Não tinha dinheiro. Sentia-se cada vez mais paralisado. Porque tentava evitar gastar o pouco que tinha, permanecia só, em casa.
            Pensou em mover iniciativas para ganhar dinheiro e acabar, pelo menos, com esse problema... mas para quê?... não era feliz. Nada lhe interessava. Nada tinha por que lutar.
            Esperança? O que era a esperança? Afigurava-se-lhe descabido ter alguma esperança... sentia-se o próprio erro de tudo... uma fraude.
Sentia que era capaz de tudo, mas que em tudo talvez fosse uma fraude, um esboço. Talvez não tivesse realmente talento em nada. Sentia que se enganava a si próprio e aos outros.
            Pintava, compunha musica, escrevia, fazia investigação científica, desenvolvia software, construía, projectava... e duvidava da qualidade de tudo o que fazia.
            Não, mas havia algo de que não duvidava. Acreditava numa coisa entre tudo o que fizera na vida: um quadro que pintara. Considerava a “Divina” uma obra-prima.
            Quereria isso dizer que ele, Atlan, tinha valor?
Justificar-se-ia a sua existência com a criação de um quadro que via como sendo uma obra de arte?
“Não sei, não sei, não sei”, pensou.
 
Por vezes, quando não estava em depressão e começava a fazer algo, como por exemplo pintar um quadro, acreditava no que estava a fazer. Acreditava que algo de genial iria brotar dali.
Mas outras vezes, quando estava a chegar ao fim da sua obra, ao olhá-la, parecia-lhe ver a composição um pouco garatujada de um miúdo. Ou então via algo que era interessante, mas apenas isso, e nada tinha de genial. ...Era apenas uma tela suja com cores.
 
Agora não havia inspiração, não havia nada.
 
Eram dois universos estanques.
Passava parte do tempo num, parte do tempo noutro e o resto entre os dois.
 
Quando estava neste universo, em que agora se encontrava, só havia uma vontade: a morte, o choro, o desespero, a aniquilação. Porque não vislumbrava qualquer bom sentido para tudo isto. Para ele, para os outros, para o universo... para tudo.
 
Se ele descobrisse uma passagem deste para o outro universo (no qual ele acreditava na grandeza, na felicidade, no sentido!)... transportar-se-ia imediatamente para lá.
“Mas essa passagem, se existir, deve estar dentro da minha vontade”, pensou Atlan, “e a minha vontade não existe para nada que me possa fazer sair da inércia do universo onde estou. Tolhe-me. Faz-me encolher, ficar anichado num canto e não querer saber de nada. Isolar-me de tudo e todos. Dormir. Não existir.”
Deveria ele força-la? Acordar a sua vontade e forçar-se a passar para esse outro universo, onde ele acreditava possuir recursos inesgotáveis de talento, onde ele sentia que conseguiria encontrar-se e encontrar o seu génio?
Forçar a sua vontade a conduzi-lo para “onde” ele acreditava em que havia um significado grandioso para a Existência e que ele o conseguiria descobrir... força-la para “lá”, onde ele confiava que descobriria os segredos do mundo e viajaria entre as estrelas e seria um cidadão do universo, envolvido por ele com amor e transformado num ente com possíveis divinos. Num ente que poderia ser livre de fluir pelo espaço e pelo tempo.
Força-la para “onde” ele ainda conseguia ter uma ténue esperança de a encontrar, a Ela e ao amor total?
 
“Mas se eu me sinto tão perdido, sem alento, sem sequer saber bem o que quero e o que sou, onde estou, etc...”, reflectia Atlan com desespero.
“Meu Deus, eu queria perseguir a depressão e acabar definitivamente com ela, para sempre. Mesmo que isso significasse que eu vivesse na ilusão para esse sempre. Na ilusão de acreditar.”
“Mas pelo menos viveria.”
“E não sofreria esta dor que me paralisa os movimentos, a imaginação, a alma.”
 
Pensou em escrever tudo aquilo. Pelo menos serviria para que alguém pudesse compreender o que sentia e como era a sua doença, pois não conseguia explicar por palavras quando lhe perguntavam o que sentia.
Mas este simples pensamento causou em si um arrepio de desconforto e sentiu-se tolher no seu sofá para que dali não saísse nem escrevesse nada.
Para quê escrever. Para quê fazer qualquer coisa.
Era como se um mecanismo de preguiça lhe dissesse:
– Vais levantar-te, vais esforçar-te... para nada. Deixa-te ficar na distracção de um programa televisivo.
 
Todo o seu corpo e a sua vontade se uniam para que nada fizesse.
 
Observou-se ao espelho.
Os seu olhos estavam baços, o seu rosto descaído. Abatido por um desânimo e um desleixo desinteressado...
Vagueou pela casa. Comeu uma bolacha. Nem tinha apetite... nem tinha nada.
Comer para quê? Não lhe apetecia nada...
 
Recordou com sensações de desconforto e dor os escolhos da sua vida decorrida. As suas perdas. As várias vigarices de que tinha sido alvo. As suas loucuras. As coisas que estragou em períodos conturbados. Dinheiro que “queimara” e que agora lhe fazia falta para poder viver melhor. Alguma namorada que deixara e da qual agora sentia falta. Mas, mesmo nesse tempo, nenhuma delas fora suficiente para o curar dessa sua doença, desse seu estranho desespero...
 
Finalmente,  a angústia foi grande e, movido por uma vaga esperança de se compreender a si próprio e de que escrever poderia contribuir para uma futura solução, levantou-se.
Encheu páginas de caracteres e continuou a sentir que não se expressara completamente; que não conseguira traduzir tudo o que sentia.
 
 
Por fim, abandonou a secretária e dirigiu-se para o seu quarto levando consigo um “talvez” em que pouco acreditava. Um “talvez que amanhã acordasse no outro universo em que acreditava no belo e no infinito”.
Mas não conseguia pensar “acredito que vou encontrá-la”... Já passara demasiado tempo, e o tempo aniquila as esperanças e el… ele já não sabia nada!...
...
 
 
Paixão
 
Atlan estava activo. Os seus pensamentos sucediam-se, rápidos:
“Penso em descobrir o sistema holista que permite o pensamento! Entrego-me ao estudo da neurologia, da psicologia, da física, da matemática, da inteligência artificial, da cibernética.”
“Anoto as minhas conclusões. Sinto estar a avançar. Acredito na possibilidade de o conseguir e na certeza do meu engrandecimento com esses conhecimentos.”
...
“(Estou cansado de escrever. Passa da meia noite Será que tem alguma utilidade, algum interesse, todo este trabalho e este tempo despendido a tentar exprimir o que sinto?)”
 
Levantou-se, vagueou pela casa pensando nisso, e decidiu escrever mais um pouco:
 
“Sinto que descubro que há, na Arte, algo por criar. O que está, no homem, para além do consciente. O que ultrapassa o real. E acredito-me criador dessa nova corrente artística.”
“Vislumbro um novo passo ontológico do Homem. A passagem a uma nova fase e a um novo grau de consciência. O desenvolvimento da MetaConsciência.”
“E empenho-me em encontrar na Arte a expressão do enaltecer dessa MetaConsciência, dessa meta-realidade
“Do Surrealismo e da arte Abstracta como expressão da psicologia das profundezas e do inconsciente – a Psicanálise, lanço-me à procura do Metarrealismo como expressão da psicologia das alturas e do MetaConsciente.
 
As ideias tornavam-se cada vez mais nítidas na mente de Atlan.
 
“Uma realidade holista, a alma do real que ganha a sua existência através da soma sinérgica dos componentes desse real. Ultrapassando o real e criando, assim, uma forma existencial plena e bela.”
“Esta ideia encanta-me. Acredito que descobrirei a sua expressão plástica...”
...
Etc., etc.
...
Desânimo
 
 
“Agora parece-me que os meus quadros não revelam nada de profundamente inovador que traduza o meta-real e a MetaConsciência.”
“Vejo-os apenas como esboços por onde passa uma ténue brisa do que quero e de como quero.”
“Mesmo a minha obra prima insurge-se-me bela mas impossível. Impossível porque a realidade me faz crer que não existe alguém assim, como represento no quadro.”
 
Levantou-se pensativo. Enquanto deambulava pela sala, Atlan imaginou como seria encontrar essa mulher-deusa que pintara, há dois anos atrás, numa noite febril.
 
“Já nem sei se conseguirei encontrá-la e, mesmo que a encontre, não sei se conseguirei substituir a minha solidão por ela. Esta solidão que me dói, também já me faz falta. Conseguiria viver com ela e possuir também a solidão quando dela necessito? A minha confusão é grande e sinto-me perdido...”
“Perdido num universo que, quando esta depressão me envolve, já não sei se é um universo nas mãos de Deus ou se é um universo à deriva, ao acaso.”
“Um universo ao acaso em que depois da morte nada resta, em que a existência individual não tem sentido.”
 
Aquela hipótese de um cosmos não inteligente, destituído de qualquer consciência perturbava-o. “E, no entanto, era uma possibilidade. E perante essa possibilidade só restaria uma salvação”, pensava Atlan, “transmutar-me! Seria a única forma de me preservar.”
 
“Vejo milhões de seres humanos como grupos de moléculas que se agregam e desagregam. Um universo como um brinquedo louco, sem inteligência nem consciência. Um mecanismo que bate as horas por acaso. Sem alma, vazio, caótico.”
“Um brinquedo nas mãos de uma criança acéfala que solta um riso louco. Uma criança que também não é, ela própria, mais do que outro brinquedo num turbilhão de existência.”
“Sinto-me impotente, incapaz de fazer a minha própria vida. Incapaz de encontrar a minha companheira, incapaz de parar a minha descida para a decadência, incapaz de viajar pelas estrelas, incapaz de ser o que a minha vontade clama, incapaz de ir até onde a minha vista alcança, incapaz de fluir livre pelo universo, incapaz de saber onde estou e o que sou, incapaz de parar a morte.”
“E até incapaz de ser feliz... talvez por ser incapaz de tudo o resto.”
...
“Agora, na depressão, olho para os meus progressos na investigação do mecanismo do pensamento através da Inteligência Artificial e parecem-me rabiscos de criança. E parece-me tola a minha ilusão de que poderia vir a descobri-lo.”
...
Atlan lembrou-se de Sofia, que nunca compreendera muito bem o que ele sentia, e escreveu:
 
“Compreendes agora o que quero dizer com a minha depressão?”
...
 “...E esta sensação de perda. Sentir sempre o tempo a esvair-se, como a minha vida a escoar-se, na areia de um ampulheta...”




Os Negros Anos Luz
 
Outrora tudo correra bem para Atlan.
Depois, subitamente, tudo mudou.
A sua confiança foi abatida por sucessivas vagas de insucessos.
A sua forma de pensar: lógica, clara e probabilística foi ainda mais vulnerável do que se possuísse uma mente simples e desordenada.
Acreditara sempre que as ocorrências aleatórias, casuais, seguiam a lei das probabilidades.
Aí estava a sua vulnerabilidade mental.
Sempre pensara que, ao atirar uma moeda cem vezes ao ar, ela cairia aproximadamente cinquenta vezes para cada face.
Assim, quando caiu cem vezes “cara”, sentiu-se perdido.
claro que isto não se passou com uma moeda.
Passou-se com a sua vida!
 
Recapitulando: a sua confiança anterior funcionara assim:
em cada acção que realizava, havia uma percentagem de sucesso seguramente maior do que os cinquenta por cento de falha/sucesso. Atribuía essa vantagem às suas capacidades e qualidades e a uma certa sorte.
E assim tinha vivido toda a sua vida.
E mais, quando se tratava de algo muito importante, e se empenhava a fundo, geralmente conseguia-o. Mesmo que fosse alguma coisa muito difícil de atingir.
Isto fortalecia a sua confiança na sua capacidade de realização.
E era normal. Tudo era ainda perfeitamente normal e dentro de um universo probabilístico.
Os acontecimentos apenas dependiam das circunstâncias, mais ou menos casuais, do universo onde decorria o acontecimento, e dele próprio.
Não havia grandes mistérios.
Nada contrariava o seu espírito científico.
  A sua confiança evoluía num universo casual e probabilístico onde o sucesso das suas acções era determinado pelo seu empenho e capacidade face ao equilíbrio de acontecimentos favoráveis e desfavoráveis.
Enfim, tudo era compreensível e aceitável.
Assim, ele conseguia viver.
 
 
O pior foi quando a “moeda” lhe caiu cem vezes “cara”.
Ainda por cima, “cara” significava “desfavorável” para ele.
 
Assim começou.
E a sua confiança foi derrubada por cem vagas de luz negra.
 
 
Primeiro começou com o seu trabalho.
Não conseguia obter estabilidade económica.
Tinha tantas ideias, tantos negócios, mas nenhum deles frutificava como devia.
Pela primeira vez encontrara algo que não conseguia vencer.
Mas enfim, como no resto da sua vida, a percentagem de sucesso era ainda elevada, continuou...
Porém, quando o insucesso atingiu a parte amorosa tudo escureceu.
Foram os negros anos luz.
 
Antes, nunca tinha tido dificuldade em encontrar companheira.
Claro que nunca encontrara “a ideal”, mas tinha tido ligações bastante satisfatórias.
Agora não tinha nada.
Vagueava num deserto.
Um deserto de emoções, de sensações, de ausência de coisas partilhadas e queridas.
O “ostracismo” era uma palavra omnipresente nos seus pensamentos.
Chegou até esse deserto flutuando de relação menos, e cada vez menos, satisfatória.
Antes tudo tinha sido diferente.
Quantas vezes as paixões vieram ter consigo. Um olhar, um sorriso, um convite. A maior parte das vezes, ele não precisara de tomar qualquer iniciativa. As oportunidades vinham ter consigo. E ele escolhia, dentre elas, a que mais gostava. Sempre tinha vivido rodeado por pessoas que facilmente gostavam dele e se apaixonavam.
Nunca pensou que à “batalha económica” se seguiria a “batalha do amor”.
 
 
Agora, sem amor, as vagas dos negros anos luz cada vez mais o sepultavam no limbo da indiferença e da tristeza omnipresente.
Ainda atirou muitas vezes a “moeda” ao ar, mas as frustrações sucediam-se.
Agora, já ninguém olhava para ele.
Ou, pelo menos, era o que ele sentia, pois a sua confiança transformara-se em anti-confiança e a sua fé em fé no insucesso.       

 
 
………………………...…………………………..…………………….
À medida que Íris ia tomando conhecimento dessas suas fases de “baixa energia”, ou de desalento, admirava-se, ao mesmo tempo, com a persistência de Atlan em não desistir de concretizar o seu grande sonho.
Por vezes, após dois ou mais anos de profundo desespero, ele conseguia reiniciar uma nova “escalada” ou “abordagem” à transmutação e em cada uma delas parecia ascender a um ponto ainda mais alto do que os anteriores.
Hoje mostrar-lhe-ia mais algumas páginas do seu “diário” correspondentes ao registo da sua terceira abordagem à transmutação.
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O Diário de Atlan – 4
A  3ª Abordagem:   (1 ano e meio depois)
de  Dezembro  a Março: duração: 3 - 4 meses

Após ter estado mergulhado numa apatia depressiva, criei um novo negócio na área informática que começou a correr bem.  Isto melhorou o meu estado de ânimo e comecei a libertar-me da depressão.
 
Contratei uma colaboradora para me auxiliar no meu trabalho. Tornou-se uma agradável companhia diária e eu comecei a sentir-me de novo num estado de elevada energia que canalizei para tentar entrar, novamente, em processo de transmutação.
 
Não vou referir todos os fenómenos paranormais, pois muitos deles são comuns às abordagens anteriores.  Um dos primeiros foi o do sol. Mais uma vez, o sol parecia brilhar, sempre que a minha disposição o solicitava – com uma facilidade surpreendente.
As alterações atmosféricas sempre tinham estado relacionadas apenas com o sol,.
Um fim de tarde, eu e Lisa, a minha colaboradora, estávamos na costa a olhar para o mar.  O céu estava limpo, sem nuvens. Por qualquer motivo, talvez como experiência, eu desejei que surgissem relâmpagos.  Comentei   com  ela  o  meu  desejo. Continuamos a olhar para o mar. Subitamente, junto à linha do horizonte, começamos a ver os primeiros relâmpagos.
Em pouco tempo tinham surgido nuvens escuras vindas do horizonte e que, rapidamente se alastravam por todo o céu. Pouco depois, as trovoadas eram já muito fortes. Ficamos os dois um pouco assustados e resolvemos entrar no carro. Ao atravessarmos a cidade começou a chover fortemente.  Eu tinha um cliente para visitar em Felgueiras, a cerca de 60Km da cidade do Porto e, para me afastar da cidade e  do temporal que aparentemente causara, resolvemos dirigir-nos para lá de imediato.
 
Nessa noite dormi, pelo menos seis ou sete horas, o que já não fazia há algum tempo.  Acordei sentindo-me cheio de energia. Dirigi-me à janela; lá fora continuava a chover.  Desejei que fizesse sol, muito sol. Fiquei em frente à janela aberta fazendo aquilo que, parecia ser uma respiração em uníssono com o céu, como se estivesse a puxar o sol e a soprar para longe as nuvens escuras. Só ao fim de quinze minutos os raios de sol começaram a irromper timidamente por entre as nuvens.  Continuei e, ao fim de meia hora, o céu estava limpo, azul, sem nuvens, e o sol brilhava intensamente.
 
Devo referir que, nestas fases, por vezes, o meu estado de espírito era muito susceptível. Quando contrariado por algo que considerava absurdo, enfurecia-me facilmente. Após uma desavença com algumas pessoas, fiquei indignado e desejei que trovejasse, que chovesse, etc.
Choveu e trovejou intensa e continuamente, durante três dias consecutivos. Ao fim desse tempo apercebi-me pelas notícias da rádio e da televisão que o mau tempo ameaçava atingir características catastróficas: a barragem de Crestuma estava em risco de rebentar e havia vários animais e gado mortos pelas cheias no Ribatejo. A morte destes animais inocentes enterneceu-me e senti que eu poderia ser responsável pelo que estava a acontecer. Recordo-me que ouvi estas notícias quando cheguei, já tarde, ao hotel; deveriam ser umas cinco horas da manhã. Desejei, de uma forma natural, que todo esse temporal terminasse e que voltasse a fazer bom tempo; em seguida deitei-me e dormi. Quando acordei, quatro horas depois, estava um sol radioso e um céu azul e eu estava calmo e com uma sensação de paz. Liguei o rádio e ouvi as notícias. O tempo melhorara por todo o país, o nível do rio baixara e já não havia o perigo de a barragem rebentar. As notícias referiam que o estado do tempo começara a melhorar rapidamente a partir das 5 horas da manhã.

Nos restantes eventos que ocorreram, o meu estado psicológico desviou-se cada vez mais da normalidade. O choque e o atrito do mundo com a minha realidade interior era grande e eu não estava a conseguir controlar, com bom senso, a elevada energia que pulsava dentro de mim. Também a minha velocidade interior e exterior eram muito grandes e desfasadas com a movimentação lenta dos outros e da sociedade em que vivia inserido. Tudo isso travava-me e enervava-me fazendo-me progressivamente perder o controlo...

 
 
………………………………..…...…………………………………….
– O meu grande problema, Íris, são estes longos períodos de desalento que se sucedem à queda de um desses estado de elevada energia – desabafava Atlan – estes longos períodos são em tudo muito semelhantes a uma depressão psicológica. As causas são outras mas a sintomatologia é idêntica. Ao “olhar nu” de um psicólogo menos atento toda esta minha problemática não passaria de um vulgar “transtorno bipolar”, um desequilíbrio químico no meu metabolismo, algo que altera a produção dos neurotransmissores que actuam entre as sinapses cerebrais produzindo assim uma tendência para eu oscilar entre fases de euforia e confiança e fases de desânimo e depressão. Sim, suponho que possuo em mim alguma tendência para esse desequilíbrio, sim… o que agrava a minha situação. Mas também não me parece que possa encarar-se toda a minha problemática apenas por esse ângulo. Seria procurar encontrar uma explicação demasiado simplista. No entanto, essa tendência psíquica para o desequilíbrio é aniquilante quando me arrasta para os abismos do desânimo e da depressão. Aí passo a ser eu o principal adversário e atrofiador de mim mesmo, para além de todas e quaisquer adversidades inerentes ao meu percurso.
Realmente, pensava Íris, essa personalidade triste e apagada em que mergulhava parecia nada ter a ver com aquele Atlan brilhante e entusiasta, transbordante de energia e poder que conhecera em Montserrat, nas Filipinas, durante aquela feroz erupção vulcânica.
Parecia que a sua anterior capacidade para actuar na realidade moldando-a aos seus desejos se invertia; e que esta se transformava em algo que se lhe opunha e o contrariava, abafando-o numa demolidora asfixia...
……………………………………..………...………………………….

 
 
Asfixia
            O computador não arrancava.
            Desligou-o e voltou a ligá-lo.
Nada.
Agora o écran do monitor nem dava sinal de vida.
Insistiu mais duas vezes.
O mesmo resultado.
Ia insistir mais uma vez, mas pensou que, naquele momento, de nada iria adiantar.
Não era a primeira vez que uma coisa daquelas lhe acontecia. Na verdade, aquele tipo de ocorrências era frequente.
 – Bem, tentarei mais logo – disse com um suspiro.
Tinha de ir à vila e portanto enfiou-se no carro e arrancou.
Ligou o rádio do carro. Apetecia-lhe ouvir música, para espairecer...
O rádio começou a tocar e depois desligou.
“Oh, não!” pensou Atlan. “Terá avariado?”
Deu-lhe uma pancadinha e o aparelho soltou algumas notas musicais. A seguir calou-se de novo.
Encostou o carro à berma da estrada. Retirou o painel destacável e voltou a introduzi-lo.
“Talvez seja mau contacto”, pensou.
Nada.
“Bom, desisto”, e arrancou de novo.
Havia dias em que nada funcionava direito, em que tudo avariava.
“Isso não era o pior”, pensou Atlan.
O pior, para Atlan, era o que acontecia no plano afectivo e profissional: o mesmo tipo de bloqueios.
“Lamentamos informá-lo  que o seu livro não se insere nas nossas linhas editoriais...”, recordou-se.
O pior não era isso. O pior era quando se deixava dominar por uma sensação de asfixia e entrava em pânico – tinha reais dificuldades em respirar.
 
Estacionou o carro no parque do supermercado e saiu pensativo na mensagem que lera, essa manhã, no telemóvel:
“Afinal não vou poder estar contigo no teu aniversário.”
Enfim, era apenas mais uma desilusão, no meio de tantas outras.
Provavelmente, passaria o seu dia de anos sozinho. Como sempre.
 
Enquanto fazia as compras mecanicamente viu uma cara bonita. Olhou-a com simpatia. Ela atirou-lhe uma cara de susto, como se tivesse acabado de ver o personagem do “Alien”.
“Porque é que, ainda há poucos anos, tudo era tão diferente?!...” interrogava-se e voltava a interrogar-se Atlan.
 
Quando chegou a casa, entrou no seu quarto e ligou a aparelhagem musical. Sintonizou-a na sua emissora preferida.
Estava a tocar Sade Adu. O seu último trabalho, “Sade lovers rock”.
Atlan adorava aquela música.
“Nem tudo é mau, afinal”, pensou.
O aparelho fez um “pfff...” e a emissora calou-se.
“Ter-se-á dessintonizado?”, pensou. Desligou e voltou a ligar o aparelho.
Voltou  a premir o botão que sintonizava a XFM.
Nada.
 
...
 
Da mente de Atlan soltavam-se espirais confusas.
“Será a minha própria força que me faz estas coisas? Que me cria todos estes bloqueios? Ou será que é o mundo que me cospe anticorpos porque me toma por um corpo estranho?”
“Será que estou a utilizar o meu próprio poder contra mim?... e porquê?”
“Será que não estou a gerir bem os meus recursos?”
“Será que tenho uma força maior do que suponho , tão grande que consegue bloquear completamente a minha vida, e isolar-me numa esfera de aço onde mirro aprisionado?”
“O que é que se passa?”
 
...
 
Quando passou por casa de Carlos ele disse-lhe:
– Passa por aqui mais logo para irmos tomar um copo.
Atlan recordou o género de locais mundanos onde Carlos gostava de tomar um copo e começou a dizer:
– Carlos, não posso porque o mundo está fech...
Reflectiu melhor e não terminou a frase.
Como poderia explicar-lhe que o mundo estava fechado para ele? E que só iria sentir-se pior ao sair com ele e ver tantas caras lindas que lhe estavam vedadas?
Atlan sentia que quase tudo lhe estava vedado naquele mundo. Por isso optou por dizer simplesmente:
 – Carlos, hoje não posso. Hoje não posso sair contigo.
 
E rumou para casa com o olhar desfocado no infinito.

 

………………..…………………………………………………………….
Por vezes Atlan mergulhava na antítese do seu poder.
Por vezes Atlan mergulhava num anti-poder.
 
Fechava-se, então, como uma ostra, tão dentro de si...
…que sentia todos os outros, todo o mundo, fechar-se também para ele, negando-lhe toda a participação, convívio, afecto, amizade e amor. Sentia que o mundo o ostracisava! 
Era a solidão máxima. Caminhava só, num mundo que o ignorava.
 
O que entretanto mais o surpreendia era que ninguém estava interessado na Vida! Na verdadeira Vida! Todos se contentavam com esta pseudo-morte que todos vivemos com fim anunciado.
‘Transmutação do Homem’? ‘Verdadeira Vida’? ...linguagens que ninguém compreendia.
Neste mundo da morte, desejar a vida parecia um pecado, ou até uma heresia, demasiadamente impensável.
 
E o isolamento entre ele e todos os outros tornava-se insuportável.
Até que o suplício atingiu o paroxismo e Atlan, num gesto samsónico de revolta, arrancou do seu próprio ser, que era a única coisa que ainda possuía, a força suficiente para quebrar todo aquele estado angustiante.
 
Afinal o Transmutalismo era também isso: transmutar uma situação desoladora em algo belo. Iria fazê-lo, pelo menos para já, através das formas que lhe fossem mais acessíveis. E uma dessas formas seria a Arte.
 
Sim, prosseguiria a Saga da sua luta pela Transmutação.
E sim, voltaria a pintar, e a consolidar a expressão (pelo menos a artística) de uma nova forma de enfrentar a vida.
………………………………………..…………………………………….

 
Atlan e a Meta-Arte
 
No refúgio lusco-fusco do seu pálido atelier, Atlan decidiu recomeçar a pintar.
Vislumbrava finalmente uma luz ao fundo do túnel.
Enquanto olhava o sol poente, com uma perna encavalitada sobre o parapeito da janela, decidiu que contra tudo e todos iria continuar a sua pesquisa.
Até hoje ninguém compreendera a sua Arte. Nem mesmo os especialistas. Ou muito menos esses.
“Tal como a Relatividade...”, pensou, “...Einstein disse que as crianças eram as que melhor o compreendiam. Porque não estavam atafulhadas de ideias preconcebidas...”
Era duro e difícil caminhar, assim, num mundo. Contra a maré.
Mas, agora, ele acreditava em si próprio.
Acreditava na inovação do seu trabalho.  E isso era o mais importante!... e também porque a Arte era o seu modo de desenvolver a MetaConsciência. E a sua comunhão com a Linguagem Aleatória Existencial...
Libertara-se de vez das dúvidas impostas pelos comentários dos críticos de arte e pelas exposições quase sem vendas.
“Quando se acredita numa coisa é preciso ir até ao fim, mesmo que ninguém nos compreenda”, reflectiu.
Afinal, os comentários e críticas que lhe tinham feito algumas das “autoridades” do mundo da arte, não faziam sentido, e só demonstravam como não tinham alcançado os significados profundos da sua obra: nem os aspectos técnicos, plásticos, nem tão pouco os fundamentos teóricos.
Alguns até o tinham confundido com os surrealistas! E opinaram que o que ele estava a fazer “estava ultrapassado”, pertencia “ao passado”!...
Quando era precisamente o contrário...
A Meta-Arte nunca havia existido.
Pertencia ao Futuro.
Então Atlan ergueu um cálice de Porto e brindou:
“Ao futuro do Impossível Próximo…”
 
 
Fim do 1º Volume
 

 
No 2º Volume…
 
…………………………………………………………………………..
Atlan constata duas realidades: a do ser humano e a do meio que o envolve:
A da fragilidade do ser humano efémero, escravo das vicissitudes da vida, à mercê dos elementos, das circunstâncias mais ou menos desfavoráveis da vida, à mercê da vilania dos outros seres humanos, e condicionado pelo espaço e pelo tempo que não controla, principalmente este último. Ser efémero escravo da morte.
E a dura realidade do meio que envolve o ser humano e que o aprisiona nas leis do espaço e do Tempo e de todas as limitações inierentes que o condicionam.
Atlan não pode aceitar nem uma nem outra. Tanto a realidade da fragilidade e efemeridade da sua natureza de humano como a opressora realidade em que vivemos são inaceitáveis.
Viver com essas duas realidades arrastara-o pela depressão dos longos Anos Negros.
Finalmente, vê através da arte , principalmente através da sua pintura, uma forma de começar a idealizar a transmutação dessas duas realidades transcendendo-as. A frágil condição de ser humano transmuta-se na de um ser desprovido de limitações e a castradora e sofrida realidade é transmutada na sua  pintura por uma realidade ao serviço do novo ser humano transmutado.
A arte foi assim o seu ponto de partida. A realidade opressora não poderia pura e simplesmente ser aceite. Terá de ser transmutada numa realidade mais bela e cujos horizontes são mais promissores. A realidade sofrida, castrante, escravizante e opressora não é mais pintada sem que seja pintada também a sua transmutação na nova e bela realidade ao serviço do homem transmutado e transmutador. A sua arte reflecte e representa a transmutação do homem num deus. A condição humana é rejeitada para se converter na espécie divina do novo homem. E as leis da natureza e do espaço-tempo são alteradas pela consciência deste novo ser que deixa de ser um simples escravo à mercê dos elementos para se tornar o criador-recriador da própria realidade. E com tudo isto Atlan cria uma nova corrente artística: o Transmutalismo.
E é através do transmutalismo que Atlan começa a dobrar a penosa realidade ao invés de a aceitar e de a ela se adaptar.
 
Entretanto, com Íris encontra a cumplicidade e a sinergia impulsionadora resultante do encontro e da colaboração de uma alma-gémea.
Organiza com ela um expedição de barco para analisar o ser vivo que possui, provavelmente, a maior longevidade na Terra, o Pogonóforo.
Durante essa expedição debate com Íris o tema da possibilidade da imortalidade física.
 
Íris toma conhecimento da quarta abordagem de Atlan à transmutação através da leitura do seu diário. E encontra nela mais manifestações de poderes desconhecidos e percepções extrasensoriais. Íris apercebe-se também de que, Atlan, no estado mental que experiencia durante estas abordagens se torna num autêntico viajante por realidades alternativas que se encontram misturadas na própria realidade em que vivemos…
 
Entretanto, entre Íris e Atlan reuniu-se um pequeno grupo de amigos fascinados com a ideia da transmutação: Aleator, Tália…
 
Íris sente a necessidade de desenvolver a sua ideia de que será essencial enunciar uma espécie de “Princípio da Certeza” para despoletar em nós a “fé” necessária à realização de actos paranormais e outras acções consideradas impossíveis pelo pensamento quotidiano. Retira-se da cidade e embrenha-se na solidão inspiradora da floresta para descobri-lo…
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Totalmente Rebeldes

– Um Grito de Liberdade



            Sempre fui um rebelde.
            Toda a vida me disseram para ser como os outros.
            Mas nunca acatei o tempo nem a morte.
            Nunca gostei de mexer o café no sentido dos ponteiros do relógio. Gosto de o mexer no sentido contrário. Ao do tempo.

            Sei que pareço nadar contra a corrente..
            Mas não existirão mais realidades como eu?
– que não queiram sujeitar-se aos mecanismos da existência?
 
Se, pelo menos, há o direito a ser diferente, porque não terei eu o direito a recusar o domínio do meio sobre mim?
Não existirão outros como eu, dispersos, por esse mundo fora?...
– Totalmente Rebeldes?...
(Ou; não  o seremos todos um pouco?)
 
Tudo nos parece dizer que na natureza tudo perece, tudo morre, tudo envelhece, tudo definha, tudo tem os seus limites, tudo está sujeito a um poder maior, as coisas são apenas o que são...
– eu quero ser tudo!
 
 
Mesmo as doutrinas mais profundas e elevadas, subrepticiamente, nos aconselham a aceitar os mecanismos da existência; falam-nos de infinito mas continuam a reduzir-nos à sujeição. À insignificância da sujeição aos elementos.
Falam-nos de paranormal e das nossas imensas capacidades, mas dizem-nos que há certas fronteiras e limites... ...e quanto ao que toca à transmutação – a quebrar, a furar as leis que nos regem a nós e aos outros seres vivos... faz-se silêncio! É tabu! É heresia! É falta de humildade, é ambição,...,é loucura!
 
Há sempre um acarneirar... há sempre fronteiras.
E eu não aceito fronteiras, quaisquer fronteiras!
Nem limites, nem sujeições.
Haverá outros “loucos” como eu?
 
Terá de haver sempre um “mestre”?
Não podemos, nunca, deixar de acarneirar?
 
 
É apenas isso que eu sou:
– um grito.
Apenas um grito.
            De revolta e liberdade!
Pelo direito de ser,
“o que me der na gana”!
 
Atlan,
Eus Kad i, Outubro 2000
 
 
 
E um dia sorriremos sempre
.........
Quando caminharmos, levitaremos
.........
E jorrará luz dos nossos olhos
.........
F. Alan Wolf, “Spacetime and Beyond”
 
 
  
 
 
E todos os tempos se encontrarão num mesmo tempo
|
E todos os espaços num mesmo espaço
|
E não haverá mais dor
|
Nem necessidade
|
da morte.
|
 
                        Atlan


Este livro é:


um Holograma



uma história Quântica



uma Estrutura Complexa
Interligada



um texto Holístico



um
Buraco Negro–Buraco Branco



um Anel de Möbius


um Atractor Caótico



e uma
composição Transmórfica
 
IGNIUS
 
O  Livro  da  Transmutação
 
(Síntese)
VOL. 2
 
…………………………………………………………………………..
Atlan constatara duas realidades: a do ser humano e a do meio que o envolve:
A da fragilidade do ser humano efémero, escravo das vicissitudes da vida, à mercê dos elementos, das circunstâncias mais ou menos desfavoráveis da vida, à mercê da vilania dos outros seres humanos, e condicionado pelo espaço e pelo tempo que não controla, principalmente este último. Ser efémero escravo da morte.
E a dura realidade do meio que envolve o ser humano e que o aprisiona nas leis do espaço e do Tempo e de todas as limitações inierentes que o condicionam.
Atlan não pode aceitar nem uma nem outra. Tanto a realidade da fragilidade e efemeridade da sua natureza de humano como a opressora realidade em que vivemos são inaceitáveis.
Viver com essas duas realidades arrastara-o pela depressão dos longos Anos Negros.
Finalmente, vê através da arte , principalmente através da sua pintura, uma forma de começar a idealizar a transmutação dessas duas realidades transcendendo-as. A frágil condição de ser humano transmuta-se na de um ser desprovido de limitações e a castradora e sofrida realidade é transmutada na sua  pintura por uma realidade ao serviço do novo ser humano transmutado.
A arte foi assim o seu ponto de partida. A realidade opressora não poderia pura e simplesmente ser aceite. Terá de ser transmutada numa realidade mais bela e cujos horizontes são mais promissores. A realidade sofrida, castrante, escravizante e opressora não é mais pintada sem que seja pintada também a sua transmutação na nova e bela realidade ao serviço do homem transmutado e transmutador. A sua arte reflecte e representa a transmutação do homem num deus. A condição humana é rejeitada para se converter na espécie divina do novo homem. E as leis da natureza e do espaço-tempo são alteradas pela consciência deste novo ser que deixa de ser um simples escravo à mercê dos elementos para se tornar o criador-recriador da própria realidade. E com tudo isto Atlan cria uma nova corrente artística: o Transmutalismo.
E é através do transmutalismo que Atlan começa a dobrar a penosa realidade ao invés de a aceitar e de a ela se adaptar.
 
Entretanto, com Íris encontra a cumplicidade e a sinergia impulsionadora resultante do encontro e da colaboração de uma alma-gémea.
Organiza com ela um expedição de barco para analisar o ser vivo que possui, provavelmente, a maior longevidade na Terra, o Pogonóforo.
Durante essa expedição debate com Íris o tema da possibilidade da imortalidade física.
 
Íris toma conhecimento da quarta abordagem de Atlan à transmutação através da leitura do seu diário. E encontra nela mais manifestações de poderes desconhecidos e percepções extrasensoriais. Íris apercebe-se também de que, Atlan, no estado mental que experiencia durante estas abordagens se torna num autêntico viajante por realidades alternativas que se encontram misturadas na própria realidade em que vivemos…
 
Entretanto, entre Íris e Atlan reuniu-se um pequeno grupo de amigos fascinados com a ideia da transmutação: Aleator, Tália…
 
Íris sente a necessidade de desenvolver a sua ideia de que será essencial enunciar uma espécie de “Princípio da Certeza” para despoletar em nós a “fé” necessária à realização de actos paranormais e outras acções consideradas impossíveis pelo pensamento quotidiano. Retira-se da cidade e embrenha-se na solidão inspiradora da floresta para descobri-lo…
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Atlan e a Meta-Arte
 
 
No refúgio lusco-fusco dos seu pálido atelier, Atlan decidiu continuar a pintar.
Vislumbrava finalmente uma luz ao fundo do túnel.
Enquanto olhava o sol poente, com uma perna encavalitada sobre o parapeito da janela, decidiu que contra tudo e todos iria continuar a sua pesquisa.
Até hoje ninguém compreendera a sua Arte. Nem mesmo os especialistas. Ou muito menos esses.
“Tal como a Relatividade...”, pensou, “...Einstein disse que as crianças eram as que melhor o compreendiam. Porque não estavam atafulhadas de ideias preconcebidas...”
Era duro e difícil caminhar, assim, num mundo. Contra a maré.
Mas, agora, ele acreditava em si próprio.
Acreditava na inovação do seu trabalho.
E isso era o mais importante!
...e também porque a Arte era o seu modo de desenvolver a MetaConsciência. E a sua comunhão com a Linguagem Aleatória Existencial...
Libertara-se de vez das dúvidas impostas pelos comentários dos críticos de arte e pelas exposições sem vendas.
“Quando se acredita numa coisa é preciso ir até ao fim, mesmo que ninguém nos compreenda”, reflectiu.
Afinal, todos os comentários e críticas que lhe tinham feito as “autoridades” do mundo da arte, não faziam sentido, e só demonstravam como eles não tinham alcançado os significados profundos da sua obra: nem os aspectos técnicos, plásticos, nem tão pouco os fundamentos teóricos.
Alguns até o tinham confundido com os surrealistas! E opinaram que o que ele estava a fazer “estava ultrapassado”, pertencia “ao passado”!...
Quando era precisamente o contrário...
A Meta-Arte nunca havia existido.
Pertencia ao Futuro.
“Ao futuro do Impossível Próximo”, cantarolou Atlan.
Até o tinham aconselhado a conviver mais com os “artistas contemporâneos” e a “visitar mais exposições para ver o que se passava nos padrões da estética”...
Como se ele já não o tivesse feito!
Eles, os honoráveis apreciadores, não compreenderam, ou não sabiam, o estudo profundo, quase sobre-humano, que ele realizara a toda a Arte, a todas as formas de Arte. E a tudo o que com a Arte se relacionava. Uma análise profunda e minuciosa através da História, e também na actualidade. Uma pesquisa muito para além dos estudos universitários...
Evidentemente que não desprezara uma longa digressão pelo que faziam os seus colegas contemporâneos...
E era para ele quase impossível não encontrar, em Arte, trabalhos que não apreciasse.
(e até havia, na arte contemporânea, algumas coisas que se aproveitavam)
Mas era uma arte que estava seca e decadente.
E, apesar de Atlan não ignorar o que ela tinha de belo, achava que a arte contemporânea só pertencia ao passado.
 
“Não, não iria vender a sua alma para fazer coisas semelhantes aos outros, aos “contemporâneos”, só porque isso agradaria mais às pessoas, que já estavam familiarizadas com esse tipo de arte, com essa estética comum e aceite pelos círculos sociais e artísticos...”
“As pessoas só sabiam apreciar uma nova forma de arte depois de esta ter sido digerida e “aceite” pela opinião das “autoridades”, cogitou Atlan.
“A não ser que se possuam bons padrinhos...”
Mas o comercialismo era algo que sempre fora incompatível com a pureza da sua alma.
Só lhe restava a ‘estrada de Van Gogh’...
O qual, apesar de ter sido um inovador e de ter pintado mais de oitocentos e quarenta quadros, nunca vendeu nenhum. E nunca foi reconhecido...
O seu reconhecimento post-mortem só serviu para engordar meia dúzia de “comerciantes de arte” que leiloaram as suas obras por milhões...
Van Gogh...
“Como é triste a história de um homem que não é reconhecido...”
“Como é triste a história de qualquer ‘Opera-dor’ que contribuiu com uma grande obra — com uma grande “Ópera” — para a humanidade, e que não recebeu qualquer reconhecimento em troca...”
“Mas não faz mal”, pensou.
“Quando se faz uma obra realmente válida, ela fica “registada” para sempre, como um contributo enriquecedor, na humanidade e no Todo.”
“Pelo menos é assim que sinto. Chego mesmo a pensar que, mesmo que um gigantesco incêndio devorasse todas as grandes obras de arte, elas perdurariam de algum modo. Tenho a firme sensação de que, ao realizarmos uma grande obra, impressionamos definitivamente o “tecido da existência”; engrandecemo-lo. E, de alguma forma, a obra fica aí registada.”
“Por isso, nunca é em vão!...”
“Mesmo para aqueles cujas fabulosas obras nunca chegaram a ser conhecidas e que acabaram por morrer em sótãos poeirentos...”
“Mesmo para esses...”
“Porque contribuíram com algo de belo... para a existência.”
“Se não estivéssemos tão mergulhados nesta sociedade capitalista e de consumo compulsivo, talvez nos apercebêssemos de que os verdadeiros valores estão nos verdadeiros actos e nas verdadeiras obras...”
Atlan achava que o que era realmente importante em alguém eram as suas obras e não o que ele dizia ou fazia crer — ou o seu “status”, ou a “autoridade”, ou a “projecção” que lhe davam os “média”.
Mas isso, era precisamente o contrário do que o “mundo” achava...
 
Deu duas voltas ao atelier.
Entretanto, lançou uma “vista de olhos” pelos seus quadros amontoados ou encostados às paredes.
 
Eram de várias épocas e os seus “estilos” pareciam ser todos diferentes uns dos outros...
Mas não eram.
“São apenas variações de uma mesma corrente artística desdobrada nos seus vários estilos de representação”, foi do que ele se apercebeu ao reparar que todos eles continham os mesmos fundamentos plásticos do transmutalismo.
“Então foi por isso que não consegui evitar aquela multiplicação de estilos...”
O que confundira os galeristas que, automaticamente, tinham afirmado: “nota-se que o artista ainda não se encontrou...”
“...que ainda não definiu o seu estilo...”
Claro que, uma coisa era ser um pintor preocupado em atingir um estilo único, inserido numa determinada corrente artística e, outra coisa completamente diferente, era ser um pintor a desenvolver uma corrente artística em si mesma.
A qual englobaria, certamente, diversos estilos...
“...assim como, por exemplo, nem todos os artistas da «corrente abstracta» pintaram ao estilo de Picasso.”
 
Mas uma ideia que lhe tinha surgido, ao passar os olhos pelos seus diferentes quadros, fora a de enunciar as características comuns a todos eles e que evidenciavam o que ele entendia como sendo a “corrente de arte transmutalista”.
“Que ideia preciosa!”, pensou Atlan entusiasmado.
“Como foi que nunca me ocorreu?”
Claro que já fizera algo um pouco semelhante de forma intuitiva e difusa, mas...
Fazer um estudo sistemático seria algo muito importante para a sua Arte.
Até mesmo para ele próprio a compreender melhor! Pensou enquanto começava a pegar nos quadros e a pendurá-los ao longo das paredes.
Precisava de obter uma visão de conjunto.
Mas foi aí que a campainha tocou interrompendo-lhe os pensamentos.
 
Era Tália.
A “misteriosa” Tália McFee.
— Tália!... há quanto tempo!...  As tuas raras visitas são sempre um bálsamo para o meu isolamento!
— Olá Atlan!... não são tão raras assim...
— Entra, entra. O que queres tomar?
— O que tens para oferecer?
— Bem, tenho sumo, Porto, chá, e... é tudo.
— Tomaria um Porto, Atlan, obrigada.
— Muito bem.
— Mmm... o teu atelier hoje parece uma galeria — disse Tália olhando, interessada, para as paredes forradas de quadros.
— Tinha acabado de os distribuir pelas paredes. É que estava a fazer uma coisa interessante. Talvez até me possas ajudar. Estava a fazer uma análise e um inventário das características transmutalistas comuns aos meus quadros.
— E tens aqui reunidas obras de todas as tuas fases, pelo que vejo...
— É precisamente isso: quero fazer uma análise extensiva a todas as minhas “épocas”. Quero “agarrar o pássaro”. Quero equacionar a minha arte.
— Excelente ideia. Apesar do teu ‘amor’ pela indefinição, por vezes é preciso definir um pouco... até para melhor compreenderes o que estás a criar.
— Exacto!... mas como é que eu não me lembrei de fazer isto antes?
— Talvez não fosse ainda a altura. Se definirmos qualquer coisa demasiado cedo corremos o risco de a atrofiar... Mmm, o teu Porto é mesmo bom!
— Como sei que és apreciadora, tinha aqui este “vintage” à tua espera...
— Wau, que honra!...
...
— E então Tália, por onde tens andado?
Tália era uma escultora. Muito invulgar.
Também ela pesquisava novas formas de esculpir...
— Por aí. Pelos “Infinitos”... — respondeu ela — ...na minha louca cavalgada pelo Impossível Próximo.
— Imagino, imagino... — sussurrou Atlan baixinho com o olhar vago no infinito.
 
Tália era tanto ou mais “alienígena” do que ele.
Era uma jovem desconcertante...
...quando mergulhava em alguma coisa, fazia-o tão profundamente até atingir o paroxismo. até sair pelo “outro lado”.
Tinha uma vontade firme como o aço. Não se deixava levar ou convencer pelas opiniões estabelecidas. Viessem elas de uma maioria ou de uma creditada minoria.
De facto, Tália nunca se deixara vergar pelo “establishment”.
Nem pelo academismo. Frequentara apenas os primeiros anos de dois cursos superiores e “devorara” rapidamente os seus conteúdos por sua própria iniciativa. Até ao fim.
E quando achou que já nada de importante tinha ali a aprender — e depois de ter levantado diversas questões às quais os seus professores não souberam responder — retirou-se.
Na verdade também estava farta do imbecilismo e das brincadeiras fúteis com que os outros estudantes queimavam o tempo.
E o “Tempo” era vital para ela, apesar de não acreditar na sua existência real. Ou talvez por isso mesmo.
Alguns sugeriram-lhe também que ela estava deslocada no tempo.
Mas Tália não se importava. Seguia o seu caminho. Em linha recta.
Além disso havia muitas outras áreas do conhecimento que lhe interessava aprofundar.
E principalmente porque, como todos os que formavam aquele pequeno grupo de amigos, havia nela um objectivo comum: a transmutação.
Ela bela, inteligente e encantadora. E, todavia, de uma enorme simplicidade. E nenhum convencimento.
Ela era Ela.
 
— Conta-me então sobre os resultados que obtiveste pela análise à tua arte... — pediu Tália.
— Bem... — disse Atlan pensativo e olhando para uma das paredes repleta de quadros — começo por vislumbrar três aspectos principais:
 
 
 
1.     Os que presidem à génese e motivação da obra
2.     Os que fazem parte do meio pessoal ou instrumento mental de execução utilizado
3.     Os que caracterizam os aspectos técnicos e físicos de execução da obra

 

 

1.  Elementos da génese

 

Os símbolos e mitos do transmutalismo - a linguagem aleatória Universal

 
Os símbolos do transmutalismo estão normalmente subjacentes na mente do artista nos momentos iniciais da execução da obra. Essa presença indelével é o suficiente para que, a meio ou no fim da pintura comecem a emergir formas, elementos ou um contexto geral, relacionado com a transmutação. Tanto assim que, o artista, não deve forçar, com o seu consciente, a aparição dessas formas. A utilização do consciente e do racional deve ser mínima.
 
Outro elemento que deve presidir à génese é uma clareza de espírito capaz de transparecer para a tela, através de pinceladas perfeitamente aleatórias, a linguagem existencial.  Entendo o aleatório não como sinónimo de acaso mas sim como a expressão quase indecifrável da existência. Uma linguagem multi-dimensional, caleidoscópica.
 
Na medida em que não é uma linguagem comum, deveremos considerar essa expressão da natureza como uma infra-linguagem ou como uma meta-linguagem?
 
Poderíamos tender a classificá-la de infra-linguagem já que, devido à nossa percepção e consciência limitadas, se assemelha a um “ruído” de fundo.  “Ruído” semelhante ao écran de uma televisão que não recebe sinal de nenhuma emissora. “Ruído” semelhante ao ruído de fundo do universo captado pelos radiotelescópios e que corresponde à recepção de todas as ondas electromagnéticas e partículas que nos chegam, vindas do espaço. “Ruído” também semelhante ao da configuração com que caem uma porção de pequenas folhas de chá lançadas à sorte e na qual alguns adivinhos chineses procuravam ver o futuro ou descortinar os tramites de alguma situação.
Tudo está interligado e qualquer uma dessas configurações acidentais é uma rosto, uma expressão do mega-corpo existencial, que  contém em si mil significados, mil interpretações. De um qualquer desses “ruídos” podemos fazer um número ilimitado de leituras. É isso que constitui o aspecto singular desta “linguagem” aleatória: é não determinista, é não limitada e não limitante. Possivelmente, se ampliássemos ou reduzíssemos  uma das nossas línguas humanas ao ponto de que cada texto, cada frase, cada palavra traduzisse ou pudesse traduzir uma imensidade de significados diferentes e possibilitasse assim uma “infinidade” de interpretações e leituras, essa língua redundaria em algo semelhante a um ruído aleatório – aparentemente casual e sem sentido para a nossa mente habituada ao unidimensionalismo e ao determinismo da definição. Cada palavra ampliar-se-ia até à enormidade para poder conter em si todas as palavras e os significados que lhe estão associados ou, então, reduzir-se-ia até pouco mais de um ponto para poder ser o menos definidora possível e, assim, castrar minimamente outros significados diferentes para essa mesma palavra – o que se assemelha bastante à multidão de “pontos” que constituem o ruído de fundo cósmico.
Isto é, não estamos habituados a lidar com sistemas multi-significantes. Num desses sistemas cada um dos seus elementos (palavras, objectos ou seres) conteria em si mesmo não só o próprio elemento ou significado mas também todos os outros elementos ou significados diferentes sob a forma de realidades menos “pesadas” ou menos prováveis. Mas igualmente possíveis, contingentes e coexistentes. Da não limitação. Para que cada coisa possa ser não-limitada ela necessita conter em si tudo aquilo que não é, tudo aquilo que é diferente de si. Necessita ser tudo. O que conduz de novo à ideia de completar o axioma matemático da identidade (A=A)  com A=A  Ù  A¹A.
Não só um elemento precisa conter em si todos os outros elementos, mas também todas as fases temporais de si próprio.
Não compreendo como é que o universo é dinâmico, e não estático, se assim não for.
E o que é esta omniexistência, esta omniontologia, esta multiplicidade – de um elemento ser, ao mesmo tempo, todos os [outros] elementos?
Na perspectiva da Física, sabemos actualmente, através da célebre equação E=mc2, que a matéria é energia convertida em massa e que, portanto, todos os elementos partilham uma forma, essência ou natureza comum – a de serem energia.
A energia tem uma natureza indefinida e é extremamente versátil. Uma forma de energia é passível de se transformar em qualquer outra: energia térmica em energia cinética, energia cinética em energia eléctrica, ou  magnética, e vice-versa.
A massa pode transformar-se em energia e a energia em massa, isto é, por trás dos elementos materiais há toda uma versatilidade e multiplicidade potencial.
A transmutação dos elementos passa por aí.
 
Depois de toda esta reflexão parece-me mais adequado classificar a linguagem aleatória existencial não como um ruído, não como uma infra-linguagem, mas sim como uma meta-linguagem pois ultrapassa o conceito de linguagem.
 
E, possivelmente, o transmutalismo não será própriamente arte. Talvez deva ser compreendido como fazendo parte de uma meta-arte.
 
A semântica do aleatório é a base da arte transmutalista.
É claro que quanto mais puro for esse ruído, isto é, quanto menor for a intervenção do consciente, mais puras e sublimes serão as formas plásticas resultantes...
Uma grande sensibilidade e um vazio interior devem estar presentes, no artista, durante o início da pintura, para permitir essa expressão aleatória. Deve ser a “consciência universal” a pintar por nós. Devemos deixar fluir os movimentos que vão impregnando o quadro de manchas e cores sem os filtrar por nenhum juízo consciente. O artista deve colocar-se mais na posição de parteiro da existência do que de artesão. Deve funcionar como um canal que ajuda a nascer, na tela, a perfeição da forma, da cor e da mensagem de que só o Absoluto é capaz. Mais tarde, a meio ou na parte final da execução da obra, descobriremos como essas formas aleatórias se enquadram fazendo emergir um sentido...
 
— Atlan, devo dizer-te que adorei a tua explanação — interveio finalmente Tália — mas, mesmo assim, não sei se atingi bem a essência do que é a linguagem aleatória da existência e de como a arte transmutalista pode tê-la como seu suporte e ponto de partida...
— É natural. O melhor será dar-te um pequeno exemplo prático. Toma faz aí meia dúzia de rabiscos — disse-lhe ele estendendo-lhe um papel e uma caneta.
— Rabiscos?
— Sim, completamente à sorte, sem pensar. Depois explico-te porquê.
Bastaram três ou quatro segundos para que a caneta que Tália deixou deslizar pela folha deixassem nelas alguns riscos casuais.
 
Em seguida, Atlan apenas começou a acentuar alguns dos traços...
 
E depois pareceu completar ligeiramente outros...
 
E após alguns minutos obteve o resultado que considerou suficiente para exemplo…
 
— Sim, agora compreendo melhor o que querias dizer com a Linguagem Aleatória... quem diria que, daqueles rabiscos, sairia uma imagem tão “inteligentemente” estruturada.
— É verdade, parece um ser marinho, semelhante a uma orca, a emergir das águas de um oceano revolto mas cheio de sol... Mas vou então prosseguir a minha análise com aquilo que me parece ser o segundo aspecto identificador do transmutalismo em arte:
 
O meio mental utilizado...
 
 

2.  O meio mental utilizado

 
A metaconsciência – estados não comuns de realidade – interpretação das formas aleatórias
 
A meio e na parte final da obra, o objectivo é permanecer num estado de espírito que, nos permita funcionar, fundamentalmente, com áreas mentais mais elevadas, as quais designo como MetaConsciência. Áreas, possivelmente, ainda embrionárias ou então atrofiadas que se situarão num nível oposto ao do inconsciente ao qual se atribuem os abismos da mente. Estas alturas da mente identificar-se-ão mais com a “consciência” da energia universal, com a região situada entre o estado humano e o divino, do que com os medos, dores e prazeres do nosso ego.
 
O nosso estado de consciência deve ser capaz de percepcionar e de exprimir elementos de estados não comuns de realidade.  Suponho que ocupando o mesmo espaço, da realidade que normalmente percepcionamos, encontram-se outras realidades (quase como cascas de cebola), que não conseguimos perceber no estado comum de consciência.  Devemos ser  flexíveis para nos podermos mover para além do nível comum de realidade e transportar para a tela as nossas impressões.  Por vezes, numa mesma obra, surgem-nos assim, diversos níveis de realidade, diversos espaços e diversas localizações temporais. As fronteiras da realidade e do espaço-tempo a que estamos habituados, desvanecem-se e as realidades surgem como um todo, desprovidas dos seus limites.
 
Um estado metaconsciente é essencial para interpretar, de forma consistente, as formas aleatórias que foram semeadas, na primeira fase e no meio da obra e completá-las ou dar-lhes uma expressão mais vincada, mais definida, mais inteligível.  Só este estado mental pode imprimir uma interpretação ascendente e não se prender, apenas, a interpretações arquetípicas ou fantasmáticas do inconsciente. Assim, quando a nossa interpretação faz surgir das manchas aleatórias, os monstros do nosso inconsciente ou, imagens que se prendem ao maniqueísmo do bem e do mal e à dualidade da nossa cultura, é para os inserir num contexto mais vasto e mais liberto das vicissitudes do nosso ego.
 

3.  Características técnicas e físicas

 
o movimento – transmutações da cor - pinceladas quânticas – vórtices de energia e movimento – deformações energéticas do espaço-tempo em redor dos centros de energia – deformação dos objectos – transmutações das formas e dos seres – formas metamórficas – representação frequente de estados de transição – a indefinição (formas e cores) – a indefinição dos limites das formas, do espaço e do tempo – espaços múltiplos / caleidoscópio de paisagens – fusão com o meio – os dois tipos de arquétipos
 
O movimento é omnipresente na pintura transmutalista. As pinceladas distribuem-se ao longo de linhas de força, as figuras e objectos sofrem alongamentos, os horizontes expandem-se e a cor movimenta-se em gradações.
 
As gradações exprimem a transmutação das cores que se movimentam, apresentando os tons intermédios, até se transformarem, por completo, noutras cores.
 
Em determinadas regiões da pintura, as pinceladas tornam-se quânticas, assemelhando-se ao movimento de partículas. Aí, a energia irradiada pela figura humana ou pelo objecto é grande e as manchas do pincel desprendem-se umas das outras seguindo o movimento causado pelos centros de energia.
Estes centros de energia são os vórtices de movimento. Qualquer ser que transaccione uma quantidade de energia acima do comum, como por exemplo um indivíduo em vias de transmutação, pode comportar-se com um vórtice. Porém, também um objecto impregnado de energia pode exigir uma representação semelhante.
 
Estes pólos de elevada energia provocam deformações no espaço-tempo em seu redor que, como um efeito de campo, são visíveis na distorção dos objectos ou seres abrangidos.
 
Existe uma tendência para representar as possibilidades da transmutação das formas e dos seres ou, pelo menos, o início desse processo que, também é, em si mesmo, uma forma de movimento.
 
Em toda a miríade de estados de ser que se movimentam em níveis de energia não comuns, os limites e as delimitações da forma esbatem-se e, os seres e objectos ultrapassam as fronteiras da rigidez, metamorfoseando-se.
Estas formas metamórficas de seres e objectos, por vezes animizados e por vezes humanizados surgem ao longo de toda a representação pictórica.
Contudo, a expressão artística predominante são os estados intermédios. Os estados de transição entre o ser humano comum e o ser  transmutado e, também, as transições entre as formas em geral e as cores.
 
A indefinição possui uma qualidade vital – a independência da rigidez das características da entidade que por a definirem, também a aprisionam e limitam a isso mesmo. A figura indefinida ou pouco definida é mais livre e pode, mais facilmente, transformar-se noutra coisa. A definição rígida é limitante e aprisiona os entes às suas características. O movimento ascendente geral, que conduz os seres à transmutação, leva-os a abdicar dos seus limites bem definidos e a mergulhar na indefinição antes de evoluir para outras formas.
A indefinição traduz, na pintura transmutalista, a libertação da prisão ontológica e da prisão do espaço-tempo, prisões estas, que no fundo, se situam na mente dos seres. Uma forma indefinida, uma idade indefinida, uma cor indefinida. Isto é, a independência em relação ao tipo de ser, em relação ao tempo, em relação  ao espaço.
A cor e a forma surgem muitas vezes indefinidas mas, esta indefinição dilata-se, também, aos próprios limites do espaço e do tempo.
 
As figuras centrais enquadram-se, com frequência, não em um espaço, um horizonte, mas sim em vários horizontes e perspectivas. Estes espaços múltiplos em que se situam os seres são, por vezes, os espaços subjectivos da mente nos quais vivem. Quando estamos situados numa determinada paisagem, o espaço que subjectivamente nos envolve não é, apenas, esse espaço, essa paisagem, mas todas as projecções, todos os panoramas, aos quais associamos essa vivência. O enquadramento das figuras torna-se assim um caleidoscópio de horizontes, de paisagens.
 
Por vezes, a ausência de delimitação das formas significa uma fusão do ser ou do objecto com o meio envolvente. A figura está embebida na atmosfera da qual faz parte.

 

É necessária alguma sensibilidade para detectar e posteriormente realçar as formas arquetípicas que surgem, por vezes, das pinceladas e manchas mais ou menos aleatórias.

Descubro, geralmente, dois tipos destas imagens:

1) as figuras mais comuns que identifico com os arquétipos gerais do nosso subconsciente ou com estereótipos da nossa vida corrente;

2) outro tipo de figuras que não consigo encaixar nessa categoria mas que, contudo, possuem um perfil ou estilo arquetípico.

Esta segunda classe  de imagens não é tão evidente mas, não deixa de transmitir uma sensação algo familiar como a dos arquétipos mais comuns e parece reportar a uma realidade ou a uma vivência menos conhecida pertencente a planos existenciais mais elevados e vividos com muito menor frequência. Algumas destas formas recordam-me, por exemplo, figuras evocadas nas visões celestes do místico E. Swedenborg ou dos iogues hindus.
 

 

Como observar uma pintura transmutalista


Uma qualquer coisa é igual e diferente de si própria - Várias imagens numa só imagem - A atitude de um vidente perante o aleatório - A diferença relativamente aos criptogramas

            Segundo a minha opinião sobre a incompletude dos axiomas que estão na base da matemática, uma coisa não só é igual a si mas também diferente. Isto é, contém em si própria todas as suas diferenças:
            “A” é igual a ”A”   e   “A” é diferente de “A”.
O axioma está assim completo e permite explicar que as coisas se transformem e transmutem noutras.
 
            Em algumas das imagens que surgem na pintura transmutalista estão “entrelaçadas” outras imagens. Uma só imagem contém, ou é, várias imagens diferentes. Normalmente, uma dessas imagens é dominante e é aquela que sobressai ou é inicialmente percepcionada. Mas, se nos deixarmos levar pela imaginação, adoptando uma atitude de contemplação flexível vemo-la transformar em outras imagens. Muitas vezes, essas outras imagens aparecem também enquadradas em diferentes perspectivas espaciais ou temporais e o quadro desdobra-se em vários planos, em várias histórias, em várias visões de conjunto. O descascar da realidade noutras realidades relacionadas.
 
            A melhor atitude a adoptar perante algumas destas pinturas (aquelas que possuem maior dose de transmutalismo) é a atitude de um vidente ou adivinho perante a linguagem aparentemente indecifrável e casual do desconhecido e da natureza. Isto é o que sempre fizeram os videntes de muitos povos e de muitas eras quando procuravam ver o futuro ou os meandros de uma situação nas entranhas de um animal, nos pedacinhos de folhas de chá dispostos “ao acaso”, nas cartas, nos fragmentos de ossos, na disposição casual de pequenos búzios lançados sobre uma superfície, etc. O meio utilizado não importa desde que traduza a linguagem aleatória da natureza.
            Talvez que perante a pintura transmutalista, o observador tenha a visão facilitada e não necessite de grandes capacidades de vidência, já que, as imagens estão parcialmente definidas e interpretadas  pelo artista que as ajudou a nascer na tela, a partir das iniciais e aleatórias pinceladas e fragmentos de luz, cor e forma.
De qualquer modo o observador só terá vantagens em não se deixar prender pela primeira interpretação e se deixar voar para se poder aperceber de outras imagens acopladas, tangenciais ou derivantes que, por vezes, existem numa mesma imagem. Descobri que, em alguns quadros, existe, por exemplo, uma imagem que se transforma ou transmuta na mesma figura mas em diferentes fases do tempo e que, por vezes, é um conjunto de figuras a fazê-lo desdobrando o quadro em vários quadros ou panoramas diferentes com diferentes conteúdos ou fases temporais. É o que acontece com o quadro “Batalha púrpura” em que cada cavaleiro ou cavalo, dependendo da profundidade com que são visualizados, assume várias posições diferentes relativas a diferentes fases do combate. A visão de conjunto desdobra-se também em fases diferentes da batalha. Para além disso, uma diferente profundidade visual, permite que nos apercebamos, que determinadas figuras, transportam em si outras possibilidades a que correspondem diferentes imagens que talvez não sejam, propriamente, desdobramentos temporais da mesma figura mas antes potencialidades paralelas da mesma entidade; por exemplo, ainda no mesmo quadro, na parte superior esquerda existe a forma, mais preponderante, de um cavaleiro com elmo e com corpo completamente humano que luta aguerridamente mas que, visto através de outra perspectiva é uma espécie de anjo, não humano, de asas douradas que não luta mas irradia energia.
Os conteúdos de algumas imagens (que são aquelas que mais aprecio por serem as que possuem maior percentagem de transmutalismo) surgem assim como imagens de diferentes níveis de visualização de um holograma.

Esta é a grande diferença em relação, por exemplo, aos criptogramas: estes necessitam do esforço visual para os focar num outro nível para ver, afinal, uma só imagem.
A outra diferença é que aqui, a focagem deve ser mais realizada com a mente e a consciência do que com a nossa visão.


—...Bem, e por agora penso que será o bastante para que o Transmutalismo seja aceite e reconhecido como uma nova corrente artística — concluiu Atlan.
— A ser assim... seria algo completamente inédito em Portugal — disse Tália pensativa — já que nunca aqui surgiu uma nova corrente em arte. E, de resto, contam-se pelos dedos aquelas que surgiram em todo o mundo, ao longo de todo o tempo...

Como sempre, ele e Tália tinham-se perdido no tempo.
E era já de madrugada quando ela, por fim, deixou o atelier do insólito artista...

 
…………………………………………………………………...………….
Íris estava convencida de que esta atitude de Atlan, de procurar transmutar  através da sua pintura, contribuíra para a sua entrada numa nova fase mais próxima do seu ideal.
Entretanto, estreitaram-se os laços de amizade entre ela e Atlan e também entre a escultora Tália McFee e Aleator. Surgiu entre eles o sentimento de que este grupo pequeno, mas forte e coeso, fora uma das melhores coisas que lhes sucedera nas suas vidas. Todos partilhávamos o mesmo objectivo e sentiam-se como elementos de uma mesma família no seio deste mundo estranho.
Agora não eram apenas um ou outro indivíduo isolados num mundo que não acreditava na possibilidade de realizarem os seus sonhos. Eram um grupo de colaboradores e amigos. Começaram a designar-se a eles próprios por “Akins”, inspirados na palavra inglesa que significa “irmãos de sangue”.
Esta união dava-lhes uma força tremenda, era uma intensa sinergia.
Os extremos tocavam-se... e assim como a primeira fase – o Nascente – parecia ter representado a desagregação da divindade  inicial em múltiplos seres e no “nascimento” do Homem, a terceira fase – o Poente – iria representar a reunificação e o renascimento da divindade...
...ou, talvez mais propriamente, o nascimento de várias divindades.
No fundo, talvez o objectivo da Existência fosse mesmo esse: a multiplicação ou reprodução da divindade inicial em várias divindades semelhantes entre si...
...isto é, nós mesmos: transmutados em seres à imagem e semelhança de... ”deuses”.
………………………………………………………...………………….
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Nunca houve um tempo que Eu não tenha existido, nem tu, nem todos esses reis; nem no futuro nenhum de nós deixará de existir...”     

Diálogo entre Krishna e Arjuna,
antigo texto Veda “Bhagavad-gitä”
FASE  III
POente
 
 
 
Descobrirei quem sou
para além daquilo que sou
...e me conheço.
Serei o nada para ser o infinito.
E coexistirei num total
 intemporal e ilimitado
no espaço.
Serei uma substância simples.
 
Já o sou,
 mas então sabê-lo-ei.


O Diário de Atlan – 6

 
 
Condições  e  fases essenciais  para  a  transmutação
     
Com base em toda a investigação e experiências que realizei penso poder distinguir certas condições e fases essenciais no percurso orientado para a transmutação pessoal:
 
Antes que tudo deverá existir uma intenção, uma volição ou, talvez melhor, um intento subjacente de realizar a transmutação. Este intento, mesmo que diluído ao longo de fases posteriores é determinante na impressão de uma direcção e de um sentido nos movimentos interiores do indivíduo. É criada assim uma dinâmica orientada para a abolição ou eliminação dos limites do ser. Passa a existir uma dinâmica do ser para a transmutação de si próprio noutro tipo de ser (que  aboliu os seus limites). [A transmutação incorpora uma alternativa à morte como o fim a atingir].
A natureza do ser passa, assim, de rígida a plástica. E a dinâmica desencadeada pelo intento realiza na natureza plástica do ser uma série de alongamentos, deformações e diluições conducentes à sua completa transformação.
 
A segunda fase é uma fase de limpeza. É necessário limpar tudo o que aprendemos e em que acreditamos. Cada crença impede outras crenças [A crença de que somos criaturas terrestres castra-nos a crença de que podemos voar. A crença de que apenas os objectos mais leves que o ar podiam voar impediu, no passado, a crença de que aviões mais pesados que o ar pudessem fazê-lo]. Por outras palavras: as crenças são as maiores fomentadoras das dúvidas. As dúvidas são o principal impeditivo à realização das nossas potencialidades paranormais.
[...]
 
Síntese:
 
0. Condição inicial: O intento para se transmutar.
 
1. Limpar a fuligem que encobre a nossa essência ou natureza luminosa. Isto é, desaprender todo o conhecimento imbuído de conceitos de impossíveis e da “consciência” dos nossos limites.
 
2. Entrar num estado de relaxe mental e atenuação da actividade consciente principalmente do raciocínio e da dúvida.
 
3. Dissolver o nosso eu e viver em fusão com o todo. Adquirir fluidez. Tomada de consciência de tipo universal: de nós como partículas integradas no todo. O indivíduo e o todo são um e devem viver em uníssono.
Atenuam-se o egocentrismo e o egoísmo e em contrapartida desenvolvem-se o heliocentrismo e a oblatividade.
 ·A prática da meditação transcendental, da contemplação e da livre dança ou expressão corporal poderão intensificar a dissolução do eu e a obtenção de espaço vazio interior que se prestará a albergar energia.
 
4. A ausência / atenuação de   · diálogo interior
                                               · de pensamentos vincados
                                    · do conflito interno        
· da dúvida (habitante quase  omnipresente do       mundo dos  pensamentos)
e            · a atitude de desprendimento adquirida nas fases anteriores criaram (ou esvaziaram) um espaço interior [onde anteriormente não havia espaço]. Esta foi a condição que permitiu que esse espaço comece, automaticamente, a ser preenchido por toda a energia anteriormente dissipada pelos pensamentos, conflito e diálogo interno.
 
5. Essa libertação das correntes da dúvida e da cápsula apertada do nosso eu proporcionam-nos Alegria que catalisa mais Energia [suponho que a Alegria é o maior catalisador de Energia interior].
6. Acções paranormais e percepções extrasensoriais ocorrem espontaneamente.
 
7. Aumenta a Alegria e a autoconfiança que geram mais Energia.
 
8. Podem ser usados vários processos para acumulação de
    Energia:
- Estimulação da Kundalini
- Meditação Transcendental
- Contemplação                                 
- Fusão com o Todo
- Anulação do Ego              
- Absorção da energia solar
- Alinhamento da informação mental       
- Alegria causada pelo Amor
- Expressão Corporal e exercitação física   
- ‘Imaginação actuante’
- ‘Não-fazeres’ diários
- Estado de indiferença ou abandono
9. Passa-se a um novo estado de ser de elevada energia.
 
10. Aumenta a distância relativa aos outros elementos da sociedade
 
11. Entra-se numa fase de risco. Forte tendência para o descontrole Energético, Emocional, Mental e Físico.
 
12. Deve-se procurar estabilizar e ultrapassar esta fase.
      Talvez o seguinte ajude: 
    - É preciso saber parar.
    - Todas as acções empreendidas deverão possuir um sentido: o da prestação de um serviço ao Todo e a compartilhação com as outras  partes desse Todo (os nossos semelhantes, os animais, as plantas, os  minerais, etc.).
Esta poderá ser a fase de eliminação dos indivíduos que não estão eticamente preparados para ascender a um estado superior de controlo.
Penso que só ultrapassará esta fase o indivíduo com ausência de conflito interno, sem medos, sem dúvidas e sem ódios.
 
13. Para evitar o efeito reversível (de regressar, mais cedo ou mais tarde, ao “estado comum de ser”) deve-se deixar a energia acumular sem a desperdiçar em acções paranormais ou outro tipo de esforços que requeiram muita energia.
A acumulação de energia deve aumentar até ao ponto em que se processe uma transformação estrutural do próprio ser.
Paralelamente a consciência ter-se-á expandido e aumentado o controle sobre o seu ser até orientar toda a energia, a produzir essa alteração estrutural, transmutando-se assim num novo tipo de ser.
 
A  energia tem a capacidade de se auto-organizar  e, possivelmente, quando atingida uma concentração suficientemente elevada num indivíduo, de modificar a sua composição estrutural e de o transmutar.
 
Recapitulando:
· Intento de transmutação
· Limpeza de conceitos limitantes
· Dissolução do Eu e Fusão com o Todo
· Manejar o mecanismo de anulação do ser
· Surge o espaço vazio no qual se vai acumular  energia
· Gera-se Alegria que gera energia
· Ocorrem acções paranormais espontâneas
· Aumenta a Alegria e a Energia
· Passa-se a um novo estado de ser (de alta energia)
· Distancia e rotura com outros elementos da sociedade
· Fase de Risco (tendência para descontrole)
· Procurar ultrapassa-la até alcançar uma fase  estável
· Contenção da energia para produzir alteração
    estrutural do próprio ser, isto é, transmutação.

 
 
Pogonóforos
 
 
“Será a morte necessária?”, pensava Atlan enquanto observava o corpo do Pogonóforo que jazia sobre o convés.
Estava encostado à balaustrada do pequeno barco que alugara, ali próximo, nas ilhas. Não era o ideal, mas, com os escassos fundos de que dispunha, fora o que se pudera arranjar. Os subsídios para investigação eram somente concedidos aos lobbies académicos e pouco mais. Como sempre...           Era por isso que só lhe restava auto financiar as suas próprias investigações.
Voltou-se para Íris, à qual pertencia a iniciativa daquela pesquisa, e deixou escapar a pergunta que lhe ia na mente:
— Será a morte inevitável?
Íris pareceu reflectir um pouco antes de responder.
Encavalitou-se na amurada do barco e, contemplando as transparentes águas azuis turquesa, dispôs-se a discorrer sobre o assunto:
— Bem, para nós, mamíferos, que estamos tão habituados a que o ser vivo nasça, cresça e morra, a morte parece ser realmente inevitável...  creio que, instintivamente, generalizamos o nosso ciclo de vida a todo o reino animal e vegetal.  No entanto —continuou virando-se agora para Atlan — a vida das bactérias e das grandes árvores decorre de maneira bem diferente da nossa. A reprodução das bactérias que se dividem em partes iguais, confere-lhes uma espécie de eternidade, sem terem assim de passar pela morte. E podemos afirmar que, as bactérias de hoje são, de certo modo, a bactéria primordial, que vivia há centenas de milhões de anos na “sopa primitiva” dos oceanos.
— Sim — disse Atlan — isso é espantoso...  embora esse tipo de “imortalidade”, alcançado pelas bactérias ao reproduzirem-se por cissiparidade, não é perfeito porquanto as memórias obtidas na experiência de vida de cada bactéria não são completamente transmitidas aos descendentes. Só é transmitida, ou melhor, reproduzida, a memória ‘física’, a codificação genética, a memória “hardware”...
...é semelhante ao que se passa no processo de clonagem: as memórias das experiências e das vivências do indivíduo perdem-se. Não são reproduzidas juntamente com o corpo.
Talvez esta perda não seja total — reconsiderou Atlan —talvez os cromossomas retenham alguma coisa da vida do indivíduo... ou talvez tenham sido ligeiramente alterados ou afectados ao longo da vida de um ser, retendo assim, através de um imperceptível e ligeiro rearranjo, uma conformação que conserve, a um nível holístico, algo das memórias da vida de cada indivíduo, pelo menos daquelas memórias que foram mais marcantes. Bem, mas isso é algo que ainda se desconhece...
Mas faz sentido. Imagina, Íris, que a codificação genética não possui apenas um nível de codificação (unidimensional) mas, pelo menos dois...
...sendo o segundo uma codificação a nível holístico — o genoma poderia então conter exactamente os mesmos pares de aminoácidos geradores do corpo físico, mas, uma ligeira diferença, na localização ou na orientação espacial dos aminoácidos que compõem o ADN (Ácido Desoxirribo Nucléico), ou até das moléculas que os constituem,  não poderia, de algum modo, ‘codificar’ parte do comportamento adquirido? Retendo assim algo das memórias das vivências de cada indivíduo?...
— Mmm... não deixa de ser uma ideia curiosa: dois níveis de codificação...  ou talvez três, ou, quem sabe, até uma infinidade deles!...
...mas tendo cada um, provavelmente, um “peso” ou preponderância cada vez menor, à medida que aumenta  o  factor
holístico... ¾ disse Íris como quem pensa em voz alta, enquanto se baixava para melhor examinar o estranho pogonóforo estendido no convés.
E então, subitamente, emergiu do seu rosto uma expressão de surpresa.
— Imagina com o que é que esta suposição é perfeitamente congruente?
— Não sei, não estou a relacionar... com o quê? — perguntou Atlan com alguma impaciência.
— Com a ideia de “nuvem de possibilidades” expressa no transmutalismo!
— Ah, sim! — exclamou efusivamente Atlan ao aperceber-se da conexão — realmente, segundo esse ‘axioma’, qualquer entidade é uma nuvem de possibilidades contendo todas as entidades alternativas. E, como previsto — prosseguiu reflectindo — cada uma dessas entidades alternativas terá um ‘peso’ progressivamente menor quanto maior for a diferença em relação à entidade principal, a entidade que nós percebemos como concreta.... não achas que poderíamos então dizer que, as outras entidades ¾ as alternativas ¾ vão tendo, em contrapartida, um ‘peso’ holístico cada vez maior?...  ou que se situarão cada vez mais num nível holístico, ao mesmo tempo que serão cada vez menos concretas?
— Estou a ver onde queres chegar. Faz sentido...   Já que no conceito transmutalista de ‘nuvem de possibilidades’  se considera que a entidade em si, ou seja, a sua ‘porção’ mais concreta, é o núcleo denso dessa nuvem ® é a região onde as possibilidades são mais prováveis. E, segundo a tua ideia, o conceito de probabilidades poderá coincidir, aqui, com o conceito de níveis holísticos....
 
— Sim, a esse nível parecem ser até a mesma coisa, mas vistas de “ângulos” diferentes!...
— Então pensas que as moléculas genéticas de ADN poderão “memorizar” alguma coisa da vida do indivíduo — disse Íris recapitulando e organizando as ideias de Atlan — que poderão codificar algo mais do que a sua estrutura física. E que essa codificação poderá ser a de algumas das memórias da vida de um ser...
— Sim — continuou Atlan — e admito que o possam fazer através de uma espécie de codificação holística...
Cada figura geométrica representa uma entidade da Nuvem. A pirâmide é a entidade principal, é a mais concreta. A esfera vermelha e o cubo verde são entidades alternativas ainda assim muito “próximas” ou prováveis. Já a estrela azul de oito pontas, assim como outras figuras indistintas, embora fazendo parte da entidade – ou ser – global, têm nela um ‘peso’ muito menor. São visíveis aqui como uma aura evanescente.
— Com a qual vês uma certa congruência com a concepção de ‘nuvem de possibilidades’ e achas que, ao nível da codificação em si, holismo e probabilidades poderão, no fundo, ser a mesma coisa...
— Sim, na medida em que as nuvens de probabilidades (as zonas mais “densas” das nuvens de possibilidades) também ‘codificam’ os comportamentos das entidades (como o do electrão por exemplo). Na realidade, elas ‘codificam’ as entidades em si: mas, para sermos mais precisos, e de acordo com a concepção transmutalista, as ‘nuvens’ não apenas descrevem e codificam, mas são essas próprias entidades!
Assim, cada estrato de probabilidades de uma nuvem pode ser entendido como uma entidade ligeiramente diferente da entidade principal.
Mas quando nos afastamos desse “núcleo” mais denso da entidade e os estratos se ‘esbatem’, tornando-se apenas em possibilidades, isso reflecte que, “aí”, as entidades alternativas já são muito diferentes da entidade principal. 
Isto poderá ou não ser tomado como uma forma de codificação?...
Íris sentia-se mergulhar completamente nas teses desenvolvidas por Atlan. A tal ponto que sentia que era como se fossem as suas próprias ideias!...
...e sentia-se, assim, naturalmente impelida a prosseguir e completar os seus raciocínios:
— Sim, claro... sob esse prisma... poderíamos tomar as nuvens de probabilidades e, de resto, todas as ‘incertezas’ de Heisenberg como codificações de informação...
...e, visto que informação é realidade, é existência, é ser... poderíamos então concluir que as nuvens de probabilidades são ‘codificações’  de seres, de entidades. Daí que, cada um de nós não seria apenas o seu próprio ser, mas sim o núcleo de uma imensa nuvem contendo em si todas as coisas,  todos os seres.
Na realidade, contendo todo o resto do universo — mas com ‘pesos’ progressivamente menores para as entidades mais “afastadas” do ‘núcleo’. Ou seja, para aquelas mais “diferentes” daquilo que actualmente percebemos como sendo nós próprios. Isso será, afinal, o nosso eu “concreto”, isto é, a zona mais densa da nuvem de possibilidades. Mais precisamente, a zona mais densa de uma região já de si densa — a região de ‘probabilidades’ da nuvem...
¾ E a nível quântico passa-se o mesmo ¾ acrescentou Atlan ¾ diferentes estratos de uma mesma nuvem de probabilidades descrevem diferentes partículas...
 
De súbito, como que atingido meteóricamente por uma nova ideia, Íris sentiu-o fazer um parêntesis e observou-o a circular à volta do convés, completamente abstraído do que o rodeava.
“É preciso unificar tudo”, pensava Atlan, “é tudo a mesma coisa! Tudo não passa de diferentes visões ou leituras de uma mesma coisa, de um hiper-fenómeno!...”
 
Depois, tão subitamente como ‘partira’, regressou prosseguindo com a exposição das suas ideias.
—... Uma determinada nuvem de probabilidades representa um átomo. Mas, um estrato mais profundo dessa mesma nuvem de probabilidades, já representa uma outra entidade, por exemplo o núcleo do átomo. E, outro estrato da nuvem, ainda mais nítido, representa os nucleões ( protões e neutrões). Mas, estratos ainda mais refinados da nuvem poderão representar cada uma das partículas que compõem o neutrão: um protão, um electrão e um neutrino de electrão.
Para além de que poderíamos admitir ainda ‘estratos’ intermédios para representar os bosões intermediários – as partículas portadoras dos campos: forte, fraco, electromagnético e gravitacional. Esses estratos da nuvem situar-se-iam nas regiões intermédias entre os tipos de partículas das quais os bosões são mediadores:
· Entre as partículas carregadas electricamente (por exemplo, electrões e protões) esse estrato representaria fotões ¾ os agentes de campo electromagnético;
· Entre as partículas sujeitas à interacção nuclear forte (por exemplo, neutrões e protões) esse estrato intermédio representariam gluões (p,K), os agentes de campo da interacção nuclear forte;
· E, dentro da nuvem dos próprios neutrões, outros estratos de probabilidade ainda mais refinados poderiam representar os bosões intermediários W+, W- e Zo, os agentes de campo da força nuclear fraca.
 
—...Mas, e o holismo?  O que te leva a considerar probabilidades e holismo como sendo a ‘mesma’ coisa? ¾ interveio Íris.
— Apenas os considero a mesma coisa na medida em que ambos são codificadores. Ambos codificam informação. E ambos o podem fazer em diverso graus, escalas, ou níveis. São codificações com diversos níveis de integração.
O mesmo conjunto de elementos de um destes codificadores, e usando até a mesma disposição desses elementos, pode codificar tipos de informações completamente distintos, completamente diferentes!... Só depende da forma, ou do nível, através do qual são aproveitadas. O que dependerá, naturalmente, do propósito em vista.
Atlan deteve-se um pouco na observação do insólito pogonóforo que, indiferente a tudo, permanecia estendido sobre o convés do pequeno barco, e prosseguiu o seu raciocínio:
¾ Repara no caso de Tália e na forma como ela faz emergir da sua nuvem de possibilidades os seres mais adequados a cada situação!... a facilidade com que ela transporta o seu núcleo ínfimo de consciência através de todos os seus seres alternativos ‘clivando’ apenas aqueles que lhe interessam num dado momento....   ...há, de facto, uma certa semelhança com a clivagem de um cristal, já que cada clivagem faz surgir, nele ou dele, outro(s) cristal(is) com uma estrutura completa em si mesma e representativa de um novo cristal, distinto daquele que o continha.
E a nível holístico, por exemplo, já vimos que existe este mesmo tipo de multicodificação, ou codificação em diversos níveis. Como é o caso, por exemplo, da fotografia de um jornal constituída por muitos pontinhos. Cada um dos quais, isoladamente, isto é, separado dos outros, não significa nada para além do próprio pontinho. Mas, quando em conjunto com os outros pontos, codifica uma imagem — a da fotografia. Percebemos isto quando nos afastamos um pouco e, de um simples conjunto ampliado de pontos, obtemos uma visão de conjunto que tem como resultado a imagem contida na fotografia.
Até aqui nada de novo... Mas imagina agora, Íris, que esses pontos  (nos quais vejo um certo paralelismo com os códigos genéticos) codificariam mais do que um nível de informação. O que é que se poderia passar neste caso?... Para além da informação que salta ao nível da vista desarmada — isto é, a própria imagem — se aprofundássemos mais a nossa visão, ampliando a imagem, poderíamos ver outras imagens formadas por determinadas disposições nos agrupamentos dos pontos que a formam. Aprofundando ainda mais a “visão”, até chegar ao nível da percepção dos próprios pontos, ainda assim poderíamos “ver” mais do que um conjunto de pontos sem significado — bastaria para tal que, por exemplo, os pontos estivessem codificados como “letras” que formariam “palavras” quando emparelhadas com os pontos (“letras”), mais próximos.
Assistiríamos, assim, a um terceiro nível, holístico, de informação. Neste caso, uma página  bidimensional de palavras contendo um texto unidimensional. (Já que a leitura de um texto é um processo sequencial — palavra após palavra e letra após letra — então podemos considerá-lo como o fio de um novelo e afirmar que é unidimensional.)
De resto, esse mesmo nível, poderia ser tridimensional, se as “letras” se ligassem topologicamente  como o faz uma rede tridimensional de neurónios.
Mas não ficaríamos apenas por aí!...
Julgo que, teoricamente, a quantidade possível de níveis de codificação de um sistema formado por vários componentes, seria imensa...
Basta para tal imaginar que  introduziríamos a referida imagem no descodificador  de  um  computador e que
seríamos informados de que existiria uma outra ‘mensagem’ codificada pelos grupos de pontos distribuídos ao longo da diagonal da imagem. Ou pelos grupos de pontos equidistantes de dez em dez. Ou pela relação (ou diferencial) entre sub-níveis da imagem (obtidas entre pontos e agrupamentos desses mesmos pontos). Ou por outro tipo de codificação realizada através de, por exemplo, uma imagem ou mensagem formada por todos os pontos de apenas a mesma cor...
...ou mesmo codificações indirectas que resultariam, por exemplo, apenas quando sobre a imagem se fizesse incidir uma determinada luz ou radiação, o que faria emergir dela uma outra imagem ou qualquer outro tipo de informação...
Repara, Íris, há toda uma série de possíveis codificações virtuais: pela inter-relação de uns componentes com os outros, de uns níveis com os outros, de umas características com as outras, etc. Penso que poderíamos chamar codificações diferenciais a estas ultimas, já que resultam de um código obtido por ‘diferenças’ entre vários componentes ou grupos de componentes.
Há , virtualmente, uma infinidade de codificações possíveis num mesmo sistema de código. (Assim como uma infinidade de entidades numa mesma entidade.)
...foi assim que, por analogia, cheguei à ideia de que também os genes poderão, pelo menos em potencial, codificar diversos níveis de informação.
Não digo que o façam actualmente. Mas sim que poderiam fazê-lo. Que existe essa possibilidade.
E essa qualidade, potenciada a alto nível, teria como consequência que os nossos filhos herdassem, juntamente com o nosso património genético, todas as nossas memórias!...
— E qual poderia ser o resultado disso? — inquiriu Íris.
— A consequência seria que a evolução humana auferiria de um incremento tão acelerador — sem perda de informação de geração para geração — que faria com que a humanidade, muito rapidamente, ultrapassasse todas as barreiras dos impossíveis e  se tornasse uma espécie divina e imortal!
De resto — concluiu Atlan — nessa situação, a morte tal como a entendemos hoje já não existiria, pois já não haveria a mesma perda de informação. A informação de todas as vivências, conhecimentos e prazeres, experimentados por cada indivíduo, seria transmitida aos seus descendentes, conferindo-lhe assim uma quase verdadeira continuidade.
E aliás, não é a perda de informação a causa do envelhecimento, da decadência e da morte?...Os cromossomas, ao longo das sucessivas duplicações celulares, vão “encurtando” e perdendo informação através dos telómeros. Também as células cerebrais, como não se regeneram, vão sendo insuficientes para gerir convenientemente toda a informação e podemos dizer que há informação que se perde porque deixa de ser útil, na medida em que deixou de ser gerida. A morte é perda de informação.
¾ Será baseado nisso que reside o segredo da quase eternidade do pogonóforo? Terá ele reduzido a sua perda de informação? ¾ questionou-o Íris olhando na direcção do longo corpo do ser enigmático que tinham encontrado nas profundezas do oceano.
¾ É uma boa hipótese ¾ concedeu Atlan ¾ já que toda a causa da morte é, no fundo, a incapacidade em conservar informação.
Repara, Íris, que, mesmo quando um corpo é destruído, por exemplo esmagado, também aí a morte se tornou irreversível e permanente porque houve incapacidade do indivíduo em conservar informação — a informação definidora da estrutura do seu próprio ser. Se a conservação de informação fosse completa, isto é, não só a codificação da estrutura de um determinado ser, mas também a codificação da informação necessária para efectuar o processo de regeneração ou duplicação dessa estrutura (desse ser), então esse ser não morreria.
Ou, se morresse, seria apenas uma morte temporária. Apenas durante o período que levaria a concluir a regeneração do seu organismo... três dias, um dia, um minuto?
¾ Uma morte temporária... isso não te faz lembrar nada, Atlan?
¾ Claro, claro que faz!... não temos assim tantos casos de morte temporária na história conhecida para que essa correlação me passe despercebida... El Em Manu.
¾ Deus Em Humanidade. Ou Em-Manu-El, isto é, Em/com huMANos Deus. “With Us God” ou “God With Us”…
¾ Sim, já que era o seu verdadeiro nome. Embora não seja o nome pelo qual é geralmente conhecido... Já agora, Íris, quais são as tuas opiniões sobre esse fenómeno histórico?
¾ Bem... vou começar por te contar isto: Uma ocasião, coloquei a seguinte questão a um membro de uma religião:  “Jesus, enquanto homem, transmutou o seu corpo adquirindo a imortalidade. Isto não poderá significar que nós, humanos, teremos a possibilidade de fazer o mesmo?”
A sua resposta foi:  “Não.  Jesus conseguiu fazê-lo porque era filho de Deus e porque isso fazia parte da sua missão.”
E eu fiquei a pensar se não será isto uma desculpa para o homem... “Se Jesus o conseguiu foi porque era diferente de nós, por isso, estamos desculpados por não tentar fazer o mesmo.” 
Da mesma forma diz-se muitas vezes que determinado indivíduo  conseguiu algo na vida porque era rico, ou porque era mais inteligente, ou mais alto, etc.  Desculpámo-nos frequentemente do nosso insucesso, atribuindo ao ser bem sucedido, uma característica que não possuímos, algo que não somos. É claro que não somos todos iguais, mas isso não tem impedido que diferentes indivíduos tenham atingido os mesmos objectivos. Situamo-nos todos dentro da mesma espécie, dentro do mesmo tipo de ser.
No meu caso, a leitura que faço da vida de Em-Manu-El é a seguinte:
Numa época de mentalidade rígida e comportamento regido pela Tora e pelas leis moisaicas nasce um ser que evolui mais do que os seus contemporâneos. Como fruto dessa evolução ontológica desenvolve uma mentalidade de amor, tolerância e paz. Transmite aos outros essa nova mensagem e são muitos os que o escutam e seguem.
A sua evolução prossegue e, como consequência, a sua consciência passa a ter acção directa sobre o meio, isto é, sobre os outros, sobre a matéria e sobre si mesmo. Estas acções directas da sua consciência sobre o meio são interpretadas como milagres: a transmutação da água em vinho, a multiplicação dos pães, a cura de doentes, o caminhar sobre a água, o ressuscitar de um morto.
 
Jesus continua o seu caminho e a sua consciência vai transformando-se no seu centro; cada vez mais dominante sobre o seu corpo e sobre o meio.  O seu corpo passa a ser, apenas, um dos instrumentos da sua consciência. Entretanto, o seu ego diminui cada vez mais, tendendo para zero.  A sua consciência, ao contrário, expande-se e identifica-se progressivamente com a consciência universal. Ele e o Todo, ou ele e Deus tornam-se um só. E aqui ele identifica-se, de facto, como filho de Deus.
 
A quantidade e a qualidade da energia que flui e reflui no seu corpo é cada vez maior. Consequentemente, este entra em processo de transmutação: o fluxo extraordinário de energia altera a sua estrutura corrigindo imperfeições e fraquezas.
 
No fim, Jesus sofre um ataque massivo das forças humanas (ou do Con-Sistema) que, pelo menos aparentemente, provocam a sua morte.  Porém, em si mesmo, na sua estrutura ontológica, havia já uma matriz indeformável (transconsciência?) ¾ o processo de transmutação do seu corpo estava, nesse momento, mais adiantado do que a destruição que lhe foi infligida.  Após a morte, a transmutação completa-se. O seu corpo morto é regenerado num corpo ainda mais perfeito e incorruptível...
 
¾ E, pelo que consta nos registos históricos, o seu corpo terá levado três dias a regenerar-se... ¾ comentou Atlan.
¾ E talvez a realizar, também, uma qualquer outra acção... porque afinal, o próprio Em-Manu-El tinha, anteriormente, ressuscitado Lázarus em apenas alguns minutos, segundo consta nos evangelhos.
¾ Sim... Mas voltando à codificação...  ...É surpreendente, Íris, quando pensamos que toda a codificação da informação de um ser humano poderia ser guardada num espaço menor do que a ponta de um alfinete!
E que esse espaço  poderia permanecer ileso, mesmo que o indivíduo em causa fosse esmagado por uma pedra de duas toneladas!...
 
“O núcleo de uma única célula do nosso corpo”, pensou Íris, “contém todo o ADN que nos define e que seria suficiente para fazer um duplicado físico de nós mesmos... e, realmente, ocupa um espaço menor do que a ponta de um alfinete! Mas...”
 
¾ ...Mas, quanto à protecção, Atlan: porque dizes que esse espaço, por ser muito pequeno, poderia permanecer ileso?
¾ Quão menor é o tamanho ocupado pelos códigos definidores (da estrutura de um ser) mais fácil é protegê-lo.
Repara, por exemplo, no neutrino: é uma partícula tão pequena (e tão “indiferente” aos relacionamentos com as outras (porque destituída de carga eléctrica)) que atravessaria facilmente a Terra sem sequer se ter apercebido!...
 
Os corpos muito pequenos são quase inafectáveis pela matéria, pelos acontecimentos, pelas catástrofes... e, de resto, pelo próprio tempo.
 
Além disso, a energia para proteger um sistema de pequenas dimensões, é também muito menor.
 
Mas há uma outra razão:
Possivelmente, um corpo muito pequeno poderá ter uma muito pequena perda de informação porque terá mais facilidade em conservá-la. E isto porque é um alvo muito menor aos bombardeios de aleatoriedade...

...O que está de acordo com as teses de Aleator ¾ concluiu Atlan puxando do seu caderninho de apontamentos do bolso traseiro das calças e fazendo, ali mesmo na amurada, um esboço:
¾ Estas linhas onduladas representam o “bombardeamento”, sobre um sistema, de quaisquer factores aleatórios: partículas, radiações, acontecimentos, etc. Quaisquer factores capazes de alterar, causar danos, ou até de destruir completamente a informação aí contida  ¾ explicou. — E, como a perda de informação de um sistema é a sua entropia aniquiladora...
...isto leva-me a crer que um buraco negro é um ser, ou uma entidade anti-entrópica ® como nada escapa de um buraco negro, nem sequer a luz, também ele, assim, não perde qualquer informação, conservando toda a ‘memória’.
— Um buraco negro é um ‘ser’? — interveio Íris.
— Na realidade penso que sim.
A vida é, em si, uma neguentropia, uma entropia negativa. Ora, se um buraco negro não tem qualquer perda de informação, ele possui assim uma elevada escala de neguentropia que é, fundamentalmente, a qualidade definidora da vida.
(Na realidade não gosto de lhe chamar buraco negro. Essa designação imperfeita deve-se apenas às primeiras ‘observações’ dos buracos negros no cenário cósmico: eram visíveis apenas como regiões escuras do espaço. Isso por não reflectirem a luz e por esta também não passar através deles. O que se passa é que, devido à sua gravidade super intensa, o buraco negro aprisiona a luz dentro do seu domínio de acção.)
Tudo indica que um buraco negro usufrua de um ganho contínuo e sempre crescente de informação. Em cada ‘rotação’ revisita todo o seu horizonte de acontecimentos, repetindo assim, constantemente, a sua informação. Será como um processo sucessivo de reinformação.  Em cada ‘rotação’ no seu espaço fechado sofrerá um incremento de informação. E, consequentemente, de entropia negativa ou neguentropia.
Os buracos negros parecem ser ‘coágulos de eternidade’ no tecido entrópico e perecível da existência. Foram estrelas que deixaram de ser afectadas pelas vicissitudes da natureza e, “transmutando-se”, ganharam o direito à independência e à eternidade.
E, no entanto, coexistem num universo de seres perecíveis e degradáveis.
É como se fossem, por analogia, os seres máximos em que nos poderíamos tornar ao vencer a morte.
¾ Mas não achas que o buraco negro, ao isolar-se do restante tecido espaço-temporal, alcançou assim uma imortalidade muito solitária? ¾ observou Íris.
¾ Não! Aí é que está: muito pelo contrário! Ao dissociar uma ‘porção’ do próprio “espaço-tempo”, o buraco negro alcançou, não só o conhecimento do universo inteiro, mas obteve também o convívio com a totalidade da existência... com todas as entidades do universo!...  E isto deve-se à minha suposição de que a dissociação de uma porção de espaço-tempo possui a mesma estrutura e constituição do restante ‘tecido’ existencial:
“Cada parte contém o todo” ¾ 2º axioma transmutalista.
Uma “pequena” parte do tecido espaço-temporal, como aquela que é dissociada pelo buraco negro, é como uma miniaturização da existência, contendo em si todas as suas ‘reflexões’, isto é, no fundo, todos os seus objectos e entidades.
 
É como uma ‘bola de sabão’: ela reflecte, na sua superfície, todos os objectos do ambiente que a envolve. E, se dela se dissociar outra bolha mais pequena, também esta reflectirá todos os objectos que a rodeiam (em formato menor, proporcional ao tamanho da bolha).
¾ Mas estás a falar de reflexões... e não dos objectos em si ¾ objectou Íris.
¾ Esta “reflexão” poderá ter pouco a ver com o conceito que temos de reflexão.
Penso que esta ‘reflexão’ dos objectos do universo no tecido existencial é equivalente aos próprios objectos. São os objectos em si mesmos. Tão reais  como  os  ‘objectos-reflexo’ em outros buracos negros ou os objectos de que nos apercebemos neste universo... 

...tudo são, possivelmente, manifestações de ‘consciência’. De uma ‘consciência’ existencial (para além espaço-tempo).


E não são os objectos que estão reflectidos no ‘tecido’ espaço-temporal, mas sim unidades, partes, ou componentes dessa ‘consciência’...
Os ‘objectos’ em si não passam, na realidade, de meras projecções da ‘consciência’ existencial.
E assim, entre as projecções ou “reflexos” dos objectos e os objectos em si mesmos, não haverá grande diferença.   (Ou mesmo nenhuma.)
Atlan pesou as implicações das suas conjecturas e prosseguiu:

¾ “Tudo vem do pó, e tudo volta ao pó”, não é assim a velha frase?... bem, na realidade estou convencido de que deve existir um muito pequeno número de possibilidades diferentes de escapar à aniquilação ¾ ou à reabsorção — pela existência dos seres nela criados...
...mas que talvez uma dessas formas      seja        através      da dissociação do tecido existencial:
 
esse ser hipotético criaria assim um espaço-tempo próprio, privado, pessoal.  E isso poderá ser, de resto, o que fazem os buracos negros ao isolar uma porção do tecido espaço-temporal, separando-o do resto do universo.
 
Tudo me leva a crer que, qualquer processo que obtenha o “merecimento” de ganhar a eternidade, tal como se fosse o “presente da águia” dos índios toltecas, envolve uma ‘elevada gravidade’... (Isto é, enormes quantidades de energia ou matéria ¾ que no fundo são equivalentes, como o demonstrou Einstein com a sua famosa equação E = m c2...e gravidade,  claro está, tem sido sempre a qualidade de “mãe geradora” necessária para parir ou criar qualquer forma alternativa de existência. Talvez até mesmo para criar uma entidade livre dos condicionalismos da morte.
— A “morte”... a morte está sempre presente nas tuas reflexões...   Tens assim tanto medo de morrer, Atlan?
— Não, eu não me importo de morrer... Importo-me é de não ser livre de optar entre morrer e não-morrer. E, para mim, não ser livre é ser escravo... e sempre detestei a escravatura.
— Mas não achas que a imortalidade poderá estar depois da morte, numa vida eterna como espíritos? (Até há em quem se satisfaça encarando a morte como sendo a própria “transmutação”!!...)
— Mesmo que isso se verifique, essa existência após a morte, continua a haver perda de informação, porquanto o corpo físico, que faz também parte da entidade, se perde. A sua informação não foi, assim, conservada. Logo isso seria uma imortalidade incompleta, limitada e não-livre. Além de que seria, também, uma imortalidade obrigada, forçada, conduzida ao sabor e “vontade” da existência e não do indivíduo em si.
De todo não me satisfaz porque continua a não haver liberdade. O ser continuaria a não ser livre de escolher: de ser e de viver os seus próprios desígnios.
 
—“Liberdade”... outra das palavras omnipresentes no universo dos teus desejos!... sentes-te preso, é? Porque é que estás sempre com a ideia fixa da liberdade? Olha à tua volta, achas que a maioria das pessoas tem esse tipo de preocupações?
— Eu sei que não... mas, só quem nunca provou o mel não estranha o fel. E eu já provei o “mel”... ao mergulhar em estados de alta energia...
— Sim, já li algumas dessas experiências quando me mostraste o teu precioso diário. O diário das tuas abordagens à transmutação...
 
Mas o calor apertava, ali no convés do pequeno barco flutuante nas águas tranquilas, e Íris sugeriu uma bebida.
— Oh, mas isso é uma excelente ideia! — exclamou Atlan deliciado — Queres que te ajude a prepará-la?
— Obrigada, não é preciso — respondeu Íris enquanto se dirigia para a pequena cabina do barco.
Íris era magnífica, pensou Atlan. Os seus longos cabelos de um indefinível castanho-dourado-avermelhado eram não somente belos, como pareciam irradiar uma qualquer espécie de energia...
Entretanto, Íris preparava um delicioso sumo de frutos tropicais, que comprara numa ilhota próxima, ao mesmo tempo que se sentia assaltar por um quase-irresistível desejo de mergulhar no oceano.
Mas regressou afinal, e com dois enormes copos transbordantes, para junto de Atlan que torrava ao sol.
— Divino — exclamou Atlan após ter escorrido para dentro de si a maior parte do refrescante suco — Só mesmo tu tens esta habilidade tão feminina de fazer de qualquer coisa, algo tão delicioso!
— Ora, não é nada de mais. Apenas juntei alguns frutos exóticos com mel e...
— Sim, claro, claro... Ainda bem que para ti não é nada de especial. Aliás, é precisamente essa tua simplicidade aquilo que mais gosto em ti.
Íris pareceu ruborizar ao de leve. O que, secretamente, encantou Atlan.
— O que estás a pensar, Atlan?...
— Hã? ah, nada... bem, há pouco estava a pensar que foste tu quem originou todo este encadear de ideias e suposições...
— Eu?
— Sim, quando me perguntaste com o que é que a hipótese de uma multicodificação holística, por parte do ADN genético, era “perfeitamente congruente”. Lembras-te?
— Ah, sim, claro!... Pergunta à qual não me respondeste por não estares, nesse momento, a relacionar com a concepção da ‘nuvem de possibilidades’.
Bem... mas quando eu te sugeri essa correlação, nunca mais paraste!...
Viste a nuvem de possibilidades também como um sistema de multicodificação por probabilidades. E daí partiste para o ‘mundo quântico’ e deduziste que uma mesma nuvem codificaria diversas entidades ou partículas subatómicas, dependendo do estrato de probabilidades que fosse “observado”.
Mas, voltaste atrás, e fizeste uma previsão do que poderia causar uma codificação holística de todas as memórias das vivências de um indivíduo nos genes dos cromossomas.
E chegaste assim à ideia de que, a transmissão de todas as memórias e conhecimentos dos progenitores aos seus descendentes, faria avançar de tal modo a espécie humana que a transformaria rapidamente numa espécie divina e imortal.
...O que te levou a concluir que a perda de informação de um sistema é a causa da sua morte, a sua “entropia aniquiladora”!
E daí avançaste para a suposição de que o buraco negro é um “ser” que escapou a essa aniquilação, já que não perde nada. Já que nada escapa da enorme força de gravidade de um buraco negro, nem sequer a luz, logo não tem perda de informação. O que lhe confere imortalidade. Tornando-o assim num “coágulo” do tecido existencial. Tornando-o dissociado.
Em seguida, quando te perguntei se, devido a essa dissociação, a imortalidade conquistada pelo buraco negro não seria muito isolada e solitária, esboçaste-me a analogia do tecido espaço-temporal com a superfície das bolas de sabão...
(...que eu achei muito engraçada.)
Segundo a tua analogia — prosseguiu Íris sempre com a sua musicalidade ligeiramente infantil — o tecido existencial “reflecte” todos os ‘objectos’ do espaço-tempo ao seu alcance, como o faz uma bola de sabão. E, na medida em que a totalidade do “tecido” engloba todo o universo, todas as coisas, ele é curvo e “fechado” como uma bola de sabão. Logo “reflecte” todas as coisas existentes do universo no seu interior, como uma bola de sabão reflecte todas as coisas do seu exterior, do panorama que a envolve.
E, assim como da “membrana” de uma bola de sabão se pode soltar, dissociar, outra bolha mais pequena que continua a reflectir todo o panorama à sua volta, também da “membrana” ou “tecido” espaço-temporal se pode dissociar uma “bolha” mais pequena que continuará a reflectir todos os objectos e entidades da existência.
O que permite ao buraco negro não ser um solitário, mas sim conhecer e ‘conviver’ com todos os seres e coisas do universo.
Aí, quando eu objectei que as “reflexões” de entidades no tecido existencial e as próprias entidades não seriam propriamente a mesma coisa, tu começaste a reflectir sobre isso e chegaste à suposição de que seria precisamente o contrário! Aquilo que nós tomamos como sendo ‘objectos’ não passaria também de reflexões no tecido existencial. Os “verdadeiros” ‘objectos’ “serão” os componentes da própria ‘consciência’ do além espaço-tempo. Da qual, de resto, tudo serão “manifestações” emergentes...
 
Atlan escutava, assombrado com a memória e a clareza dela. Em poucas palavras sintetizava as horas de conversa por que se tinha estendido toda aquela manhã.
“Por vezes, ele e Íris, pareciam ser uma só mente distribuída em dois corpos” — pensou Atlan fascinado e, ao mesmo tempo, intrigado — “porque é que aquilo só ocorria com Íris? Seria ela, afinal, a sua alma gémea?”
 
— ...Mas depois acabei por te perguntar porque é que a morte te afligia assim tanto — continuava Íris — ao que me respondeste que não era a morte que mais te afligia, mas sim a tua ausência de liberdade em poder escolher os teus próprios destinos. Nesse ponto reflectimos um pouco sobre o teu sentido de liberdade ser tão estranho à maioria das pessoas. E acabamos por concluir que isso se devia a teres conhecido estados de muito maior liberdade existencial, nas temporadas em que entraste em fases de alta energia. Experiências que registaste no teu diário de abordagens à transmutação...
E depois eu sugeri uma bebida!...
— Que memória! Como é possível?... retiveste todas as etapas do nosso “raciocínio”...
— Ora, não fiques assim tão espantado Atlan. Isso é apenas o meu “stack memory” a trabalhar. A minha memória não é propriamente excepcional.
— O teu “stack memory”... sim, já me tinhas falado qualquer coisa sobre isso — a tua pilha de memória de endereços de subrotinas — bem ao estilo dos microprocessadores...
— Exacto, memorizo sempre o “número de ordem” (ou  “endereço”) de uma ideia antes desta partir para outra. Para não “perder o fio à meada”, compreendes? Os microprocessadores fazem isso com as subrotinas de um programa: o que lhes permite voltar sempre ao ponto de partida.
— Sim, eu faço algo de semelhante... mas não com a tua precisão!
— É apenas uma questão de treino.
—Vou dedicar-me a isso — disse Atlan pensativo enquanto, como exercício, recapitulava do fim para o princípio  toda a série de ideias que tinham sido desenvolvidas.
Até chegar à pergunta de Íris.
Que permitira associar a ideia da nuvem de possibilidades à multicodificação de níveis holísticos possível a qualquer sistema de vários componentes.
Isso permitira-lhe ‘ver’ a “nuvem” também como um sistema de multicodificação, mas realizando-a através de estratos de probabilidades.
“Uma entidade engloba em si mesma todas as outras entidades, dentro dessa nuvem que é ela própria...”, pensou recordando o axioma transmutalista.
E todo o conceito de nuvem estava de algum modo relacionado com a incerteza de Heisenberg.
E logo com os factores aleatórios intrínsecos à natureza.
“...E logo com o Caos!”, pensou Atlan apercebendo-se de uma nova correlação.
Movido pelo súbito entusiasmo, fixou Íris com um ar interrogativo:
— E agora, Íris, é a tua vez de imaginar com o que é que o holismo e a ‘nuvem de possibilidades’ são “perfeitamente congruentes”!
— Ah, claro, agora é a minha vez!...
Ela passeou os seus olhos verde esmeralda pelas águas tranquilas e  sentiu de novo o desejo de mergulhar.
Mas, voltando-se para ele, disse com alguma impaciência:
— Bem, Atlan... diz lá... Onde é que queres chegar?
— À teoria dos atractores!... não vês? Cada entidade da nuvem poderia ser considerada um atractor. Um ponto, um centro de “gravidade”, à volta do qual se distribuem, de modo mais ou menos probabilístico e caótico, todas as entidades alternativas de cada indivíduo...
Os Atractores representam um determinado sistema ou entidade através do seu ‘comportamento’ num “espaço de estados” (state space). Os dois atractores da esquerda representam sistemas previsíveis: O 1º é um ‘ciclo-limite’ (ex. oscilações de um pêndulo de relógio). O 2º é um tórus atractor (oscilações compostas, ou comportamento quase-periódico).
Atractor Caótico.
O seu comportamento é imprevisível, circunscrevendo-se, no entanto, às regiões de probabilidade (pontos vermelhos).
— De facto! Nunca tinha pensado nisso...
— Nem eu!
— Que pena Aleator não estar aqui. Ele iria adorar esta ideia, já que se relaciona tanto com o seu campo de pesquisa: a teoria do caos: os fractais, os atractores... e a linguagem aleatória da existência.
— Sim, Íris, a linguagem existencial!... como já tiveste a oportunidade de te aperceber, por vezes eu penso, assim como alguns físicos ‘quânticos’ visionários, que nós e, de resto, todas as coisas, somos as “manifestações” da consciência do ‘além espaço-tempo’ que emerge, de forma quântica, na nossa ‘realidade concreta’.
E assim sendo, tudo se conjuga: a ‘linguagem aleatória existencial’, o ‘caos’, os ‘atractores’, as ‘nuvens de possibilidades’, a natureza da ‘realidade quântica’, a emergência de uma ‘consciência existencial além espaço-tempo’, e, de certa forma, também os níveis holísticos de codificação...
— Sim, tudo se encaixa — comentou Íris meditativa ao mesmo tempo que olhava através do céu azul e se apercebia, novamente, de algo estranho. Algo quase imperceptível que a deixava sempre na dúvida se seria ou não apenas imaginação sua... “Aqueles dois «globos» parecem mover...”
¾ Gostei da tua dissertação sobre o tipo de vida das bactérias ¾ disse Atlan interrompendo-lhe as cogitações.
Acercou-se do Pogonóforo intrigado em penetrar o mistério que o encobria.
E lembrou-se:
¾ Mas ias ainda falar-me sobre outro tipo de vida diferente: o das grandes árvores.
¾ Sim, pois ia... na continuação à questão inicial que me colocaste: “será a morte inevitável?”
¾ fala-me então, dessas tuas amigas árvores que tão bem conheces.
¾ Não as conheço assim tão bem como afirmas. Mas, de facto, além de gostar muito delas, admiro-as e respeito-as muito. E não há dúvida que por vezes consigo ter com as árvores uma grande empatia e aprendo muito com elas.
Bem, realmente, para além das bactérias, a vida das grandes árvores também decorre de maneira bem diferente da nossa. Elas vivem dezenas de séculos!... e parecem morrer apenas acidentalmente, como as sequóias americanas. Além  do que, pelas minhas experiências com as árvores, elas parecem ter uma espécie de consciência quase colectiva!...
...Mas, nem mesmo os peixes dos nossos rios têm um prazo fatal para morrer, com data fixa e sempre mais ou menos a mesma. Com efeito, o seu crescimento não para, como acontece com os mamíferos, mas continua durante toda a vida, podendo esta prolongar-se por mais de um século. Deve ser por esta razão que encontramos por vezes carpas e lúcios gigantes.
Mesmo nos insectos cuja vida é, por vezes, extraordinariamente breve, conhecemos excepções, como no caso das rainhas dos insectos sociais, que vivem numerosos anos.
Mas o mais extremo de todos os casos extremos conhecidos ¾ prosseguiu Íris dando pequenos passos circulares no apertado convés até se acercar do insólito animal ¾ é, sem dúvida, o dos pogonóforos, estes estranhos animais que constituem uma classe especial.
Os pogonóforos, tal como este aqui, têm um corpo muito alongado, provido de intermináveis tentáculos com a ajuda dos quais se alimentam, de resto, de um modo bem particular, visto que não têm intestinos: são os tentáculos que os substituem.
Os pogonóforos encontram-se principalmente nos abismos marinhos, mas na realidade este não foi assim tão fácil de encontrar...
¾ De facto! Não foi nada fácil ¾ expirou Atlan ao lembrar-se das longas horas de mergulho que, ele e Íris, empreenderam até, finalmente, encontrar um pogonóforo...
¾ Bem, mas como ambos sabemos, crê-se que estes seres têm uma vida inacreditável!... Engemann estudou o problema da idade que podem atingir.
Íris pegou no seu bloco de apontamentos e, começando a esboçar um desenho, prosseguiu com as suas reflexões:
¾ O tubo que envolve o animal começa perto da superfície dos sedimentos e pode atingir comprimentos consideráveis. Como no caso deste que é um Zenkewitchiana longissima e tem um tubo de um metro e meio!
Parou um pouco para reflectir. E continuou recapitulando tudo o que tinham apurado acerca dos pogonóforos:
¾ A idade dos sedimentos da extremidade do tubo pode fornecer a idade do animal, visto que estes tubos, muito moles, não podem enterrar-se no lodo e que o comprimento do tubo excede em muito o do animal. O mesmo tubo parece ser apenas ocupado por um único e mesmo indivíduo. Se num tubo, uma das larvas substituísse os pais, descobrir-se-ia provavelmente qualquer lacuna nas zonas de crescimento, o que não acontece. Ora, os sedimentos da extremidade inferior do tubo mostrariam que ele se encontra aí há, pelo menos, 25.000 anos!!...
Pegou na sua calculadora de bolso e prosseguiu:
¾ Se tomarmos o caso extremo da Zenkewitchiana, admitindo uma taxa de sedimentação de 3 cm por 1000 anos e que só metade do tubo está enterrado na lama do fundo, obtemos:
                                      75 x 1000  = 25.000 anos
       3
Mas, repara Atlan, que se reduzirmos a velocidade de sedimentação de 1 mm por 250 anos, como, de resto, admitem diversos oceanógrafos, então, supondo que 1 m de tubo está enterrado, obtemos:
                                      1000 mm  x  250 = 250.000 anos!!!...
                                                1 mm
 
¾ É incrível como algo assim tem passado quase despercebido à humanidade... ¾ comentou Atlan.
¾ Sim, é verdade. Porque repara que os anéis que encontramos no tubo devem corresponder a zonas de crescimento anuais e, mesmo neste caso, verificamos uma idade de, pelo menos 1000 anos, o que faz dos pogonóforos os campeões da longevidade. O que é realmente espantoso e, até aqui, sem exemplo no reino animal.
¾ Sim, sem dúvida que é. Mas ¾ ponderou Atlan cauteloso ¾ alguns cálculos poderão não estar correctos devido à omissão de qualquer factor que desconheçamos; Como sabes, os grandes abismos são ainda um domínio muito misterioso...
¾  Sim, e também há a considerar que,  o frio dos abismos e a quase absoluta constância desses ambientes, poderiam perfeitamente constituir o meio ideal para animais de vida muito longa, já que, como atrás mencionaste, o “bombardeio aleatório” também aí seria muito menor. E como os pogonóforos se alimentam de partículas microscópicas, não podem deixar de ser raros  no  fundo  dos  abismos.    O  que  iria   no  sentido   de  um

crescimento muito lento, geralmente associado a uma grande longevidade.
¾ Sim...  e, no fundo ¾ concluiu Atlan ¾ apesar da notável proeza dos pogonóforos, a verdadeira eternidade só me parece possível através da transmutação. Ou, o que resulta no mesmo, através do desenvolvimento da ‘metaconsciência’ que poderia criar assim um pequeno “núcleo” definidor e gerador da  entidade, aquilo que designo de ‘transconsciência’. Seria esta que conteria a codificação completa para restaurar o indivíduo...
...E possuiria ao seu redor  uma “membrana” impermeável e invulnerável ao espaço-tempo.

Essa eternidade seria como um pequeno coágulo, um quanto, uma descontinuidade no ‘tecido existencial’...

Verdadeiramente livre.

Íris reviu rapidamente toda aquela manhã e exclamou enquanto se despia completamente:
— Sabes, Atlan, eu acho é que somos completamente loucos...
... “Mas completamente!...”
E rindo mergulhou finalmente no oceano.
Atlan riu-se também porque estava precisamente a pensar o mesmo... “loucos, completamente loucos!”, e começou a desembaraçar-se das suas roupas.

“Existirá alguma cura para as nossas doenças?...”, pensaram ambos enquanto se afundavam nas águas tranquilas.

 
O Diário de Atlan – 7
 
A 4ª abordagem
 
Se eu tivesse adoptado outra atitude ao escrever estes apontamentos neste “diário” de abordagens (ou tentativas) de consumar a minha própria  transmutação  física e espiritual possivelmente não incluiria aqui a descrição da 4ª abordagem. Talvez porque tivesse receio de que alguém as lesse e ficasse chocado. Talvez porque nesta abordagem vieram à superfície as deformações escondidas na nossa psique. Aqui, com fenómenos de paranormal, misturam-se fenómenos provocados por perturbações psíquicas e a sua distinção nem sempre é evidente.
Porém, como a atitude que adoptei é de inteira transparência, descrevo-a e faço-o com mais pormenor para permitir uma melhor análise. Penso que só com transparência é possível realizar um estudo sério, profundo e completo.
     
Após a terceira abordagem, outra vez se estendeu um período depressivo e de pouca energia. Tudo voltava à normalidade ou, mais propriamente, a uma realidade ainda inferior à realidade comum.
A frustração de ter caído do estado superior de ser e já não possuir as minhas capacidades paranormais nem a poderosa energia interior que estava aliada a uma grande lucidez, inteligência e sensação de bem-estar puxava-me, cada vez mais, para baixo.
Ainda tentei resistir a esta tendência dedicando-me a actividades profissionais. Mas os meus esforços não eram bem sucedidos e os resultados eram desencorajadores. Por fim, a firma da qual eu era colaborador e onde trabalhava em informática, resolveu mudar de ramo. Propuseram-me sociedade no novo tipo de negócio a que se iriam dedicar porém, quando me apercebi que a nova actividade não estava de acordo com os meus princípios éticos, resolvi rejeitar a proposta. A partir daí criaram-me diversos problemas e  acabei  por me retirar sem nada ter ganho depois de tanto trabalho e tempo perdido.
Passou-se um longo período de quase prostração e desânimo.
 
Finalmente, comecei a tentar fazer algo para mudar a minha situação geral. Iniciei uma pequena actividade profissional que progredia muito lentamente. Apesar da sua dimensão e ganhos reduzidos foi importante para mim porque criou-me esperanças numa situação melhor e, ao manter-me entretido, começou a arrancar-me ao marasmo em que me encontrava. O trabalho livre, criativo e sossegado era uma coisa saudável e a pouco e pouco comecei a sentir que voltava a viver.
Neste período, comprei um pequeno livro que fortaleceu a minha ténue esperança e a minha, ainda muito débil, autoconfiança. Chamava-se “As leis espirituais do sucesso” de Deepak Chopra. Um capítulo que chamou a minha particular atenção referia-se a que devemos estar atentos e prontos a identificar e aproveitar uma oportunidade para atingir os nossos fins porque essa oportunidade surgiria, mais cedo ou mais tarde. Por algum motivo acreditei que assim fosse e tornei-me vigilante e sensível a tudo o que pudesse representar uma oportunidade. Incrivelmente essa oportunidade surgiu. Não me bateu à porta mas entrou pela minha caixa de correio. O teor da carta que recebi, normalmente me teria passado despercebido e tê-la-ia rejeitado. Porém, como estava atento vi nela uma oportunidade ou transformei-a em tal. O resultado traduziu-se em ganhar uma quantia considerável de dinheiro que investi na criação de um escritório dedicado à prestação de serviços na Internet. Correspondia a uma ideia que me surgira há algum tempo atrás mas que não pudera pôr em prática por falta de capital.

Tudo parecia estar a correr bem; pelo menos no plano profissional. “O resto se seguiria”, pensava eu.
 
 
De facto, há muito que sentia a falta de amor na minha vida. A ausência de alguém por quem sentisse uma forte ligação já se estendia por longo tempo. Acredito que toda essa grande carência no plano afectivo tenha contribuído para um desequilíbrio interno cada vez maior. Para além de que, esta abordagem foi fortemente afectada pela perda de um companheiro inseparável de há vários anos – Prince, um lobo da Sibéria. Talvez por isso, este período foi caracterizado por grandes distúrbios psicológicos.
Para permitir uma análise mais profunda relatarei esta abordagem com mais pormenor.
 
 
Outra das razões para estas anomalias psíquicas poderá estar relacionada com a limpeza kundalínica, isto é, em estados de alta energia, todas as pequenas deformações e vicissitudes latentes do nosso ego tendem a vir à superfície, precisamente para poderem ser identificadas e, posteriormente, limpas.

Kundalini é uma palavra sânscrita (antiga língua da Índia) que significa energia espiral. Esta é uma força evolutiva individual cujo reservatório se situa na base da coluna onde jaz enrolada. Através do despertar desta energia os iogues tântricos despertam os poderes de divindade adormecidos ou latentes dentro de si, personificados pela deusa adormecida Kundalini.
A Kundalini é por vezes designada por shakti – centelha divina de força vital. Daí, a origem do Shakti Ioga, o ioga do controlo da energia. A sua libertação é, normalmente, pela coluna acima até ao alto da cabeça e para fora, através do que se designa por chakra coronário (ou da coroa). Chakra também é uma palavra sânscrita que significa “roda” e se refere aos diversos vórtices ou redemoinhos de energia existentes no nosso corpo etérico.
Segundo Genevieve Paulson, especialista nesta matéria, um indivíduo que tenha desenvolvido a sua kundalini de uma forma integral poderá possuir dotes paranormais excepcionais, uma grande consciência espiritual e ser considerado um génio ou um quase-deus. Por outro lado, pessoas cuja Kundalini se manifestava sem o seu conhecimento e que relatavam os seus sintomas aos outros eram, geralmente, consideradas malucas. Se na sua subida, o fluxo kundalínico for impedido por padrões energéticos impróprios, por negatividade, ou por um corpo não preparado ou limpo, poderá abater-se alguns dias mais tarde, reiniciando, lenta e dolorosamente, a sua ascensão ao longo do corpo, limpando-o e purificando-o à medida que sobe. Este processo pode provocar perturbações físicas, emocionais ou mentais. Os bloqueios de energia são causados por atitudes ou sentimentos recalcados ou por antigas cicatrizes emocionais ou mentais.

Havia vários nódulos na minha personalidade que nunca haviam sido dissolvidos porque eram quase imperceptíveis, principalmente para mim que estava acostumado a viver há muito com eles. Refiro-me a pequenos medos ou fobias, manias, complexos e, sobretudo, a certos conceitos míticos que criamos, por vezes, para darmos uma explicação, a nós próprios, para a ocorrência de determinados acontecimentos ou fenómenos que nos impressionaram. Um exemplo simples: quando muitas coisas seguidas correm mal pode, em muitos de nós, surgir a ideia de que “parece que está tudo contra nós” ou, ainda pior, de que “existe um complôt contra nós”. Numa situação agravada (como iremos ver) estas impressões subjacentes podem transformar-se em mania de perseguição ou paranóia.  Outro exemplo: quando observamos, numa pessoa, determinados comportamentos que não compreendemos e reprovamos, podemos sofrer a tendência de a classificar como uma pessoa má, como se pertencesse a uma outra espécie diferente da nossa. Estes conceitos míticos não têm qualquer base lógica ou fundamentada e, no entanto, jazem fortemente enraizados debaixo da superfície da nossa mente e são preponderantes no mecanismo de criação e escolha dos nossos sistemas de crenças e convicções. São mais impressões do que conceitos porque têm uma forte carga emocional. Baseiam-se muitas vezes apenas no que se ouviu dizer, na mitologia ou em fragmentos da nossa cultura maniqueísta gravemente afectada pelo dualismo do bem e do mal (penso que também possam estar relacionadas com o funcionamento de estratos cerebrais mais primitivos, muito ligados ao instinto de sobrevivência, pautado pelo “aproxima-te ou afasta-te de algo, porque isso é bom ou mau para a tua preservação”).
Essas  pequenas deformações psíquicas que todos temos nunca se tinham evidenciado muito em mim e, desse modo, porque não pareciam prejudicar-me grandemente, eram um fardo que eu transportava ao longo dos anos. Mas, como mais tarde viria a constatar, essas pequenas anomalias psíquicas tornar-se-iam altamente prejudiciais em momentos de crise.
 
 
Após a entrada em funcionamento do meu escritório a minha passagem a um nível de energia superior ocorreu de modo quase imperceptível. Possivelmente foi devido ao entusiasmo e à alegria que começava a sentir face às perspectivas animadoras da minha nova actividade. Assim, quando me apercebi, constatei que já tinha entrado num estado correspondente ao limiar, ou aos primeiros patamares do percurso ascendente: maior energia, maior lucidez e inteligência, sensação de poder e de bem-estar e pouca necessidade de sono e de descanso.
      Veio ainda potenciar este estado, aquilo que me pareceu ser o prenúncio de uma ligação afectiva.
      
 
       Yufku jantava tranquilamente no pequeno restaurante que eu recentemente frequentava. Foi a primeira vez que vi a jovem japonesa. Era atraente embora não fosse especialmente bonita. Senti uma grande curiosidade por conhecê-la. A fisionomia oriental sempre tinha exercido em mim um certo fascínio.
A minha refeição tinha terminado. Após alguns momentos de hesitação e depois de pensar que provavelmente nunca mais a veria levantei-me e perguntei-lhe se lhe podia fazer um pouco de companhia enquanto terminava o jantar. Ela acedeu com simpatia. Conversamos muito. No fim ela disse que no dia seguinte partiria para Coimbra onde ficaria alguns dias.
Dois dias depois telefonou-me. Como no dia seguinte começava o fim de semana resolvi ir passá-lo a Coimbra. Coimbra ficava a cerca de 120Km da cidade do Porto na qual eu vivia. Estava um lindo dia e almoçamos prolongadamente sob o sol de Março numa esplanada na praça central da cidade. Regressara a minha adoração pelo sol e eu sentia-me a absorver a sua energia durante as horas que passaram enquanto conversávamos e comíamos. Caiu-me como um bálsamo.
 
Entretanto, também me apercebera de algo que por um lado me agradava e por outro me deixava interrogativo e com uma sensação de estranheza: a enorme profusão de jovens de outras nacionalidades na cidade. Pelo que eu sabia isso não era habitual; ainda estivera em Coimbra poucos anos antes e nunca tinha notado esse cosmopolitismo.
 
De qualquer forma senti-me muito feliz durante essa tarde soalheira compartilhada com Yufku.
 
Já era o fim da tarde quando me dirigi ao hotel para dormir apenas duas horas. Na noite anterior não dormira e sentia-me cansado.
 
Depois que Yufku e uma sua amiga me acordaram, levantei-me sentindo que o meu sono fora insuficiente e que não estava completamente recuperado. Sentia necessidade de me recompor para estar fresco e com bom aspecto para a ceia que se iria seguir. Intuitivamente, enchi a banheira de água muito quente e deixei-me afundar encolhido numa posição fetal. Esqueci-me de respirar. Foi como se mergulhasse numa espécie de inconsciência enquanto a água e o calor regeneravam o meu corpo. Não sei estimar quanto tempo decorreu. A seguir, emergi e tomei um duche de água fria. Quando vi o meu reflexo no espelho fiquei admirado: estava rejuvenescido e com um aspecto radiante. Interiormente também me sentia cheio de frescura e vivacidade. Saltitei ao encontro das minhas amigas. Tivemos uma noite encantadora ceando e ouvindo lindas músicas de fado. O serão terminou num pequeno bar onde falei, a Yufku e a um jovem professor da universidade de Coimbra que conhecêramos na casa de fados, sobre alguns dos projectos, no domínio da tecnologia electrónica e da informática, que estava a desenvolver no meu escritório.
 
No dia seguinte, iriam começar a emergir, do seu estado latente, as minhas pequenas fobias ainda não resolvidas e que  vinha carregando há anos.
 
Depois do pequeno almoço decidi dar um passeio, a pé, pelo centro da cidade.
Sentado junto à fonte, na praça central, Eric soltava acordes maravilhosos do seu violino. Eu e Yufku tínhamos conhecido este músico escocês no dia anterior, ali naquela mesma praça.
Ouvi-o durante um longo tempo. Quando terminou, Eric levantou-se e veio cumprimentar-me. Após alguns momentos de conversa eu reparei que a bateria do meu telemóvel estava descarregada e que esquecera o carregador no escritório, no Porto. Decidi ir lá buscá-lo e convidei Eric para me fazer companhia e conhecer o escritório da minha pequena firma de que eu tanto me orgulhava.
 
Iniciamos a viagem pela auto-estrada que liga estas duas cidades. Eric pediu-me para conduzir com velocidade moderada porque as estradas estavam perigosas.  Curiosamente, recordei-me de duas ocorrências estranhas quando fizera a viagem para Coimbra: era noite e enquanto conduzia tinha passado por mim uma fila de automóveis que, aparentemente, viajavam em conjunto. Algum tempo depois, mais à frente, aproximei-me de um novo conjunto de carros que talvez fosse o mesmo. Como o primeiro pareceu-me que se moviam em grupo. Eu seguia alguns metros atrás e tive a sensação de presenciar um acontecimento estranho. Quando o grupo de automóveis se acercou de um condutor solitário, alguns ultrapassaram-no, outros mantiveram-se a par e os restantes deixaram-se seguir atrás. Mas todos se aproximaram perigosamente desse condutor. Mantiveram-se nesse “jogo” durante algum tempo, cercando o automóvel. A dada altura pareceu-me que esse automóvel se movia de forma algo descontrolada e temi o seu despiste. Aproximei-me e fiz sinais de luzes. O suposto grupo de automóveis pareceu dispersar-se e, finalmente, ultrapassei-os julgando que tudo fora imaginação minha e esquecendo o incidente.
 
       Mal tinha terminado estas recordações e deparámos com um acidente na auto-estrada. Tudo indicava que acabara de ocorrer. Parecia ter sido um despiste pois via-se apenas um automóvel voltado ao contrário na borda da estrada. Sobre a relva, junto ao carro, estavam dois corpos. Mais à frente vi que dois automóveis encostavam e paravam. Também fiz o mesmo e dirigimo-nos, a correr, para o local do acidente. Um dos indivíduos estendidos sobre a relva estava morto e o outro parecia estar a morrer. Tinha espasmos muito débeis, parte do crânio estava ferido e a cara estava ensanguentada. Aparentemente, já tinha perdido a consciência. Havia um terceiro homem entalado dentro do carro que me pareceu não ter ferimentos tão graves. Assim, voltei a acercar-me daquele que me pareceu precisar de um auxílio mais imediato.
Talvez por, nessa altura, me encontrar num estado de ser um pouco superior ao estado comum e um dos atributos desses estados ser a maior tendência para amar, não tive hesitações. Ignorei o sangue e outras secreções que escorriam do rosto do moribundo e fiz-lhe respiração boca a boca. Ele não reagia, tinha a faringe bloqueada impedindo-lhe a entrada de ar. Corri ao carro e vasculhei a mala à procura de algo que me pudesse servir de tubo. Finalmente encontrei um spray tapa furos e arranquei-lhe o tubo de plástico. Corri de novo para o ferido e entubei-o, desbloqueando-lhe a faringe. O ar já circulava, porém após várias insistências ele não dava sinais de recuperar a respiração e o seu coração parecia ter parado. Uma jovem médica aproximara-se e eu pedi-lhe que lhe continuasse a fazer respiração boca a boca enquanto eu lhe massajava o coração. Com uma expressão que traduzia alguma repugnância, o que agora compreendo devido ao estado do rosto do moribundo, respondeu-me que não se sentia capaz. De qualquer modo, fez-lhe massagens cardíacas enquanto eu lhe continuava a fazer respiração artificial. Os nossos esforços resultaram infrutíferos. Só haveria uma coisa a fazer: estimular o coração com choques eléctricos, usando um desfibrilizador, mas a ambulância nunca mais chegava. Quando finalmente chegou não trazia equipamento de reanimação cardíaca. Afastei-me frustrado e com uma triste sensação de impotência por não ter podido salvar aquela vida.
Prosseguimos viagem. Paramos na próxima estação de serviço para irmos aos lavabos e tomar um café. Enquanto o tomava, pensei como era estranho que um automóvel se tivesse despistado numa auto-estrada, em plena recta e tive uma lembrança fugaz do episódio do dia anterior, quando viajara para Coimbra.
 
Chegamos ao Porto ao fim da tarde. Quando abri a porta do edifício onde ficava o meu escritório saiu de lá um indivíduo que eu conhecia por trabalhar no café ao lado. Pareceu-me bêbedo e tinha um olho pisado. Não compreendi o que ele pudesse estar a fazer dentro do prédio.
Ao abrir a porta do escritório senti um forte odor a fumo de cigarro como se tivesse acabado de lá estar alguém. Estranhei este facto e inspeccionei tudo à procura de algum indício que confirmasse a minha suspeita. Não me pareceu detectar nada de anormal mas fiquei na dúvida – “será que alguém teria lá estado?” – como não dei pela falta de nada, a única coisa que algum eventual intruso poderia ter feito, seria ter-se inteirado  das actividades e projectos da firma. Passou-me pela cabeça que, como ela se dedicava às novas tecnologias, tudo era possível, mesmo a espionagem de alguma empresa concorrente.
-- Maybe it’s paranoia my friend... however some people say that paranoia it’s the most accurate state of mind... very useful to survive in a crisis situation. – disse Eric.
Talvez ele tivesse razão, talvez fosse mesmo paranóia minha.
Por fim, acabei por pensar que tudo isso não passava da minha imaginação e fiz por esquecer as suspeitas.
 
Pouco passava das 10 da noite quando regressamos a Coimbra. Dirigi-me à casa de fados onde tinha combinado encontrar-me com Yufku. Junto à entrada estava um cão com um aspecto horrível que nos rosnou. Subitamente, Prince, o meu lobo da Sibéria, avançou para ele e desataram os dois a correr até que desapareceram ao dobrar de uma esquina. Tentei encontrá-lo em vão. Resolvi entrar, preocupado, mas esperando que ele regressasse. Ao entrar senti o peso de uma estranha atmosfera. Foi uma sensação subliminar mas, de uma forma instintiva, pareceu-me que algo ameaçador pairava no ar. Yufku estava sentada numa mesa ao fundo com outras pessoas. Não sei se foi por ver a sua mesa cheia ou se por me sentir pouco à vontade que resolvi sentar-me com Eric numa mesa à entrada.
-- Olha, chegaram os Vikings! – ouvi alguém dizer em tom zombeteiro.
A voz viera de um ponto intermédio entre a nossa mesa e a mesa do fundo onde estava Yufku. Um indivíduo  com aspecto de “yupie”, de cabelo curto, muito bem cortado, e envergando um fato dispendioso e de qualidade, aparentando cerca de vinte e sete ou vinte e oito anos, conversava de pé para outro indivíduo mais novo que estava sentado à mesa. Pelo tom de voz, fora ele que produzira a exclamação. Falava alto e descaradamente como se fosse o dono de tudo. E falava um pouco para todos. Existia uma certa cumplicidade entre ele e o pessoal da casa de fados, inclusive o gerente. Como se o temessem, deixavam-no falar.
– O  Atlan vai apanhar uma lição que não vai sair de casa durante um mês!
E ria-se.
– É do “Puorto”!... não é que eu tenha nada contra as pessoas do Porto... (só que não sei se gosto delas)... até é capaz de haver muito boa gente no Porto... Mas ele vai aprender a não se meter onde não é chamado!

 
ALEATOR

– Qual será a fonte da Aleatoriedade?


Reconstruir o mundo a partir de um grão de areia...
 
“Existe ordem no caos: o aleatório possui uma forma geométrica subjacente.”    Crutchfield, Farmer, Norman Packard e Robert S. Shaw

“Como podemos nós resolver o giro paradoxal de que o macrocosmos – o mundo de todos os dias – determina a realidade microscópica que, por sua vez, o constitui? Como é que o observador se tem de comportar para projectar o nebuloso microcosmos para um estado de realidade concreta?”               Paul Davies


Aleator saiu apressadamente do edifício e esbarrou em Íris. Ali, mesmo à porta do Instituto de Estudos Quânticos.
— Íris! Que feliz coincidência. Ainda há pouco pensei em ti!
— “Coincidência”?... que giro ouvir essa palavra da tua boca! Tu, um estudioso do aleatório e das coincidências...
— É mesmo, Íris!... apanhaste-me em flagrante!
— Não te preocupes... é claro que estamos todos ainda muito imbuídos da linguagem e da filosofia do velho mundo...
— Sim, e ‘coincidência’ sempre foi uma palavra tão usada para definir acontecimentos... como era? ah, sim – “frutos de mero acaso”! — exclamou Aleator em tom reflexivo.
— E pelos vistos não há mesmo coincidências, não é Aleator? — interrogou Íris fitando-o com um olhar maroto.
— Sim, na verdade, cada vez me convenço mais de que está tudo interligado.
— E tens avançado muito nas tuas investigações?
 
— Sim, bastante. Ainda hoje combinei passar a tarde com Kérík para estudar a sua forma de pintar o aleatório...  Mas, já que estás aqui, porque não vamos tomar um chá? Conheço um local aqui perto que tem uns bolinhos de canela!... — disse Aleator esfregando as mãos de prazer ao imaginar a iguaria.
— Excelente ideia! Adoro bolos de canela!
 
 
A pequenina e acolhedora casa de chá ficava apenas a dois quarteirões, em frente ao frondoso jardim do lago verde. Tinha um nome pitoresco. Chamava-se “La Palissade”.
“Oh, ainda por cima com música de ‘Oskorri’ a tocar!...”, pensava Íris enquanto entrava naquele ambiente forrado a cores pastéis, “divino! simplesmente inacreditável...”
 
— E então, Íris, conta-me: como vai o teu “Princípio da Certeza”?
— Ah, o princípio da certeza... cada vez com mais possibilidades, mas cada vez também com uma maior quantidade de hipóteses a testar... mas vai bem. Sabes, Aleator, vou fazer um pequeno retiro para a minha cabana da floresta. Inspira-me trabalhar lá!... é lá que irei prosseguir a minha pesquisa.
— Sentes uma conexão com a natureza cada vez maior, não é?
 
— Sim.  Principalmente  com  algo  que  está  subjacente  à própria natureza... mas que é anterior a ela. E que emerge através dela.
— O quê, Íris? — perguntou Aleator com uma súbita curiosidade.
— Não sei bem... sinto que é algo anterior a tudo. Até ao próprio Deus e aos deuses... Sinto que é algo que tem uma natureza selvagem e indomada. Primordial e antiquíssima. Mas que ainda existe!...
— Alguma espécie de consciência?
— Não será bem isso. Talvez antes uma espécie de “consciência amorfa, ou uma “consciência inconsciente”. Algo que tem a ver com o Caos. Um Caos primordial, subjacente a todas as coisas...
— Caos?
— Sim...  Bem, já vi que isso te “toca”!...
— Claro que sim!... Poderá ser isso a fonte da aleatoriedade? Poderá ser isso que está na base da dinâmica aleatória presente no “ruído” do tecido da existência? Poderá ser essa a fonte de todos os fenómenos aleatórios?... que se processam por toda a parte e a todo o momento no universo? — o interesse de Aleator tinha sido subitamente despoletado. Há vários anos que a sua maior ambição era descobrir o segredo que estava por detrás da aparente casualidade imanente a tudo. E vinha dedicando as suas pesquisas ao desvendar do “Como” e do “Porquê” do factor aleatório da existência. Para ele, o âmago de todas as coisas residia aí.
— Talvez... talvez se relacione com o aleatório.
               Talvez isso seja a própria estrutura de um tipo de consciência bem diferente. Bem diferente daquilo que estamos habituados a considerar como consciência.
— ...talvez uma consciência constituída por elementos aleatórios — completou Aleator reflectindo — uma super estrutura consciente, constituída por estruturas inconscientes, aleatórias... O que é, de resto, concordante com certas inferências derivadas da Teoria do Caos: embora o Caos seja geralmente encarado em termos das limitações que implica – tais como a falta de previsibilidade de um sistema – a natureza, todavia, deve empregar o caos construtivamente...
 ...Através da amplificação de pequenas flutuações, a natureza pode proporcionar aos sistemas naturais o acesso à inovação.
Uma presa escapando ao ataque de um predador poderá usar um controle de voo aleatório como elemento de surpresa para evitar a captura.
Evolução biológica exige variação genética; o caos providencia um meio de estruturar as mudanças aleatórias, fornecendo com isso a possibilidade de colocar a variabilidade sob controle evolucionário.
Mesmo o processo de progressão intelectual se baseia na injecção de novas ideias , e em novas formas de conectar ideias antigas. Os indivíduos que possuem grande criatividade inata devem possuir  um processo caótico subjacente que amplifica, selectivamente, pequenas flutuações aleatórias e as molda em macroscópicos e coerentes esquemas mentais que são experimentados como pensamentos.
Em certos casos, estes pensamentos podem ser decisões, ou aquilo que é percebido como o exercício da vontade, do querer, do arbítrio.
Através deste prisma, é o Caos que fornece um mecanismo que permite o livre arbítrio dentro de um mundo governado por leis determinísticas...
...Mas, Íris, como obtiveste a ideia de que  esse “algo”, que sentes ser subjacente e anterior à própria natureza, possa tratar-se de um tipo de consciência, ainda que muito diferente da nossa?
— Não sei bem. Sinto-o intuitivamente. Principalmente depois de algumas experiências pessoais que me fizeram entrar em conexão com o âmago da natureza.
— És fortemente intuitiva!... e sentiste mais alguma coisa?
— Sim, senti que é como uma espécie de força. Algo com uma tonalidade acastanhada indefinida. Senti que é uma “consciência” pouco interventiva. Tem uma natureza mais passiva que activa... e, contudo, age. Possui uma dinâmica: actua, emerge.  E, apesar de me parecer tratar-se de uma consciência amorfa, sinto que nada lhe “escapa”, que nada lhe é incompreensível. Mesmo consciências como a nossa.
— Fala-me dessas experiências.
— Bem, vou referir-te apenas uma:
Ocorreu numa fase em que eu estava num estado de alta energia pessoal. Apesar disso, naquele momento estava muito fatigada. E o sol já se tinha posto...
 
Como me encontrava na orla de uma pequena floresta, deixei-me conduzir por uma subtil intuição para o seu interior. O que me movia eram duas necessidades instintivas: a de me restaurar fisicamente e a de me fundir com a própria Terra. Eram não só uma necessidade, mas um desejo profundo, muito profundo. Quando me encontrei em frente a uma zona de ervas altas e densas, a minha empatia com a “alma” da terra era já muito grande e senti que, naquele momento único, eu seria capaz de me fundir, sem medos, com aquela essência obscura e misteriosa da qual toda a existência tinha surgido.
Deixei-me cair...
E afundei, de costas, na profundidade das longas ervas que pareceram engolir-me na escuridão. Uma poalha de chuva muito fina pousava suavemente acariciando-me a face. Vislumbrei ainda algumas estrelas no céu distante que desapareceram rapidamente nas trevas que me envolveram...
E mergulhei na inconsciência total. Tão total quanto tranquila.
O vazio de tempo decorrido seria impossível de determinar.
Era um tempo sem Tempo.
...
Regressei à realidade de uma forma instantânea, imediata: senti, junto a cada um dos meus ouvidos, o sibilar de uma serpente — e levantei-me de um salto automático e assustado.
Em dois ou três passos rápidos afastei-me do local.
Olhei para lá, mas tudo parecia estar envolto na mesma tranquilidade.
Era noite profunda.
Sentia-me estranhamente revigorada e detentora de algo diferente dentro de mim. Algo muito poderoso, mas incognoscível.
Não consigo saber o que se passou nesse “entretempo”. Mas sentia-o. Sentia que mergulhara no âmago de algo inimaginável. Algo anterior ao próprio tempo. Anterior a tudo. Mas que tudo permeava... Estava, ou continuava a estar, imperceptivelmente em todas as coisas. Tão indefinida e suavemente como uma sombra invisível.
E senti a sua natureza amorfa, indomada, selvagem.
Não era uma natureza “má”. Era apenas selvagem, agreste... ...eu é que me assustei com aquele sibilar. Talvez porque senti que a minha natureza era mais frágil do que aquele “gear”, do que aquele “movimento” lento, imperceptível, mas poderoso e indomado...
— “Gear”?
— Foi a palavra que me surgiu para descrever, de algum modo, a sensação que obtive daquele tipo de “vida”... “gear”, como se fosse o movimento lento, mas poderoso e imparável da lava vulcânica... Assim como me surgiram as palavras “Geo”, “Geos” e “Geus”, para designar aquela “natureza”. Tinha realmente algo a ver com ‘caos’, mas com um caos de alguma forma “consciente”... é muito difícil tentar definir o indefinível! — concluiu Íris.
— Sabes... isso poderá estar na base dos fractais...
               E poderá ser a fonte daquilo a que chamo a Linguagem Aleatória da Existência.
               Talvez seja o aleatório, esse factor de imprevisibilidade, que possibilita a vida ® ao conferir-lhe uma dinâmica de liberdade. Sem a qual, de resto, creio que tudo seria determinista. E portanto, não existiria vida, pelo menos tal como a entendemos... Talvez existissem apenas “máquinas” ou “peças de relógio”.

Mas vamos recapitular um pouco sobre as origens, na física, do comportamento Aleatório:
– Foi o movimento Browniano que nos forneceu um exemplo clássico da aleatoriedade. Uma porção de poeira observada através de um microscópio é vista como movendo-se num contínuo e errático sacudir. Isto é causado pelo bombardeamento da partícula de pó pelas moléculas de água que a rodeiam e que estão animada de movimento térmico. Devido às moléculas de água não serem visíveis e existirem em grande número, o movimento detalhado da partícula de pó é inteiramente imprevisível. Aqui, a teia de influências causais entre as sub-unidades pode surgir tão emaranhada que o padrão de comportamento resultante se torna perfeitamente aleatório.
 
Pensava-se que somente uma teia constituída por uma enorme quantidade de sub-unidades ou elementos causais poderia originar comportamentos deste tipo.
Porém, este ponto de vista foi alterado recentemente: descobriu-se que sistemas simples e deterministas, com apenas alguns elementos, podem gerar comportamento aleatório!

A aleatoriedade é imanente e fundamental – e não é a acumulação de uma maior quantidade de informação que a faz desaparecer. A aleatoriedade gerada por esta forma – como por exemplo através dos atractores e fractais – começou a ser designada por caos.  Um aparente paradoxo é que este caos é determinista, gerado por regras fixas que não envolvem em si quaisquer elementos de acaso.  Em princípio o futuro deveria ser completamente determinado pelo passado, mas na prática acontece que pequenas incertezas são amplificadas, e assim, não obstante o comportamento ser previsível a curto prazo, ele torna-se imprevisível a longo prazo.
Mas existe alguma ordem neste Caos:
            Subjacente ao comportamento caótico surgem elegantes formas geométricas que criam aleatoriedade do mesmo modo que o faz um “croupier” ao baralhar um jogo de cartas ou um pasteleiro ao misturar a massa dos bolos.
A descoberta deste caos originou um novo paradigma na criação de modelos científicos. Por um lado, implica novos e fundamentais limites na aptidão de fazer previsões. Por outro lado, o determinismo inerente ao caos implica que muitos dos fenómenos aleatórios são mais previsíveis do que já alguma vez se pensou. Muita da Informação aparentemente aleatória colhida no passado – e posta de lado por ser considerada demasiado complicada – pode ser agora explicada em termos de leis simples. O caos permitiu encontrar ordem em sistemas tão diversos como a atmosfera e a meteorologia, o gotejar de uma torneira, e o coração.

Deixa-me mostrar-te a análise que fiz a um trabalho realizado por um grupo de investigadores constituído por Crutchfield, Farmer, Packard e Shaw e que está relacionado com as minhas pesquisas, apesar de não coincidir completamente com o objecto da minha procura...

Mas como o trabalho que te vou mostrar se baseia na Teoria do Caos e no seu desenvolvimento fundamental — os atractores, é melhor fazermos aqui um pequena revisão para melhor compreendermos o alcance desse trabalho e, principalmente, para atingirmos o significado dos resultados do meu próprio trabalho de pesquisa que te mostrarei a seguir.

A Teoria do Caos faz parte de um recentíssimo ramo da ciência que se chama Ciência da Complexidade. Ou seja, o estudo da complexidade constituiu-se, finalmente, como uma ciência em si mesma.
É claro que a teoria do caos está também relacionada com a área da matemática que estuda as probabilidades, as variáveis aleatórias e os processos estocásticos.

 
Existem duas espécies de atractores: os previsíveis e os caóticos (ou estranhos). Os atractores previsíveis são formas geométricas que caracterizam um comportamento a longo prazo num “espaço de estados”. Vulgarmente falando, um atractor é aquilo para que tende o comportamento de um sistema, ou para o qual é atraído.
O seu caso mais simples é representado como um ponto fixo(·) que poderá corresponder, por exemplo, a um pêndulo sujeito à fricção; o pêndulo tende sempre para a mesma posição de repouso (um ponto), independentemente de como, onde e quando começou a oscilar.
Os atractores da esquerda representam dois outros sistemas previsíveis.
O 1º é um ciclo-limitado (por ex. as oscilações de um pêndulo de relógio).
O 2º é um atractor tórus (um exemplo de oscilações compostas, ou comportamento quase-periódico)Literatura Transmutalista.


Mas analisemos agora o que é um atractor caótico, já que é essa a base do trabalho que iremos ver a seguir e que se fundamenta nos princípios daquele que é o caso mais simples dos atractores caóticos — o atractor de Rössler
Um atractor caótico tem uma estrutura muito mais complicada do que um atractor previsível (tal como o ponto, o ciclo limitado ou o tórus). Observado em grande escala, um atractor caótico não é uma superfície lisa, mas sim uma superfície repleta de dobras. A imagem da direita representa os passos necessários para produzir um atractor caótico para o caso mais simples: o atractor de Rössler (à esquerda). Baseia-se em dois tipos de operações: “esticar” e “amassar” (de forma semelhante ao esticar e amassar da massa do pão; poderemos imaginar as linhas que se formariam se nela misturássemos uma porção de pigmento azul). 1) Inicialmente, as trajectórias contíguas dentro do próprio objecto deverão “esticar-se”, ou divergir exponencialmente; nesta operação a distância entre as trajectórias vizinhas duplica aproximadamente. 2) Para manter o objecto compacto, ele deverá “dobrar-se” sobre si mesmo, ou “amassar-se”: a superfície encurva-se sobre si própria até que as duas pontas se encontrem. O atractor de Rössler tem vindo a ser encontrado em muitos sistemas, desde o fluxo de fluidos a reacções químicas, ilustrando o axioma de Einstein de que a natureza prefere as formas simples…

  

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